29 de outubro de 2018

Capítulo 16

Darrow esperava a cavalo no alto de uma colina quando o exército finalmente chegou ao anoitecer. Um dia inteiro de marcha, a neve e o vento chicoteando-os por cada maldito quilômetro.
Aedion, montado em seu próprio cavalo, partiu da coluna de soldados na direção do pequeno acampamento e galopou pela neve coberta de gelo até o velho lorde.
Ele gesticulou com uma mão enluvada para os guerreiros atrás de si.
— Conforme solicitado: chegamos.
Darrow mal olhou para Aedion enquanto observava os soldados que formavam o acampamento. Trabalho exaustivo e brutal depois de um longo dia e uma batalha antes disso, mas eles dormiriam bem esta noite. E Aedion se recusaria a movê-los no dia seguinte. Talvez no depois desse também.
— Quantas perdas?
— Menos de quinhentos.
— Bom.
Aedion se arrepiou com a aprovação. Não era o exército de Darrow, nem mesmo de Aedion.
— O que você queria para nos fazer vir para cá tão rapidamente?
— Eu queria discutir a batalha com você. Ouvir o que aprendeu.
Aedion rangeu os dentes.
— Escreverei um relatório para você, então. — Ele juntou as rédeas, preparando-se para levar seu cavalo de volta ao acampamento. — Meus homens precisam de abrigo.
Darrow assentiu com firmeza, como se não tivesse consciência da exaustiva marcha que exigira.
— Nos reunimos ao amanhecer. Envie a mensagem aos outros lordes.
— Envie o seu próprio mensageiro.
Darrow lhe deu um olhar de aço.
— Avise os outros lordes. — Ele examinou Aedion, de suas botas salpicadas de lama até o cabelo sujo. — E descanse um pouco.
Aedion não se incomodou em responder enquanto instigava seu cavalo em um galope, o garanhão voando pela neve sem hesitação. Um animal bom e orgulhoso que o servira bem.
Aedion semicerrou os olhos para a neve que atingia seu rosto. Eles precisavam construir um abrigo – e rápido.
Ao amanhecer, ele iria ao encontro de Darrow. Com os outros lordes.
E Aelin a reboque.


Trinta centímetros de neve caíram durante a noite, cobrindo as tendas, apagando as fogueiras e colocando soldados para dormir ombro a ombro para conservar o calor.
Lysandra tremia em sua tenda, apesar de estar enrolada em sua forma de leopardo fantasma perto do braseiro, e acordara antes do amanhecer simplesmente porque dormir se tornara inútil.
E por causa da reunião que estava a alguns momentos de acontecer. Ela caminhou em direção à grande tenda de guerra de Darrow, Ansel de Penhasco dos Arbustos a seu lado, as duas agasalhadas contra o frio. Misericordiosamente, a manhã gelada manteve qualquer conversa entre elas a um mínimo. Não havia motivos para falar quando o próprio ar gelava seus dentes ao ponto de doer.
Os príncipes feéricos de cabelos prateados entraram logo antes delas, o Príncipe Endymion dando a ela – a Aelin – uma cortesia de cabeça.
Esposa do primo. Era o que ele acreditava que ela era. Além de rainha. Endymion nunca sentira o cheiro Aelin, não saberia que o estranho cheiro da metamorfa estava errado.
Graças aos deuses por isso.
A tenda de guerra estava quase cheia, senhores, príncipes e comandantes se reunindo em torno do espaço no centro, todos estudando o mapa do continente pendurado em uma das abas da parede. Alfinetes se projetavam de sua grossa tela para marcar vários exércitos.
Tantos, tantos, agrupados no sul. Bloqueando a ajuda de quaisquer aliados além das linhas de Morath.
— Ela finalmente retorna — uma voz fria cicou.
Lysandra convocou um sorriso preguiçoso e entrou no centro da sala, Ansel permanecendo perto da entrada.
— Ouvi dizer que perdi um pouco de diversão ontem. Imaginei que voltaria antes de perder a chance de matar alguns valg inferiores.
Algumas risadas, mas Darrow não sorriu.
— Eu não me lembro de você ter sido convidada para esta reunião, Vossa Alteza.
— Eu a convidei — falou Aedion, caminhando para o limite do grupo. — Uma vez que ela está tecnicamente lutando na Devastação, eu fiz dela minha segunda em comando. — E assim merecedora de estar aqui.
Lysandra se perguntou se mais alguém podia ver o indício de dor no rosto de Aedion – dor e nojo da rainha impostora que se agitava entre eles.
— Sinto pelo desapontamento — ela sussurrou para Darrow.
Darrow apenas se voltou para o mapa enquanto Ravi e Sol entraravam. Sol deu um aceno respeitoso a Aelin, e Ravi lançou-lhe um sorriso. Aelin piscou para ele antes de encarar o mapa.
— Depois da derrota de Morath ontem sob o comando do general Ashryver — disse Darrow — acredito que devemos posicionar nossas tropas em Theralis e preparar as defesas de Orynth para um sítio.
Os lordes mais velhos – Sloane, Gunnar e Ironwood – grunhiram de acordo.
Aedion balançou a cabeça, sem dúvida já antecipando isso.
— Anunciar a Erawan que estamos fugindo e nos afastando demais de qualquer potencial aliado do sul.
— Em Orynth — falou Lorde Gunnar, mais velho e mais grisalho que Darrow e duas vezes pior — temos muros que podem resistir àquelas catapultas.
— Se eles trouxerem aquelas torres de bruxa — interveio Ren Allsbrook — então até as paredes de Orynth vão desmoronar.
— Ainda precisamos ver evidências dessas torres de bruxas — retrucou Darrow. — Além da palavra de um inimigo.
— Um inimigo que se tornou aliado — disse Aelin – Lysandra. Darrow cortou-lhe um olhar desagradável. — Manon Bico Negro não mentiu. Nem suas Treze estavam ao lado de Morath quando lutaram ao nosso lado.
Um aceno de cabeça dos príncipes feéricos, de Ansel.
— Contra Maeve — zombou Lorde Sloane, um homem magro como junco, de rosto duro e nariz adunco. — Essa batalha foi contra Maeve, não Erawan. Elas teriam feito o mesmo contra sua própria espécie? Bruxas são leais até a morte e mais hábeis do que raposas. Manon Bico Negro e seu coven podem muito bem ter tomado vocês por tolos desesperados e dado a informação errada.
— Manon Bico Negro se virou contra a própria avó, a Grã-Bruxa do Clã Bico Negro — falou Aedion, sua voz descendo para um rosnado perigoso. — Não acho que as lascas de ferro que encontramos no ferimento de seu abdômen fossem mentira.
— Novamente — disse Lorde Sloane — essas bruxas são astuciosas. Farão qualquer coisa.
— As torres de bruxa são reais — disse Lysandra, deixando que a voz fria e imperturbável de Aelin enchesse a tenda. — Não desperdiçarei meu fôlego provando sua existência. Nem arriscarei Orynth ao poder delas.
— Mas você arriscaria as cidades fronteiriças? — desafiou Darrow.
— Eu pretendo encontrar uma maneira de inutilizar as torres antes que elas possam passar o sopé — ela falou. E rezou para que Aedion tivesse um plano.
— Com o fogo que você exibiu tão magnificamente — disse Darrow com igual suavidade.
Ansel de Penhasco dos Arbustos respondeu antes que Lysandra pudesse pensar em uma mentira adequadamente arrogante.
— Erawan gosta de fazer seus pequenos jogos mentais, de despertar o medo. Deixe-o pensar e se preocupar porque Aelin ainda não usou o dela. Contemplar se ela está guardando para algo grandioso. — Uma piscadela maliciosa para ela. — Eu espero que seja terrível.
Lysandra deu à rainha um sorriso felino.
— Ah, será.
Ela sentiu o olhar de Aedion, a agonia bem escondida e preocupação. Mas o general disse:
— Eldrys deveria reduzir nossos números, nos fazer duvidar da sabedoria de Morath ao enviar seus inferiores para cá. Quer que nós o subestimemos. Se nos movermos para a fronteira, teremos os contrafortes para retardar seu avanço. Nós conhecemos esse terreno; ele não. Podemos usá-lo a nosso favor.
— E se ele cortar por Carvalhal? — Lorde Gunnar apontou para a estrada que passava por Endovier. — E então?
Ren Allsbrook respondeu desta vez.
— Então nós conhecemos esse terreno também. Carvalhal não tem amor por Erawan ou suas forças. Sua fidelidade é para Brannon. E seus herdeiros. — Um olhar para ela, frio e ainda assim, aquecendo. Levemente.
Ela ofereceu ao jovem lorde uma sugestão de sorriso. Ren ignorou, encarando o mapa novamente.
— Se nos movermos para a fronteira — disse Darrow — corremos o risco de ser exterminados, deixando Perranth, Orynth e todas as cidades e cidades deste reino à mercê de Erawan.
— Há argumentos para ambos — o príncipe Endymion falou, dando um passo à frente. O mais velho entre eles, apesar de não parecer ter passado dos vinte e oito anos. — Seu exército continua pequeno demais para se arriscar a se dividir ao meio. Todos devem ir para o sul ou para o norte.
— Eu votaria sul — disse a princesa Sellene, prima de Endymion. Prima de Rowan. Ela estivera curiosa sobre Aelin, Lysandra podia dizer, mas ficara longe. Como se hesitasse em forjar um vínculo quando a guerra podia destruir todos eles. Lysandra se perguntara mais de uma vez o que na longa vida da princesa a tornara assim – cautelosa e solene, mas não totalmente indiferente. — Há mais rotas para escapar, se for necessário. — Ela apontou um dedo bronzeado para o mapa, seu cabelo prateado trançado brilhando entre as dobras de seu pesado manto esmeralda. — Em Orynth, suas costas estarão contra as montanhas.
— Há caminhos secretos pela Galhada do Cervo — Lorde Sloane falou, totalmente sereno. — Muitos dos nossos usaram-nos há dez anos.
E assim foi. Debatendo e discutindo, vozes subindo e descendo. Até que Darrow chamasse uma votação – entre os seis lordes de Terrasen apenas. Os únicos líderes oficiais deste exército, aparentemente.
Dois deles, Sol e Ren, votaram para a fronteira. Quatro deles, Darrow, Sloane, Gunnar e Ironwood, votaram em moverem-se para Orynth.
Darrow disse simplesmente, quando o silêncio caiu:
— Se nossos aliados não quiserem arriscar nosso plano, podem partir. Nós não os seguraremos.
Lysandra quase começou a falar com isso.
Aedion rosnou, mesmo quando a preocupação brilhou em seus olhos. Mas o Príncipe Galan, que ficara quieto e vigilante, um ouvinte, apesar de seus sorrisos frequentes e da ousada luta no mar e na terra, deu um passo à frente. Olhou direto para Aelin, seus olhos – os olhos deles – brilhando.
— Que pobres aliados seríamos, de fato — falou ele, com seu sotaque de Wendlyn rico e ondulante — se abandonássemos nossos amigos quando as escolhas deles se desviassem das nossos. Nós prometemos nossa ajuda nesta guerra. Wendlyn não voltará atrás.
Darrow ficou tenso. Não pelas palavras, mas pelo fato de que elas foram dirigidas a ela. A Aelin.
Lysandra inclinou a cabeça, colocando a mão em seu coração.
O Príncipe Endymion levantou o queixo.
— Fiz um juramento ao meu primo, seu consorte — disse ele, e os outros senhores se arrepiaram. Como Aelin não era rainha, o título de Rowan ainda não era reconhecido por eles. Apenas pelos outros senhores, parecia. — Já que eu duvido ser bem-vindo em Doranelle novamente, gostaria de pensar que talvez esta seja nossa nova casa, se tudo estiver bem.
Aelin teria concordado.
— Você é bem vindo aqui – todos vocês. Pelo tempo que desejarem.
— Você não está autorizada a fazer tais convites — disparou Lorde Gunnar.
Nenhum deles se incomodou em responder. Mas Ilias dos Assassinos Silenciosos fez um aceno solene que expressou sua concordância em ficar, e Ansel de Penhasco dos Arbustos apenas piscou de novo para Aelin e disse:
— Eu vim até aqui para ajudá-la a transformar aquele bastardo em pó. Não vejo por que ir para casa agora.
Lysandra não fingiu a gratidão que apertou sua garganta quando se curvou aos aliados que sua rainha havia reunido.
Um jovem alto de cabelos escuros entrou na tenda, os olhos cinzentos percorrendo a companhia reunida. Eles se arregalaram quando a viram... viram Aelin. Se arregalaram, então olhou para Aedion como se para confirmar. Ele percebeu o cabelo dourado, os olhos de Ashryver, e empalideceu.
— O que é isso, Nox — rosnou Darrow.
O mensageiro endireitou-se e correu para o lado do lorde, murmurando algo em seu ouvido.
— Mande-o entrar — foi a única resposta de Darrow.
Nox saiu, gracioso apesar de sua altura, e um homem mais baixo e pálido entrou.
Darrow estendeu a mão para a carta.
— Você tem uma mensagem de Eldrys?
Lysandra sentiu o cheiro do estranho no mesmo momento em que Aedion. Um momento antes de o estranho sorrir e dizer:
— Erawan manda seus cumprimentos. — E desencadear uma rajada de vento negro direto sobre ela.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!