29 de outubro de 2018

Capítulo 120

Dois dias depois, Nesryn Faliq ainda se recuperava do baile que durou até o amanhecer.
Que celebração fora.
Nada tão majestoso quanto qualquer coisa do continente do sul, mas a pura alegria e o riso no Salão Principal, o banquete e a dança... Ela nunca esqueceria enquanto vivesse.
Mesmo que fossem necessários todos os dias que lhe restavam de vida para ela se sentir descansada novamente.
Seus pés ainda doíam de dançar, dançar e dançar, e ela vira Aelin e Lysandra reclamando sobre isso na mesa do café da manhã apenas uma hora antes.
A rainha dançou também, outra visão que Nesryn nunca esqueceria. A primeira dança tinha sido de Aelin, e ela escolheu seu parceiro para abrirem o salão. Tanto a rainha quanto o seu consorte haviam mudado de par durante a festa, Aelin em um vestido preto entremeado de ouro, Rowan em preto bordado com prata. E que casal eles tinham sido, sozinhos na pista de dança.
A rainha parecia chocada, encantada, quando o príncipe feérico a conduziu por uma valsa e não errou um passo. Tão feliz que ela coroou os dois com chamas.
Aquilo foi o começo de tudo.
A dança tinha sido... Nesryn não tinha palavras para a rapidez e a graça de seus passos. A primeira deles como rainha e consorte. Seus movimentos tinham sido uma pergunta e uma resposta um para o outro, e quando a música acelerou, Rowan a girou, mergulhou e rodopiou, as saias do vestido preto revelando os pés de Aelin, calçados com sandálias douradas.
Pés que se moviam tão rapidamente sobre o chão que brasas cintilavam em seus calcanhares. Arrastavam-se na bainha de seu vestido arrebatador.
Mais e mais rápido, Aelin e Rowan haviam dançado, girando, girando e girando, a rainha brilhando como se recém-forjada enquanto a música se excitava para o seu fim.
E quando a valsa tocou sua triunfante nota final, eles pararam, uma pose perfeita e súbita. Logo antes de a rainha jogar os braços em volta de Rowan e beijá-lo.
Nesryn ainda sorria, com os pés doloridos e tudo, enquanto se recostava na câmara empoeirada que se tornara o quartel-general da realeza do khaganato os e ouvia falar.
— A Alta Curandeira falou que serão necessários mais cinco dias até que o último dos nossos soldados esteja pronto — o príncipe Kashin dizia aos irmãos. Para Dorian, que foi convidado para a reunião daquele dia.
— E vocês partirão então? — Dorian perguntou, sorrindo um pouco tristemente.
— A maior parte de nós — respondeu Sartaq, sorrindo com igual tristeza.
Pois foi amizade que cresceu ali, mesmo em meio à guerra. Verdadeira amizade, para durar além dos oceanos que os separariam mais uma vez.
Sartaq disse a Dorian:
— Nós lhe pedimos para vir aqui hoje porque temos um pedido bastante incomum.
Dorian levantou uma sobrancelha.
Sartaq estremeceu.
— Quando visitamos o Desfiladeiro Ferian, alguns de nossos rukhin encontraram ovos de serpentes aladas. Indiferentes e abandonados. Alguns deles agora desejam ficar aqui. Para cuidar deles. Para treiná-las.
Nesryn piscou, assim como Dorian. Ninguém havia mencionado isso para ela.
— E-eu pensei que os rukhin nunca deixassem suas montanhas — Nesryn observou.
— Estes são jovens — disse Sartaq com um sorriso. — Apenas duas dúzias. — Ele se virou para Dorian. — Mas eles me pediram para perguntar se seria permissível eles ficarem quando formos embora.
Dorian considerou.
— Não vejo por que não poderiam. — Algo brilhou em seus olhos, uma ideia formada e depois colocada de lado. — Eu ficaria honrado, na verdade.
— Só não deixe que tragam as serpentes aladas para casa — Hasar reclamou. — Nunca mais quero ver outra serpente alada enquanto eu viver.
Kashin deu um tapinha na cabeça dela. Hasar rangeu os dentes para ele.
Nesryn riu, mas seu sorriso desapareceu quando ela encontrou Dorian sorrindo tristemente para ela também.
— Acho que estou prestes a perder outro capitão da guarda — comentou o rei de Adarlan.
Nesryn inclinou a cabeça.
— Eu... — ela não tinha previsto esta conversa. Não agora, pelo menos.
— Mas eu ficarei feliz — Dorian continuou — de ganhar outra rainha a quem possa chamar de amiga.
Nesryn corou. Corou mais ainda quando Sartaq sorriu e disse:
— Não rainha. Imperatriz.
Nesryn se encolheu e Sartaq riu, Dorian com ele.
Então o rei abraçou-a com força.
— Obrigado, Nesryn Faliq. Por tudo o que fez.
A garganta de Nesryn estava apertada demais para falar, então ela apenas abraçou Dorian de volta. E quando o rei se foi, quando Kashin e Hasar foram almoçar cedo, Nesryn virou-se para Sartaq e se encolheu novamente.
— Imperatriz? Sério?
Os olhos escuros de Sartaq brilharam.
— Nós vencemos a guerra, Nesryn Faliq. — Ele puxou-a para perto. — E agora vamos para casa.
Ela nunca tinha ouvido palavras tão belas.


Chaol olhou para a carta em suas mãos.
Chegara uma hora antes, e ele ainda não a abrira. Não, ele apenas a pegara com o mensageiro, uma das crianças do time comandado por Evangeline, e a levou para seu quarto.
Sentado em sua cama, a luz das velas cintilando pelo cômodo deteriorado, ele ainda não conseguia romper o lacre de cera vermelho.
A maçaneta girou e Yrene entrou, cansada, mas com olhos brilhantes.
— Você deveria estar dormindo.
— Você também deveria — devolveu ele com o olhar aguçado para a barriga dela.
Ela acenou em dispensa, tão facilmente quanto ignorou os títulos de Salvadora Heroína de Erilea. Tão facilmente quanto ignorou os olhares impressionados, as lágrimas, quando dirigidos a ela.
Então Chaol ficaria orgulhoso pelos dois. Contaria a seus filhos da bravura dela, de seu brilho.
 — Que carta é essa? — perguntou ela, lavando as mãos, depois o rosto, na jarra perto da janela. Além do vidro, a cidade estava em silêncio, dormindo, após um longo dia de reconstrução. Os homens selvagens dos Caninos haviam permanecido para ajudar, um ato de bondade que Chaol se asseguraria de que não ficaria sem recompensa. Ele já havia investigado onde poderiam expandir seu território, e manteria a paz entre eles e Anielle.
Chaol engoliu em seco.
— É da minha mãe.
Yrene fez uma pausa, o rosto ainda pingando.
— Sua... Por que não abriu?
Ele deu de ombros.
— Nem todos nós somos corajosos o suficiente para enfrentar senhores das trevas, você sabe.
Yrene revirou os olhos, enxugou o rosto e se sentou na cama ao lado dele.
— Quer que eu leia primeiro?
Ele assentiu. Se amaldiçoou, mas assentiu. Sem palavras, Chaol entregou a carta a ela.
Yrene não disse nada enquanto abria o pergaminho lacrado, seus olhos dourados passeando pelas palavras escritas. Chaol começou a bater um dedo contra o joelho. Depois de um longo dia de cura, ele sabia melhor do que tentar andar. Mal conseguira voltar com a bengala antes de afundar na cama.
Yrene levou a mão ao pescoço ao virar a página e ler o verso.
Quando ela levantou a cabeça novamente, lágrimas escorriam por suas bochechas. Ela entregou-lhe a carta.
— Você deveria ler por si mesmo.
— Apenas me conte. — Ele leria mais tarde. — Apenas, me conte o que diz.
Yrene enxugou o rosto. Seus lábios tremiam, mas havia alegria em seus olhos. Pura alegria.
— Diz que ela ama você. Diz que sentiu sua falta. Diz que se você e eu formos abertos a ideia, ela gostaria de vir morar conosco. Seu irmão Terrin também.
Chaol pegou a carta, examinando o texto. Ainda não acreditando. Não até ele ler,
Eu o amei desde o momento em que soube que você estava crescendo no meu ventre.
Ele não impediu que suas próprias lágrimas caíssem.
Seu pai me informou do que fez com as minhas cartas para você. Eu o informei que não voltaria a Anielle.
Yrene encostou a cabeça no ombro dele enquanto ele lia e lia.
Os anos foram longos e o espaço entre nós muito grande, sua mãe havia escrito. Mas quando você estiver instalado com sua nova esposa, seu bebê, eu gostaria de visitá-los. De ficar mais tempo do que uma visita, Terrin comigo. Se estiver tudo bem para você.
Uma tentativa, palavras nervosas. Como se a mãe também não acreditasse que ele concordaria.
Chaol leu o resto, engolindo em seco quando chegou às linhas finais.
Eu estou tão orgulhosa de você. Sempre estive e sempre serei. E espero vê-lo em breve.
Chaol soltou a carta, enxugou as bochechas e sorriu para a esposa.
— Nós teremos que construir uma casa maior — disse ele.
O sorriso que recebeu de Yrene em resposta era tudo o que ele esperava.


No dia seguinte, Dorian encontrou Chaol e Yrene na enfermaria que havia sido transferida para os níveis inferiores, o primeiro em sua cadeira de rodas, ajudando sua esposa a cuidar de uma Crochan ferida, e chamou-os para segui-lo.
Eles foram, sem fazer perguntas, até que encontraram Manon no topo dos ninhos. Selando Abraxos para seu passeio matinal. Onde ela estava todos os dias, entrando em uma rotina que Dorian sabia ser tanto para manter a dor à distância quanto para manter as coisas em ordem.
Manon se calou quando os viu, as sobrancelhas se estreitando. Ela conhecera Chaol e Yrene há alguns dias, o encontro deles fora silencioso, mas não frio, apesar do quão ruim fora a primeira vez que Chaol vira a bruxa. Yrene tinha apenas abraçado a bruxa, Manon segurando-a rigidamente, e quando elas se separaram, Dorian poderia jurar que parte da palidez, da magreza, sumira do rosto de Manon.
— Para onde você vai, quando todos partirem? — Dorian perguntou à Rainha das Bruxas.
Os olhos dourados de Manon não deixaram seu rosto.
Ele não se atrevera a pedir a ela. Eles não ousaram falar disso. Assim como ainda não havia falado de seu pai, seu nome. Ainda não.
— Para os Desertos — ela respondeu por fim. — Para ver o que pode ser feito.
Dorian engoliu em seco. Ele ouviu as bruxas, tanto Dentes de Ferro quanto Crochans, falando sobre isso. Sentira seus nervos e excitação crescendo.
— E depois?
— Não haverá depois.
Ele sorriu ligeiramente para ela, um sorriso secreto, um sorriso sabedor.
— Não haverá?
— O que é que você quer? — Manon perguntou.
Você, ele quase disse. Você por inteiro.
Mas Dorian respondeu:
— Uma pequena facção do rukhin permanecerá em Adarlan para treinar os filhotes de serpentes aladas. Quero que eles sejam minha nova legião aérea. E eu gostaria que você e as outras Dentes de Ferro os ajudassem.
Chaol tossiu e olhou-o como se dissesse: Você ia me dizer isso quando?
Dorian piscou para o amigo e se virou para Manon.
— Vá para os Desertos. Reconstrua. Mas considere voltar. Senão para ser minha cavaleira coroada, então para treiná-los. — Ele acrescentou um pouco suavemente: — E para dizer olá de vez em quando.
Manon o encarou.
Ele tentou não parecer como se estivesse prendendo a respiração, como se esta ideia que ele teve apenas alguns minutos antes na sala da realeza do kaghanato não estivesse correndo por ele, brilhante e fresca.
— São apenas alguns poucos dias de voo para as serpentes aladas irem dos Desertos para Forte da Fenda. — Manon falou então. Os olhos dela eram cautelosos, mas ainda assim continham um leve sorriso. — Acho que Bronwen e Petrah serão capazes de liderar se eu ocasionalmente der uma saída. Para ajudar os rukhin.
Ele viu a promessa em seus olhos, naquele indício de um sorriso. Os dois ainda estavam de luto, ainda quebrados em alguns lugares, mas neste novo mundo deles... talvez eles pudessem se curar. Juntos.
— Vocês poderiam se casar — observou Yrene, e Dorian virou a cabeça para ela, incrédulo. — Isso tornaria mais fácil para vocês dois, assim não precisariam fingir.
Chaol olhou boquiaberto para sua esposa.
Yrene deu de ombros.
— E seria uma forte aliança para nossos dois reinos.
Dorian sabia que seu rosto estava vermelho quando ele se virou para Manon, as desculpas e negações em seus lábios.
Mas Manon sorria para Yrene, o cabelo prateado se elevando na brisa, como se buscasse o povo, unido, que logo voaria para o oeste. Esse sorriso suavizou quando ela montou Abraxos e pegou as rédeas.
— Veremos. — foi tudo o que Manon Bico Negro, a Rainha das Crochans e das Dentes de Ferro, falou antes de ela e sua serpente alada saltarem para o céu.
Chaol e Yrene começaram a discutir, rindo enquanto o faziam, mas Dorian foi até a beirada da torre. Assistiu aquela cavaleira de cabelos brancos e a serpente alada com asas prateadas se distanciarem enquanto voavam em direção ao horizonte.
Dorian sorriu. E encontrou-se, pela primeira vez em um bom tempo, ansioso pelo amanhã.

7 comentários:

  1. Sutileza manda lembranças pra Yrene!!!!!

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  2. Amo essa Irene. Esse principezinho e essa bruxinha são bonitinhos demais juntos, meu deus.

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  3. Ai Yrene. mandando bem. Esses dois precisam mesmo de um empurrãozinho! Casalzinho mais fofo esse Princepezinho e essa bruxinha.

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  4. Empurrãozinho!??? Isso foi uma voadora de 2 pés !! Kkkkkkkk

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  5. A yrene não mediu palavras isso aí.. esses dois tem q parar de ser cabeça dura e casar logo

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  6. Yrene representando todos os leitores kkkk😍😍❤️ Bruxinha e Principezinho ❤️

    Ass:Dessa

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Boa leitura, E SEM SPOILER!