29 de outubro de 2018

Capítulo 14

As Crochans relaxaram – sob as ordens da chamada bisavó de Manon. Glennis.
Ela exigira como, qual era a linhagem, mas Glennis apenas pedira a Manon que a seguisse até o acampamento.
Pelo menos duas dúzias de outras bruxas cuidavam das várias fogueiras espalhadas entre as tendas brancas, todas interrompendo seus vários trabalhos enquanto Manon passava. Ela nunca tinha visto Crochans cuidando de tarefas domésticas, mas lá estavam elas: algumas cuidando de fogueiras, outras transportando baldes de água, umas monitorando caldeirões pesados que cheiravam a cozido de cabra da montanha temperado com ervas secas.
Nenhuma palavra soou em sua cabeça enquanto ela caminhava pelas fileiras de Crochans eriçadas. As Treze também não tentaram falar. Mas Dorian sim.
O rei deu um passo para perto dela, seu corpo uma parede de calor sólido, e perguntou em voz baixa:
— Você sabia que ainda tinha parentes vivendo entre as Crochans?
— Não. — Sua avó não mencionara em suas provocações finais.
Manon duvidava que o acampamento fosse um lugar permanente para as Crochans. Seria tolice revelá-lo. No entanto, Cyrene o descobrira de alguma forma.
Talvez seguindo o cheiro de Manon – as partes dele que reivindicavam parentesco com as Crochans.
A aranha agora andava entre Asterin e Sorrel, Dorian ainda sem demonstrar nenhum sinal de tensão ao mantê-la parcialmente atada, embora mantivesse uma mão no cabo de sua espada.
Um olhar penetrante de Manon e ele a deixou cair.
— Como você quer fazer? — Dorian murmurou. — Quer que eu fique em silêncio, ou que esteja ao seu lado?
— Asterin é a minha tenente.
— E o que eu sou, então? — A pergunta suave era como uma mão passando por sua espinha, como se ele a acariciasse. Com aquelas mãos invisíveis.
— Você é o rei de Adarlan.
— Devo fazer parte das discussões, então?
— Se quiser. — Ela sentiu a irritação crescente dele e escondeu um sorriso.
A voz de Dorian caiu para um ronronar baixo.
— Você sabe o que sinto vontade de fazer?
Ela torceu a cabeça para olhar para ele, incrédula. E encontrou o rei sorrindo.
— Parece que você está prestes a fugir — ele comentou, aquele sorriso persistindo. — Isso vai definir o tom errado.
Ele estava tentando irritá-la, para distraí-la em soltar seu aperto de ferro sobre seu controle.
— Elas sabem quem você é — Dorian continuou. — A parte de provar já passou. Se a aceitam, é a verdadeira questão. — Sua bisavó deveria vir da parte da sua linhagem que não era da realeza, então. — Essas bruxas não parecem que serão vencidas pela brutalidade.
Ele não sabia da metade.
— Você está querendo me aconselhar?
— Considere uma dica, de um monarca para outro. — Apesar de quem andava à frente deles, atrás deles, Manon sorriu levemente. Ele a surpreendeu ainda mais, dizendo: — Eu tenho juntado meu poder desde que elas apareceram. Um movimento errado, e eu vou explodi-las em nada.
Um arrepio percorreu suas costas com a violência fria na voz dele.
— Precisamos delas como aliados. — Tudo o que ela tinha que fazer hoje, esta noite, era selar tal aliança.
— Então vamos esperar que não chegue a esse ponto, bruxinha.
Manon abriu a boca para responder. Mas uma trompa soou, estridente e alta, ecoando na noite que descia. Então a batida de poderosas asas de couro explodiu nas estrelas.
O acampamento entrou imediatamente em ação, gritos ecoando dos batedores que soaram o alarme. As Treze fecharam fileiras em torno de Manon, armas desembainhadas.
As Dentes de Ferro os encontraram.
Muito mais cedo do que Manon havia planejado.


Como a patrulha de Dentes de Ferro os encontrou, Dorian não sabia. Ele supôs que as fogueiras seriam uma opção.
Dorian reuniu sua magia quando vinte e seis formas maciças sobrevoaram o acampamento.
Pernas Amarelas. Dois covens.
A velha que se apresentou como a bisavó de Manon começou a gritar ordens, e Crochans obedeceram, saltando para o céu recém-escurecido em suas vassouras, arcos estendidos ou espadas desembainhadas.
Não havia tempo para questionar como eles tinham sido encontrados, se a aranha realmente havia feito uma armadilha – certamente não enquanto a voz de Manon soava, ordenando as Treze em posições defensivas.
Velozes como sombras, elas correram para o lugar onde haviam deixado as serpentes aladas, dentes de ferro brilhando.
Dorian esperou até que as Crochans estivessem longe dele antes de liberar seu poder. Lanças de gelo, para perfurar os peitos expostos do inimigo ou rasgar suas asas.
Meio pensamento soltou os grilhões de Cyrene, embora não a libertasse do poder que a impedia de atacar. Apenas dando-lhe espaço suficiente para se transformar, para se defender. Um flash do outro lado do acampamento lhe disse que ela fizera exatamente isso. O interrogatório viria depois.
Manon e as Treze alcançaram as serpentes aladas e estavam no ar em alguns segundos, rumando para o caos acima.
As Crochans eram tão pequenas – tão terrivelmente pequenos – contra a maior parte das serpentes aladas. Mesmo nas vassouras.
E enquanto elas se aglomeravam em torno dos dois clãs Dentes de Ferro, flechas e espadas reluzindo, Dorian não conseguia uma mira clara. Não com as Crochans correndo ao redor das feras, rápidas demais para ele rastrear. Algumas das serpentes aladas gritaram e caíram do céu, mas muitas permaneceram no ar.
Glennis gritava ordens do chão, um grande arco nas mãos enrugadas, apontado para cima.
Uma serpente alada pairou no alto, tão baixo que sua cauda venenosa e cheia de espinhos se estendeu para derrubar barraca atrás de barraca.
Glennis deixou sua flecha voar, e Dorian repetiu o gesto com uma de suas próprias armas.
Uma lança de gelo sólido, que adernou no peito furta-cor exposto.
Tanto a flecha quanto a lança de gelo acertaram seu alvo, e sangue negro espirrou para baixo – antes que serpente alada e cavaleira caíssem em um pico e rolassem pela face do penhasco.
Glennis sorriu, aquele gesto iluminando o rosto de idade.
— Eu acertei primeiro. — Ela puxou outra flecha. Tal leveza, mesmo em face de uma emboscada.
— Queria que você fosse minha bisavó — Dorian murmurou, e preparou seu próximo golpe. Ele teria que ter cuidado, com as Treze parecendo muito com as Pernas Amarelas vistas de baixo.
Mas as Treze não precisaram de sua cautela nem de sua ajuda. Elas entraram nas linhas das Pernas Amarelas, separando-as, espalhando-as.
As Pernas Amarelas podiam ter a vantagem da surpresa, mas as Treze eram mestras da guerra.
Crochans caíram dos céus quando foram atingidas por caudas brutais e pontiagudas. Algumas nem sequer caíram quando se depararam com enormes mandíbulas e não voltaram a aparecer.
— Recuar! — A ordem latida de Manon varreu a batalha. — Formem linhas baixas no chão!
Não uma ordem para as Treze, mas para as Crochans.
Glennis falou, alguma magia, sem dúvida, amplificando sua voz:
— Sigam o comando dela!
Assim, as Crochans recuaram, formando uma unidade sólida no ar acima das tendas.
Eles assistiram quando Abraxos atacou a garganta de uma criatura duas vezes o seu tamanho, e Manon disparou uma flecha através do rosto da cavaleira. Assistiram quando as gêmeas demônios de olhos verdes encurralaram três serpentes aladas entre elas e as fizeram bater nas encostas das montanhas. Assistiram quando a montaria azul de Asterin arrancou um cavaleiro da sela, então quebrou a espinha da serpente alada abaixo dela.
Cada uma das Treze acertou um alvo a cada golpe através das atacantes reunidas.
As Pernas Amarelas não tinham essa organização.
As sentinelas Pernas Amarelas que tentaram romper o caminho dos Treze para atacar as Crochans encontraram uma parede de flechas.
As serpentes aladas poderiam ter sobrevivido, mas suas cavaleiras, não. E com algumas manobras cuidadosas, os animais sem cavaleiro se viram com as gargantas cortadas, o sangue escorrendo enquanto caíam sobre picos próximos.
Piedade se misturou ao medo e à raiva em seu coração. Quantos desses animais poderiam ter sido como Abraxos, tinham bons cavaleiros que os amavam?
Foi surpreendentemente difícil explodir sua magia contra a serpente alada que conseguiu voar para eles, mirando direto para Glennis, outra serpente alada em seu rastro.
Ele deu uma morte fácil, quebrando o pescoço da fera com uma explosão de seu poder que o deixou ofegante.
Ele sacudiu sua magia para o segundo ataque serpente alada, oferecendo o mesmo final rápido, mas não viu a terceira e a quarta que agora se chocavam contra o acampamento, destruindo tendas e fechando suas mandíbulas em qualquer coisa em seu caminho. Crochans caíram gritando.
Mas então Manon estava lá, Abraxos voando forte e rápido, e cortou a cabeça da cavaleira mais próxima. A sentinela das Pernas Amarelas ainda tinha uma expressão de choque quando sua cabeça voou.
A magia de Dorian travou.
A cabeça decepada caiu no chão perto dele e rolou.
Uma sala brilhou, o mármore vermelho manchado de sangue, o som de uma cabeça batendo na pedra, o único som além de seus gritos.
Eu não deveria amar você.
A cabeça da Pernas Amarelas parou perto de suas botas, o sangue azul jorrando sobre a neve e a sujeira.
Ele não ouviu, não se importou, com a quarta serpente alada que ia na direção dele.
Manon gritou seu nome, e flechas Crochans dispararam.
Os olhos da sentinela Pernas Amarelas não olhavam para ninguém, para nada.
A boca aberta diante dele, as mandíbulas esticadas.
Manon gritou o nome dele de novo, mas ele não conseguiu se mover.
A serpente alada desceu, e a escuridão tomou conta quando as mandíbulas se fecharam ao redor dele.
Enquanto Dorian deixava sua magia se libertar de suas amarras.
Uma batida do coração, e a serpente alada o engolia por inteiro, seu bafo rançoso dominando o ar.
No seguinte, a besta estava no chão, o cadáver fumegando.
Fumegando por causa do que ele fez.
Não com a besta, mas consigo mesmo.
O corpo que ele transformou em chamas sólidas, tão quente que derretera as mandíbulas da serpente alada, sua garganta, e ele passara pela boca da fera como se esta fosse nada além de uma teia de aranha.
A cavaleira Pernas Amarelas que sobrevivera à queda puxou sua espada, mas tarde demais. Glennis atirou uma flecha na garganta dela.
O silêncio caiu.
Até a batalha acima morreu.
As Treze aterrissaram, salpicadas de sangue azul e preto. Tão diferente do sangue vermelho de Sorscha – seu próprio sangue vermelho.
Então havia mãos com unhas de ferro segurando seus ombros e olhos dourados brilhando nos dele.
— Você é estúpido?
Ele apenas encarou a cabeça da bruxa Pernas Amarelas, ainda a poucos passos de distância. O próprio olhar de Manon se voltou para ele. Sua boca se apertou, então ela relaxou-a e girou para Glennis.
— Estou enviando minhas Sombras para procurar outras.
— Quaisquer sobreviventes inimigos? — Glennis examinou os céus vazios. Se sua magia as surpreendeu, chocou-as, nem Glennis nem as Crochans que se apressavam para cuidar de seus feridos deram indicação.
— Todas mortas — disse Manon.
Mas a Crochan de cabelos escuros que as havia interceptado pela primeira vez atacou Manon, a espada livre.
— Você fez isso.
Dorian segurou Damaris, mas não fez nenhum movimento para desembainhá-la. Não enquanto Manon não recuou.
— Salvar seus traseiros? Sim, eu diria que sim.
A bruxa fervia.
— Você as liderou para cá.
— Bronwen — advertiu Glennis, limpando o sangue azul do rosto. A jovem bruxa – Bronwen – se arrepiou.
— Acha que é mera coincidência eles chegaram, então sermos atacadas?
— Eles lutaram conosco, não contra nós — disse Glennis. Ela virou-se para Manon. — Você jura?
Os olhos dourados de Manon brilhavam à luz do fogo.
— Eu juro. Eu não as conduzi até aqui.
Glennis assentiu, mas Dorian olhou para Manon. Damaris ficou com fria como gelo. Tão fria que o pomo dourado mordeu sua pele.
Glennis, de alguma forma satisfeita, assentiu novamente.
— Então conversaremos – mais tarde.
Bronwen cuspiu no chão ensanguentado e saiu em disparada.
Uma mentira. Manon havia mentido.
Ela arqueou uma sobrancelha para ele, mas Dorian se virou. Deixou o conhecimento afundar. O que ela fez.
Então uma série de ordens foram dadas, e começaram a reunir os feridos e os mortos. Dorian ajudou o melhor que pôde, curando aqueles que mais precisavam. Feridas abertas que vazavam sangue azul em suas mãos.
O calor daquele sangue não o alcançou.

3 comentários:

  1. Véi quero colocar o Dorian num pptinho e cuidar dele. Sério ele nao merece isso!!! Lembrar da Sorcha lembrar do colar e do q ele fez... serio cada cap q ele nara tenho vontade de chorar!!!

    Manon vc foi uma verdadeira vad** por armar isso para convencer as Crochan!!!

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  2. a, não Manon. qual a tua, linda?

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  3. Eu shippava Elide e Manon, não nego. Porém, Dorian e Manon... Sem condições. Espero que ele "supere" a perda, odeio vê-lo nesse torpor.
    Manon cheia dos truques, amo

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