5 de outubro de 2018

Capítulo 15

CAMBALEEI PARA TRÁS quando uma enorme coluna de chama azul se ergueu no círculo à minha frente. Mais alta do que o teto baixo arqueado, ela preenchia o poço, seguindo seu caminho até o céu. Queimava mais quente, rápida e brilhante do que qualquer chama que já tivesse visto. Lutou por uns instantes nas fronteiras do círculo de ferro contra alguma barreira invisível até que, tão subitamente quanto tinha surgido, se aglomerou no centro do círculo, assumindo uma forma.
Pisquei diante da luz. Era como se tivesse olhado direto para o sol e ficado cega por um momento.
Então minha visão clareou e vi meu pai pela primeira vez.
Bahadur parecia um homem feito de fogo.
Não. Não era isso. Eu podia não ser muito religiosa, mas conhecia as histórias sagradas. Djinnis não eram humanos feitos de fogo. Nós é que éramos djinnis feitos de poeira e água, com apenas um pouco de sua chama para nos dar vida. Uma centelha tirada do incêndio. Éramos uma versão muito mais sem graça deles.
A pele de Bahadur se movia e mudava de forma com as chamas azul-escuras. Chamas da cor dos meus olhos.
Não sentia mais calor exalando dele. Mas podia sentir outra coisa, que não sabia identificar, mas que atravessava minha pele e tocava minha alma. Ele era tão alto quanto uma das enormes pilastras. Só que não estava sustentando apenas as catacumbas de um palácio. Ele estava segurando o mundo. Era um dos seres primordiais de Deus que havia criado o primeiro mortal. Que havia criado toda a humanidade.
Que havia me criado.
Percebi que o que eu estava sentindo era poder. Poder verdadeiro e cru, do tipo que não vinha de um título ou coroa, mas da alma do próprio mundo.
Sua forma continuava a flutuar enquanto eu o observava. Percebi que ele estava diminuindo e oscilando ao mesmo tempo, alterando sua aparência. Aquilo me lembrou das metamorfoses de Imin. Até que ele deixou de ser luz e fogo azul. Tinha pele e cabelos escuros, tão carne e osso quanto qualquer habitante do deserto. Mesmo naquela versão atenuada para parecer conosco, era claramente diferente. Era bonito demais, esculpido com cuidado demais, perfeito demais para um humano verdadeiro. Mas meu pai não tinha feito seus olhos parecerem humanos. Eram feitos da mesma chama rodopiante que o restante dele, com a diferença de que queimavam mais devagar. Ardiam brancos de tão quentes nas bordas, com um azul brilhante em torno de pupilas negras perfeitas. E eu sentia como se estivessem me revirando do avesso.
— Você me chamou. — Três palavras tão mundanas, mas que carregavam um peso enorme. Sua atenção se deslocou lentamente para o sultão. — Embora eu veja que não foi para si mesma.
O sultão era um homem poderoso, mas não passava de um homem. De pé ao lado de um djinni, ele de fato parecia uma mera faísca pairando perto de um incêndio.
— Pois bem. — Bahadur parecia quase entediado quando se dirigiu ao sultão. — O que quer me pedir? Ouro? Poder? Amor? Vida eterna? Todos os quatro, talvez?
— Não sou tolo o bastante para pedir algo a você.
Bahadur o estudou sem piscar. Percebi que eu também o observava com cuidado, buscando em suas feições algo familiar, algo que compartilhássemos além dos olhos.
— Já presenciei mais dias e conheci mais mortais do que a quantidade de grãos de areia em seu deserto. Já conheci de pobres a reis e tudo o que existe no meio. Nunca vi um homem que não desejasse algo. Não importa se é uma criança com joelhos esfolados na rua ou um homem com tanto poder e ouro que não sabe o que fazer com eles. Vocês sempre querem algo.
— E vocês sempre usam nossos desejos contra nós — o sultão disse. — Pegam nossas necessidades e vontades e as distorcem até que nosso único desejo seja nunca ter pedido sua ajuda. — Ele não estava errado. Eu tinha lido aquelas histórias também. As histórias de Massil e do djinni que destruiu um mar inteiro como vingança contra um único mercador. Do funileiro que morreu no deserto procurando pelo ouro que um djinni capturado tinha prometido. — E no fim das contas — o sultão disse, passando o pé sobre a borda do círculo de forma provocadora —, nunca conseguimos o que queremos.
— Então você quer algo, afinal.
— É claro — o sultão disse. — Todo mundo quer. Mas não sou tolo de pedir a você. Você vai me dar o que quero, sem quaisquer condições.
A risada de Bahadur ecoou pelas catacumbas.
— E por que eu faria isso?
— Ela é uma de vocês, sabia? — O sultão estava falando de mim, embora seus olhos nunca desviassem de seu prêmio djinni.
— É claro que sei. — Bahadur não tirou os olhos dele. Olhe para mim, uma parte de mim queria gritar. Outra queria gritar comigo mesma por desejar isso. Tinha me virado muito bem até ali sem pai. Não precisava de um agora. — Por que acha que os marcamos?
O sultão puxou uma faca da cintura.
— Pequena demdji. Pegue isso e enfie na barriga. — Meu corpo gelou. Era uma ordem.
— Não — eu disse em voz alta, como se recusar tornasse a negativa real. Mas não adiantava, minhas mãos já estavam se mexendo.
— Faça isso devagar — o sultão ordenou —, para doer.
Eu não podia evitar. Minha mão estava se mexendo, esticando para pegar a faca, segurando o cabo, virando a lâmina para apontá-la ao centro do meu corpo. Lutei contra aquilo. Meus braços tremiam com o esforço. Mas não havia jeito de impedir. A faca estava sendo lentamente dirigida à minha barriga.
— Sua filha vai morrer aqui — o sultão disse para Bahadur. — A menos que eu a impeça. — Ferimentos na barriga matavam devagar. — Entregue os nomes dos outros djinnis e ordenarei que ela largue a faca.
Bahadur não olhou nem de relance na minha direção. Ele fitou o sultão com seus olhos azuis enquanto a lâmina se aproximava do meu corpo. Meu pai era um ser primordial imortal. Abaixo apenas do próprio Deus. Para ele, o sultão, governante de todo o deserto, não era ninguém. Eu não era ninguém, embora fosse sua filha.
Ele se abaixou no círculo, cruzando graciosamente as pernas.
— Todos vocês morrem um dia — disse, então sorriu daquela forma condescendente que os pais fazem com os filhos, só que não para mim. — É o que os mortais fazem de melhor.
A faca estava perto da minha barriga e ele não se importava. Ia me deixar morrer. A arma foi pressionada contra o tecido do khalat de Shazad. Eu estava sempre sujando de sangue as roupas que ela me emprestava. Dessa vez ela provavelmente não me perdoaria. Ela nunca me perdoaria por morrer e abandoná-la no meio da guerra.
— Sim — o sultão concordou. — Tudo morre um dia. — Ele deu as costas para o djinni, como se o ser primordial é que não fosse ninguém. Se estava desapontado com a recusa de Bahadur, não demonstrava. — Largue a faca. — A ordem foi cuspida na minha direção.
Puxei a arma para longe da barriga, soltando-a no chão. Meu corpo estava sob meu controle novamente. Tinha sido um blefe. Um blefe estúpido e falho contra um ser imortal. Eu estava tremendo. Muito. Mas a raiva logo expulsou o medo. Raiva do meu próprio corpo. Do sultão. Mas, principalmente, de que Bahadur pudesse simplesmente observar com uma expressão indiferente enquanto eu morria.
O sultão tinha me feito largar a faca, mas não me dissera para não pegá-la de novo.
Meus dedos se curvaram em torno do cabo e eu ataquei, golpeando com a faca na direção do pescoço dele. Um último golpe para acabar com tudo.
— Pare. — A ordem veio no último instante. Meus músculos travaram com a faca a centímetros de sua pele. Mais um segundo e eu o teria matado.
Pela primeira vez Bahadur me observava com interesse.
O olhar do sultão oscilou entre mim e a faca. Eu esperava fúria. Vingança. Mas nada disso aconteceu. Seus lábios só se curvaram um pouco.
— Você é uma pequena demdji perigosa, não é mesmo? — Então eu soube por que sua boca parecia familiar.
Seu rosto podia ser igual ao de Ahmed, mas aquele sorriso… Aquele sorriso era puro Jin.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!