5 de outubro de 2018

Capítulo 16

EU TINHA VALOR.
Por isso ainda estava viva.
Por isso ele parara a faca.
Ia ser mantida no harém. Foi isso que o sultão disse. Mantida. Não como prisioneira. Estava mais para uma arma particularmente bem construída. Guardada até ser necessária de novo.
Outras ordens foram dadas enquanto eu era passada para uma criada com khalat da cor da areia clara, com o cabelo escuro preso em um sheema. Como se ela tivesse que se preocupar com o sol do deserto nos corredores sombreados do palácio.
— Você permanecerá aqui — o sultão instruiu calmamente. Eu queria lutar, mas ainda que minha mente pudesse se rebelar, meu corpo não podia. — Não ultrapassará as paredes do harém sem permissão de um membro do palácio. — Ele entendia os demdjis muito bem. Escolhia as palavras com cautela. “Não saia do harém” era mais efetivo do que “Não tente escapar”. Tentar e conseguir eram coisas diferentes para um demdji.
Eu tinha olhado para trás uma última vez quando o sultão ordenou que saísse das catacumbas. Para Bahadur. Meu pai — embora aquilo soasse estranho. Ele nos observou partir, sentado dentro do pequeno círculo. A escuridão o cercou enquanto nossa lâmpada se afastava, mas eu ainda podia vê-lo bem depois do que deveria ser possível. Como se queimasse em seu próprio fogo, mesmo em forma humana. Ele era mil vezes mais poderoso do que eu. Tinha vivido incontáveis vidas antes de eu nascer.
Mas estava igualmente preso ali. Que esperança eu tinha de escapar se nem ele podia?
— E você não machucará ninguém aqui. Nem você mesma. — Ele estava preocupado com a possibilidade de suicídio. Achava que eu tentaria escapar de suas garras mergulhando no esquecimento. Eu não queria saber o que tinha planejado para mim, tão ruim a ponto de tornar a morte uma opção melhor. — Mas se eu for ferido, se eu morrer, você vai caminhar até a torre mais alta deste palácio e se jogar de lá. — Se ele morresse, eu também morreria.
Uma dúzia de outras ordens foram enraizadas nos meus ossos enquanto eu era conduzida por outros corredores de mármore polido pela mulher. Minhas pernas obedeceram às últimas palavras do sultão:
— Vá com ela. Faça o que mandar.
Passamos sob um arco baixo de pedra. Havia imagens de dançarinas talhadas na rocha. Nem tínhamos avançado muito e senti o vapor no ar, o cheiro enjoativo de flores e especiarias já começando a envolver meu corpo. Tão inebriante quanto bebida depois de passar tanto tempo no deserto ressecado.
Chegamos aos banhos mais gigantescos que eu já conhecera. A sala tinha azulejos iridescentes azuis, rosa e amarelos em padrões de mosaicos hipnóticos e fantásticos, cobrindo tudo do chão ao teto. O vapor que emanava das piscinas aquecidas deixava tudo com uma camada escorregadia, das paredes às garotas.
E havia muitas delas.
Eu já tinha escutado histórias sobre o harém do sultão, onde as mulheres eram mantidas para o prazer dele e do sultim. E para gerarem futuros príncipes para lutar pelo trono e princesas para serem vendidas por alianças políticas. Ali estavam elas, passando sabão em círculos longos e lânguidos nos ombros nus ou flutuando na beira da água, de olhos fechados enquanto serviçais passavam óleos em seus cabelos.
Algumas estavam deitadas em camas ali perto, as pernas longas massageadas por mãos capazes enquanto cochilavam.
A serviçal começou a me despir sem falar nada, desfazendo os minúsculos fechos da frente do khalat de Shazad enquanto eu observava. Deixei que fizesse seu trabalho.
E então vi um homem. Ele parecia uma raposa no galinheiro. Uma raposa faminta.
Estava deitado em uma cama, apoiado em uma pilha de travesseiros, com o peito descoberto. Era provavelmente um ou dois anos mais velho do que eu e parecia uma estátua esculpida em rocha, com feições pesadas e quadradas sem nenhuma sutileza ou graciosidade para compensar. Deveria ser bonito, mas o modo como sua boca formava um sorriso cruel jamais permitiria que fosse.
Três garotas mirajins lindas de morrer o emolduravam, enroladas apenas em longos lençóis de linho, os cabelos negros compridos caindo em ondas molhadas e espessas em torno dos ombros nus. Uma delas estava sentada aos seus pés, balançando lentamente as pernas na água quente, apoiada no joelho de uma garota mais magra ao lado dele. A última estava deitada com a cabeça no colo do homem, com os olhos fechados enquanto ele passava os dedos pelo cabelo dela distraidamente, e um biquinho sedutor nos lábios.
Sua atenção não estava em nenhuma delas, no entanto. Estava fixa nas duas garotas de pé à sua frente, completamente nuas, sendo inspecionadas minuciosamente por uma serviçal. Parecia que as serviçais estavam procurando qualquer falha que pudesse impedir que elas se juntassem àquele mundo de mulheres lindas e perfeitas. Enquanto a mulher que tinha retirado meu khalat me enrolava em um lençol simples de linho, me dei conta de que reconhecia aquelas duas, embora minha mente cansada demorasse um tempo para lembrar de onde. Elas haviam sido trazidas no navio comigo para serem oferecidas ao harém pelos traficantes.
O que teria acontecido com as garotas rejeitadas? Haviam sido vendidas para outros homens de casas menos prestigiosas? Ou os rumores eram verdadeiros e os traficantes as afogavam?
Como se sentisse meu olhar, a garota menor, colada ao homem, olhou na minha direção. Alguma coisa mudou em sua expressão, e ela se inclinou para sussurrar algo para a garota deitada no colo dele. Aquela com o biquinho. Seus olhos abriram subitamente, focando em mim tão rápido que ficou claro como o dia que só estava fingindo dormir. Ela entortou a boca, pensativa, torcendo o corpo para conseguir sussurrar algo para as outras. O riso resultante ecoou nos azulejos à minha volta.
Isso fez o homem voltar sua atenção para mim.
— Você é nova — ele disse, enquanto as outras tentavam ocultar seus sorrisos.
Odiei sua voz imediatamente. Ele falava como se estivesse saboreando as palavras, que por sua vez me faziam sentir um gosto ruim.
— Você devia se curvar perante o sultim. — A garota de biquinho bocejou, esticando-se ao longo do corpo dele como um gato no sol. Então aquele era o sultim, o primogênito do sultão. Príncipe Kadir. Herdeiro do trono pelo qual lutávamos. O filho que tinha enfrentado Ahmed no último desafio dos jogos.
Fazia muito tempo que príncipes não me impressionavam mais. Nos últimos dias eu tinha beijado um e gritado com outro. Mas aquele era meu inimigo.
Não me curvei enquanto as serviçais desenrolavam cuidadosamente minhas ataduras, ciente dos olhos do homem em mim, apreciando minha pele sendo exposta.
Havia vergões vermelhos feios onde o ferro tinha sido inserido. As garotas caíram na risada quando eles apareceram.
— Talvez ela tenha sido feita pelo alfaiate Abdul, meu amor — a garota do biquinho disse, me estudando. As outras duas deram risadinhas.
Aquilo doeu.
“O alfaiate Abdul” era uma história sobre um homem exigente demais quanto às esposas. Ele casou com a primeira porque seu rosto era adorável. Casou com a segunda porque seu corpo era desejável. Casou com a terceira porque tinha um bom coração. Mas ele reclamava que a primeira era cruel, a segunda tinha um rosto esquisito e a terceira tinha um corpo repulsivo.
Então contratou o alfaiate Abdul para criar a esposa perfeita. O talentoso homem cumpriu a ordem sem objeção. Costurou a cabeça da primeira esposa no corpo da segunda, então costurou o coração da terceira nesse corpo com tal habilidade que nem deixou cicatrizes. O que sobrou das mulheres foi jogado fora, no deserto. No final, as esposas conseguiram sua vingança, quando o marido foi comido vivo por um andarilho vestindo os pedaços descartados das mulheres.
Interrompi o movimento instintivo da minha mão em direção às marcas nos braços.
Eu era uma demdji, uma rebelde, a Bandida de Olhos Azuis. Já enfrentara coisa muito pior do que algumas garotas mimadas.
Mas Kadir apenas sorriu.
— Então ela foi feita sob medida para mim.
— Parece mais que ele a fez para ser exibida no zoológico — outra garota disse, sem entender que o sultim tirava sarro. — Ou talvez tenha confundido os braços dela com os de um macaco. — As risadinhas viraram gargalhadas. Mas as garotas tinham perdido a atenção do sultim. Ele deu um impulso para levantar e quase derrubou a garota em seu colo.
— Você parece mirajin. — O tom de interesse em sua voz soava perigoso enquanto ele cruzava a curta distância entre nós. — É tão raro me trazerem garotas mirajins. E seu tipo é o meu favorito. Você é da parte ocidental, imagino. — Não respondi. Não parecia que ele precisava de confirmação. Kadir segurou meu queixo e inclinou meu rosto para iluminá-lo melhor, me estudando como um mercador faria com um cavalo. Eu o teria golpeado, mas as ordens do sultão mantinham minhas mãos atadas ao lado do corpo. — Pelo menos a rebelião do meu irmão serve para alguma coisa. Guerras significam mais prisioneiros.
Fazia tempo que o harém era um lugar perigoso. Eu tinha ouvido falar que, nos dias do pai do sultão Oman, algumas mulheres iam até ele por livre e espontânea vontade.
Mas a maior parte eram prisioneiras de guerra. Escravas trazidas de terras estrangeiras. Mulheres capturadas em navios, como a mãe de Jin. Agora tínhamos uma guerra em Miraji. Isso significava que mais traficantes aproveitariam o caos para capturar mulheres do país.
— A abençoada sultima já viu você? — a garota que estivera no colo do sultim disse, tentando chamar atenção.
— Todas as garotas novas precisam ser vistas pela sultima — a pequena consorte concordou, como se estivesse repetindo algo que outra pessoa dissera.
— Sim, ela precisa considerar você merecedora — intrometeu-se a garota que estivera aos pés dele, ansiosa para agradar.
— Ou não merecedora. — A garota do biquinho sorriu com o canto da boca.
— Calada, Ayet, não há necessidade de perturbar a sultima. — A mão do sultim deixou meu rosto e viajou pelo meu pescoço e minha clavícula, fazendo minha pele se arrepiar de repulsa.
— Ela está fora de questão — a serviçal que estava comigo disse assim que a mão de Kadir chegou à borda do lençol de linho branco que me cobria. Usara o tom abrupto de uma mãe impaciente. O sultim abriu a boca para contestar, mas foi interrompido por ela. — Ordens do seu pai.
A menção ao sultão parou a mão de Kadir. Por um instante, ele pareceu arder em rebeldia. Até que a revolta passou, e o sultim deixou o braço cair e deu de ombros, passando por mim com um leve toque, como se tivesse planejado aquilo desde o princípio. As garotas se levantaram juntas e o seguiram. Ayet olhou para baixo enquanto passava, observando o khalat de Shazad jogado no chão. Tão fino alguns dias antes, no casamento. Antes de sermos atacados. Antes de eu ser beijada, sequestrada e retalhada. Mas ainda lindo. Seu pé esquerdo fisgou o tecido e o arremessou em uma das piscinas, encharcando-o.
— Ops. — Ayet sorriu para mim com os dentes cerrados. — Desculpe. — Algumas gotas do seu cabelo respigaram em mim ao partir. Em seguida, um surto de risadinhas e sussurros ecoou pelas paredes.
Senti a nuca esquentando.
Quando Ahmed tomasse aquele palácio, eu queimaria o harém inteiro.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!