29 de outubro de 2018

Capítulo 13

A aranha falava verdade.
Mantendo-se escondida entre as rochas cobertas de gelo de um pico irregular da montanha, Manon e as Treze espiaram a pequena passagem.
O acampamento de bruxas de manto vermelho, a localização confirmada pelas Sombras há apenas uma hora.
Manon olhou por cima do ombro, para onde Dorian era quase invisível contra a neve, a aranha em sua forma humana ao lado dele.
Os olhos profundos da criatura encontraram os dela, brilhando com triunfo.
Bem. Cyrene, ou seja lá como ela se chamasse, poderia viver. Onde isso os levaria, ela veria. Os horrores que a aranha mencionara em Morath...
Mais tarde.
Manon examinou o céu azul que escurecia. Nenhum deles questionara quando Manon partiu em Abraxos horas antes. E nenhuma de suas Treze perguntou agora onde ela foi enquanto elas monitoraram o acampamento do inimigo antigo.
— Setenta e cinco pelo o que pudemos ver — Asterin murmurou, os olhos fixos no acampamento movimentado. — Que diabos elas estão fazendo aqui fora?
Manon não sabia. As Sombras não conseguiram descobrir nada. Tendas cercavam pequenas fogueiras – e a cada poucos momentos, figuras partiam e chegavam em vassouras. Seu coração trovejou no peito.
As Crochans. A outra metade de sua herança.
— Nós nos moveremos ao seu comando — Sorrel falou, um empurrão cuidadoso.
Manon respirou fundo, desejando que o vento coberto de neve a mantivesse fria e firme durante o próximo encontro. E ao que viria depois.
— Sem unhas ou dentes — Manon ordenou às Treze. Então ela olhou por cima do ombro mais uma vez para o rei e a aranha. — Você pode ficar aqui, se quiser.
Dorian deu-lhe um sorriso preguiçoso.
— E perder a diversão? — No entanto, ela percebeu o brilho em seus olhos, sabendo que ele talvez fosse o único que poderia entender. Que ela não estava prestes a encarar um inimigo, mas um povo em potencial. Ele assentiu sutilmente. — Todos nós iremos.
Manon meramente acenou de volta e se levantou. As Treze com ela.
Foi questão de minutos antes de gritos de alerta soarem. Mas Manon manteve as mãos erguidas quando Abraxos pousou na beira do acampamento Crochan, as Treze e suas serpentes aladas atrás dela, Vesta carregando tanto Dorian quanto a aranha.
Lanças, flechas e espadas apontavam para eles com uma precisão letal. Uma bruxa de cabelos escuros passou pela linha de frente armada, uma lâmina fina na mão enquanto seus olhos se fixavam em Manon.
Crochans. O povo dela.
Agora, agora seria a hora de fazer o discurso que ela planejara. De libertar aquelas palavras que ela havia segurado dentro de si.
Asterin se virou para ela em silêncio. Ainda assim, os lábios de Manon não se moveram.
A de cabelos escuros manteve os olhos castanhos fixos em Manon. Atrás de um ombro, um bastão de madeira polida brilhava. Não um bastão – uma vassoura. Além do ondulante manto vermelho da bruxa, riscas de ouro cintilavam no cabo.
Alta posição, então, para ter esse item fino. A maioria das Crochans usava metais mais simples, as mais pobres tinham apenas cabos.
— Que substituições interessantes para suas vassouras de ferro — comentou a Crochan. As outras eram tão impassíveis quanto as Treze. A bruxa olhou para onde Dorian estava sentado no topo da montaria de Vesta, provavelmente monitorando tudo com aqueles astuciosos olhos claros. — E que companhia interessante mantém agora. — A boca da bruxa se curvou ligeiramente. — A menos que as coisas tenham se tornado tão ruins para a sua raça, Bico Negro, que vocês tenham que recorrer ao compartilhamento.
Um rosnado retumbou de Asterin. Mas a bruxa a havia identificado – ou pelo menos o clã de onde vinha. A Crochan cheirou a aranha metamorfa. Seus olhos se fecharam. — Companhia interessante, de fato.
— Não tencionamos fazer mal a vocês — Manon finalmente falou.
A bruxa bufou.
— Nenhuma ameaça do Demônio Branco?
Ah, ela sabia, então. Quem era Manon, quem eram todos eles.
— Ou os rumores são verdadeiros? Você rompeu com sua avó? — A bruxa examinou Manon descaradamente da cabeça às botas. Um olhar mais ousado do que Manon geralmente permitia que seus inimigos fizessem. — O boato também afirma que você foi destruída pelas mão dela, mas aqui está você. Curada e mais uma vez nos caçando. Talvez os rumores sobre sua deserção também não sejam verdadeiros.
— Ela rompeu com a avó — disse Dorian, desmontando da serpente alada de Vesta e indo em direção a Abraxos. As Crochans ficaram tensas, mas não fizeram nenhum movimento para atacar. — Eu a retirei do mar meses atrás, quando ela estava às portas da Morte. Vi os fragmentos de ferro que meus amigos removeram de seu abdômen.
As sobrancelhas escuras da Crochan se ergueram, novamente observando o homem belo e bom orador. Talvez notando o poder que irradiava dele e as chaves que portava.
— E quem, exatamente, é você?
Dorian deu à bruxa um daqueles sorrisos encantadores e esboçou uma mesura.
— Dorian Havilliard, a seu dispor.
— O rei — uma das Crochans murmurou de perto das serpente aladas.
Dorian piscou.
— Este sou eu, também.
A líder do coven, no entanto, estudou-o, depois a Manon. A aranha.
— Há mais para ser explicado, parece.
A mão de Manon coçava por Ceifadora do Vento às suas costas. Mas Dorian disse:
— Estamos procurando vocês há dois meses. — As Crochans voltaram a ficar tensas. — Não por violência ou esporte — ele esclareceu, as palavras fluindo em uma melodia de língua prateada. — Mas de maneira a discutir interesses entre nossos povos.
As Crochans se mexeram, as botas triturando neve gelada.
— Entre Adarlan e nós — a líder do coven perguntou — ou entre as Bico Negro e nosso povo?
Manon finalmente se afastou de Abraxos, sua montaria bufando ansiosamente enquanto via as armas reluzentes.
— Entre todos nós — Manon falou firmemente. Ela fez um gesto com o queixo para as serpente aladas. — Elas não vão feri-las. — A menos que ela desse o sinal. Então as cabeças dos Crochans seriam arrancadas de seus corpos antes que pudessem desembainhar suas espadas. — Você podem relaxar.
Uma das Crochans riu.
— E sermos lembradas como tolas por confiar em você? Eu acho que não.
A líder do coven lançou um olhar silenciador em direção à sentinela de cabelos castanhos que tinha falado, uma bruxa bonita e cheia de formas. A bruxa deu de ombros, suspirando para o céu.
A líder do coven se voltou para Manon.
— Nós relaxaremos quando formos ordenadas a isso.
— Por quem? — Dorian examinou suas fileiras. Agora seria a hora de Manon dizer quem ela era, o que ela era. Anunciar por que realmente tinha vindo.
A líder do coven apontou mais fundo no acampamento.
— Por ela.


Mesmo de longe, Dorian se maravilhara com as vassouras que as Crochans montavam para voar pelo céu. Mas agora, cercado por elas... Não eram mitos.
Mas guerreiras. Todas muito felizes em acabar com eles.
Capas vermelhas e rubras fluíam por toda parte, surgindo contra a neve e os picos cinzentos. Embora muitas das bruxas tivessem um rosto jovem e bonito, havia tantas que pareciam estar na meia-idade, algumas até idosas. Quantos anos elas deveriam ter para terem se tornado tão enrugadas, Dorian não conseguia dimensionar. Ele tinha pouca dúvidas de que elas poderiam matá-lo com facilidade.
A líder do coven apontou para as fileiras de tendas, e as guerreiros reunidas se separaram, a parede de vassouras e armas brilhando à luz da morte.
— Então — uma voz velha disse quando as fileiras se afastaram para revelar para quem a Crochan apontara. Ainda não se curvara com a idade, mas o cabelo era branco por causa dela. Seus olhos azuis, no entanto, eram límpidos como um lago de montanha. — Os caçadores agora se tornaram os caçados.
A velha bruxa parou no limite de suas fileiras, examinando Manon. Havia bondade no rosto da bruxa, Dorian notou – e sabedoria. E algo, ele percebeu, como tristeza. Não o impediu de deslizar a mão sobre o pomo de Damaris, como se estivesse descansando casualmente.
— Nós as procuramos para poder conversar. — A voz fria e calma de Manon soou sobre as rochas. — Não tencionamos fazer mal a vocês.
Damaris se aqueceu com a verdade em suas palavras.
— Desta vez — a bruxa de cabelos castanhos que tinha falado anteriormente murmurou.
A líder de seu coven lhe deu uma cotovelada em advertência.
— Quem é você, no entanto? — Manon perguntou à velha. — Você lidera esses covens.
— Eu sou Glennis. Minha família servia à realeza Crochan muito antes da cidade cair. — Os olhos da velha bruxa foram para a tira de pano vermelho que prendia a trança de Manon. — Rhiannon encontrou você, então.
Dorian tinha escutado quando Manon explicara para as Treze a verdade sobre sua herança, e quem sua avó ordenara que ela matasse no Ômega.
Manon manteve o queixo erguido, mesmo quando seus olhos dourados cintilaram.
— Rhiannon não conseguiu sair do Desfiladeiro Ferian.
— Cadela — uma bruxa rosnou, outras ecoando.
Manon a ignorou e perguntou à velha Crochan:
— Você a conhecia então?
As bruxas ficaram em silêncio. A velha inclinou a cabeça, aquela tristeza enchendo seus olhos mais uma vez.
Dorian não precisou do calor de confirmação de Damaris para saber que suas próximas palavras eram verdadeiras.
— Eu era a bisavó dela. — Mesmo o vento chicoteando se acalmou. — Como sou sua.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!