5 de outubro de 2018

Capítulo 13

EU ESTAVA CEGA. Não enxergava nada além das imagens na minha cabeça, enquanto lá fora só havia uma escuridão infinita, às vezes perturbada por vozes.
Nos meus melhores momentos eu sabia que era efeito dos remédios. Estava presa em pesadelos de fogo e areia. Areia em chamas. Um deserto cheio de pessoas queimando. Pessoas que conhecia, mas que não tinham nome no sonho. E um par de olhos azuis como os meus observando tudo. Porque eu ainda tinha olhos. Só não conseguia abri-los.
Em algum momento, me dei conta de que alguma coisa havia mudado. Estava sendo transportada. Podia ouvir vozes. Como se estivesse no fundo de um poço.
— Você sabe que o sultim gosta de garotas mirajins.
O sultim. Eu conhecia aquela palavra. Em algum lugar distante, sabia o que significava.
— Esta não é para o harém. — Outra voz. Uma mulher. Eu a conhecia. Tive vontade de usar meu poder. Fiz um esforço mental para alcançá-lo. A escuridão começou a invadir minha mente de novo. Perdi o contato com a areia e as vozes. A última coisa que ouvi antes de ser completamente engolida foi “perigosa”.
Um fiapo de consciência despertou no fundo da minha cabeça.
Perigosa.
Eles podiam apostar que sim.


Acordei de repente, com várias sensações competindo pela minha atenção. O frio da mesa embaixo de mim, a dor aguda irradiando pelo meu corpo. O brilho branco cristalino da luz do sol nas minhas pálpebras, uma cacofonia de pássaros e alguma outra coisa, um gosto não natural. Mais remédios, concluí.
Finalmente consegui abrir os olhos. A sala era arejada e bem clara, graças à luz que refletia forte no teto de mármore. A pedra era da cor de todos os céus que eu já tinha visto de uma só vez. Tinha o rosa e o vermelho da alvorada sangrenta, o violeta de um crepúsculo tranquilo, e era tão brilhantemente perturbadora quanto o azul-claro do meio-dia.
Nunca vira algo tão refinado antes. Nem mesmo na casa do emir em Saramotai.
O palácio. Eu estava no palácio do Sultão.
Tínhamos passado longas horas tentando encontrar maneiras de posicionar mais espiões ali dentro. Meses infiltrando gente na cozinha. E eu tinha acabado de ser carregada inconsciente porta adentro sem qualquer problema.
Só que agora precisava fugir dali.
Teria rido da ironia se não doesse tanto.
O mundo estava voltando aos eixos enquanto eu avaliava a situação. Me sentia mais fraca do que deveria estar. Minhas pálpebras pesavam, e eu só queria dormir.
Precisava sentar. Pressionei os cotovelos contra a laje fria do mármore e tentei me empurrar para cima. A dor cortou meu corpo inteiro como facas. Expeli o ar entre os dentes trincados, e o lençol que me cobria deslizou.
Tentei pegá-lo, mas pontadas de dor irradiaram pelos meus braços. Então olhei para mim mesma pela primeira vez. Embaixo do lençol branco e macio, eu estava cheia de ataduras. Elas cobriam praticamente todo o meu corpo. Dos pulsos até os ombros. Passavam em volta do meu peito e desciam pelas minhas costas. Hesitante, estiquei a mão e passei os dedos nas pernas. Minha mão roçou tecido em vez de pele. Eu parecia uma boneca de pano. Só que bonecas não costumam estar manchadas de sangue fresco daquele jeito.
E eu que achava que nada poderia ser pior do que acordar acorrentada em um navio.
Não foi exatamente agradável descobrir que estava errada.
Quando a dor causada pelo que quer que estivesse por baixo das ataduras começou a diminuir, percebi que estava sozinha. Foi uma boa surpresa. Notei um khalat azul familiar pendurado em uma cadeira próxima. Aquele que Shazad me dera antes do casamento de Imin. Eu não sabia quanto tempo já havia se passado desde então.
Movendo desajeitadamente meus músculos doloridos e braços e pernas atados, peguei o tecido manchado e o vesti, me atrapalhando com os minúsculos botões da frente. Pelo menos minhas mãos pareciam intactas. Agora eu só precisava de um punhado de areia ou de uma pistola. Àquela altura até uma faca serviria. Mas não parecia haver nenhuma arma no aposento.
Cortinas translúcidas cor-de-rosa flutuavam em um enorme arco. Me aproximei com cuidado delas. Um vento carregando o aroma familiar do calor do deserto balançou o tecido quando passei para a sacada.
Izman se estendia diante de mim.
Era diferente de tudo o que já tinha visto. Um telhado achatado de azulejos azuis com uma fonte parecia próximo o suficiente de seu vizinho para sussurrar segredos urbanos. Para além deles, flores amarelas desciam por paredes ensolaradas que competiam por espaço. Toldos roxos coroavam outra casa, e um domo dourado se apertava contra minaretes que se esticavam como lanças em direção ao céu.
Jin tinha dito uma vez que eu não conseguiria entender como Izman era grande. Se o encontrasse de novo, talvez ficasse tão feliz que admitiria que ele tinha razão.
Parecia uma selva de telhados que se estendia até o fim do mundo. Só que eu sabia que não era bem assim. Em algum lugar lá fora estava o deserto de onde eu viera.
Tentei alcançá-lo com a mente. Tentei me conectar com a areia e o saibro. Mas não sentia nada. O deserto tinha sido varrido impiedosamente dali. Teria que sair do palácio para isso.
Medi a distância entre a sacada e o telhado vizinho.
Provavelmente conseguiria saltar a distância num dia bom, mas a dor latejante no meu corpo me lembrou que aquele não era um dia bom. Eu só precisaria de um salto certeiro e estaria na cidade. Se errasse, não passaria de um corpo espatifado nos jardins. O que talvez fosse melhor do que ficar presa ali.
Não. Eu sobreviveria para reencontrar Shazad, como ela me fizera prometer. Viveria o suficiente para ver Ahmed no trono. E ainda queria que Jin explicasse por que pensava que podia me beijar depois de ter me abandonado.
Teria de sair pela porta. Só que não ia tentar fazer isso como se fosse uma convidada em vez de uma prisioneira. Com certeza haveria um guarda do lado de fora.
Encontrei uma jarra de vidro cheia de flores secas no quarto. Tirei-a da prateleira e me posicionei com as costas encostadas na porta. Então a deixei cair.
Ela se estilhaçou nos azulejos coloridos.
Aquilo deveria chamar a atenção de alguém.
Ajoelhei, ignorando a dor lancinante no corpo, procurando pelo maior caco.
Tinha funcionado. Eu podia ouvir passos do outro lado da porta, alguém vindo investigar.
Fechei a mão em torno de um pedaço de vidro do tamanho do meu dedão com a ponta afiada. Segurei-o com força, mas não o suficiente para minha mão sangrar, e permaneci agachada, com as costas na parede próxima da porta — pronta para quem entrasse.
Tinha funcionado em Saramotai, e eu não acreditava que os guardas do sultão fossem mais espertos do que os de Malik.
A porta se abriu. Fiquei abaixada, com o coração acelerado. Tudo o que vi foi um relance de tecido cinza, então agi. Dei um golpe mirando atrás dos joelhos. O vidro rasgou o linho fino, perfurando em busca da carne macia sob ele.
Mas, em vez disso, o vidro raspou em algo duro.
A abertura no tecido da calça, onde minha arma improvisada acertara, revelou juntas reluzentes de metal.
Por um instante tudo o que me veio à cabeça foi Noorsham em sua armadura de bronze, desenhada para controlá-lo. Palavras pesadas com seu sotaque do Último Condado ecoando na casca vazia. Mas a voz que ouvia agora era diferente.
— Cuidado! — Aquilo soou familiar, embora não estivessem falando comigo. Inclinei a cabeça para trás lentamente, observando o homem que me olhava de cima a baixo com uma expressão neutra. — Ela está armada.
Pensei que estava pronta para o que quer que estivesse enfrentando, mas tinha me enganado completamente. De pé ali na porta, com um corte na roupa, cabelo cuidadosamente partido e colado na testa, estava Tamid.
Meu mundo girava quando um guarda de uniforme passou por ele com a arma em punho. O homem me agarrou, arrancando o mísero caco de vidro da minha mão. Ela já estava manchada de vermelho de um corte na palma, feito pelo choque com o metal.
Nem senti. Nem lutei quando o guarda me arrastou de volta para o meio da sala, me pressionando contra a laje fria onde eu havia acordado.
Me contorci em seus braços. Não para escapar, mas para não perder Tamid de vista.
Tamid, com quem eu havia crescido. Tamid, que depois da morte da minha mãe era a única pessoa na Vila da Poeira com quem eu me importava. Tamid, que foi meu único amigo por anos. A pessoa que vi pela última vez sangrando até a morte na areia enquanto eu ia embora em um buraqi com Jin.
Você está morto. As palavras foram disparadas do meu cérebro para a boca, mas pararam ali. A inverdade não podia ir além disso. Tamid não estava morto. Estava vivo e coletando obstinadamente o vidro quebrado do chão. Como se nem me conhecesse.
Apenas a testa levemente franzida acusava concentração demais para uma tarefa tão simples. Ele evitava me encarar a qualquer custo.
Tamid não estava usando muleta, percebi. Na última vez que o vira, o príncipe Naguib tinha dado um tiro que atravessara seu joelho quando meu amigo se recusara a dar as respostas que ele queria. Tamid caíra de lado, gritando. Minha culpa. Já tinha visto homens com ferimentos menos sérios perderem uma perna, mas ali estava Tamid, com as duas. Ouvi um pequeno clique quando ele se moveu, metal contra metal, como o sistema de repetição em um revólver. Através das calças rasgadas podia ver o que parecia uma junta metálica. Meu coração saltou no peito. Uma perna de carne e osso e uma perna de metal.
— O que devemos fazer com ela? — o soldado perguntou.
— Amarre essa coisa na mesa. — Tamid pegou o último pedaço de vidro. Ele tinha me chamado de coisa. Como se eu fosse menos que uma amiga que tinha escolhido transformar em inimiga. Como se fosse menos que humana.
As mãos do soldado me pressionavam com força, machucando minha pele atada.
Soltei um grito sem querer. O barulho assustou Tamid e o fez olhar para mim.
— Não… — ele começou a dizer, desviando a atenção do guarda. Aquela era minha oportunidade.
Faça o primeiro golpe valer.
Cabeceei com força. Meu crânio atingiu o dele, irradiando uma dor lancinante pela minha cabeça.
— Puta que pariu! — praguejei, conforme o soldado cambaleava para trás, segurando a testa. Rolei para fora da mesa e corri para a porta. Mas fui lenta demais. O soldado já estava segurando meu khalat, erguendo o punho, mirando meu rosto.
Me virei como Shazad tinha ensinado, tentando absorver o soco com o ombro.
O golpe nunca veio.
Um silêncio pesado caiu sobre a sala.
Olhei para cima. Um homem segurava o punho do soldado. Por um brevíssimo instante, pensei que fosse Ahmed. A luz do sol ainda dançava lentamente pelo meu campo de visão depois de dias na escuridão, criando uma borda dourada em seu perfil.
Cabelos escuros com um toque encaracolado caíam sobre a fronte orgulhosa e escura do deserto. Olhos inteligentes e determinados manchados por uma noite sem sono.
Apenas a boca era diferente. Com uma expressão firme e confiante, não tinha o tom suave de incerteza que às vezes aparecia na de Ahmed.
Mas ele fora feito com o mesmo molde. Ou melhor, Ahmed saíra do molde dele.
Eu não deveria estar surpresa. Tal pai, tal filho.
— É preciso reconhecer quando alguém leva a melhor sobre você, soldado — o sultão disse, mantendo controle sobre seu punho.
O soldado soltou rapidamente minha camisa. Recuei, saindo de seu alcance. De repente, toda a atenção do sultão estava em mim.
Nunca tinha imaginado que ele seria tão parecido com o príncipe. Pensara no sultão como um daqueles desenhos em cores desbotadas em livros de histórias sobre governantes cruéis derrubados por heróis espertos. Gordo, velho e ganancioso, com roupas que custavam o mesmo que alimentar uma família inteira por um ano. Deveria saber que não seria assim. Se tinha aprendido alguma coisa como a Bandida de Olhos Azuis, era que as histórias e a verdade raramente coincidiam.
Quando tomou o trono, o sultão tinha a mesma idade que Ahmed tinha agora. Ele e Jin haviam nascido pouco mais de um ano depois. Eu era boa o suficiente em matemática para saber que isso significava que o homem diante de mim tinha menos de quarenta anos.
— Você me trouxe uma guerreira. — Ele não estava se dirigindo a mim. Notei uma quarta pessoa próxima da porta. Minha tia. A fúria sobrepujou todo o bom senso. Eu me movi novamente, me arremessando em sua direção por instinto. Sabia que não chegaria longe, mas o sultão me pegou antes que desse um mísero passo, segurando meus ombros. — Pare — ele ordenou. — Você vai causar mais dano a si mesma do que a ela. — Ele tinha razão. O movimento súbito me deixou tonta. Minha força estava se esvaindo, mesmo que a disposição de lutar continuasse. Relaxei o corpo em suas mãos. — Ótimo — o sultão disse gentilmente, como se eu fosse um animal que tivesse conseguido realizar um truque. — Agora vamos dar uma olhada em você. — Ele estendeu as mãos na direção do meu rosto. Recuei instintivamente, mas não tinha para onde ir. Já estivera naquela situação antes, em uma noite escura na Vila da Poeira com o comandante Naguib, outro filho do sultão. Ele deixou meu rosto machucado por semanas.
Mas o sultão segurou meu queixo com gentileza. Conquistou o trono como um guerreiro e diziam que ele mesmo havia sido responsável por metade das mortes.
Quase duas décadas não pareciam tê-lo deixado mais fraco. Seus dedos estavam calejados. Pela caça. Pela guerra. Por matar a mãe de Ahmed e Delila. Mas pareciam muito gentis retirando meu cabelo embaraçado do rosto para que pudesse me enxergar com mais clareza.
— Olhos azuis — ele disse, sem tirar as mãos. — Incomuns em uma mirajin.
Meu coração pulou no peito. O que minha tia e Tamid haviam dito para o sultão? Que eu era da rebelião? Ele teria acreditado? As histórias da Bandida de Olhos Azuis já tinham chegado aos seus ouvidos?
— Sua tia contou tudo sobre você, Amani.
— Ela é uma mentirosa. — A resposta saiu de repente, rápida e furiosa. — O que quer que tenha dito, não é confiável.
— Então está dizendo que não é uma demdji, como sua tia me informou? Ou só a está acusando de trair a própria família?
— Não se dê ao trabalho, Amani — minha tia interveio. — Você pode ter enganado todo mundo na Vila da Poeira, mas sua mãe confiava em mim. — Ela me olhava pesadamente por cima do ombro do sultão. Entendi que tinha dito ao sultão que viéramos direto de Vila da Poeira. Ela era mesmo uma mentirosa. Não havia mentido por minha causa, claro, mas não contara a ele sobre a rebelião. E minha tia estava me alertando sobre isso com suas palavras veladas. Seria ruim para ambas se o sultão descobrisse de onde realmente tínhamos vindo. Ele teria perguntas para ela, sem dúvida. Além disso, eu era valiosa como demdji, não como rebelde.
— Sua tia não seria a primeira, sabia? — o sultão me disse. — A me trazer um falso demdji. Muitos parentes já vieram de cidadezinhas nos confins do país, como a sua, trazendo filhas com cabelos tingidos de açafrão ou a pele pintada de azul achando que eu não notaria a diferença.
Ele passou a mão pela maçã do meu rosto. Havia uma ferida ali; eu podia senti-la pulsando entorpecida embaixo do dedão dele. Não conseguia lembrar como tinha surgido. Seus olhos viajavam entre mim e minha tia.
— Você despreza essa mulher. Não a culpo. Você vai às preces? — Mantive os olhos nele, embora pudesse sentir Tamid me observando, grudado na parede, como se pudesse se tornar parte dela. Da última vez que realmente participei das preces estava na Vila da Poeira, com Tamid ao meu lado, tentando me fazer ficar parada enquanto me remexia inquieta. — Os Livros Sagrados dizem que aqueles que traem sua própria família são piores do que traidores. Tias que vendem sobrinhas. Filhos que se rebelam contra os pais. — Fiquei tensa. — Vou fazer um acordo com você. O mesmo que ofereci a todos os falsos demdjis que vieram antes. Se puder me dizer que não é filha de um djinni, eu a libertarei, com a quantidade de ouro que puder carregar, e sua tia será punida da forma que você escolher. Se precisar de alguma inspiração, a garota que teve a pele pintada quis ver o pai pendurado pelos dedões até que todo o sangue se acumulasse em seu cérebro e o matasse. — O sultão tocou minha bochecha, como se estivéssemos compartilhando uma piada. — Só precisa repetir essas sete palavras simples: Eu não sou filha de um djinni, e terá sua liberdade. Ou pode permanecer em silêncio e deixar sua tia ir embora com todo o ouro.
Era uma oferta e tanto. Liberdade e vingança. Só que eu teria de mentir.
— O que vai ser? — ele perguntou. Me concentrei em sua boca enquanto pronunciava as palavras, aquela parte dele que não parecia com Ahmed.
Não era capaz de mentir, mas podia ser evasiva. Já tinha escapado de muitas situações sem dizer uma única palavra que não fosse verdade.
— Não conheci meu pai. — Tamid poderia confirmar isso, mas eu não queria envolvê-lo se pudesse evitar. O sultão não dera qualquer sinal de saber que tínhamos uma ligação. Tamid podia ter contado que me conhecia como mais do que uma demdji: eu era a garota que o fizera levar um tiro no joelho e saíra cavalgando com a rebelião. Mas se ele não tinha feito isso ainda, não seria eu a nos entregar. — Minha mãe nunca me contou nada sobre ele, e a Vila da Poeira inteira achava que se tratava de um soldado gallan…
O sultão pressionou o dedo contra meus lábios, me interrompendo abruptamente. Ele estava tão próximo de mim agora que preenchia todo o meu campo de visão.
Havia algo perturbadoramente familiar naquele homem, mais do que apenas o rosto que compartilhava com Ahmed. Eu não sabia dizer exatamente o que era.
— Não quero saber de truques ou meias verdades — ele falou tão baixo que só eu consegui ouvir. — Meu pai foi um tolo e morreu nos meus braços, com uma expressão de surpresa no rosto. Claramente não sou um tolo, ou meu filho rebelde já teria feito o mesmo comigo. Agora… — o sultão retirou com cuidado um último fio de cabelo do meu rosto. — Tudo o que quero são sete palavras de você.
A Bandida de Olhos Azuis talvez fosse assunto de histórias ao redor da fogueira, mas nós, demdjis, éramos lendas. Metade de Miraji não tinha nem certeza de que realmente existíamos. Só que o sultão parecia bem informado.
Eu tinha que mentir. Não conseguia, mas precisava. Tudo dependia disso. Não só dar o fora dali, não só minha vida. A vida de todos. Se não pudesse fazer isso, o sultão arrancaria mais e mais verdades dos meus lábios, talvez até sobre a rebelião. Ele tiraria afirmações do meu silêncio. E me transformaria em uma arma, como tinha feito com Noorsham. Uma escrava.
Busquei desesperadamente a mentira que me tiraria dali. Que me tiraria da frente daquele inimigo vestindo o rosto do príncipe.
Lutei com todas as minhas forças. Mas tudo em mim era demdji.
E não podíamos mentir.
O sultão riu. Foi um som inesperadamente sincero.
— Não precisa se esforçar tanto. Eu sabia o que era desde o momento em que a vi, pequena demdji. — Ele estava brincando comigo. — Recompense essa boa mulher. — O sultão gesticulou devagar em direção à minha tia. O soldado recobrou a postura em um estalar de dedos e gesticulou para que ela o seguisse. Seus ombros pareceram cair de alívio quando deixou o quarto. Minha tia parecia absurdamente satisfeita quando virou, desaparecendo no corredor. Eu a odiava. Deus, como odiava.
Mais ao lado, notei Tamid se remexendo, como se esperasse uma dispensa também. Como se preferisse partir a ter que assistir ao que o sultão estava prestes a fazer comigo.
— Sente, Amani — o sultão ordenou.
Eu não queria sentar. Queria levantar e enfrentar o inimigo. Mas de repente, contra minha vontade, meu corpo se moveu, dobrando minhas pernas até eu estar sentada na laje de mármore onde acordei.
O pânico cresceu dentro de mim, quase entalando na garganta. Eu nunca tinha sido traída pelo meu próprio corpo daquela forma.
— O que você fez comigo?
O sultão não respondeu imediatamente.
— Seus olhos denunciaram você desde o início. — Olhos que me traíam. — Conheci um demdji que também tinha olhos azuis. — Noorsham. Ele estava falando do meu irmão. — É uma das grandes justiças do nosso mundo que seu tipo, apesar de todo o poder, seja tão vulnerável às palavras. — Eles sabiam o nome verdadeiro de Noorsham. Por isso o controlaram. Noorsham usava uma máscara, feita de bronze, com seu nome talhado nela. — Quais são as chances de haver dois demdjis de olhos azuis no deserto com pais diferentes? Diria que bem poucas. — O que significava que o sultão sabia o nome do meu pai. E meu nome verdadeiro. Olhei em volta desesperada, procurando uma armadura de bronze como a que usaram para prender Noorsham. Mas o quarto parecia a câmara de um pai sagrado. Tamid sempre quisera ser um.
— Perdemos nosso último demdji, infelizmente — disse o sultão. — Foi ideia do nosso jovem Tamid tomar mais precauções dessa vez. — Ele indicou meu ex-amigo com a cabeça, que ainda evitava me olhar.
Finalmente entendi o que havia por baixo das ataduras.
— Você inseriu metal sob a minha pele. — Bronze. Com meu nome nele. O verdadeiro, incluindo o do meu pai. Como fizeram para controlar Noorsham.
Procurei um anel de bronze em sua mão, como aquele que Naguib usara para controlar Noorsham. Um anel que eu poderia arrancar de seu dedo, quebrando o controle que tinha sobre mim e possibilitando minha fuga. Em vez disso, vi uma pequena atadura no braço do sultão. Como as minhas. Ele estava tomando precauções.
— Bronze. — O sultão tocou uma das minhas cicatrizes. — E ferro.
Ferro.
Meu estômago se revirou. Eles tinham aberto minha pele, colocado ferro embaixo e costurado tudo de novo.
Eu estava indefesa.
Só havia um porém. O sultão queria Noorsham para usar seu poder como arma. Se não era por isso que me queria, por que tinha pagado tanto à minha tia?
— Você está se perguntando o motivo — o sultão disse. Desejei não ser tão fácil de ler. — Cometi o equívoco da última vez de achar que podia controlar um demdji. Mas existem tantas brechas. Tantas pequenas lacunas nas minhas ordens pelas quais você pode se esgueirar. Como uma garota, é em grande medida inofensiva. Como demdji… Bem, a chance de utilizar seu poder não vale o preço de voltá-lo contra mim. Seria como deixar você solta no meu palácio com uma arma de fogo. — Aquilo era um mero exemplo, mas ainda assim me deixou nervosa. Ele não tinha como saber que eu era a Bandida de Olhos Azuis. Se tivesse conhecimento de que eu era parte da rebelião, não estaríamos tendo uma conversa tão civilizada. — O ferro foi mais uma ideia de Tamid. Ele tem sido bem útil desde que chegou ao palácio. É do Último Condado também, sabia? De onde mesmo, meu garoto?
— Sazi — ele respondeu. Era uma mentira descarada. Sazi ficava razoavelmente perto da Vila da Poeira, mas distante o suficiente para eu só tê-la conhecido quando fui para lá com Jin. Era de lá que Noorsham tinha vindo. Era onde Naguib tinha acampado antes de ir para a Vila da Poeira. Tamid estava escondendo do sultão sua origem. Ele me odiava o suficiente para enfiar ferro embaixo da minha pele, mas não para colocar uma corda no meu pescoço, aparentemente.
Tentei fazer com que Tamid olhasse para mim, mas ele manteve seu olhar fixo no chão. Eu tinha sido uma idiota. Tinha visto meu antigo amigo e, por um instante, pensara que nada havia mudado. Mas estava errada. Devia ter imaginado. Da última vez que estivera com ele, eu era a garota que deixava pessoas para trás. E ele era o garoto que nunca havia me traído.
— Sua região se lembra de coisas que o restante do deserto esqueceu — o sultão disse.
— Que serventia tenho para você como demdji sem poder? — Voltei cuidadosamente minha atenção para o sultão.
Ele sorriu, enigmático.
— Venha e descubra.
Contra minha vontade, senti meus pés se mexerem. Tive tempo de sobra para olhar de relance por cima do ombro antes de a porta se fechar, e vi que Tamid finalmente olhava para mim, o rosto marcado por uma expressão muito parecida com preocupação.

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