29 de outubro de 2018

Capítulo 17

Lysandra se abaixou, mas não rápido o suficiente para evitar o chicote de poder que cortou seu braço.
Ela bateu no chão, rolando, como aprendera com a cuidadosa tutela de Arobynn. Mas Aedion já estava na frente dela, espada desembainhada. Defendendo sua rainha.
Um lampejo de luz e frio – de Enda e Sellene – e o mensageiro de Morath estava imobilizado, seu poder sombrio açoitando uma barreira invisível de vento gelado.
Ao redor da tenda, todos haviam recuado, armas erguidas. Flanqueando o homem caído, Ilias e Ansel já tinham suas espadas voltadas para ele, suas poses defensivas como imagens espelhadas. Treinados até os ossos pelo mesmo mestre, sob o mesmo sol escaldante. Nenhum dos dois olhou para o outro.
Ren, Sol e Ravi posicionaram-se ao lado de Lysandra – ao lado de Aelin – suas próprias lâminas preparadas para derramar sangue. Uma corte imberbe cercando a rainha.
Não importava que os lordes mais velhos tivessem se agachado atrás da segurança da mesa de refrescos, os rostos pálidos. Apenas Galan Ashryver ocupara um lugar perto da saída, sem dúvida para interceptar seu atacante caso ele tentasse fugir. Um movimento ousado – e tolo, considerando o que estava ajoelhado no centro da tenda.
— Ninguém sentiu o cheiro e percebeu que ele era um demônio valg? — perguntou Aedion, puxando Lysandra de pée com o braço ileso. Mas não havia colar no estranho, nenhum anel em suas mãos nuas e pálidas.
O estômago de Lysandra se revirou quando ela apertou a mão no corte latejante em seu braço. Ela sabia o que batia no peito do homem. Um coração de ferro e pedra de Wyrd.
O mensageiro riu, sibilando.
— Corra para o seu castelo. Nós estamos...  Ele cheirou o ar. Olhou diretamente para Lysandra. Para o sangue que escorria de seu braço esquerdo, infiltrando-se no azul oceano da túnica gasta de Aelin.
Seus olhos escuros se arregalaram de surpresa e deleite, a palavra tomando forma em seus lábios. Metamorfo.
— Mate-o — ela ordenou aos príncipes feéricos de cabelos prateados, seu coração trovejando.
Ninguém se atreveu a dizer-lhe para queimá-lo.
Endymion levantou a mão e o homem possuído por valg começou a ofegar. No entanto, não antes de seus olhos escurecerem completamente, até que nenhum branco brilhasse.
Não da morte que o levava. Mas enquanto parecia transmitir uma mensagem por um longo vínculo de obsidiana.
A mensagem que poderia condená-los: Aelin Galathynius não estava aqui.
— Chega disso — Aedion rosnou, e medo – medo verdadeiro empalideceu seu rosto quando ele também percebeu o que o mensageiro tinha acabado de transmitir ao seu mestre.
A Espada de Orynth brilhou, sangue negro jorrou, e a cabeça do homem caiu no chão coberto de tapete.
No silêncio, Lysandra ofegou, erguendo o braço para examinar a ferida. O corte não era profundo, mas seria incômodo por algumas horas.
Ansel de Penhasco dos Arbustos embainhou sua espada com pomo de lobo e segurou o ombro de Lysandra, seu cabelo ruivo balançando ao avaliar a lesão, depois o cadáver.
— Babaquinhas desagradáveis, não?
Aelin teria dado alguma resposta arrogante para fazê-los rir, mas Lysandra não conseguia encontrar as palavras. Ela apenas concordou com a cabeça quando a mancha negra avançou sobre o chão da tenda. Os feéricos fizeram careta ao cheiro desagradável.
— Limpe essa bagunça — Darrow pediu a ninguém em particular. Mesmo enquanto suas mãos tremiam ligeiramente.
Pelas abas da tenda, Nox estava boquiaberto para o valg decapitado. Seus olhos cinzentos encontraram os dela, buscando, e depois baixaram.
— Ele não tinha um anel — Nox murmurou.
Agarrando a beirada da toalha de mesa que pendia do móvel de bebidas intocadas, Aedion limpou a Espada de Orynth.
— Ele não precisava de um.


Erawan sabia que Aelin não estava com eles. Que um metamorfo havia tomado o lugar dela.
Aedion atravessou o acampamento, Lysandra-como-Aelin em seus calcanhares.
— Eu sei — ele falou por cima do ombro, por uma vez ignorando os guerreiros que o saudaram.
Ela continuou seguindo-o de qualquer maneira.
— O que devemos fazer?
Ele não parou até chegar a sua própria tenda, o cheiro daquele mensageiro valg permanecendo em seu nariz. Aquele chicote de escuridão atacando Lysandra ainda queimando atrás de seus olhos. O grito dela de dor ecoando em seus ouvidos.
Seu temperamento se agitou, uivando por uma saída. Ela o seguiu até a tenda.
— O que devemos fazer? — ela perguntou novamente.
— Que tal começarmos a nos assegurar de que não haja outros mensageiros à espreita no acampamento? — ele rosnou, andando de um lado para o outro.
A realeza dos feéricos já havia transmitido essa ordem e enviava seus melhores batedores.
— Ele sabe — ela arquejou. Ele se virou para encará-la, encontrando sua prima – encontrando Lysandra tremendo. Não Aelin, embora ela tivesse sido muito convincente hoje. Mais que o normal. — Ele sabe o que eu sou.
Aedion esfregou o rosto.
— Ele também parece saber que estamos indo para Orynth. Quer que façamos exatamente isso.
Ela caiu sobre o catre, como se os joelhos não pudessem segurá-la de pé. Por um instante, a vontade de se sentar ao lado dela, de puxá-la para seus braços, foi tão forte que ele quase se rendeu.
O cheiro do sangue dela encheu o espaço, junto com o seu perfume selvagem e multifacetado. Isso deslizou um dedo sensual por sua pele, aumentando sua raiva em algo tão mortal que ele poderia muito bem matar o próximo macho que entrasse nesta tenda.
— Erawan pode ouvir as notícias e se preocupar — disse Aedion quando conseguiu pensar novamente. — Ele pode se perguntar por que ela não está aqui, e se está prestes a fazer algo que vai prejudicá-lo. Isso poderia forçá-lo a mostrar sua mão.
— Ou nos atacar agora, com toda a sua força, quando sabe que estamos mais fracos.
— Nós teremos que ver.
— Orynth será um matadouro — ela sussurrou, os ombros curvados sob o peso – não apenas de ser uma mulher envolvida nesse conflito, mas uma mulher fingindo ser outra, que poderia ser imitada, mas apenas até certo ponto. Uma mulher que na verdade não tinha o poder de deter as hordas que marchavam para o norte. Ela estava disposta a arcar com esse fardo, no entanto. Pora Aelin. Por este reino.
Mesmo que tivesse mentido para ele sobre isso, ela estava disposta a aceitar esse peso.
Aedion sentou ao lado dela e olhou fixamente para as paredes da tenda.
— Nós não iremos para Orynth.
Sua cabeça se levantou. Não apenas com as palavras, mas com a proximidade em que ele estava sentado.
— Para onde iremos, então?
Aedion olhou para sua armadura, lubrificada e aguardando em um manequim do outro lado da tenda.
— Sol e Ravi levarão alguns de seus homens de volta à costa para garantir que não enfrentemos mais ataques vindos do mar. Eles se encontrarão com o que restou da frota de Wendlyn enquanto Galan e seus soldados ficam conosco. Vamos marchar como um exército até a fronteira.
— Os outros lordes votaram contra. — Votaram, de fato, os velhos tolos.
Ele dançara com a traição durante a última década. Fizera disso uma forma de arte.
Aedion sorriu levemente.
— Deixe isso comigo.


A Devastação não era fiel a ninguém a não ser Aelin Galathynius.
Assim como os aliados que ela reuniu. E as forças de Ren Allsbrook e Ravi e Sol de Suria.
Assim como, aparentemente, Nox Owen.
No entanto, foi Lysandra, não Aedion, que possibilitou seu plano.
Ela estava andando de volta para sua tenda – para a tenda de Aelin, não adequada para uma rainha, mas a um capitão do exército – quando Nox se aproximou dela. Silencioso e gracioso. Bem treinado.
E provavelmente mais letal do que parecia.
— Então, Erawan sabe que você não é Aelin.
Ela virou a cabeça para ele.
— O que? — Uma pergunta rápida e vaga para ganhar tempo. Teria Aedion arriscado dizer a verdade?
Nox deu-lhe um meio sorriso.
— Eu percebi quando vi a surpresa no rosto daquele demônio.
— Você deve estar enganado.
— Estou? Ou você não se lembra de mim?
Ela fez o melhor que pôde para olhar regiamente para ele, ao mesmo tempo em que o mensageiro ladrão se erguia sobre ela. Aelin nunca mencionara um Nox Owen.
— Por que eu deveria me lembrar de um dos lacaios de Darrow?
Uma tentativa decente, mas Celaena Sardothien pareceria um pouco mais divertida quando cortava os homens em tiras.
Ele sabia – quem era Aelin, o que ela tinha sido. Lysandra não disse nada e continuou andando em direção à tenda. Se ela contasse a Aedion, com que rapidez poderia o Nox ser enterrado sob a terra congelada?
— Seu segredo está seguro — Nox murmurou. — Celaena – Aelin era uma amiga. Ainda é, eu espero.
— Como. — Ela não admitiria mais do que isso em relação ao seu papel.
— Nós lutamos juntos na competição no castelo de vidro. — Ele bufou. — Eu não tinha ideia até hoje. Deuses, eu estava lá pelo Ministro Joval como espião dos rebeldes. Foi a minha primeira vez fora de Perranth. Minha primeira vez, e acabei involuntariamente treinando ao lado de minha rainha. — Ele riu baixo e com espanto. — Tenho trabalhado com os rebeldes por anos, mesmo como ladrão. Eles queriam que eu fosse seus olhos do lado de dentro do castelo, nos planos do rei. Relatei os estranhos acontecimentos até que ficou perigoso demais. Até que Cel... Aelin me avisou para fugir. Eu a escutei e voltei para cá. Joval está morto. Caiu em um combate com um bando de rebeldes na fronteira nesta primavera. Darrow me levou para ser o seu próprio mensageiro e espião. Então aqui estou eu. — Um olhar de soslaio para ela, admiração ainda em seu rosto. — Estou à sua disposição, mesmo que você não seja... você. — Ele inclinou a cabeça. — Quem é você, afinal?
— Aelin.
Nox sorriu, conhecedor.
— Justo o suficiente.
Lysandra parou diante da pequena tenda da rainha, aninhada entre a de Aedion e a de Ren.
— Qual o preço do seu silêncio? Ou Darrow já sabe?
— Por que eu contaria a ele? Eu sirvo a Terrasen e à família Galathynius. Sempre servi.
— Alguns diriam que Darrow tem uma forte reivindicação ao trono, dada a sua relação com Orlon.
— Percebi hoje que a assassina a quem eu vim chamar de amiga é na verdade a rainha que eu acreditava estar morta. Parece que os deuses estão me apontando em uma certa direção, não é?
Ela permaneceu entre as abas da tenda. Calor delicioso acenava de dentro.
— E se eu dissesse que precisaríamos da sua ajuda esta noite, com o risco de ser marcado como um traidor?
Nox apenas esboçou uma reverência.
— Então eu diria que devo um favor à minha amiga Celaena por seu aviso no castelo, além de salvar minha vida antes disso.
Ela não sabia por que confiava nele. Mas desenvolvera um instinto para os homens que sempre se provou correto, mesmo que ela tivesse sido incapaz de agir quanto a isso no passado. Só pudera de se preparar para eles.
Mas Nox Owen... a gentileza em seu rosto era verdadeira. Suas palavras eram verdadeiras. Outro aliado que Aelin trouxera para eles, desta vez involuntariamente.
Ela sabia que Aedion concordaria com o plano, mesmo que ele ainda a odiasse. Então Lysandra se inclinou, sua voz diminuindo para um sussurro.
— Então ouça atentamente.


Foi feito silenciosamente e sem deixar vestígios.
Cada intricado elemento se desenrolou sem problema, como se os próprios deuses os ajudassem.
No jantar, Nox Owen batizou o vinho que ele serviria pessoalmente – como um pedido de desculpas por deixar o soldado valg entrar – aos lordes Darrow, Sloane, Gunnar e Ironwood. Não para matá-los, mas para enviá-los em um sono profundo e sem sonhos.
Mesmo o rugido de um urso não poderia acordá-lo, Ansel de Penhasco dos Arbustos declarou quando parou ao lado do catre de lorde Gunnar, ergueu o braço flácido dele e o deixou cair.
O lorde não se mexeu, e Lysandra, usando a forma de um camundongo e enfiada nas sombras atrás da rainha, considerou prova suficiente.
Os leais homens sob os estandartes dos quatro lordes também se viram dormindo profundamente naquela noite, cortesia do vinho que Galan Ashryver, Ilias, Ren e Ravi haviam assegurado que fossem servidos em suas fogueiras.
E quando todos acordaram no dia seguinte, só havia neve girando para além das tendas.
O acampamento se fora. O exército junto.

5 comentários:

  1. Adorei o plano. Eu queria saber qual o problema desses lordes com a Aelin eu não sei se é porque eles se acham muito ou se é porque tem medo de ficarem sem muito poder em mãos quando ela for coroada

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    Respostas
    1. Deve ser os dois, principalmente o último.

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  2. "Eu não tinha ideia até hoje. Deuses, eu estava lá pelo Ministro Joval como espião dos rebeldes. Foi a minha primeira vez fora de Perranth. Minha primeira vez, e acabei involuntariamente treinando ao lado de minha rainha."

    Sem palavras! 👏🏻

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Boa leitura, E SEM SPOILER!