29 de outubro de 2018

Capítulo 12

Tudo. Ela dera tudo por isso e ficou feliz em fazê-lo.
Aelin estava na escuridão, a chapa de ferro como uma noite sem estrelas.
Ela acordara aqui. Estivera aqui por... um longo tempo.
Tempo o bastante para estar aliviada. Não importava.
Talvez tudo tivesse sido para nada. A Rainha Que Foi Prometida.
Prometida para morrer, se render para parar a dívida de uma antiga princesa. Para salvar este mundo.
Ela não seria capaz de fazer isso. Ela falharia nisso, mesmo que sobrevivesse a Maeve.
Sobrevivesse ao que ela poderia ter vislumbrado sob a pele da rainha. Se tivesse sido real.
Contra Erawan, havia pouca esperança. Mas contra Maeve também...
Lágrimas silenciosas se acumularam em sua máscara.
Não importava. Ela não sairia deste lugar. Desta caixa.
Ela nunca mais sentiria o calor do sol em seus cabelos, ou a brisa marinha em suas bochechas.
Ela não conseguia parar de chorar, incessante e implacável. Como se alguma represa tivesse se aberto dentro dela no momento em que viu o sangue escorrer pelo rosto de Maeve.
Ela não se importava se Cairn visse as lágrimas, ou sentisse seu cheiro.
Que ele a quebrasse até que ela estivesse em pedaços de sangue no chão. Que fizesse isso de novo e de novo.
Ela não lutaria. Não suportava lutar.
Uma porta rangeu ao se abrir e fechar novamente. Passos se aproximaram. Então um baque na tampa do caixão.
— Como alguns dias a mais aí dentro soam para você?
Ela desejou poder se dobrar na escuridão ao seu redor. Cairn disse a Fenrys para se aliviar e retornar.
O silêncio encheu a sala. Então um som leve de raspagem. Ao longo do topo da caixa. Como se Cairn estivesse correndo com uma adaga por cima.
— Estive pensando em como recompensá-la quando você sair.
Aelin bloqueou suas palavras. Não fez nada além de olhar para o escuro.
Ela estava tão cansada. Tão, tão cansada.
Por Terrasen, ela fizera isso com prazer.
Tudo isso.
Por Terrasen, ela pagaria esse preço.
Ela tentou fazer o certo. Tinha tentado e falhado.
E ela estava tão, tão cansada.
Coração de Fogo.
A palavra sussurrada flutuou através da noite eterna, um lampejo de som, de luz.
Coração de Fogo.
A voz da mulher era suave e amorosa. A voz da mãe dela.
Aelin virou o rosto para o outro lado. Mesmo esse movimento era mais do que ela podia suportar.
Coração de Fogo, por que você chora?
Aelin não pôde responder.
Coração de Fogo.
As palavras foram uma suave carícia em sua bochecha.
Coração de Fogo, por que você chora?
E ao longe, dentro dela, Aelin sussurrou em direção àquele fio de memória, Porque estou perdida. E eu não sei o caminho.
Cairn ainda falava. Ainda raspava a adaga sobre a tampa do caixão. Mas Aelin não o ouviu quando encontrou uma mulher deitada ao lado dela. Um espelho – ou um reflexo do rosto que ela teria em alguns anos. Se vivesse tanto tempo.
Tempo emprestado. Cada momento disso era tempo emprestado.
Evalin Ashryver passou os dedos gentilmente pela bochecha de Aelin. Sobre a máscara.
Aelin poderia jurar que os sentia contra sua pele.
Você tem sido muito corajosa, sua mãe falou. Você tem sido muito corajoso por tanto tempo.
Aelin não conseguiu impedir o soluço silencioso que subiu pela garganta.
Mas você deve ser corajosa por mais um tempinho, meu Coração de Fogo.
Ela se inclinou contra o toque da mãe.
Você deve ser corajosa mais um pouquinho, e lembre-se...
Sua mãe colocou uma mão fantasma no coração de Aelin.
É a força disso que importa. Não importa onde você esteja, não importa a distância, isto a levará para casa.
Aelin conseguiu deslizar a mão até o peito, para cobrir os dedos da mãe.
Apenas tecido fino e ferro encontraram sua pele.
Mas Evalin Ashryver segurou o olhar de Aelin, a suavidade tornando-se força e luz como aço. É a força disso que importa, Aelin.
Os dedos de Aelin se enterraram em seu peito quando ela murmurou, A força disso.
Evalin assentiu.
As ameaças sibilantes de Cairn dançaram através do caixão, sua adaga raspando e raspando.
O rosto de Evalin não vacilou. Você é minha filha. Você nasceu de duas linhagens de sangue poderosas. Essa força flui através de você. Vive em você.
O rosto de Evalin resplandecia com a ferocidade das mulheres que tinham vindo antes delas, até a Rainha dos feéricos, cujos olhos ambas carregavam.
Você não cede.
Então ela se foi, como orvalho sob o sol da manhã.
Mas as palavras permaneceram. Floresceram dentro de Aelin, brilhante como uma brasa acesa. Você não cede.
Cairn raspou sua adaga sobre o metal, logo acima de sua cabeça.
— Quando eu te cortar desta vez, cadela, eu irei...
Aelin bateu a mão na tampa.
Cairn fez uma pausa.
Aelin bateu com o punho no ferro novamente. E de novo.
Você não cede.
De novo.
Você não cede.
De novo. De novo.
Até que ela estava viva com isso, até que seu sangue pingava em seu rosto, lavando as lágrimas, até que cada impulso de seu punho no ferro era um grito de guerra.
Você não cede. Você não cede. Você não cede.
Ele subiu por ela, queimando e rugindo, e ela se entregou totalmente a esse grito.
Distante, mas perto, madeira rachou.
Como se alguém tivesse cambaleado contra alguma coisa. Então gritou.
Aelin bateu com o punho no metal, a canção dentro dela pulsante e crepitante, uma onda gigantesca correndo para a praia.
— Consiga-me aquela gloriella!
As palavras não significavam nada. Ele não era nada. Sempre seria nada.
Mais e mais, ela bateu contra a tampa. Repetidamente, aquela canção de fogo e escuridão brilhou através dela, fora dela, para o mundo.
Você não cede.
Algo assobiou e crepitou por perto, e fumaça saiu pela tampa.
Mas Aelin continuou batendo. Continuou golpeando até que a fumaça a sufocou, até que seu doce aroma a arrastou para baixo e para longe.
E quando ela acordou acorrentada no altar, viu o que havia feito no caixão de ferro.
O topo da tampa tinha sido deformado. Uma grande corcunda agora se projetava, o metal esticado.
Como se tivesse chegado tão perto de romper completamente.


Em uma colina escura, com vista para um reino adormecido, Rowan congelou.
Os outros já estavam na metade do morro, levando os cavalos pela encosta seca que os levaria sobre a fronteira de Acádia e as planícies áridas abaixo.
Sua mão caiu das rédeas do garanhão.
Ele tinha que ter imaginado aquilo.
Ele examinou o céu estrelado, as terras adormecidas além, o Senhor do Norte acima.
Então aquilo o atingiu uma batida do coração depois.
Entrou em erupção em torno dele e rugiu.
Mais e mais e mais, como se fosse um martelo contra uma bigorna.
Os outros se voltaram para ele.
Essa música furiosa e ardente foi carregada mais perto.
Através dele. Através do elo de parceria. Através de sua alma.
Um berro de fúria e desafio.
Da parte de baixo do morro, Lorcan sussurrou:
— Rowan.
Era impossível, totalmente impossível, e ainda assim...
— Norte — disse Gavriel, virando seu cavalo. — A onda veio do norte.
De Doranelle.
Um farol na noite. Força ondulando no mundo, como ocorreu em Baía da Caveira.
Encheu-o de som, com fogo e luz. Como se gritasse, de novo e de novo, Eu estou viva, estou viva, estou viva.
E então silêncio. Como se tivesse sido cortada.
Extinta.
Ele se recusou a pensar no motivo. O elo de parceria permanecia. Esticado, mas permanecia.
Então ele enviou as palavras ao longo dele, com tanta esperança e fúria e amor implacável como ele tinha sentido dela. Eu vou te encontrar.
Não houve resposta. Nada além de um zumbido no escuro e o Senhor do Norte brilhando acima, apontando o caminho para o norte. Para ela.
Ele encontrou seus companheiros esperando por suas ordens. Ele abriu a boca para expressá-las, mas parou. Considerando.
— Precisamos de Maeve fora – longe de Aelin. — Sua voz retumbou sobre o sonolento zumbido de insetos na grama. — Apenas o suficiente para nos infiltrarmos em Doranelle. — Pois mesmo com os três juntos, eles poderiam não ser o suficiente para enfrentar Maeve.
— Se ela souber que estamos chegando — retrucou Lorcan — Maeve afastará Aelin de novo, não virá nos encontrar. Ela não é tão tola.
Mas Rowan olhou para Elide, os olhos da Senhora de Perranth muito arregalados.
— Eu sei — disse ele, seu plano se formando, tão frio e implacável quanto o poder em suas veias. — Nós atrairemos Maeve com um tipo diferente de chamariz, então.

6 comentários:

  1. Aí meu coração ... Por favor não me matem kkkkkk temo que sobreviverei a esse livro.

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  2. Nossa! Finalmente uma luz no fim do túnel. Quanta tensão e sofrimento... Força Aelin!!!

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  3. temos uma Elide cheia da razão aqui, não é mesmo kkkkkk

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  4. Essa "conexão de parceiros" que o Rowan tem com a Aelin é até legalzinho, mas NADA se compara ao estinto de mulher, sério! Se a Elide fala que é pra ir pra Doranelle então vcs tem que ir pra Doranelle seus machos capirotos😁

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Boa leitura, E SEM SPOILER!