5 de outubro de 2018

Capítulo 18


A SULTIMA ERA UMA LENDA NO HARÉM.
Escolhida por Deus para ser a mãe do próximo herdeiro de Miraji. A única boa o suficiente para conceber uma criança do sultim. Ela se mantinha trancada em seus aposentos a maior parte do tempo. As mulheres no harém sussurravam que era porque estava rezando. Mas lembrei algo que Shazad me dissera uma vez: se puder ficar fora do campo de visão do seu inimigo, ele sempre vai imaginar que você tem mais força do que realmente tem.
Pelos boatos que eu tinha ouvido, a sultima tinha uma porção de inimigas no harém.
Mas se tinha uma coisa que eu sabia sobre lendas, era que no final das contas todos eram feitos de carne e osso. E alguém de carne e osso tinha que sair do quarto mais cedo ou mais tarde.
Dois dias depois de Mouhna colocar a pimenta suicida na minha comida, Leyla me acordou com a notícia. A abençoada sultima tinha finalmente aparecido para tomar banho.
Eu a identifiquei assim que saí do corredor que dava para as piscinas. Ela estava sentada de costas para a entrada, uma perna balançando na água, a outra dobrada, virada o suficiente em minha direção para que eu pudesse ver a barriga inchada. Sua idade a destacava. Eu tinha visto outras mulheres grávidas no harém, mas elas pertenciam ao sultão. Ele tinha parado de escolher esposas fazia quase dez anos. Então elas tinham praticamente sua idade, a maioria acumulando pelo menos três décadas.
Mesmo de longe dava para ver que a sultima não tinha nem dezoito anos. Ela passava as mãos pela barriga de novo e de novo em movimentos suaves, com a cabeça inclinada para a frente, pensativa.
Dali, a abençoada sultima parecia igual a qualquer outra garota do deserto nos últimos meses de gravidez. Não que eu tivesse esperado que ela frequentasse as piscinas envolta em pérolas e rubis, mas depois de todos os rumores e sussurros imaginei que veria algo mais do que alguém em um khalat branco e fino.
Ela não estava sozinha. Kadir se esparramava do outro lado, vestindo um salvar solto e mais nada. Não imaginei que Jin compartilhasse algo com seu irmão, mas a aversão a camisas parecia ser de família.
Também havia uma meia dúzia de garotas na água que reconheci do harém. Uma coleção de esposas de Kadir chafurdava na água, dando risadinhas, os khalats longos e brancos colados ao corpo.
Eu já havia passado tempo suficiente ali para perceber que a maior parte do harém não era de Miraji. Eram mulheres pálidas do norte roubadas de navios, garotas orientais vendidas como escravas, jovens de tez escura de Amonpour pegas na fronteira. Mas dava para saber que aquela garota era do deserto, mesmo de costas. O linho grudava em seu corpo por causa do vapor que emanava das piscinas; cabelos escuros e úmidos aderiam ao seu rosto. Ela não parecia a todo-poderosa sultima, a portadora do futuro sultão de Miraji.
Então a garota levantou a cabeça, surpresa com o som dos meus passos. Olhou rápido por cima do ombro para mim e meu coração saltou na boca.
Ah, malditos sejam todos os poderes do céu e do inferno. O que eu fiz para merecer isso?
Estava cara a cara com a sultima de quem tanto tinha ouvido falar. A única mulher pura o suficiente para conceber um filho do sultim Kadir. A garota enviada por Deus para garantir o futuro de Miraji.
Só que eu a conhecia como minha prima Shira. E a única missão dada a ela por Deus era tornar minha vida um inferno.
Jin uma vez me disse que o destino tem um senso de humor cruel. Eu estava começando a acreditar nele. Primeiro Tamid, agora Shira. Havia cruzado um deserto inteiro, mas era como se tivesse sido arrastada de volta para casa para enfrentar tudo o que deixara para trás quando fugi.
Shira parecia tão surpresa quanto eu. Seu queixo caiu mas logo se fechou com força em uma expressão de desagrado. Nos encaramos com uma pequena extensão de azulejos entre nós. O embate se repetia, assim como ocorrera uma centena de vezes de lados opostos do minúsculo quarto na casa da minha tia.
— Bem — Shira disse. Tinha perdido o sotaque. Dava para notar só naquela palavra. Talvez não perdido, mas abafado com algo que se passava por um sotaque do norte. — Podem me pintar de roxo e me chamar de djinni se não é minha prima menos querida.
A resposta ácida estava na ponta da minha língua. Parei antes que escapasse. O sultão tem um djinni, eu me forcei a lembrar. Há um ser primordial à sua mercê e nada impede que o use contra os rebeldes a qualquer instante. E então estará tudo terminado. Para mim. Para Ahmed, Jin, Shazad e toda a rebelião.
Eu não sabia como era com as outras famílias, mas imaginava que na maior parte do tempo todos se fingiam de civilizados, mesmo quando não havia tantas vidas em jogo.
— Achei que estivesse morta — eu disse. Você e Tamid. Da última vez que tinha visto Shira, ela estava em um trem em direção a Izman com o príncipe Naguib, capturada porque achavam que talvez soubesse para onde eu estava indo. E se me encontrassem, encontrariam Jin; e se encontrassem Jin, encontrariam a rebelião.
Depois que nós dois descemos do trem, Shira perdera a utilidade. Noorsham me dissera que havia sido largada no palácio para morrer. Mas não só estava viva como prosperando. Me perguntei se sabia que Tamid tinha sobrevivido e acabara naquele palácio também. Se sabia o que ele estava fazendo para o sultão. Se ela se importava.
Nunca tinha se importado.
Irritada, afastei os pensamentos sobre Tamid. Shira era mais fácil de enfrentar. Nunca tinha sido muito complicado entender a relação entre nós duas. Nós nos odiávamos. Era mais fácil lidar com ódio antigo do que com o desdém recente de Tamid.
— Você deveria me conhecer melhor. — Minha prima me lançou seu sorriso sedutor. — Nós, garotas do deserto, somos sobreviventes. Embora eu esteja curiosa para saber como planeja sobreviver por aqui. — Passei sob as pedras iridescentes do arco, entrando na área dos banhos. Ignorei os fiapos de vapor que envolviam meu corpo como dedos pegajosos. — Da última vez que a vi, não estava cavalgando em direção ao pôr do sol com um rebelde? Traidores não duram muito por aqui. — Ela indicou com o olhar o lugar do outro lado onde Kadir estava relaxando. O salão era tão amplo quanto a Vila da Poeira inteira, e Kadir estava longe o suficiente para não ter me notado ainda. Ele pegou algo de uma pilha perto do cotovelo e o arremessou em um arco alto no meio da piscina. Quando a luz bateu no objeto, percebi que era um rubi tão grande quanto meu dedão.
A pedra atingiu a água com um respingo. Um caos de gritos e risos se seguiu quando seis garotas mergulharam em direção ao rubi, espirrando água e subindo uma em cima da outra enquanto Kadir as observava com um olhar faminto. Os gritos e o barulho da água cobriam nossas vozes.
— O que acha que meu príncipe pensaria de sua lealdade ao irmão traidor dele, se ficasse sabendo?
O medo devia estar estampado na minha cara, porque Shira sorriu como um gato que tinha engolido um canário.
Maldita. Eu estava atrás de ajuda, não de alguém que me entregasse.
— Shira. — Dei os últimos passos da entrada até a beira da água, me agachando perto dela e falando em voz baixa: — Se contar a Kadir que faço parte da… — Engoli a palavra antes de dizê-la. — Você sabe do quê — eu disse, com cuidado, olhando de relance uma garota que tinha emergido perto de nós. — Juro por Deus que, se você disser uma palavra, eu… — Pensei desesperada em como ameaçá-la, como acontecia na Vila da Poeira. Ela não contaria para a mãe que eu passara a noite fora com Tamid e eu não contaria para seu pai que ela deixara Fazim passar a mão por baixo da roupa dela nos estábulos. O problema era que não estávamos mais na Vila da Poeira, e se ela abrisse o bico eu levaria mais do que apenas uma surra. Eu e provavelmente algumas centenas de outras pessoas seríamos executadas. Então as palavras simplesmente saíram: — Vou ter que ir em frente e contar para o sultim que essa criança na sua barriga não é dele.
O rosto de Shira congelou.
— Ah, Deus. — Só então me dei conta de que era verdade. — O bebê não é do sultim.
— Quer falar baixo? — Shira disse entre os dentes. Do outro lado da piscina, uma das garotas emergiu com um grito de triunfo, segurando firme o rubi. Ela se arrastou pela água até chegar à beira da piscina, exibindo orgulhosa a pedra vermelha para Kadir, que se reclinou para lhe roubar um beijo. A garota depositou o rubi em uma pequena pilha de joias coloridas do lado da piscina, mantendo-a separada das pilhas das outras. Quando terminassem, o sultim mandaria fazer um colar com os prêmios acumulados. Era como observar crianças brincando. Só que as brincadeiras no harém podiam terminar com alguém perdendo a cabeça. O sultim puxou um diamante pequeno de sua pilha cada vez menor.
— O que você tem na cabeça? — Infidelidade era caso de sentença de morte no harém, até eu sabia disso. Tinha acontecido com a mãe de Ahmed quando dera à luz Delila. E tinha acontecido com outras mulheres também; havia incontáveis histórias, tantas que era impossível ignorá-las. Homens que achavam um jeito de entrar no harém sem permissão. Serviçais, príncipes que não o sultim… Cada caso custava a vida de todos os envolvidos. Shira era muitas coisas, mas tola não era.
— Eu tinha que sobreviver. — Ela dedilhou os azulejos na beirada da piscina. Percebi que suas unhas tinham sido lixadas curtas. Shira sempre as mantinha longas na Vila da Poeira. — Você abandonou a mim e a Tamid para morrer na Vila da Poeira.
Ela pronunciou o nome dele de um jeito diferente. Sem o mesmo tom de desdém e desprezo. Não sabia o que tinham passado juntos, mas devia ter sido o tipo de coisa que transformava as pessoas em aliados.
— Foi Tamid quem… — comecei a perguntar, já temendo a resposta.
— Não seja ridícula — Shira retrucou, ríspida. — Eu não arriscaria dar ao sultim um filho aleijado.
— E você ainda se pergunta por que a considero tão horrível? — Cerrei os punhos, lutando contra a velha tendência de defender Tamid. Ele não lutaria por mim. Me perguntei se ela era o motivo pelo qual ele me desprezava agora. Será que o havia infectado com seu ódio durante a jornada? Ou eu havia feito ele me odiar sozinha?
— O que fiz para sobreviver foi pior do que o que você fez? — Ela moveu o pé em círculos lentos na água, fazendo ondinhas. — Naguib me abandonou aqui depois que eu já não servia mais para ele. Teria morrido se não me provasse mais interessante do que as outras garotas no harém. — Um novo coro de gritos veio do bando de garotas quando outra joia foi arremessada na água. — Mas ser a favorita do sultim só mantém alguém viva aqui por certo tempo. Então fiz a única coisa que podia para garantir minha sobrevivência. — Ela passou as mãos pela barriga. — E você pode contar para quem quiser. Ninguém vai acreditar.
Ela não estava facilitando. Fazia muito tempo desde nossa última discussão na Vila da Poeira. Eu já tinha encarado gente muito pior do que ela. Mas Shira estava me fazendo sentir de volta à casa de sua mãe, e não havia nada que eu quisesse mais do que ganhar dela pelo menos uma vez.
— Sim, eles vão acreditar, Shira. — Se ela não pretendia recuar, não seria eu a fazê-lo. Tinha certeza de que Shira seria degolada se alguém descobrisse que estava carregando o filho de outro homem fingindo que era do sultim. Tinha sua vida em minhas mãos tanto quanto ela tinha a minha. — E acho que sabe disso.
Shira me encarou. Ser sultima caía bem nela, eu tinha que admitir. Havia um peso naquele olhar que faria a maioria das pessoas abaixar os olhos primeiro.
Mas eu havia crescido atirando; podia aguentar muito mais.
— Está bem, temos um trato. — De fato, Shira piscou primeiro. — Não vou contar sobre você se não contar sobre mim.
— Vai precisar fazer melhor que isso, prima.
— Quer mais alguma coisa? — ela disse em tom de zombaria, ainda passando as mãos na barriga. Shira realmente tinha muito poder ali. Mas não sobre mim. Ela apertou os lábios, como se as palavras que estava prestes a proferir tivessem um gosto amargo. — É claro que sim. Está bem. — Então inclinou a cabeça para trás e gargalhou como se eu tivesse dito a coisa mais engraçada do mundo. Por um instante, achei que estivesse louca. Sua voz ecoou pelas paredes de azulejos, atravessando a confusão na água e fazendo Kadir levantar a cabeça. Então ele me viu. Droga. Shira me dera um sorriso de canto de boca, satisfeita. — É melhor falar rápido, prima. Acho que você é o novo brinquedo do qual Kadir vive falando. O que ele não pode ter. Desembuche o que quer de mim antes de ele chegar aqui.
Eu realmente queria empurrá-la na água.
— Dizem que você tem um jeito de trazer e tirar coisas do harém.
— Quem disse isso?
— As pessoas — respondi, evasiva. — É verdade ou não? — Mantive um olho em Kadir enquanto ele levantava e caminhava lentamente em torno dos azulejos azuis iridescentes da piscina para chegar até nós. Era como ser caçada por um andarilho faminto. Precisava fugir antes que se aproximasse.
— Talvez — ela disse, cautelosa. Gastando o tempo. — O que quer assim tão desesperadamente a ponto de ameaçar minha vida? Bebida? Roupas novas? Isso certamente deve valer o preço da minha cabeça. — Aquela era uma tentativa razoável de me fazer sentir culpada por chantageá-la. Se fosse qualquer outra pessoa, talvez eu realmente me sentisse mal.
— Não quero que traga nada aqui para dentro. — Mantive parte da atenção em Kadir, que se aproximava. — Preciso mandar uma mensagem para fora. É possível?
— Acho que sim. — Shira passou a língua pelos dentes, refletindo lentamente. Estava tentando me manter ali. — Precisaria de algum tempo.
— Não tenho muito. Pode me ajudar ou devo contar ao seu marido que foi para a cama com outro homem, e te levar à forca? — Kadir estava na metade do caminho agora.
— Posso ajudar. — A mandíbula de Shira ficou tensa de raiva, e ela repousou a mão na barriga. — Se você…
— Veio participar do jogo? — Kadir disse, interrompendo o que quer que Shira estivesse prestes a dizer. Ele estava próximo o suficiente para ser ouvido. Seus olhos varreram meu corpo de cima a baixo. — Está um pouco vestida demais.
Levantei. Shazad tinha me ensinado muito bem que não se enfrenta um inimigo de uma posição inferior.
— São as roupas adequadas para partir, aclamado sultim.
Kadir pigarreou, como se concordasse. Mas o som parecia muito com um riso.
— Você é livre para partir, claro. — Ele rolava uma pérola branca perfeita entre o dedão e o indicador. Deu a volta para ficar na minha frente, de pé entre mim e a saída. Então arremessou a pérola na água sem nem olhar. As garotas, que estavam observando a conversa, não mergulharam atrás. — Assim que me trouxer aquela pérola.
— Não sei nadar — eu disse. Em qualquer outro lugar eu seria capaz de me defender. Seria capaz de lutar contra ele. Mas estava indefesa. Tentava me portar como se não estivesse, no entanto.
— Então não pode partir. — Ele sorriu de canto de boca. — Aquela pérola é muito preciosa para mim.
Eu não podia lutar contra ele. Só o pensamento de erguer meu punho e golpear sua cara de satisfação e superioridade fez minhas entranhas doerem. E não tinha certeza do que ele faria se eu tentasse ir embora. Do que podia fazer. Não sabia se o sultão tinha avisado que não devia me machucar, ou se não se importava que seu prêmio demdji fosse ferido. Eu nem sabia por que ainda estava viva. Ele já tinha o djinni.
O silêncio foi interrompido por um mergulho. Uma das outras garotas se jogou na água e emergiu alguns instantes depois com a pérola entre os dedos.
— Cansei de esperar — ela disse, fazendo biquinho, o cabelo claro grudado na testa enquanto exibia a pérola. Havia certo nervosismo em seu sorriso. Entendi o que ela tinha feito. Por mim. O risco que havia assumido.
A tensão foi quebrada quando Kadir perambulou até a garota. Shira ficou de pé e segurou meu cotovelo, me arrastando para fora dos banhos.
— Hoje à noite. — Ela me empurrou de volta para a segurança dos jardins. — Me encontre no Muro das Lágrimas depois que escurecer.

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