29 de outubro de 2018

Capítulo 18

Ninguém em Anielle ou na fortaleza de pedra cinzenta que se erguia acima da fronteira sul gritou alarmado para o ruk que descia do céu e pousava nas ameias.
As sentinelas que estavam de vigia tinham apenas sacado as armas, uma correndo para o interior escuro, enquanto as outras apontavam-nas para Chaol e Yrene, que deslizavam de cima da poderosa ave.
O vento frio no mar aberto não era nada comparado à parede de vento que vinha das montanhas contra a qual a cidade fora construída, ou o frio arrepiante do extenso Lago Prateado que se curvava ao redor, tão plano que parecia um poderoso espelho esticado sob o céu cinza.
Yrene sabia que a planta de Anielle era tão familiar para Chaol quanto seu próprio corpo – e sabia, pelas lembranças que ela tinha visto em sua alma e pelo que ele lhe contara naqueles meses, que as telhas cinzentas dos telhados haviam sido cortadas de ardósia das pedreiras ao sul, a madeira das casas, tiradas da floresta de Carvalhal que espreitava além da planície que beirava o lado sul do lago. Um pequeno grupo de picos se projetava como um braço do corpo serpenteante dos Caninos, cercando a cidade entre eles e o Lago Prateado – e era em suas encostas áridas que a fortaleza fora construída.
Nível após nível, a Fortaleza Westfall subia da planície para os trechos mais altos da montanha atrás dela, o portão mais baixo se abrindo para a extensão plana de neve, enquanto outros níveis fluíam para a cidade à sua esquerda. Ela foi construída como uma fortaleza, os inúmeros níveis, ameias e portões todos projetados para sobreviver a um ataque inimigo. As pedras cinzentas mostravam as cicatrizes de quantos haviam testemunhado e sobrevivido, nenhuma mais do que a grossa parede que cercava a fortaleza.
Intimidante, imponente, implacável – Chaol dissera que a fortaleza não fora construída por beleza ou prazer. De fato, não havia bandeiras coloridas balançando ao vento. Nenhum perfume ou especiarias derivavam nele também. Apenas frio, umidade espessa.
Das torres superiores incrustadas de líquen, Yrene sabia que era possível monitorar qualquer movimento no lago ou na planície, na cidade ou na floresta, mesmo ao longo das encostas dos Caninos.
Quantas horas o marido havia gasto nas passarelas da torre, olhando para Forte da Fenda, desejando estar em outro lugar que não aquele lugar frio e escuro?
Chaol permaneceu perto de Yrene, o queixo elevado, enquanto anunciava aos guardas que apontavam as espadas para eles que ele era lorde Chaol Westfall e desejava ver seu pai. Imediatamente.
Ela nunca o ouvira usar aquela voz. Um tipo diferente de autoridade. A voz de um lorde.
Um lorde – e ela era uma lady, supôs. Mesmo que o voo a tivesse forçado a abandonar seus vestidos usuais em favor de couros rukhin, mesmo que ela tivesse certeza de que seu cabelo trançado tivesse sido chicoteado em uma dúzia de direções diferentes e que levaria horas e um banho para desembaraçar.
Eles demoraram-se nas ameias em silêncio, e a mão enluvada de Chaol deslizou sobre a dela, o vento agitando o pelo que cobria o colarinho de seu pesado manto. Seu rosto não revelava nada além de firme determinação, mas a mão que ele apertava ao redor da dela... Ela sabia o que significava essa volta ao lar significava.
Nunca esqueceria a memória que tinha testemunhado, do pai que o derrubara nos degraus de pedra alguns andares abaixo, concedendo a Chaol a cicatriz escondida logo após a linha dos cabelos. Uma criança. Ele atirara uma criança por aquelas escadas e o obrigara a ir a pé até Forte da Fenda.
Ela duvidava que sua segunda impressão do sogro fosse melhor.
Certamente não quando um homem de rosto magro vestido numa túnica cinza apareceu e disse:
— Venham por aqui.
Nenhum título, nenhum honorífico. Nenhuma boas-vindas.
Yrene apertou ainda mais a mão de Chaol. Eles vieram para alertar o povo desta cidade – não o bastardo que havia deixado cicatrizes brutais na alma de seu marido. Aquelas pessoas mereciam o aviso, a proteção.
Yrene lembrou-se desse fato quando entraram no interior sombrio da fortaleza. A passagem alta e estreita não era muito melhor do que o exterior. Janelas esguias colocadas no alto das paredes permitiam a entrada de pouca luz, e os antigos braseiros lançavam sombras trêmulas nas pedras. Tapeçarias surradas pendiam intermitentemente, e nenhum som – nem música, nem risos, nem conversas – os saudava.
Esta casa antiga e fria tinha sido o lar dele? Comparado com o palácio do khagan, era um casebre, nem adequado para que os ruks se empoleirassem.
— Meu pai — murmurou Chaol para que a escolta não ouvisse, sem dúvida lendo o desalento do rosto de Yrene — não acredita em esvaziar seus cofres em melhorias. Se não desmoronou, então não está quebrado.
Yrene tentou sorrir para a tentativa de humor, tentou fazê-lo por sua causa, mas seu humor agitava-se a cada passo no corredor. Sua escolta silenciosa parou por fim diante de duas imponentes portas de carvalho, a madeira tão velha e decrépita quanto a própria fortaleza, e bateu uma vez.
— Entre.
Yrene sentiu o tremor que passou por Chaol com a voz fria e astuta.
As portas se abriram para revelar um corredor escuro, alinhado por colunas, emaciado com feixes de luz baça.
A única saudação que eles receberiam, aparentemente, já que o homem sentado à cabeceira da comprida mesa de madeira, longa o suficiente para abrigar quarenta homens, não se incomodou em se levantar.
Cada um dos seus passos ecoou pelo corredor, a lareira gigantesca rugindo à sua esquerda dificilmente evitando a mordida do frio. Uma taça do que parecia ser vinho e os restos da refeição da noite jaziam diante do Senhor de Anielle na mesa.
Nenhum sinal de sua esposa ou outro filho.
Mas o rosto... era o rosto de Chaol, daqui poucas décadas. Ou seria, se Chaol se tornasse tão desalmado e frio quanto o homem diante deles.
Ela não sabia como ele fez isso. Como Chaol conseguiu abaixar a cabeça em uma cortesia.
— Pai.


Chaol nunca se envergonhara do castelo até atravessá-lo com Yrene. Nunca havia percebido o quanto precisava de reparos, como fora negligenciado.
O pensamento dela, tão cheio de luz e calor, neste lugar sombrio o fez querer correr de volta para o ruk que o esperava nos parapeitos e voar para a costa novamente.
E agora, ao vê-la diante de seu pai, que não se dava ao trabalho de levantar-se da cadeira, cujo jantar meio comido estava descartado diante de si, Chaol achou que seu temperamento precisava de rédeas curtas.
O manto de pele de seu pai se dobrava ao redor dele. Quantas vezes ele o vira nesta cadeira, na cabeceira dessa poderosa mesa, onde um dia sentaram alguns dos melhores senhores e guerreiros de Adarlan?
Agora estava vazia, uma casca do que poderia ter sido.
— Você está andando — falou o pai, examinando-o da cabeça aos pés. Sua atenção permaneceu na mão que Chaol ainda mantinha ao redor de Yrene. Ah, ele certamente traria a questão em breve. Quando seria mais acertasse mais fundo. — Da última vez que ouvi, você não podia mexer o dedo do pé.
— É graças a essa mulher — falou Chaol. No entanto, Yrene olhou para o pai com uma frieza que Chaol nunca tinha visto antes. Como se ela estivesse pensando em apodrecer os órgãos dele de dentro para fora. Isso aqueceu Chaol o suficiente para dizer: — Minha esposa. Lady Yrene Towers Westfall.
Um indício de surpresa iluminou o rosto de seu pai, mas desapareceu rapidamente.
— Uma curandeira, então — ele meditou, examinando Yrene com uma intensidade que fez Chaol querer começar a quebrar as coisas. — Towers não é uma casa nobre que eu reconheça.
O desgraçado miserável. O queixo de Yrene se levantou ligeiramente.
— Pode não ser, milorde, mas a linhagem não é menos orgulhosa ou digna.
— Pelo menos ela fala bem — disse o pai, bebendo do vinho. Chaol apertou a mão livre com tanta força que sua luva rangeu. — Melhor que a outra – a assassina arrogante.
Yrene sabia. Tudo isso. Ela conhecia cada fragmento da história, sabia de quem era o bilhete que carregava em seu medalhão. Mas isso não diminuiu o golpe, não quando o seu pai acrescentou:
— Que acabou sendo a Rainha de Terrasen. — Uma risada sem alegria. — Que prêmio você poderia ter, meu filho, se tivesse conseguido mantê-la.
— Yrene é a melhor curandeira de sua geração — Chaol falou com uma voz mortal. — Seu valor é maior do que qualquer coroa. — E nesta guerra, poderia muito bem ser.
— Você não precisa se incomodar em provar o meu valor para ele — disse Yrene, com os olhos gelados presos em seu pai. — Eu sei precisamente quanto sou talentosa. Não exijo a bênção dele.
Ela quis dizer todas as malditas palavras.
Seu pai voltou aquele olhar indiferente para ela novamente, curiosidade tomando-o por um momento.
Se lhe tivessem perguntado, minutos atrás, como ele achava que aquele encontro se daria, ele pensaria em Yrene sendo totalmente indiferente a seu pai. Yrene falando de igual para igual com ele não estaria entre os possíveis resultados.
Seu pai se recostou na cadeira.
— Você não veio aqui para finalmente cumprir seu juramento para comigo, não é?
— Essa promessa está quebrada, e por isso eu peço desculpas — Chaol conseguiu dizer. Yrene se arrepiou. Antes que ela pudesse lhe dizer de novo que não se incomodasse, Chaol continuou: — Viemos alertá-lo.
Seu pai levantou uma sobrancelha.
— Morath está em movimento, eu sei. Tomei a precaução de enviar sua amada mãe e irmão para as montanhas.
— Morath está em movimento — confirmou Chaol, lutando contra a decepção de não ver nenhuma das duas pessoas com quem mais precisava falar. — E segue diretamente para cá.
Seu pai, por uma vez, ficou imóvel.
— Dez mil soldados — disse Chaol. — Eles vêm para saquear a cidade.
Ele poderia jurar que seu pai empalideceu.
— Você sabe disso com certeza?
— Eu navegava com um exército enviado pelo khagan, uma legião de seus cavaleiros ruks entre eles. Seus batedores descobriram a informação. Os rukhin voam para cá enquanto falamos, mas os soldados da Darghan não chegarão em pelo menos uma semana ou mais. — Ele se adiantou – apenas um passo. — O senhor precisa reunir suas forças, preparar a cidade. Imediatamente.
Mas seu pai girou sua taça, franzindo a testa para o líquido vermelho ali dentro.
— Não há tropas aqui – nenhuma para fazer um arranhão em dez mil homens.
— Então comece a evacuação, e mova o máximo que puder para a fortaleza. Prepare-se para um cerco.
— Da última vez que olhei, garoto, eu ainda era o Senhor de Anielle. Você de bom grado virou as costas para isso. Duas vezes.
— Você tem Terrin.
— Terrin é um estudioso. Por que acha que eu o mandei embora com a mãe, como um bebê em fase de amamentação? — Seu pai zombou. — Você voltou a sangrar por Anielle? Para sangrar por esta cidade, afinal?
— Não fale com ele assim — disse Yrene com uma calma perigosa. Seu pai a ignorou. Mas Yrene se colocou ao lado de Chaol mais uma vez. — Eu sou a herdeira da Alta Curandeira de Torre Cesme. Vim a pedido do seu filho, de volta às terras do meu nascimento, para ajudar nesta guerra, assim como duzentas curandeiras da própria Torre. Seu filho passou os últimos meses forjando uma aliança com o khaganato, e agora todos os exércitos dos khagan navegam para este continente para salvar seu povo. Então, enquanto o senhor está sentado aqui em sua fortaleza miserável, lançando insultos a ele, saiba que ele fez o que nenhum outro poderia fazer, e se sua cidade sobreviver, será por causa dele, não do senhor.
Seu pai piscou para ela. Lentamente.
Levou toda a força de vontade de Chaol evitar pegar Yrene em seus braços e beijá-la.
Mas Chaol apenas repetiu para seu pai:
— Preparem-se para um cerco e aprontem as defesas. Ou o Lago Prateado se tornará vermelho novamente sob as garras das feras de Erawan.
— Eu conheço a história desta cidade tão bem quanto você.
Chaol debateu acabar ali, mas perguntou:
— Foi por isso que não se ajoelhou para Erawan?
— Ou para o rei fantoche antes dele — disse o pai, pegando sua comida.
— Você sabia – sabia que o antigo rei estava possuído por valg?
Os dedos de seu pai se imobilizaram ao segurar um pão, o único sinal de seu choque.
— Não. Só que ele estava construindo um exército por toda a terra que não parecia... natural. Eu não sou o lacaio de um rei, não importa o que pense de mim. — Ele abaixou a mão mais uma vez. — Claro que, em meus planos de afastá-lo do perigo, parece que só o aproximei mais.
— Por que se incomodar?
— Eu falei a verdade em Forte da Fenda. Terrin não é um guerreiro – não de coração. Eu vi o que estava se erguendo em Morath, no Desfiladeiro Ferian, e exigi que meu filho mais velho estivesse aqui, para pegar a espada se eu caísse. E agora você voltou, na hora em que a sombra de Morath se esgueirou em torno de nós por todos os lados.
— Todos os lados, menos um — disse Chaol, apontando para os Caninos Brancos pouco visíveis pelas janelas altas acima. — Há rumores de que Erawan passou esses meses caçando os selvagens dos Caninos. Se está com falta de soldados, peça ajuda.
A boca do pai dele se apertou.
— Eles são nômades semiselvagens que adoram matar nosso povo.
— Assim como os nossos têm adorado matá-los. Permita que Erawan nos una.
— E oferecer o que a eles? As montanhas nos pertenceram desde antes de Gavin Havilliard sentar-se em seu trono.
— Ofereça-lhes a maldita lua, se isso convencê-los a ajudar — Yrene murmurou:
Seu pai sorriu.
— Você pode oferecer tal coisa, como a herdeira da Alta Curandeira?
— Cuidado — Chaol rosnou.
Seu pai também ignorou isso.
— Eu preferiria ter a minha cabeça espetada em uma lança do que dar aos selvagens dos Caninos um centímetro da terra de Anielle, quanto mais pedir sua ajuda.
— Espero que o seu povo concorde — disse Yrene.
Seu pai soltou uma daquelas risadas sem alegria.
— Eu gosto mais de você do que da rainha assassina, acho. Talvez se casar com a plebe venha a se tornar regra em nossa linhagem mais uma vez.
O sangue de Chaol rugiu em seus ouvidos, mas os lábios de Yrene se curvaram em um sorriso.
— Você é exatamente como eu imaginei que seria — ela falou.
Seu pai apenas inclinou a cabeça.
— Prepare esta cidade, esta fortaleza — Chaol conseguiu dizer através de seus dentes cerrados. — Ou você merecerá tudo o que vier.

10 comentários:

  1. Ei yrene, humilhando o sogro yrene?
    T amo mulher

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  2. 👏👏👏👏👏palmas para a Yrene

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  3. Isso mesmo coloca esse cachorro velho em seu devido lugar.

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  4. Aelin, Lisandra, Manon, Elide, Yrene, Nersyn.

    Esse elenco de mulheres é foda de mais e só cresce! 👏🏻👏🏻👏🏻

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    1. não esqueça de citar Borte, Nesryn e Hasar. Apesar delas n serem minhas favoritas, fazem um squad de empoderadas maravilhoso, bicho

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  5. nem um pouco parecida com a Yrene do outro livro
    maravilhosa ela está

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    1. Ela sempre foi afrontosa assim. A forma que ela tratava o Chaol e o que aprontou pra Hasar mostram que ela sempre foi assim, amo rsrs

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  6. AAAAAAAAAAAH Q PISÃO DE SALTO AGULHA KKKKKKKKK AMEI

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Boa leitura, E SEM SPOILER!