5 de outubro de 2018

Capítulo 17

O HARÉM ARRANCOU O DESERTO DE MIM.
As serviçais despejaram água na minha cabeça e esfregaram minha pele até ela ficar em carne viva. Até me roubarem a pele incrustada de areia, sangue, suor, pólvora, fogo e do toque de Jin.
Fui tirada da água escaldante. Deixei uma das garotas me enrolar num grande lençol de linho seco e me deitar gentilmente perto da piscina. Algo quente pingou na minha pele, como óleo. Cheirava a flores que eu não conhecia. Outra garota passou um pente pelo meu cabelo, raspando gentilmente o escalpo.
Tinha passado minha vida inteira lutando. Para continuar viva na Vila da Poeira como a garota com uma arma. Para escapar da morte naquele beco sem saída. Para atravessar o deserto. A Bandida de Olhos Azuis. Lutando por Ahmed.  Pela rebelião.
Uma nova alvorada. Um novo deserto.
Mas conforme o pente passava pelo meu cabelo várias e várias vezes, não sabia se ainda restava em mim qualquer vontade de lutar.
Deixei o sono me tomar.
Amanhã. Eu lutaria amanhã.


Não levei muito tempo para descobrir que o harém era cheio de correntes e paredes feitas para parecerem invisíveis.
Era como um labirinto, projetado para me virar de um lado para o outro até eu não ter certeza de como tinha entrado ou se existia um jeito de sair. Havia dúzias de jardins, que se encaixavam como favos de mel. Alguns eram simples gramados, com uma única fonte jorrando eternamente e algumas almofadas espalhadas. Outros tinham tantas flores, vinhas e esculturas que eu nem conseguia mais ver as paredes. Mas elas estavam sempre lá.
Não dava para contar quantas pessoas viviam ali. Dezenas de esposas que pertenciam ao sultão ou ao sultim. E crianças também, filhas do sultão, que eram na verdade príncipes e princesas. Todos com menos de dezesseis anos. A idade em que finalmente eram liberados. Para passar das mãos do pai para as do marido. Ou para morrer por ele no campo de batalha, como Naguib. Todos irmãos e irmãs de Ahmed e Jin.
Finalmente encontrei uma das fronteiras: um portão trabalhado em ferro e ouro que permanecia entreaberto. Minhas pernas paralisaram quando tentei passar dali. Lutei contra a força que me prendia, mas não adiantava. Era como se uma mão invisível segurasse meu corpo. Meu sangue congelou e uma força torceu minhas entranhas, me puxando para trás.
O sultão tinha ordenado que eu não saísse dali.
Não podia atravessar aquele limiar.
Precisava entrar em contato com a rebelião. Mesmo se não soubesse exatamente onde ela se encontrava. Mas a família de Shazad era de Izman, que ficava do outro lado das paredes. A alguns metros de distância. Mas era como se houvesse um deserto inteiro entre nós.
Tinha que haver uma brecha, algum jeito de escapar. Mesmo se eu não conseguisse fugir, deveria existir uma maneira de mandar pelo menos um aviso de que o sultão tinha um djinni.
De que ele tinha meu pai.
Afastei o pensamento. Ele não era meu pai, tampouco o era o homem com quem minha mãe fora casada.
Se fosse meu pai, teria se importado com minha vida.
Minha mãe tinha me criado contando mil histórias de garotas salvas por djinnis, princesas tiradas de torres, camponesas afastadas da pobreza.
No fim das contas, eram apenas histórias.
Eu só podia contar comigo mesma.
Aquela sensação deveria ser familiar. Na Vila da Poeira, sempre pensava que estava sozinha. Mas não era verdade. Eu tinha Tamid naquela época. Agora só tinha dezenas de pequenos cortes cicatrizando por todo o corpo, uma lembrança constante de que não podia confiar no meu amigo mais antigo. Meus dedos encontraram um dos minúsculos pedaços de metal sob a pele do braço. Doeu quando pressionei o dedão contra ele.
Empurrei com mais força.
Pela primeira vez na vida, estava realmente sozinha.
Foi no meu terceiro dia no harém que dei com o zoológico.
O ruído foi a primeira coisa que percebi — uma mistura de gritos vindo de gaiolas de ferro tampadas por domos de treliças intrincadas. Havia centenas de pássaros empoleirados, com cores que fariam inveja a um djinni. O amarelo dos limões. O verde da grama no vale de Dev antes da nossa fuga. O vermelho do sheema que eu havia perdido. O azul dos meus olhos. Só que não exatamente. Nada tinha o mesmo tom de azul dos meus olhos. Exceto os olhos de Noorsham. E os de Bahadur. Aqueles olhos que me observaram, ardendo lentamente, indiferentes à faca que se aproximava da minha pele. Olhos que sequer piscaram ou se dignaram a desviar. Como se observar aquilo não lhe causasse nenhuma dor.
Dei as costas para os pássaros.
Pavões enormes exibiam as caudas quando passei por outra gaiola. Em outra ainda, um par de tigres se espreguiçava em uma faixa de sol, estirados um em cima do outro, bocejando tão forte que dava para ver as presas tão grossas quanto meus dedos.
Lembrei dos tigres pintados nas paredes da porta secreta que levava para o acampamento rebelde. Mas aqueles eram meros desenhos, de um milênio antes, do tamanho da minha mão. Os que estavam à minha frente eram bem maiores.
Parei abruptamente diante da gaiola mais distante.
A criatura lá dentro era quase tão grande quanto um roc. Um enorme monstro de pele cinza, patas grossas e orelhas exageradamente grandes. Pressionei o corpo contra as barras. Como se fosse capaz de atravessá-las para encostar nele.
Do outro lado da gaiola estava uma garota, sentada com o queixo apoiado nos joelhos. Ela tinha uns quinze anos no máximo. Era jovem demais para ser uma das esposas do sultim. Provavelmente era filha do sultão. Uma das princesas, nem de perto tão comentadas quanto os príncipes. Algo nela lembrava Delila, embora compartilhasse o sangue de Jin, o que não era o caso de Delila. Ainda assim, havia suavidade na curva de suas bochechas, como se não tivesse se desapegado totalmente da infância. Ela manuseava algo que parecia um brinquedo. Moldava barro vermelho em torno de um esqueleto de metal, criando um minúsculo modelo daquele animal. A garota empurrou uma das pernas da criatura, que se dobrou naturalmente, graças às pequenas juntas metálicas.
— O que é isso? — perguntei. Ela levantou a cabeça, surpresa, interrompendo seu trabalho e me fitando pelas barras. As palavras tinham escapado sem querer.
— Um elefante — ela respondeu em voz baixa.
Senti uma pontada de dor no coração quando pensei em Izz e Maz me explicando animadamente como eram esses animais.
Era isso que eles tinham visto além das nossas fronteiras. Um elefante vivo.
— Veio visitar sua família? — O tom de escárnio atrás de mim não era nem um pouco bem-vindo. Apesar disso, virei na direção da voz. Era Ayet, a esposa que tinha chutado meu khalat na piscina no meu primeiro dia no harém. Outras duas garotas pareciam escoltá-la, como se fossem de sua guarda pessoal. Ouvindo conversas, eu havia descoberto que elas se chamavam Mouhna e Uzma.
— Imagino que os parentes de vocês estejam no canil, então. — Observei as três registrarem o insulto ao mesmo tempo. Ayet se recuperou rapidamente.
— Você parece acreditar que somos suas inimigas — ela disse. — Mas podemos te ajudar. Sabe onde estamos? — Ela não esperou uma resposta. — Este é o zoológico onde Nadira, esposa do sultão, encontrou o djinni que lhe deu uma criança-demônio. — Ela era a mãe de Ahmed e Delila. Todo mundo conhecia a história. Nadira perambulava pelos jardins do palácio quando encontrou um sapo que tinha pulado acidentalmente dentro de uma das gaiolas e não conseguia sair.
Olhei de relance para os pássaros.
Na história, as aves o haviam bicado incansavelmente. Nadira se apiedara da criatura e, abrindo a gaiola, estendera a mão para pegá-la, sem se importar com as bicadas nas mãos, que a deixaram com arranhões e sangrando. Assim que ela depositou o sapo no chão, ele assumiu sua forma verdadeira de djinni.
— Eis a questão. — Ayet e suas garotas me cercaram como uma matilha de predadores. — Garotas que não encontram seu lugar no harém não duram muito tempo. O sultim gosta de garotas mirajins. — Ayet me acertou no peito com força surpreendente, me derrubando em direção à gaiola mais próxima. Um dos tigres levantou a cabeça, curioso. — Mas ele só tem espaço para três de nós. Então, quando uma nova chega, outra tem de ir embora. E nenhuma de nós quer desaparecer. O que significa que você não tem um propósito aqui.
— Não tenho interesse nenhum no seu marido idiota. — Queria torcer a mão dela, mas não podia. O sultão tinha me dado ordens. Não havia como lutar.
Ayet não parecia convencida.
— Sabe o que mais aconteceu aqui? Foi aqui que o sultão matou Nadira depois que ela deu à luz uma abominação. — A garota deu um passo na minha direção. — Ninguém consegue ouvir os gritos aqui, por causa dos pássaros. — De fato, os pássaros nas gaiolas estavam fazendo uma algazarra enorme, abafando qualquer outro som. — Vá em frente. Grite por ajuda.
— Você deveria deixar a garota em paz. — A voz não era forte. Soou como um pio em meio ao coro de pássaros de penas selvagens. Mas era alta o suficiente para ser ouvida. Vinha da menina com o elefante de brinquedo. Ela observava tudo do outro lado da gaiola. Seus olhos estavam arregalados de medo. Mesmo assim, tinha se manifestado.
Ayet sorriu com desdém, mas não soltou nenhum insulto.
— Isso é assunto nosso, Leyla. O sultão não escolhe uma nova esposa há uma década, o que significa que ela está aqui para nosso abençoado esposo, o sultim, não seu pai.
— Tem certeza? — Leyla levantou meio hesitante, segurando o elefante de barro como uma criança pequena. — Posso simplesmente perguntar a ele.
Evocar o sultão era como pronunciar uma palavra mágica. Do tipo que conjurava espíritos poderosos e abria portas em rochedos. Bastou Leyla mencioná-lo e era como se ele estivesse lá.
Ayet foi a primeira a recuar. Ela revirou os olhos, como se quisesse que eu pensasse que não valia seu tempo, então nos deu as costas.
— Considere isso um aviso. — Ayet jogou as palavras sobre o ombro enquanto desfilava para longe. Observei-a partir, furiosa. Odiando o fato de não poder quebrar o nariz dela como gostaria.
Do outro lado do zoológico, Leyla continuou a mexer no brinquedo em suas mãos, distraída.
— Você vai se acostumar com elas. — Isso não estava nos meus planos. Ia escapar de lá antes disso.


Desde minha chegada ao harém, permanecia nos meus aposentos quando não estava procurando um jeito de escapar. As serviçais me levavam roupas limpas, uma bacia para me lavar e comida, parecendo prever o que eu precisava sem que eu jamais precisasse dizer uma palavra. Mas, naquela noite, a refeição não veio.
Foi difícil não pensar que Ayet tinha algo a ver com isso. Só porque não podia me despedaçar como um animal selvagem não significava que não ia me fazer sofrer por conta do meu suposto desejo pelo sultim. A última coisa de que precisava era outro príncipe na minha vida. Já era difícil lidar com os dois que conhecia.
Esperei até ficar escuro do lado de fora antes de finalmente ceder ao meu estômago que roncava. Não era teimosa a ponto de morrer de fome.
As mulheres estavam espalhadas pelo jardim onde a refeição era servida, sentadas em grupos fechados em torno de pratos que dividiam. Tão fechados que seria impossível abrir caminho por um deles para chegar até a comida. Era como se estivesse subitamente de volta à minha primeira noite no acampamento rebelde, quando não sabia o nome de ninguém. Quando era uma intrusa. Só que tinha Shazad e Bahi para me guiar.
Identifiquei Leyla, a única pessoa sentada sozinha. Parecia que ela tinha quase terminado de fazer o elefante de brinquedo, o barro modelado estava tomando forma em torno das juntas articuladas de metal. Enquanto a observava, deu corda em uma pequena chave nas costas do brinquedo. Ele marchou com passos violentos e abruptos em direção a uma das crianças pequenas sentadas ao lado de um amontoado de mulheres ali perto. O garotinho tentou pegar o brinquedo todo animado, mas sua mãe o arrancou do chão, colocando-o no colo e derrubando o elefante.
A expressão de alegria que tinha surgido no rosto de Leyla desapareceu, e ela abaixou a cabeça. Uma garota como aquela seria devorada no deserto. Por outro lado, uma garota do deserto podia ser devorada no lugar a que ela pertencia.
Peguei o brinquedo, caído inútil no chão, as pernas ainda se sacudindo. Estendi a mão e o ofereci a ela. Leyla me encarou com olhos que pareciam ocupar seu rosto inteiro.
— Você me ajudou hoje no zoológico. — Ela continuou me encarando fixamente. Queria dizer que podia cuidar de mim mesma. Aquilo seria verdade se eu não estivesse presa por uma centena de minúsculos pedaços de metal enfiados sob a pele. — Obrigada.
Leyla assentiu com a cabeça e pegou o brinquedo. Sentei ao lado dela sem esperar um convite. Não tinha nenhum outro lugar aonde ir. Estava sendo gentil com ela porque precisava de aliadas no harém. Foi o que disse a mim mesma. Não porque seus olhos grandes e perdidos me lembravam Delila.
Ayet e suas duas parasitas estavam em um grupo não muito longe. Ondas de desdém emanavam delas mesmo à distância. Quando me pegaram olhando de volta, Ayet sussurrou algo para Mouhna. As duas caíram na gargalhada, como galinhas cacarejando.
— Elas têm medo de você — Leyla disse. — Acham que vai tomar o lugar delas ao lado de Kadir e que vão desaparecer.
Dei um riso de escárnio.
— Acredite, não tenho qualquer interesse no seu irmão.
Uma serviçal apareceu e me entregou um prato repleto de carnes com um cheiro bom. Meu estômago roncou de satisfação.
— Ele não é meu irmão. — Leyla trincou a mandíbula. — Bom, de certo modo é. Somos filhos do meu aclamado pai, o sultão. Mas no harém as únicas pessoas que chamamos de irmão ou irmã são aquelas com quem compartilhamos a mesma mãe. Eu só tenho um irmão, Rahim. Ele não está mais no harém. — Ela soava distante.
— E sua mãe? — perguntei.
— Era filha de um engenheiro gamanix. — Leyla revirou o pequeno brinquedo nas mãos. Jin tinha me contado sobre aquele país. Era onde as bússolas sincronizadas que ele e Ahmed sempre carregavam tinham sido feitas. Um país que aprendera a fundir mágica e máquinas. Aquilo explicava a habilidade de Leyla para fazer pequenos brinquedos mecânicos.
— Ela desapareceu quando eu tinha oito anos de idade. — A menina disse isso com tanta calma que me pegou desprevenida.
— Como assim “desapareceu”? — perguntei.
— Ah, isso acontece no harém — Leyla disse. — Mulheres desaparecem quando perdem a utilidade. É por isso que Ayet tem tanto medo de você. Ela não foi capaz de conceber um filho para o sultim. Se tomar o lugar dela, Ayet poderia desaparecer que nem as outras. Acontece todo dia.
Dei uma mordida na comida distraidamente enquanto ouvia Leyla falar. O sabor atingiu minha língua como uma brasa, incendiando minha boca. Meus olhos se encheram de lágrimas e cuspi a comida na grama, tossindo violentamente.
— Não aprecia nossa culinária refinada? — Mouhna gritou do outro lado do jardim. Ao seu lado, Ayet e Uzma estavam se dobrando de tanto rir. Ela colocou um pedaço de pão na boca e fez biquinho para mim enquanto o saboreava. — Um presente da abençoada sultima.
Leyla pescou algo vermelho do meu prato e torceu o nariz.
— Pimenta suicida — ela disse, arremessando-a na grelha mais próxima.
— O que é isso? — Eu ainda estava tossindo. Leyla colocou um copo nas minhas mãos. Engoli tudo em poucos goles, aliviando a ardência na língua.
— É uma especiaria estrangeira. Meu pai tenta manter fora do harém, mas ela é… — Leyla lambeu os próprios lábios, nervosa. — Algumas garotas aqui a usam para… Para escapar. — Levou um instante para eu me dar conta do que ela queria dizer. Pimenta suicida.
Então algumas pessoas tinham encontrado uma forma de fugir. Não era o tipo de libertação que eu tinha planejado. Mas se a pimenta vinha de fora, tinha que haver um jeito de tirar coisas dali também. Talvez sussurros pudessem atravessar aquelas paredes.
— Quem é a abençoada sultima? — Ela já havia sido mencionada antes. Quando chegara ali. Nos banhos.
— A primeira esposa do sultim. — Leyla levantou a cabeça, surpresa. — Bem, não a primeira que ele escolheu. Kadir tomou Ayet como esposa um dia após vencer os jogos. Mas a abençoada sultima é a única que foi capaz de conceber um filho.
Elas deviam odiá-la. Minha tia Farrah odiava Nida, a esposa mais jovem do meu tio.
Mas seu lugar como primeira esposa já havia sido garantido por três filhos. Era Nida quem tinha que beijar os pés dela para conseguir qualquer coisa. Podiam estar falando do sultim, e não de um comerciante de cavalos do deserto, mas ainda eram apenas esposas ciumentas. E eu entendia como aquelas coisas funcionavam. A primeira esposa era a mulher mais poderosa do lar — naquele caso, do harém.
— E onde ela está?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!