5 de outubro de 2018

Capítulo 14

EU TINHA QUE SEGUI-LO, mas não precisava fazer isso calada.
— Onde estamos indo? — O mármore liso parecia ecoar minhas palavras jocosamente enquanto caminhávamos pelo palácio. — Para onde está me levando?
O sultão não respondeu nenhuma das perguntas que gritei nas suas costas enquanto o seguia. Finalmente ele parou no meio do corredor. Fiquei a alguns passos de distância.
Atrás de nós um arco com o dobro da minha altura dava para um pequeno jardim repleto de pavões. Do outro lado, emoldurado pela porta, havia um mosaico da princesa Hawa. Ela estava de pé no que imaginei ser a muralha de Saramotai, os braços abertos e o sol nascendo atrás. Seus olhos estavam voltados para a frente. Eram azuis nessa imagem também. Assim como na de Saramotai.
O sultão pressionou a mão de Hawa. Ouvi um clique, então a parte da parede entre as mãos da princesa se deslocou, como uma porta. Atrás dela havia uma longa escadaria que descia até a escuridão.
Tínhamos passado pelo último guarda fazia algum tempo. Ali, não havia nenhum. O que quer que estivesse lá embaixo realmente precisava continuar em segredo.
— O que tem lá embaixo? — Minha voz ecoou de um jeito perturbador pelos degraus de pedra.
— É melhor fazer certas coisas em lugares escondidos de Deus. — Diziam que a Destruidora de Mundos tinha vindo de um lugar onde Deus não enxergava. Das profundezas da terra. — Você primeiro.
Apoiando a mão na parede para manter o equilíbrio, contei os passos conforme descíamos. Trinta e três era um número sagrado. Era o número de djinnis que haviam se reunido para forjar o primeiro mortal em sua guerra contra a Destruidora de Mundos.
Tropecei no escuro quando cheguei lá embaixo. O sultão estava logo atrás de mim. Ele me equilibrou com a mão na minha cintura. Por um momento, me senti de volta ao acampamento, com Jin me segurando. Peguei você. Me afastei rapidamente.
Aquela parte do palácio não era como o restante. Em vez de mármore liso, as paredes eram de pedra talhada. O teto baixo era sustentado por pilastras atarracadas, enfileiradas nas sombras, como antigos soldados em posição de guarda. A única luz vinha de um buraco no teto, um círculo luminoso nas catacumbas sombrias. Conforme nos aproximávamos dela, pude ver que as pilastras tinham sido entalhadas com padrões agora gastos, como se os séculos tivessem apagado as marcas. Talvez mais do que séculos. Eu não sabia ao certo a idade do mundo. Mas aquele lugar parecia existir desde o início. Os anos podiam tê-lo enterrado, mas ele havia sobrevivido.
A sensação era de estar no fundo de um poço. O círculo de luz tinha a mesma extensão dos meus braços esticados. Mas o céu lá em cima tinha o tamanho de meio louzi. Meus pés descalços roçaram em algo frio. Olhando para baixo, percebi que havia um círculo de ferro perfeito no chão, com padrões esculpidos. Um círculo idêntico reluziu à minha esquerda. E outro, logo depois, coberto de poeira e pó.
— O que é isso? — Me afastei instintivamente do metal.
— Você é da fronteira do deserto — o sultão disse. — É uma descendente dos nômades que levavam histórias pelas areias. Deve saber de todas as que falam sobre os tempos antigos, da época em que os djinnis andavam livremente entre nós. Quando ainda amavam mortais. Bem… — Ele me olhou de soslaio. — Você é prova viva de que ainda fazem isso de vez em quando. Mas houve uma época em que meus ancestrais governavam com a ajuda dos djinnis. Os jogos do sultim eram isso, milhares de anos atrás. Tarefas definidas pelos djinnis para escolher o melhor entre os filhos do sultão, e não uma série de testes tolos planejados para voltar homens uns contra os outros. — Uma série de testes tolos que Ahmed tinha vencido por mérito. — Naquela época, príncipes escalariam montanhas e montariam em rocs para trazer de volta uma de suas penas. Eles bebiam água sob o olhar eterno do Viajante. Eram capazes de verdadeiros feitos. Mas embora ainda nos prendamos a essas tradições, os dias de príncipes valorosos ficaram para trás faz tempo. Assim como os dias em que os djinnis vinham aqui e abdicavam de boa vontade de seu poder dentro desses círculos, enquanto o sultão abria mão de suas armas, e eles trocavam conselhos.
Passei o dedão do pé pela beirada do círculo. Tinha ouvido falar disso nas histórias. Lugares onde o sultão invocava um djinni usando seu nome verdadeiro e então o soltava novamente. Era um sinal de confiança. Se eu contasse, haveria trinta e três daqueles círculos?
— Você vai conjurar um djinni aqui, Amani — o sultão falou.
Levantei subitamente a cabeça. Tinha visto muitas coisas criadas antes dos mortais. Buraqis. Pesadelos. Andarilhos. Mas djinnis eram diferentes. Eles não eram só o assunto das lendas. Eram nossos criadores. Ninguém mais via djinnis, embora algumas pessoas na Vila da Poeira dissessem encontrar um no fundo de uma garrafa de bebida forte. Minha mãe, ao que parecia, tinha conhecido um, no entanto.
— Está assim desesperado por conselhos sábios nessa época turbulenta, aclamado sultão? — Ele não mordeu a isca.
— As histórias fazem parecer fácil, não? Para invocar um ser primordial basta saber seu nome verdadeiro. — Tanto princesas quanto plebeus nas histórias imploravam por ajuda nas horas difíceis com um nome verdadeiro conquistado através de um feito virtuoso no início da história. — Mas é preciso muito mais do que isso. É preciso ser capaz de usar a língua primordial. — O sultão puxou um pedaço dobrado de papel do bolso. — E de mais uma coisa. Quer adivinhar?
Não peguei o papel.
— Se tivesse que chutar — podia sentir a bile na língua —, eu diria que o ingrediente final é um demdji.
Então era por isso que ele estava disposto a pagar o peso de um demdji em ouro. Então era por isso que ele tinha inserido ferro embaixo da minha pele. Ele não precisava dos meus poderes. Ia ordenar que eu conjurasse um djinni.
Eu conhecia as histórias das guerras em que djinnis lutaram lado a lado com a humanidade. Adil, o Conquistador, que acorrentara um djinni com ferro e deixara cidades inteiras de joelhos antes de enfrentar o príncipe cinzento. O djinni que construíra as muralhas de Izman em uma única noite como presente para sua noiva. O poder de um demdji não era nada comparado ao que um djinni podia fazer.
Pensei que ele me mandaria pegar o papel, mas o sultão apenas sorriu, indulgente.
— Um idioma verdadeiro. — Um idioma sem mentiras. — Uma língua honesta. — Uma demdji que não podia mentir. Que diria “Você virá até mim” na língua primordial e, assim, faria isso acontecer. — E um nome verdadeiro, claro. Nesse caso, o mesmo enterrado sob sua pele. Parte do seu nome verdadeiro. — Olhei rápido para o papel, involuntariamente. — O nome de seu pai.
Meu pai. Meu pai de verdade. O sultão não tinha me mandado pegar o papel, mas minha mão era atraída para ele, contrariando meu bom senso. Meu pai estava ao meu alcance.
— Pegue — ele ordenou finalmente. — Se quiser.
Meus dedos me traíram ao se fechar em torno do papel em resposta ao comando. Eu queria largar o papel. Queria lutar contra aquilo. Mas também queria saber.
Então levantei o papel para conseguir lê-lo à luz do poço.
E lá estava.
Tinta preta rabiscada em papel branco. O nome do meu pai.
Bahadur.
Pela primeira vez em dezessete anos eu sabia meu nome verdadeiro. O mesmo que estava talhado em bronze e implantado embaixo da minha pele.
Eu me chamava Amani Al-Bahadur.
— Leia em voz alta. — Agora era uma ordem. E eu não podia desobedecer.
Minha boca se moveu contra minha vontade, recitando a língua antiga. As palavras praticamente se formaram sozinhas, tão fácil para uma língua que eu não falava, como se morassem ali. Como se minha metade djinni a reconhecesse melhor que qualquer outra.
Cheguei ao final rápido demais, e o nome de meu pai deslizou pela minha língua como gordura no fogo. E então eu tinha terminado. Fiquei em silêncio.
Nada aconteceu por um momento.
De repente, o círculo de ferro irrompeu em chamas.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!