22 de outubro de 2018

Capítulo 13

De: Alex
Para: Rosie
Assunto: Visita a Boston?
Fiz uma pausa aqui meio que escondido, saí da sessão de “lobotomias” pra te enviar um email rapidinho e saber como vai a procura por trabalho. Falta uma semana pra que o Randy Andy a expulse do escritório de clipes, portanto ainda há tempo, e, se por acaso você não tiver nada em vista até lá, posso mandar um cheque pra te ajudar a segurar as pontas por um tempo (mas apenas se você quiser a minha ajuda).
Adoraria poder ir pra casa agorinha e cair na cama... Estou exausto. Trabalhei por dois turnos seguidos, então amanhã não vou precisar sujar as minhas mãos de sangue... É o meu dia de folga, que felicidade... O problema é que, quando eu chegar em casa, Sally vai estar se aprontando pra fazer o plantão dela. Não temos muito tempo para o social — bem, a menos que a gente considere as conversas com as pessoas que estão agonizando nos seus leitos.
Desculpe, isso não teve graça nenhuma.
Ando tão cansado, e Sally e eu de fato não conseguimos passar muito tempo juntos; quando conseguimos, estamos tão exaustos que simplesmente desmaiamos.
E aí vem a minha ideia: se você vier pra cá com a Katie e o Qual-é mesmo-o-nome-dele, vou tirar uns dias de folga e podemos visitar todos os pontos turísticos, sair pra comer, nos divertir e aí vou poder dormir. E por fim vou conhecer o Qual é mesmo o nome dele. Tive umas semanas terríveis aqui; preciso mesmo das suas piadas pra aliviar o estresse!
Venha, Rosie Dunne, traga o seu número mágico e me faça rir.

De: Rosie
Para: Alex
Assunto: Rosie está aqui!
Olá, pobre homem. Não tema, Rosie está aqui! Lamento muito que as coisas estejam uma merda pra você nos últimos tempos. Acho que a vida gosta de fazer isso com a gente de vez em quando: te joga num mergulho em alto-mar e, quando parece que você não vai suportar, ela te traz para a terra firme de novo. Mas até lá, meu amigo, vou tentar adoçar um pouco a sua vida relatando os acontecimentos da minha.
Bem, pra começar, saiba que você é uma péssima influência pra mim. Depois de ler a obra-prima que ficou o meu currículo e a sua carta, me senti tão motivada e empolgada que vesti meu agasalho de moletom, coloquei a minha faixa na cabeça, minha munhequeira, meus tênis de corrida (quer dizer, não são bem de corrida) e saí correndo por Dublin feito uma mulher com alguma missão.
Que homem terrível. Você me fez sentir como se eu fosse capaz de fazer qualquer coisa, como se eu pudesse enfrentar o mundo (nunca, nunca mais faça isso de novo), então deixei meu CV em todos os possíveis hotéis nos quais já quis trabalhar, mas sempre tive medo de tentar. Mas que vergonha de você por ter me dado tanta força, porque ela logo desapareceu e me vi diante de milhões de entrevistas em milhões de empresas esnobes que me odiaram, assim como odiaram o meu atrevimento por sequer pensar que poderia trabalhar para elas.
Então, deixe-me ver... Por qual entrevista desconcertante devo começar? Hum... Há muitas pra escolher. Bem, vamos começar pela mais recente, pode ser? Ontem fiz uma entrevista pra trabalhar como recepcionista no hotel Two Lakes — aquele bem chique que fica aqui mesmo, na cidade, sabe? A parte da frente do edifício é toda de vidro, então dá pra ver aqueles candelabros brilhantes e resplandecentes pendurados, a quilômetros de distância. À noite parece que o prédio está pegando fogo, de tão iluminado que fica. O restaurante fica na cobertura, então de lá dá pra ter uma vista panorâmica da cidade. É lindo demais. Mas também é um daqueles lugares onde fica um sujeito de pé (na verdade, um sujeito muito educado) vestido com uma daquelas capas, de cartola, impedindo a entrada de qualquer pessoa. Deve ter levado uns dez minutos mais ou menos só pra eu conseguir entrar. Ele simplesmente não ouvia o que eu tinha a dizer, só não parava de falar que pra entrar eu tinha de ser hóspede. Com toda a sinceridade, como é que alguém pode ser hóspede de um hotel se eles nem te deixam atravessar a porta de entrada? Seja como for, ele acabou me deixando entrar e eu quase escorreguei no chão de mármore de tão lustroso que estava.
O lugar era tão silencioso que dava pra ouvir um alfinete caindo no chão, no sentido literal mesmo: a recepcionista realmente deixou cair um alfinete no chão e eu pude ouvir. Bom, suponho que o hotel não estivesse tão silencioso assim: tinha o som de um piano ecoando do salão e o de uma fonte gotejando no saguão — o barulho era muitíssimo relaxante. Lá tinha até aquelas mobílias gigantes com as quais eu sonho desde criança; espelhos enormes, candelabros gigantes, portas do tamanho da parede do meu apartamento. Quando pisei nos tapetes, achei que ia quicar no balcão de atendimento, de tão fofos que eram.
Para a entrevista, fiquei sentada à Maior Mesa do Mundo. Dois homens e uma mulher se sentaram numa ponta — pelo menos acho que era isso, dois homens e uma mulher; estavam tão longe de mim que eu mal conseguia enxergar (quase senti vontade de pedir pra eles me passarem o sal).
Então, achei que deveria fazer uma tentativa e mostrar que estava interessada na empresa, como você me sugeriu, e aí perguntei a eles como é que o nome do hotel foi escolhido, já que eu não sabia de nenhum lago por ali, naquela região da cidade. Os dois homens começaram a rir e se apresentaram como Bill e Bob Lake. Eles são os proprietários do lugar. Que vergonha!
Basicamente continuei falando tudo aquilo que você me aconselhou: de como eu gostava de trabalhar em equipe, da minha facilidade em lidar com o público, o quanto eu tinha interesse em trabalhar na administração de um hotel, o quanto sou uma profissional empenhada que se dedica a cumprir as suas tarefas e sempre termina o que começa e blá-blá-blá... E aí falei um monte de besteiras por mais ou menos uma hora, expliquei que gosto de hotéis desde criança e que sempre quis trabalhar em um. (Bom, chique mesmo é se hospedar em um, mas você e eu sabemos bem que não posso me dar a esse luxo.)
E aí eles se manifestaram e estragaram tudo fazendo uma pergunta ridícula, mais ou menos assim: “Bem, Rosie, do tempo em que você passou trabalhando na Andy Sheed Paperclip & Co., o que foi que aprendeu e que considera que poderia trazer para cá, para a recepção do Two Lakes?”
Ah, pelo amor! Como se isso fosse uma coisa digna de perguntar.
Bom, preciso ir agora, porque a Katie acabou de chegar da escola com aquele olhar demoníaco na cara e eu ainda nem preparei o jantar.

De: Alex
Para: Rosie
Assunto: Hotel Two Lakes
Que pena que você precisou sair correndo. Eu estava gostando do seu e-mail. Fico feliz em saber que as suas entrevistas estão indo tão bem — estou animado!
Mas também estou me coçando pra saber qual foi a resposta que você deu quando eles te perguntaram aquilo...

De: Rosie
Para: Alex
Assunto: Re: Hotel Two Lakes
Alex, não é meio óbvio?
Clipes!
(Eles simplesmente começaram a rir, então me livrei dessa fácil.) Bom, agora preciso ir mesmo. Katie está enfiando na minha cara uns desenhos que ela fez na escola. Ah, por falar nisso, ela fez um de você... Parece que você emagreceu um pouco. Vou escanear e te mando...

PREZADA SRTA. ROSIE DUNNE,
É com prazer que informamos que a senhorita foi aprovada para a vaga de recepcionista-chefe no Hotel Two Lakes.
Em outras palavras, gostaríamos de dizer que ficamos muito entusiasmados com a sua presença e com o seu desempenho na entrevista da semana passada. A senhorita revelou-se uma mulher brilhante, inteligente e espirituosa, o tipo de pessoa de que precisamos para trabalhar em nosso hotel.
Sentimo-nos orgulhosos em contratar pessoas por quem nós mesmos adoraríamos ser recepcionados em um hotel e temos grande convicção de que o riso que a senhorita nos proporcionou na entrevista também será transmitido aos hóspedes do nosso hotel quando estes chegarem à nossa recepção. É com muita satisfação que a recebemos como integrante da nossa equipe e esperamos que a nossa experiência profissional seja muito bem-sucedida e que se estenda por muitos anos.
Pedimos que entre em contato com Shauna Simpson, da recepção, para obter o seu uniforme.
Cordialmente,
Bill Lake e Bob Lake
PS: Também apreciaríamos se a senhorita pudesse trazer alguns clipes quando vier — o estoque de material de escritório está bem baixo!

VOCÊ RECEBEU UMA MENSAGEM DE: ROSIE.
Rosie: Meu Deus, Ruby, será mesmo verdade que vou ter um chefe/dois chefes bacanas? Acho que até que enfim as coisas estão entrando nos eixos.
Ruby: Lá vai ela de novo, profetizando o próprio fracasso... Não vai aprender nunca!

De: Rosie
Para: Stephanie
Assunto: Parabéns
Estou muito feliz em saber que você e o Pierre estão noivos! Sei que conversamos ao telefone por horas ontem à noite, mas eu quis te mandar um e-mail também. Parabéns! A propósito, tem notícias do Kevin? Ele nunca liga, nem me manda e-mail... Deve estar com medo, achando que vou pedir pra ele ficar de babá pra Katie de novo.
Alguma coisa muito bizarra está acontecendo comigo, Stephanie. Tenho um namorado que me ama (e eu também o amo), vou começar a trabalhar no hotel dos meus sonhos, Katie é linda, saudável e divertida, e eu afinal estou me sentindo uma mãe de verdade. Estou feliz. Quero curtir esse sentimento e aproveitar toda essa sorte que estou tendo, mas tem alguma coisa martelando a minha cabeça. Tem uma vozinha que sussurra: “As coisas estão perfeitas demais.” É quase como a calmaria que vem antes da tempestade.
É assim que a vida normal deve ser? Porque estou acostumada com drama, drama, drama. Estou acostumada a ver as coisas se desviarem do meu caminho. Estou acostumada a me esforçar, a reclamar e lamentar por ter conseguido algo que não era bem o que eu queria, mas que simplesmente vai servir.
Isso que está me acontecendo não é algo que “vai servir”, é perfeito; é o que eu queria, na medida exata. Eu queria ser amada, queria que a Katie parasse de ficar achando que era culpa dela não ter um pai como todas as outras crianças têm, queria que nós duas sentíssemos que pertencemos uma à outra, como também que outro alguém nos aceitasse e permitisse que fizéssemos parte da vida dele. Queria me sentir importante, me sentir alguém, saber se sentiriam a minha falta quando eu ligasse para o trabalho avisando que estava doente. Queria parar de sentir tanta pena de mim mesma. E consegui.
As coisas estão caminhando muito bem. Eu me sinto muito bem comigo mesma, e não estou muito acostumada com isso. Esta é a nova Rosie Dunne. A Rosie jovem e confusa se foi. A segunda fase da minha vida começa agora...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!