29 de outubro de 2018

Capítulo 15

Ela era uma mentirosa e uma assassina, e provavelmente teria que ser os dois novamente antes que isso terminasse.
Mas Manon não se arrependia do que fizera. Não havia espaço para arrependimento. Não com o tempo rugindo sobre eles, não com tanto peso em seus ombros.
Durante longas horas, enquanto trabalhavam para arrumar o acampamento e curar as Crochans, Manon monitorava os céus gelados.
Oito mortos. Poderia ter sido pior. Muito pior. Embora ela levasse as vidas daquelas oito Crochans consigo, aprendesse seus nomes para que ela pudesse se lembrar deles.
Manon passou a longa noite ajudando as Treze a puxar as serpentes aladas caídas e as cavaleiras Dentes de Ferro até outro cume. O chão era duro demais para enterrá-las, e as piras seriam facilmente vistas, por isso optaram pela neve. Ela não se atreveu a pedir a Dorian para usar seu poder para ajudá-las.
Vira o olhar em seus olhos. Que ele sabia.
Manon soltou um corpo rígido de Pernas Amarelas, os lábios da sentinela já azuis, uma crosta de gelo em seu cabelo loiro. Asterin puxou uma cavaleira corpulenta pelas botas, depois depositou a bruxa com pouca cerimônia.
Mas Manon olhava para os rostos mortos. Ela os sacrificara também. Ambos os lados deste conflito. Suas duas linhagens de sangue. Tudo sangraria; muitos morreriam.
Glennis as teria recebido? Talvez, mas as outras Crochans não pareciam tão inclinadas a fazê-lo.
E permanecia o fato que eles não tinham tempo a perder em conquistá-las.
Então ela escolheu o único método que conhecia: a batalha. Tinha saído sozinha mais cedo naquele dia, para onde ela sabia que Dentes de Ferro estariam patrulhando nas proximidades, esperou até que o grande vento do norte carregasse seu cheiro para o sul. E então esperou seu tempo.
— Você a conhecia? — Asterin perguntou quando Manon permaneceu olhando para o corpo de uma sentinela caída. Mais abaixo, as serpentes aladas usavam suas asas para empurrar grandes montes de neve sobre os cadáveres.
— Não — disse Manon. — Não conhecia.
A aurora chegava na hora em que voltavam para o acampamento Crochan. Os olhos que tinham cuspido fogo horas antes agora as observavam cautelosamente, menos mãos pousavam em armas enquanto miravam a enorme fogueira central. A maior do acampamento e localizada em seu coração. O coração de Glennis.
A velha estava de pé diante dela, aquecendo as mãos retorcidas e sujas de sangue.
Dorian sentava-se perto, e seus olhos de safira mostraram-se condenatórios quando ele encontrou o olhar de Manon.
Mais tarde. Essa conversa viria depois.
Manon se deteve a poucos passos de distância de Glennis, as Treze se posicionando na periferia da fogueira, examinando as cinco tendas em volta, o caldeirão borbulhando em seu centro. Atrás deles, as Crochans continuavam seus reparos e curas – e mantinham um olho em todos eles.
— Coma alguma coisa — ofereceu Glennis, apontando para o caldeirão borbulhante. Para o que cheirava como ensopado de cabra.
Manon não se incomodou em fazer objeções antes de obedecer, pegando uma das pequenas tigelas de barro ao lado do fogo. Outra maneira de demonstrar confiança: comer sua comida. Aceitá-la.
Então Manon o fez, devorando algumas colheradas antes de Dorian seguir sua liderança e fazer o mesmo. Quando os dois estavam comendo, Glennis sentou-se numa pedra e suspirou.
— Já se passaram mais de quinhentos anos desde que uma bruxa Dentes de Ferro e uma Crochan compartilharam uma refeição. Desde que eles procuraram trocar palavras de paz. Interrompidos, talvez, apenas por sua mãe e seu pai.
— Acho que sim — disse Manon suavemente, pausando sua refeição.
A boca da velha se contorceu na direção de um sorriso, apesar da batalha, da noite exausta.
— Eu era a avó de seu pai — ela esclareceu finalmente. — Eu mesma carreguei seu avô, que teve uma parceira Rainha Crochan, que morreu dando à luz a seu pai.
Outra coisa que herdaram dos feéricos: sua dificuldade em conceber e a natureza mortal do parto. Um modo de a Deusa de Três Faces manter o equilíbrio, de evitar inundar as terras com tantas crianças imortais que devorariam seus recursos.
Manon examinou o acampamento meio destruído, no entanto.
A velha leu sua pergunta em seus olhos.
— Nossos homens permanecessem em nossas casas, onde estão seguros. Este acampamento é um posto avançado enquanto conduzimos nossos negócios. — As Crochans sempre deram à luz a mais machos do que os Dentes de Ferro, e adotaram o hábito dos feérico de selecionar parceiros – senão um verdadeiro vínculo de união, então em espírito. Ela sempre achou estranho e esquisito.
Desnecessário.
— Depois que sua mãe nunca voltou, seu pai foi convidado a se unir a outra jovem bruxa. Ele era o único portador da linhagem Crochan, veja, e se sua mãe e você não tivessem sobrevivido ao parto, acabaria com ele. Ele não sabia o que tinha acontecido com nenhuma de vocês. Se estavam vivas ou mortas. Nem onde procurar. Então ele concordou em fazer o seu dever, concordou em ajudar o seu povo moribundo. — Sua bisavó sorriu tristemente. — Todos que conheceram Tristan o amavam. — Tristan. Esse tinha sido o nome dele. Sua avó sabia disso antes de matá-lo? — Uma jovem bruxa foi escolhida especialmente para ele. Mas ele não a amava – não como a sua mãe, como sua verdadeira companheira, a canção de sua alma. Tristan cumpriu deu dever, no entanto. Rhiannon foi o resultado disso.
Manon ficou tensa. Se a mãe de Rhiannon estivesse aqui...
Novamente, a velha leu a pergunta no rosto de Manon.
— Ela foi morta por uma sentinela Pernas Amarelas nas planícies do rio de Melisande. Anos atrás.
Um lampejo de vergonha passou por Manon ao alívio que a inundou. Por evitar esse confronto, por evitar pedir perdão, como ela deveria fazer.
Dorian largou a colher. Um gesto tão gracioso e casual, considerando como ele havia derrubado aquele serpente alada.
— Como a linhagem Crochan sobreviveu? A lenda diz que eles foram aniquilados.
Outro sorriso triste.
— Você pode agradecer à minha mãe por isso. A filha mais nova de Rhiannon Crochan deu à luz durante o cerco da Cidade das Bruxas. Com nossos exércitos derrubados e apenas as muralhas da cidade para conter as legiões de Dentes de Ferro, e com tantos de seus filhos e netos abatidos e seu cônjuge nas muralhas da cidade, Rhiannon contou aos arautos que tinha sido um natimorto. Assim, as Dentes de Ferro nunca saberiam que uma Crochan ainda poderia estar viva. Naquela mesma noite, pouco antes de Rhiannon começar sua batalha de três dias contra as Grã-bruxas Dentes de Ferro, minha mãe levou a princesa bebê para fora em sua vassoura. — A garganta da anciã tremeu. — Rhiannon era sua amiga mais querida – uma irmã para ela. Minha mãe queria ficar, lutar até o fim, mas foi convencida a fazer isso por seu povo. Nosso povo. Até o dia de sua morte, minha mãe acreditava que Rhiannon ficou para manter os portões contra as Grã-Bruxas como uma distração. Conseguir tirar aquela última Crochan, enquanto as Dentes de Ferro olhavam para o outro lado.
Manon não sabia inteiramente o que dizer, como expressar o que se agitava dentro dela.
— Você vai descobrir — continuou Glennis — que tem alguns primos neste acampamento.
Asterin ficou rígida com isso, Edda e Briar também tensionando-se onde permaneciam na beira do fogo. As parentes de Manon, no lado de Bico Negro de sua herança. Sem dúvida, dispostas a lutar para manter essa distinção por si mesmas.
— Bronwen — disse a anciã, gesticulando em direção ao líder do coven de cabelos escuros com a vassoura enfeitada com ouro, agora examinando Manon e as Treze das sombras além do fogo — é também minha bisneta. Sua prima mais próxima.
Nenhuma gentileza brilhou no rosto de Bronwen, então Manon também não se incomodou em parecer amigável.
— Ela e Rhiannon eram próximas como irmãs — murmurou Glennis.
Foi preciso um esforço considerável para não tocar na tira de capa vermelha no final da trança.
Dorian, que Escuridão abraçasse sua alma, interrompeu:
— Nós viemos encontrá-las por um motivo.
Glennis novamente aqueceu suas mãos.
— Suponho que seja para pedir que participemos desta guerra.
Manon não suavizou seu olhar.
— Sim. Vocês e todas as Crochans que se espalham por estas terras.
Uma dos Crochans nas sombras soltou uma gargalhada.
— Essa é ótima.
Outras riram com ela.
Os olhos azuis de Glennis não vacilaram.
— Nós não reunimos uma tropa desde antes da queda da Cidade das Bruxas. Você pode descobrir que é uma tarefa bem mais difícil do que previu.
— E se a rainha deles os convocar para lutar? — Dorian perguntou.
Neve foi triturada sob passos pesados, e então Bronwen estava lá, seus olhos castanhos brilhando.
— Não responda, Glennis.
Tal desrespeito, tal informalidade par com uma anciã...
Bronwen nivelou seu olhar ardente em Manon.
— Você não é nossa rainha, apesar do que seu sangue possa sugerir. Apesar dessa pequena escaramuça. Nós não respondemos e nunca responderemos a você.
— Morath as encontrou agora mesmo — Manon disse friamente. Ela antecipara essa reação. — Fará isso novamente. Quer seja daqui a alguns meses ou um ano, eles vão encontrá-las. E então não haverá esperança de derrotá-los. — Ela manteve as mãos ao lado do corpo, resistindo à vontade de libertar suas unhas de ferro. — Um exército de muitos reinos se reúne em Terrasen. Juntem-se a eles.
— Terrasen não veio em nosso socorro quinhentos anos atrás — disse outra voz, aproximando-se. A bela bruxa de cabelos castanhos de antes. Sua vassoura também era enfeitada em metal fino – prata em vez do ouro de Bronwen. — Não vejo por que deveríamos nos incomodar em ajudá-los agora.
— Pensei que vocês fossem um bando de fazedores do bem — disse Manon. — Essa certamente seria o seu tipo de atitude.
A jovem bruxa se eriçou, mas Glennis levantou uma mão ressequida.
Não foi o suficiente para impedir Bronwen, no entanto, quando a bruxa olhou para Manon e rosnou:
— Você não é nossa rainha. Nós nunca voaremos com você.
Bronwen e a bruxa mais nova se afastaram, as sentinelas Crochans se separaram para deixá-las passar.
Manon encontrou Glennis estremecendo ligeiramente.
— Nossa família, você perceberá, tem uma veia exaltada.


Implacável.
O que Manon fizera esta noite, trazendo as Dentes de Ferro para este acampamento... Dorian não tinha uma palavra para isso além de implacável.
Ele deixou Manon e sua bisavó, as Treze vigiando e foi em busca da aranha.
Ele encontrou Cyrene onde a deixara, agachada nas sombras de uma das tendas mais distantes.
Ela retornara à sua forma humana, seu cabelo escuro emaranhado, embrulhado em um manto Crochan. Como se uma delas tivesse ficado com pena dela.
Sem perceber que a fome nos olhos de Cyrene não era pelo ensopado de cabra.
— De onde vem a transformação? — Dorian perguntou quando parou diante dela, uma mão em Damaris. — De dentro de você?
A metamorfa piscou para ele, então se levantou. Alguém lhe dera uma túnica, calças e botas marrons desgastadas também.
— Foi uma grande façanha de mágica, a que você realizou. — Ela sorriu, revelando dentes afiados. — Que rei pode ser. Inquestionável, inigualável.
Dorian não teve vontade de dizer que não tinha certeza de que tipo de rei ele gostaria de ser, se deveria viver o suficiente para reclamar seu trono. Qualquer um e qualquer coisa, menos seu pai, parecia um bom lugar para começar.
Dorian manteve sua postura relaxada, mesmo quando perguntou novamente:
— A transformação vem de dentro de você?
Cyrene inclinou a cabeça como se ouvisse alguma coisa.
— Foi estranho, rei mortal, descobrir que eu tinha um novo lugar dentro de mim com o retorno da magia. Descobrir que algo novo tinha criado raízes. — Sua mão pequena foi para o meio dela, logo acima do umbigo. — Uma pequena semente de poder. Se quero me transformar, penso no que quero ser, e a mudança começa aqui primeiro. Sempre, o calor vem daqui. — A aranha fixou seu olhar nele. — Se deseja ser alguma coisa, rei-sem-coroa, então seja. Esse é o segredo para a transformação. Seja o que você deseja.
Ele evitou o desejo de revirar os olhos, embora Damaris se aquecesse em seu aperto. Seja o que você deseja – uma coisa muito mais fácil dizer do que fazer. Especialmente com o peso de uma coroa.
Dorian colocou a mão em sua barriga, apesar das camadas de roupas e do manto. Apenas um músculo tonificado o cumprimentou.
— É assim que você faz para convocar a transformação: primeiro pensa no que quer se tornar?
— Com limites. Preciso de uma imagem clara em minha mente, ou então não funciona de jeito nenhum.
— Então você não pode se transformar em algo que não tenha visto.
— Eu posso inventar certas características – cor dos olhos, traços do rosto, cabelo – mas não a criatura em si. — Um sorriso horrível floresceu em sua boca. — Use essa sua linda magia. Mude seus lindos olhos — a aranha ousou. — Mude a cor deles.
Deuses o condenassem, ele tentou. Ele pensou em olhos castanhos. Retratou os olhos de bronze de Chaol, ferozes depois de uma de suas sessões de treinamento. Não como estavam antes de seu amigo navegar para o continente do sul.
Chaol conseguira se curar? Teria ele e Nesryn convencido o khagan a enviar ajuda? Como Chaol descobriria onde ele estava, o que aconteceu com eles, quando estavam todos espalhados pelos ventos?
— Você pensa demais, jovem rei.
— Melhor que pensar de menos — ele murmurou.
Damaris aqueceu novamente. Ele poderia jurar que estava divertida.
Cyrene deu uma risadinha.
— Não pense na cor dos olhos, mas exija isso.
— Como você aprendeu sem instruções?
— O poder está em mim agora — a aranha falou simplesmente. — Eu o escutei.
Dorian esticou um tentáculo de sua magia em direção à aranha. Ela ficou tensa. Mas sua magia roçou contra ela, gentil e inquisitiva como um gato. Magia crua, para ser moldada como ele desejava.
Ele foi na direção dela – desejou encontrar aquela semente de poder dentro dela. Para aprender.
— O que você está fazendo — a aranha respirou, trocando o peso de pé.
Sua magia a envolvia, e ele podia senti-la – cada ano odioso e horrível de existência.
Cada um...
Sua boca secou. Bile subiu em sua garganta com o cheiro que sua magia detectou. Ele nunca esqueceria aquele cheiro, aquela vileza. Ele carregaria a marca em sua garganta para sempre como prova.
Valg. A aranha, de alguma forma, era valg. E não possuída, mas nascida.
Ele manteve o rosto neutro. Desinteressado. Mesmo quando sua magia localizou aquela magia brilhante e bela.
Magia roubada. Como os valg roubavam todas as coisas. Tomavam tudo o que queriam.
Seu sangue se tornou um rugido surdo em seus ouvidos.
Dorian estudou sua pequena estrutura, seu rosto comum.
— Você tem estado bastante silenciosa sobre a busca por vingança que a fez percorrer todo o continente.
Os olhos escuros de Cyrene se transformaram em poços profundos.
— Ah, eu não me esqueci. De maneira nenhuma.
Damaris permaneceu quente. Esperando.
Ele deixou sua magia envolver mãos suaves em torno da semente de poder presa dentro do inferno negro da aranha.
Ele não se importava em saber por que e como as aranhas estígias eram valg. Como vieram parar aqui. Por que aguardavam.
Elas se alimentaram de sonhos, vida e alegria. Encantaram-se com isso. A semente de poder que mudava de forma cintilava em suas mãos, como se agradecida por um toque gentil. Um toque humano.
Isto. Seu pai permitira que esses tipos de criaturas crescessem, governassem.
Sorscha foi abatida por essas coisas, por sua crueldade.
— Eu posso fazer uma barganha com você, sabe — sussurrou Cyrene. — Quando chegar a hora, garantirei que você seja poupado.
Damaris ficou mais fria que gelo.
Dorian encontrou o olhar dela. Retirou sua magia, e poderia jurar que a semente de poder que mudava de forma presa dentro dela tentou alcançá-lo. Tentou implorar para ele não ir.
Ele sorriu para a aranha. Ela sorriu de volta. E então ele atacou.
Mãos invisíveis em volta de seu pescoço e torcendo. Assim como sua magia mergulhou em seu umbigo, onde a semente roubada da magia humana residia, e envolveu-a.
Ele a segurou, um passarinho em suas mãos, quando a aranha morreu. Estudou a magia, cada faceta, antes que ela parecesse suspirar de alívio e desaparecer no vento, finalmente livre.
Cyrene caiu no chão, olhos que não mais viam. Meio pensamento e Dorian a incinerou. Ninguém veio perguntar sobre o fedor que subiu de suas cinzas. A mancha negra que permaneceu abaixo delas.
Valg. Talvez um modo de entrar em Morath, e ainda assim ele se via encarando aquela mancha escura na terra semicongelada.
Ele soltou Damaris, a lâmina relutantemente quieta.
Ele encontraria o seu caminho para Morath. Uma vez que dominasse a transformação.
A aranha e todos da raça dela podiam queimar no inferno.


O coração de Dorian ainda estava acelerado quando ele se viu uma hora depois, deitado em uma tenda que não tinha altura suficiente para ele ficar de pé, em um dos dois sacos de dormir.
Manon entrou na tenda logo depois que ele tirou as botas e se enfiou sob o pesado cobertor de lã. Cheirava a cavalo e feno e podia muito bem ter sido arrancado de um estábulo, mas ele não se importava. Estava quente e era melhor que nada.
Manon examinou o espaço apertado, o segundo saco de dormir e o cobertor.
— Treze é um número ímpar — ela falou a título de explicação. — Eu sempre tive uma tenda para mim.
— Desculpe arruinar isso para você.
Ela lhe lançou um olhar divertido antes de se sentar no saco de dormir e desamarrar suas botas. Mas os dedos pararam quando suas narinas se abriram.
Lentamente, ela olhou por cima do ombro para ele.
— O que você fez?
Dorian segurou seu olhar.
— Você fez o que tinha que fazer hoje — ele falou simplesmente. — Eu também.
Ele não se incomodou em tentar tocar Damaris, próxima onde estava.
Ela farejou na direção dele mais uma vez.
— Você matou a aranha. — Nenhum julgamento em seu rosto, apenas curiosidade crua.
— Ela era uma ameaça — ele admitiu. E a merda de um valg.
A cautela agora inundou seus olhos.
— Ela poderia tê-lo matado.
Ele deu-lhe um meio sorriso.
— Não, não poderia.
Manon o avaliou novamente, e ele resistiu.
— Você não tem nada a dizer sobre minhas próprias... escolhas?
— Meus amigos estão lutando e provavelmente sendo mortos no norte — disse Dorian. — Não temos tempo para passar semanas conquistando as Crochans.
Ali estava a verdade brutal. Para obter algum grau de boas-vindas aqui, eles tiveram que cruzar esse limite. Talvez tais decisões insensíveis fizessem parte de usar uma coroa.
Ele manteria seu segredo, contanto que ela quisesse escondê-lo.
— Sem discursos arrogantes?
— É guerra — ele disse simplesmente. — Nós passamos por esse tipo de coisa.
E não importaria, importaria, quando sua alma eterna fosse o preço pedido para impedir a maior parte da matança? Ele já estava destroçado o suficiente. Se cruzar limite após limite poupasse os outros, ele o faria. Ele não sabia que tipo de rei isso o tornava.
Manon murmurejou, considerando que uma resposta aceitável.
— Você sabe sobre intrigas da corte e esquemas — disse ela, dedos certeiros novamente voando sobre os cadarços e ganchos das botas. — Como você... faria, como me disse antes? Minha situação com as Crochans.
Dorian apoiou a cabeça em uma mão.
— O problema é que elas estão com todas as cartas. Você precisa delas muito mais do que elas precisam de você. A única carta que você tem é a sua herança – e eles parecem tê-la rejeitado, mesmo com a escaramuça. Então, como podemos torná-la vital para eles? Como você prova que eles precisam da sua última rainha viva, a última da linhagem Crochan? — Ele contemplou a questão. — Há também a perspectiva de paz entre seus povos, mas você... — ele estremeceu. — Você não é mais reconhecida como herdeira. Qualquer peso que possa ter como Bico Negro seria apenas em seu nome e das Treze, não pelo resto das Dentes de Ferro. Não seria um verdadeiro tratado de paz.
Manon terminou com as botas e deitou-se no saco de dormir, puxando o cobertor sobre si enquanto olhava para o teto baixo da tenda.
— Eles te ensinaram essas coisas em seu castelo de vidro?
— Sim. — Antes que ele quebrasse o castelo em cacos e poeira.
Manon virou de lado, apoiando a cabeça na mão, o cabelo branco escapando da trança para emoldurar seu rosto.
— Você não pode usar essa sua magia para simplesmente... obrigá-las, pode?
Dorian bufou.
— Não que eu saiba.
— Maeve conseguiu invadir a mente do príncipe Rowan para convencê-lo a tomar uma parceira falsa.
— Eu nem sei qual é o poder de Maeve — disse Dorian, encolhendo-se. O que a rainha feérica fez a Rowan, o que fazia agora com a rainha de Terrasen... — E não tenho certeza se quero começar a experimentar em aliados em potencial.
Manon suspirou pelo nariz.
— Meu treinamento não incluiu essas coisas.
Ele não ficou surpreso.
— Você quer a minha opinião sincera? — Seus olhos dourados o prenderam no lugar enquanto ela dava um breve aceno de cabeça. — Encontre o que eles precisam e use a seu favor. O que os levaria a se reunir às suas costas, a vê-la como sua Rainha Crochan? Lutar na escaramuça esta noite ganhou algum grau de confiança, mas não aceitação imediata. Talvez Glennis saiba.
— Eu teria que me arriscar a perguntar a ela.
— Você não confia nela.
— Por que eu deveria?
— Ela é sua bisavó. E não ordenou que você fosse executado à primeira vista.
— Minha avó também não o fez, não até o final.
Nenhuma emoção passou por seu rosto, mas seus dedos cravaram em seu couro cabeludo com suas palavras.
— Aelin precisava que o capitão Rolfe e seu povo fossem sacudidos depois de se esconder por séculos para reunir a frota micênica — Dorian disse então. — Ela descobriu que só voltariam a Terrasen quando um dragão marinho reaparecesse por fim, um de seus aliados há muito perdidos nas ondas. Então, ela planejou para que isso acontecesse: provocou uma pequena frota valg para atacar Baía da Caveira enquanto ela estava praticamente indefesa, e então usou a batalha para mostrar o dragão marinho que chegou para ajudá-los, convocados pelo ar e pela magia.
— A metamorfa — Manon falou. Dorian assentiu. — E os micênicos compraram essa história?
— Absolutamente — Dorian concordou. Aelin aprendera o que os micênicos precisavam para se convencerem a se juntar à causa dela. Que tipo de coisa as Crochans precisariam para fazer o mesmo?
Manon deitou em seu saco de dormir, tão graciosa quanto uma dançarina. Ela brincou com a ponta de sua trança, com a faixa vermelha ali.
— Perguntarei à Ghislaine de manhã.
— Acho que Ghislaine não vai saber.
Aqueles olhos dourados deslizaram para os dele.
— Você realmente acredita que eu deveria perguntar a Glennis?
— E acho que ela vai ajudá-la.
— Por que se incomodaria?
Ele se perguntou se as Treze podiam ver aquele indício de auto-aversão que às vezes cintilava no rosto dela.
— A mãe dela voluntariamente abandonou a própria cidade, o próprio povo, a própria rainha, em seus últimos momentos para poder preservar a linhagem real. Sua linhagem. Acho que ela contou essa história esta noite para que você perceba que ela também fará o mesmo.
— Por que não dizer de uma vez então?
— Porque, caso não tenha notado, você não é exatamente uma pessoa popular neste acampamento, apesar de seu estratagema com as Dentes de Ferro. Glennis sabe como jogar o jogo. Você só precisa conversar com ela. Descobrir por que elas estão aqui, então planejar seu próximo passo.
Sua boca se apertou, depois relaxou.
— Seus tutores lhe ensinaram bem, principezinho.
— Ser criado por um tirano tomado por demônios teve seus benefícios, parece. — Suas palavras soaram calmas, mesmo quando uma aresta se afiou dentro dele.
O olhar dela se dirigiu para a sua garganta, para a linha pálida ali. Ele quase podia sentir o olhar como um toque fantasma.
— Você ainda o odeia.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Eu não deveria odiar?
Seu cabelo branco como a lua brilhava na luz fraca.
— Você me disse que ele era humano. No fundo, ele permaneceu humano e tentou protegê-lo da melhor maneira possível. Ainda assim, você o odeia.
— Perdoe-me se eu achar os métodos dele de me proteger não palatáveis.
— Mas foi o demônio, não o homem, que matou sua curandeira.
Dorian apertou sua mandíbula.
— Não faz diferença.
— Não faz? — Manon franziu a testa. — A maioria mal consegue suportar alguns meses de possessão por valg. Você mal resistiu. — Ele tentou não se encolher com as palavras bruscas. — No entanto, ele se manteve por décadas.
Ele segurou seu olhar.
— Se está tentando mostrar meu pai como um nobre herói, está perdendo o fôlego. — Ele debateu acabar por ali, mas perguntou: — Se alguém lhe dissesse que sua avó secretamente era boa, que ela não queria assassinar seus pais e tantos outros, que foi forçada a fazer você matar sua própria irmã, acharia tão fácil acreditar? Perdoá-la?
Manon olhou para o próprio abdômen – para a cicatriz escondida sob seus couros.
Ele se preparou para a resposta. Mas ela apenas disse:
— Eu estou cansada de conversar.
Bom. Assim como ele.
— Há algo que preferiria fazer em vez disso, bruxinha? — sua voz ficou áspera e ele sabia que ela podia ouvir seu coração batendo quando ele começou a correr.
Sua única resposta foi deslizar sobre ele, fios de cabelo caindo ao redor deles em uma cortina.
— Eu disse que não quero conversar — ela respirou e baixou a boca para o pescoço dele. Arrastou os dentes para cima, através daquela linha branca onde o colar estivera.
Dorian gemeu baixinho, e moveu os quadris, apertando-se contra ela. A respiração dela ficou irregular em resposta, e ele passou a mão por sua cintura.
— Cale-me, então — disse ele, uma mão deslizando para baixo para segurar seu traseiro enquanto ela mordiscava seu pescoço, sua mandíbula. Nenhuma sugestão daqueles dentes de ferro, mas a promessa deles permanecia, uma espada requintada sobre sua cabeça.
Só com ela ele não precisava explicar. Só com ela ele não precisava ser um rei, ou qualquer outra coisa além do que era. Só com ela não haveria julgamento pelo o que ele fizera, com quem falhara, o que ainda teria que fazer.
Apenas isso – prazer e total esquecimento. A mão de Manon encontrou a fivela do cinto, e Dorian procurou a dela, e nenhum dos dois falou por algum tempo depois disso.


A liberação que ela encontrou naquela noite – duas vezes – não pôde suavizar completamente a aresta quando a manhã se ergueu, cinzenta e sombria, e Manon se aproximou da grande tenda de Glennis.
Ela deixou o rei dormindo, embrulhado nos cobertores que eles compartilharam, embora não tivesse permitido que ele a abraçasse. Ela simplesmente virou de lado, colocando-se de costas para ele, e fechou os olhos.
Ele não pareceu se importar, saciado e sonolento depois que ela o montou até que ambos encontrassem seu prazer, e dormiu rapidamente. Ele dormira, enquanto Manon pensara em como exatamente seria esse encontro.
Talvez ela devesse ter trazido Dorian. Ele certamente sabia como jogar esses jogos. Pensar como um rei.
Ele matara aquela aranha como uma bruxa de sangue azul, no entanto. Sem uma pitada de misericórdia.
Não deveria tê-la impactado como antes.
Mas Manon sabia que seu orgulho nunca se recuperaria, e ela nunca mais seria capaz de se chamar de bruxa, se deixasse que ele fizesse essa tarefa por ela.
Então Manon atravessou as abas da barraca de Glennis sem se anunciar.
— Eu preciso falar com você.
Ela encontrou Glennis se prendendo seu belo manto diante de um pequeno espelho de bronze.
— Antes do café da manhã? Suponho que tenha essa urgência de seu pai. Tristan estava sempre entrando na minha tenda com seus vários assuntos urgentes. Eu mal conseguia convencê-lo a parar o suficiente para comer.
Manon descartou o núcleo da informação. Dentes de Ferro não tinham pais. Apenas mães e mães de mães. Sempre foi assim. Mesmo que fosse um esforço segurar as perguntas sobre ele. Como ele conheceu Lothian Bico Negro, o que os levou a deixar seu antigo ódio de lado.
— O que seria necessário para ganhar as Crochans? Para se juntarem a nós na guerra?
Glennis ajeitou a capa no espelho.
— Apenas uma Rainha Crochan pode acender a Chama da Guerra, convocar todas as bruxas para sua lareira.
Manon piscou com a resposta franca.
— Chama da Guerra?
Glennis apontou com o queixo na direção das abas da tenda, para a fogueira mais além.
— Toda família Crochan tem uma lareira que se move com eles para cada acampamento ou lar que fazemos; o fogo nunca se extingue. A chama da minha lareira remonta à cidade Crochan, quando Brannon Galathynius deu a Rhiannon uma centelha de fogo eternamente ardente. Minha mãe carregou com ela em um globo de vidro, escondido em seu manto, quando levou sua ancestral, e ele continuou a queimar em todos os lares da realeza Crochan desde então.
— E quando a magia desapareceu por dez anos?
— Nossas videntes tiveram uma visão de que ela desapareceria e a chama morreria. Então, acendemos vários fogos comuns à partir daquela chama mágica e os mantivemos acesos. Quando a magia desapareceu, a chama realmente se apagou. E quando a magia retornou nesta primavera, a chama novamente acendeu, bem na lareira onde a vimos pela última vez. — Sua bisavó se virou para ela. — Quando uma Rainha Crochan convoca seu povo para a guerra, uma chama é retirada da lareira real e passada para cada lar, acampamento e aldeia adiante. A chegada da chama é uma convocação que somente uma verdadeira Rainha Crochan pode fazer.
— Então eu só preciso usar a chama daquele poço lá fora e o exército virá até mim?
Uma gargalhada.
— Não. Você deve primeiro ser aceita como rainha para fazer isso.
Manon rangeu os dentes.
— E como eu poderia conseguir isso?
— Não é tarefa minha descobrir, é?
Tomou todo o seu autocontrole não libertar as unhas de ferro e destruir a tenda.
— Por que vocês estão aqui – por que este acampamento?
As sobrancelhas de Glennis se ergueram.
— Eu não falei ontem? — Manon bateu um pé no chão. A bruxa notou a impaciência e riu. — Estávamos a caminho de Eyllwe.
— Eyllwe? Se pensam em fugir desta guerra, posso lhe garantir que ela também encontrou esse reino.
Fazia tempo que Eyllwe suportava o impacto da ira de Adarlan. Em seus intermináveis encontros com Erawan, ele estava particularmente focado em garantir que o reino continuasse fraturado.
Glennis assentiu.
— Nós sabemos. Mas recebemos notícias de nossos lares do sul de que uma ameaça surgiu. Nós viajamos para encontrar alguns dos grupos de guerra de Eyllwe que conseguiram sobreviver por tanto tempo – para enfrentar qualquer horror que Morath possa ter enviado.
Indo para o sul, não para o norte, para Terrasen.
— Erawan pode estar desencadeando seus horrores em Eyllwe apenas para dividi-las — disse Manon. — Para impedi-las de ajudar Terrasen. Ele imaginará que estou tentando reunir as Crochans. Eyllwe já está perdida, venha conosco para o norte.
A velha apenas balançou a cabeça
 — Pode ser que sim. Mas nós demos nossa palavra. Então para Eyllwe nós iremos.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!