5 de outubro de 2018

Capítulo 12

ACORDEI MUITO ENJOADA e acabei vomitando no chão de madeira.
Consegui pegar um balde antes da segunda onda de náusea chegar e terminei de esvaziar o estômago.
Apertei os olhos e abracei forte o balde de metal. Ignorei o cheiro repugnante que vinha do fundo. Minha cabeça ainda girava e meu estômago continuava se revirando.
Tive a certeza de que não havia mais nada para vomitar além do meu próprio fígado, mas mesmo assim demorei para me mexer.
Aparentemente, eu continuava viva. Isso era uma surpresa. Poderia ficar aliviada assim que me recuperasse de ter colocado as tripas pra fora. O que significava que eu tinha sido drogada, não envenenada. O exército deveria ter me matado. Deveria ter matado todos nós.
Talvez eles tivessem me mantido viva pelo meu valor como demdji. Ou talvez porque eu fosse garota e parecesse indefesa. Mas não tinham qualquer motivo para deixar o resto do acampamento vivo. Eles provavelmente tinham dado uma olhada em Jin, ainda dormindo, e atirado nele para mantê-lo fora do caminho, já que tinha cara de encrenca.
Só havia uma forma de ter certeza. Eu não podia dizer algo que não fosse verdade.
Se não conseguisse dizer aquilo em voz alta, já era.
Engoli a bile que subia pela garganta.
— Jin está vivo.
A verdade saiu como uma prece para a escuridão, tão enorme e certeira que finalmente entendi como a princesa Hawa foi capaz de invocar a alvorada. As palavras pareceram tão importantes quanto o sol nascente, aliviando o pânico no meu peito.
Jin estava vivo. Provavelmente era um prisioneiro naquele lugar, assim como eu.
Comecei a listar nomes rapidamente. Shazad, Ahmed, Delila, Hala, Imin, um depois do outro. Não hesitei nenhuma vez. Estavam todos vivos. Mas tentar dizer que estavam bem em voz alta provavelmente seria abusar da sorte, já que tínhamos acabado de perder nosso lar. Mas vivos pelo menos estavam. Eu também. E não pretendia estragar isso.
Viveria o bastante para conseguir reencontrá-los.
Percebi então que o cômodo se movimentava. Será que estava em um trem? O chão sacudiu, fazendo meu estômago se revirar. Não, aquilo era diferente. Não havia uma sensação de vibração constante. Era mais como se eu estivesse em um berço balançado por um gigante bêbado.
Quando minha cabeça parou de rodar, dei uma olhada em volta. Com cuidado, coloquei o balde de volta no chão e me endireitei. Consegui sentar. Já era alguma coisa. E, graças à luz que entrava por uma pequena janela acima de mim, podia enxergar.
Estava em uma cama em um quarto apertado com as paredes de madeira e o chão úmidos. Pela luz, parecia ser final da tarde. Céu rubro depois de um longo dia no deserto. Eu havia sido capturada de noite, o que significava que tinha dormido quase um dia inteiro. Pelo menos um dia inteiro.
Tentei levantar, mas minha mão direita não deixou. Eu estava amarrada à armação da cama.
Não. Acorrentada.
O ferro machucava minha pele. Pude senti-lo assim que tentei usar meu poder. Arregacei a manga para dar uma olhada. A algema parecia a mão de um adulto irritado em volta do punho de uma criança. Só que não estava totalmente apertada. Havia um fiapo de luz entre minha pele e o ferro.
Eu podia fazer algo com isso.
Sem pensar, estiquei a mão para pegar meu sheema, mas meus dedos roçaram apenas meu pescoço. Foi como um soco no estômago.
Ele havia desaparecido. A lembrança retornou. Jin o havia amarrado como uma tipoia. Eu estava lutando contra o tecido que envolvia meu nariz e minha boca quando o sheema caiu, perdendo-se na areia.
Era bobagem. Só um lenço. Um pedaço idiota de tecido vermelho para proteger do sol do deserto. Só que Jin tinha me dado aquilo de presente, arrancado de um varal em Sazi, no dia em que escapamos da Vila da Poeira. E eu o usei desde então. Mesmo quando estava irritada com ele. Era meu. E agora não estava mais comigo.
Mas havia outros jeitos de sair daquela enrascada.
Forcei a costura da camisa até se romper. Arranquei uma tira de tecido e comecei a introduzi-la entre a minha pele e o ferro. Não era exatamente fácil — a algema estava bem apertada e o pano era grosso e difícil de manusear. Mas persisti, deslizando um pedaço por vez.
Pronto. Senti quando o ferro não estava mais tocando minha pele. Meu poder voltou numa onda.
Estava cansada e com sede, sentia gosto de vômito e de alguma droga desconhecida que permanecia nos meus pulmões, mas sabia que conseguiria fazer isso. Com toda a minha força, busquei uma conexão com o deserto lá fora. Eu o senti responder, mas então ele escorreu entre meus dedos. Puxei-o novamente, mas não veio nada. Era como estender a mão tentando pegar algo que estava ligeiramente fora do alcance.
Lutei contra o pânico. Havia outras maneiras. Como em Saramotai. Respirei fundo e fechei os olhos. Agora que havia me acalmado, podia sentir. Mesmo com as guinadas estranhas do quarto e a tontura. A areia colada na minha pele.
Levantei a mão livre em um gesto rápido e violento, arrancando todos os grãos que podia sentir em mim, levando pele junto. Fiz a areia descer num golpe em direção ao meu braço, com um movimento rápido.
A tranca da algema rachou como madeira sob um machado. Eu estava livre.
Corri para a porta, lutando contra a névoa que persistia na minha cabeça como uma exaustão constante do deserto. O chão deu uma sacudida, me jogando em direção ao longo corredor escuro. No outro extremo, havia luz entrando de cima.
O chão sacudiu de novo.
De repente, juntei pedaços de histórias e compreendi. Algumas delas eu havia escutado perto de fogueiras, outras Jin havia me contado.
Aquilo não era um trem.
Eu estava em um navio.
Degraus de madeira surgiram no feixe de luz à minha frente, e bati a canela em um deles subindo desajeitada por causa do balanço. De repente me vi sob a luz do sol, respirando ar fresco.
Por um instante, fiquei cega com o brilho súbito depois de passar tanto tempo no escuro. Mas nunca fui do tipo que para de correr só porque não pode ver aonde está indo. Enquanto minha visão voltava, corri adiante, me concentrando no lugar onde o navio parecia terminar.
Ouvi gritos atrás de mim, mas não parei. Dei um último impulso violento para a frente. Colidi com toda a força contra a balaustrada na ponta do navio. Minha fuga.
Só que não havia para onde ir.
Uma vez perguntei a Jin se o Mar de Areia era como o mar de verdade. Ele tinha sorrido daquele jeito que sorria quando sabia de algo que eu não sabia. Antes de eu arrancar todos os seus segredos e tornar aquele sorriso meu.
Mas agora eu sabia.
Havia água até onde meu olhar alcançava. Mais água do que tinha visto a vida inteira, mais água do que imaginava existir no mundo. Tinha visto rios e piscinas, e até algumas cidades no deserto que podiam se dar ao luxo de ter fontes. Mas nunca vira algo assim.
Era tão vasto quanto o deserto. E me prendia como os quilômetros de areia ardente haviam me prendido na Vila da Poeira.
Alguém me pegou por trás, me arrancando da balaustrada como se pensasse que eu pudesse me atirar dali e cair nos braços do mar.
A névoa mental parecia estar se dissipando, e aos poucos eu me conscientizava do meu entorno. O cheiro estranho só podia ser da extensão infinita de mar. Ouvi gritos e berros, alguém perguntando como eu tinha escapado.
Uma turba de homens me cercou. Mirajins, com certeza. Sua pele era escura como o deserto, e mais escura ainda em alguns deles. Sheemas vibrantes cobriam seus rostos e as mãos eram calejadas e cobertas de marcas. Segurei firme meu punhado de areia, apesar de saber que não conseguiria derrubar nem metade deles antes que atirassem.
Não quando já havia três pistolas apontadas para mim.
Ali, no meio da multidão, vestindo um khalat branco tão brilhante que fazia meus olhos doerem, estava o motivo de Jin continuar vivo. Não foi o exército do sultão quem me capturou, afinal de contas.
Foi minha tia Safiyah.
— Você me drogou. — Minha voz estava falhando. Minha tia, cujas mãos passeavam com facilidade pelos remédios da caixa de suprimentos do pai sagrado. Ela tinha preparado a refeição. Ela podia ter colocado qualquer coisa na comida para derrubar os rebeldes e fugir. Teria sido fácil para ela me pegar enquanto eu seguia irritada para a tenda de Jin, e me botar pra dormir com alguma substância roubada do baú que deixei destrancado. Duas vezes ela tentou me dar algo para dormir. Para aliviar a dor.
Shazad sempre dizia que eu não sabia cuidar da minha retaguarda. Então fazia isso por mim. Ela também teria dito que essa era uma bela oportunidade de ficar de boca fechada. Mas Shazad não estava ali. E aquela mulher tinha me sequestrado.
— Sabe, a última vez que droguei alguém que confiava em mim — eu disse —, pelo menos tive a decência de deixar a pessoa onde estava.
— Deus, queria que você não parecesse tanto com ela — minha tia falou, tão baixo que tive certeza de ser a única a ouvir. Safiyah deu a volta a meu redor, caminhando até onde o marujo segurava meus braços. Senti seu toque na tira de pano que eu havia enfiado entre minha pele e a algema. — Esperta. — Ela quase pareceu orgulhosa. — Para conseguir usar seus truques de demdji.
Tentei me soltar, mas o marujo me segurava bem firme.
— Você sabe o que eu sou. — Não era uma pergunta, mas esperava respostas.
— Eu vendia remédios em Izman desde antes de você nascer. — Ela tirou o tecido do meu pulso quase delicadamente. — Acha mesmo que é a primeira demdji que encontro na vida? Cada um vale uma pequena fortuna. E você ainda é de um tipo raro. Na minha profissão, aprendemos a reconhecer os sinais. Eu já imaginava por causa dos seus olhos, mas tive certeza quando aquela tempestade de areia nos salvou no deserto. E sua mãe era sempre tão reservada sobre você nas cartas.
Ela não tinha bons motivos para estar em Saramotai. O único motivo era o fato de o emir ter começado a se vangloriar aos quatro ventos de que tinha uma criança com olhos de brasas que controlava o sol com as mãos. Ranaa era bem valiosa.
Mas minha tia perdera a chance de levar a garotinha demdji. Então me levara no lugar.
— Não é verdade, sabia? — Lembrei o que Mahdi me contara, com a faca na garganta de Delila. — O que dizem sobre nossos poderes curativos.
— O importante — ela disse, sem me encarar enquanto torcia o pedaço de pano em volta da própria mão — é que tem gente que acredita nessas histórias. — Ela estava certa. Histórias e crenças eram mais importantes do que a verdade. Eu sabia disso, afinal, era a Bandida de Olhos Azuis. Mas já não seria a Bandida de Olhos Azuis depois que arrancassem meus olhos.
Então minha tia disse para o homem que me segurava:
— Coloque-a junto com as outras garotas.
Fomos para um lugar ainda mais fundo do que aquele de onde eu havia fugido. Bem mais. Até lá embaixo, na escuridão profunda do estômago sacolejante de madeira, e então um pouco mais para baixo. Não sabia para onde íamos, mas tínhamos que estar chegando perto. Ouvi o choro bem antes de vê-las.
O quarto onde as outras garotas eram mantidas fazia a minúscula cela onde acordei parecer luxuosa. Elas tinham os dois braços acorrentados às paredes de madeira, e uma poça rasa de água escorria de um lado a outro, molhando os corpos, que tremiam de frio no escuro.
Tinha cerca de uma dúzia delas. Enquanto era conduzida, registrei vislumbres de rostos, iluminados pela luz da lâmpada oscilante. Uma garota pálida com cabelo cacheado e loiro bem claro, vestindo trapos de um vestido azul estrangeiro que parecia ter tido o formato de um sino um dia; uma garota de pele escura com os olhos fechados e a cabeça inclinada para trás, cujo único sinal de vida eram os lábios murmurando uma prece; uma garota xichan com cabelo preto liso e um olhar de pura fúria acompanhando o homem que me segurava; outra garota mirajin em um khalat simples tendo calafrios. Elas pareciam tão diferentes umas das outras quanto dia e noite, areia e céu, mas eram todas lindas. E isso me assustava mais do que qualquer outra coisa.
Delila havia me contado como a mãe de Jin tinha sido levada para o harém. Ela era filha de um mercador xichan e passara a vida no convés de um navio — convés que foi encharcado com o sangue de sua família quando foi invadido por piratas. Lien, que tinha dezesseis anos e era linda, foi a única sobrevivente, levada em correntes e trapos de seda para o novo sultão de Miraji, que tinha acabado de assassinar o pai e os irmãos para tomar o trono para si. Ele estava montando um harém para garantir sua sucessão.
Lien foi vendida por cem louzis e se mudou para aquela prisão, onde daria um filho para o homem que odiava. Apenas a morte de uma amiga que amava como se fosse uma irmã dera a ela a oportunidade de escapar para o mar, carregando uma recém-nascida e dois jovens príncipes.
Às vezes eu ficava em dúvida se Jin sabia daquilo. Não era o tipo de coisa que mulheres contavam aos filhos. Era o tipo de coisa que contavam a outras mulheres.
Cuidado, elas diziam para as filhas. As pessoas vão te machucar por causa de sua beleza.
Eu não era bonita. Não estava ali por esse motivo. Estava ali porque era poderosa.
Dessa vez não deixaram nenhum espaço entre as algemas de ferro e minha pele. Safiyah e o marujo viraram para ir embora, levando a luz com eles. Eu não podia deixar que fossem e me largassem ali acorrentada sem dizer nada. Seria admitir a derrota.
— Você sabe o que dizem, não? Trair seu próprio sangue amaldiçoa alguém para sempre aos olhos de Deus — falei para Safiyah. A água já estava lambendo minhas roupas. Percebi que ainda vestia o khalat de Shazad. A água chegava até minha pele. — O pai sagrado pregava bastante sobre isso na Vila da Poeira.
Eu não esperava que Safiyah parasse, mas ela parou. Permaneceu na porta por um bom tempo, de costas para mim, enquanto seu capanga ia embora.
— E como pregava. — Safiyah virou para me encarar e, pela primeira vez, me assustou. Foi a calma em sua expressão, demonstrando que não havia hesitado em fazer aquilo comigo. Nem por um instante. — Sua mãe e eu sempre íamos às preces. Todos os dias. Não só nos dias santos. Estendíamos nossos tapetes um do lado do outro e apertávamos os olhos com força, como diziam que devíamos fazer. Rezávamos pelas nossas vidas. Por uma chance de escapar da Vila da Poeira. — Eu não tinha percebido a frieza de Safiyah até então. Mas estava tão clara quanto a luz do dia quando ela se agachou na minha frente. — Eu amava minha irmã como o sol ama o céu. Teria feito qualquer coisa por ela. E então Zahia morreu, e deixou você no lugar dela. E vocês são tão parecidas. É como ver um andarilho vestindo o rosto dela. Tem alguma ideia da sensação? Olhar para o monstro que matou quem você amava, que não é nem mesmo humana, mas pensa que é?
Observei a luz da lâmpada oscilando em sua expressão feroz, iluminando seu rosto subitamente e então o devolvendo à escuridão.
— A Vila da Poeira matou minha mãe.
— Porque ela tentou proteger você. Do homem que se intitulava seu pai. Quer saber o que dizia a última carta dela para mim?
Eu queria dizer não. Mas seria mentira.
— Ela disse que você não era filha daquele homem, e que ele sabia disso. Sempre soubera. Que ela temia cada vez mais por sua segurança conforme você crescia. Que tinha chegado a hora de fugir. Que morreria para te proteger se precisasse, mas que o mataria primeiro se conseguisse.
Minha cabeça voltou para aquele dia no deserto. Quando ouvi os tiros. Disseram que minha mãe tinha enlouquecido. Mas era mentira. Ela matara o marido em plena consciência. E tinha feito isso por mim.
— Ela ia fugir para ficar comigo, sabia? Antes de você. Te odiei no momento em que Zahia me disse que precisava adiar a partida, porque não podia cruzar o deserto grávida. Depois, porque você era pequena demais. Ainda assim, planejei minha vida pensando que um dia reencontraria minha irmã mais nova. Fiz coisas terríveis para construir uma vida para nós duas. A Vila da Poeira matou Zahia. Mas ela morreu por ser sua mãe. Agora vou conquistar a vida que sempre mereci, e você vai pagar o preço por isso.
— Se me odeia tanto assim, por que não arranca meus olhos aqui e agora? — perguntei com raiva. Queria que ela provasse que realmente me odiava tanto quanto achava. — Acaba logo com isso.
— Acredite em mim, se eu pudesse ter me poupado de te arrastar pelo deserto, teria feito isso. — Minha tia sorriu lentamente. — Mas você vale seu peso em ouro, sabia?
Eu já tinha ouvido aquilo antes. Em Saramotai, sobre Ranaa. De Hala, depois de salvar Sayyida de Izman. Ela não ia simplesmente arrancar meus olhos para vender a algum ricaço em Izman com problemas de coração. Estava me levando para o sultão.

3 comentários:

  1. Aquela coisa aprendida em a rainha vermelha ne? "Todo mundo pode trair todo mundo" (ou algo semelhante não tenho certeza kk)

    -Julia Lovelace

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  2. Verdade. E traição é pecado né?!! Mas duvido que Amani vá se render. Ja deve estar traçando um plano.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!