29 de outubro de 2018

Capítulo 11

— Você tem certeza disso?
Com o coração acelerado, Chaol apoiou a mão na mesa dos aposentos que dividia com Yrene e apontou para o mapa que Nesryn e Sartaq haviam aberto diante deles.
— Os soldados que interrogamos receberam ordens sobre onde agrupar — disse Sartaq do outro lado da mesa, ainda vestido com suas roupas de voar do rukhin. — Eles estavam longe o bastante atrás dos outros para precisarem de direções.
Chaol esfregou a mandíbula com a mão.
— E vocês tem uma estimativa de homens?
— Dez mil facilmente — disse Nesryn, ainda encostada na parede. — Mas nenhum sinal das legiões de Dentes de Ferro. Apenas soldados a pé e cerca de mil cavaleiros.
— Até onde você pode ver do ar — rebateu a princesa Hasar, girando a ponta de sua trança longa e escura. — Quem dirá o que pode estar à espreita entre as fileiras?
Quantos demônios valg, a princesa não precisou acrescentar. De todos os irmãos reais, Hasar levara a infestação da princesa Duva e o assassinato de sua irmã Tumelun mais pessoalmente. Navegara para cá para vingar ambas as irmãs e garantir que isso não acontecesse novamente. Se esta guerra não tivesse sido tão desesperada, Chaol poderia pagar um bom dinheiro para ver Hasar rasgando as peles dos valg.
— Os soldados não divulgaram essa informação — admitiu Sartaq. — Apenas a localização pretendida.
Ao seu lado, Yrene envolveu os dedos de Chaol e apertou. Ele não tinha percebido o quão fria, quão trêmula, sua mão tinha ficado até que o calor dela se infiltrou nele.
Porque o alvo do exército inimigo agora era marchar para o noroeste... para Anielle.
— Seu pai não se ajoelhou a Morath — ponderou Hasar, jogando sua pesada trança sobre o ombro de sua jaqueta azul-celeste bordada. — Deve deixar Erawan nervoso o suficiente para que ele sinta a necessidade de enviar tal exército para esmagá-lo.
Chaol engoliu a secura em sua boca.
— Mas Erawan já saqueou Forte da Fenda — disse ele, apontando para a capital na costa, depois arrastando um dedo para o interior ao longo do Avery. — Ele controla a maior parte do rio. Por que não mandar as bruxas para saqueá-la? Por que não navegar pelo Avery? Por que levar um exército tão longe para a costa, depois todo o caminho de volta?
— Para limpar o caminho para o resto — disse Yrene, com a boca apertada. — Para incutir tanto terror quanto possível.
Chaol soltou um suspiro.
— Em Terrasen. Erawan quer que Terrasen saiba o que está por vir, para que ele possa tomar seu tempo e dedicar forças à destruição de extensões de terra.
— Anielle possui um exército? — perguntou Sartaq, os olhos escuros do príncipe firmes.
Chaol se endireitou, a mão se fechando em um punho, como se pudesse evitar que o medo se acumulasse em seu estômago. Depressa – eles tiveram que se apressar.
— Nenhum capaz de enfrentar dez mil soldados. A fortaleza poderia sobreviver a um cerco, mas não indefinidamente, e não seria capaz de receber a população da cidade. — Apenas os poucos escolhidos de seu pai.
O silêncio caiu, e Chaol sabia que eles esperavam que ele falasse, que expressasse a questão. Ele odiava cada palavra que saía de sua boca.
— Vale a pena desembarcar nossas tropas aqui e marchar para salvar Anielle?
Porque não podiam arriscar o Avery, não quando Forte da Fenda estava posicionada em sua entrada. Eles teriam que encontrar um lugar para atracar e marchar para o interior. Através das planícies, sobre o Acanthus, atravessando Carvalhal, e até o sopé dos Caninos Brancos. Dias de viagem a cavalo – os deuses sabiam quanto tempo um exército levaria.
— Talvez não haja uma Anielle quando chegarmos lá — disse Hasar, com mais gentileza do que a princesa de rosto astuto geralmente se incomodava. O suficiente para que Chaol controlasse a vontade de dizer que era precisamente por isso que eles tinham que se mover agora. — Se a metade sul de Adarlan está além da ajuda, então poderíamos atracar perto de Meah. — Ela apontou para a cidade no norte do reino. — Marchar de perto da fronteira e interceptá-los.
— Ou poderíamos ir diretamente para Terrasen e subir o Florine até as portas de Orynth — ponderou Sartaq.
— Não sabemos o que vamos encontrar em ambos os casos — Nesryn respondeu calmamente, sua voz fria enchendo a sala. Uma mulher diferente em alguns aspectos da que acompanhara Chaol ao continente do sul. — Meah poderia ser invadida, e Terrasen poderia estar enfrentando seu próprio cerco. Os dias que levariam a nossos batedores para voar para o norte desperdiçariam tempo vital, se retornassem.
Chaol respirou fundo, desejando que seu coração se acalmasse. Ele não tinha a menor ideia de onde Dorian poderia estar, se fora com Aelin para Terrasen. Os soldados que Nesryn e Sartaq haviam interrogado não sabiam. O que seu amigo teria escolhido? Ele quase podia ouvir Dorian gritando com ele por hesitar, ouvi-lo ordenar que Chaol parasse de se perguntar aonde ele tinha ido e corresse para Anielle.
— Anielle fica perto do Desfiladeiro Ferian — disse Hasar — que também é controlado por Morath e é outro posto avançado das Dentes de Ferro e suas serpentes aladas. Ao levar nossas forças para o interior, corremos o risco não apenas de o exército marchar para Anielle, mas também de encontrar uma série de bruxas às nossas costas. — Ela encontrou o olhar de Chaol, seu rosto tão firme quanto suas palavras. — Salvar a cidade nos ganharia alguma coisa?
— É a casa dele — disse Yrene em voz baixa, mas não fracamente, o queixo se recusando a baixar um centímetro na presença da realeza. — Penso que é todo o argumento que precisamos para defendê-la.
Chaol apertou a mão dela em agradecimento silencioso. Dorian teria dito o mesmo.
Sartaq estudou o mapa mais uma vez.
— O Avery se divide perto de Anielle — ele murmurou, passando um dedo ao longo do rio. — Vira para o sul, para o Lago Prateado e Anielle, e então o outro ramo corre para o norte, depois do Desfiladeiro Ferian, contornando as Ruhnn e até quase a fronteira de Terrasen.
— Eu sei ler um mapa, irmão — Hasar grunhiu.
Sartaq a ignorou, seus olhos encontrando Chaol mais uma vez. Uma faísca se acendeu em suas profundezas.
— Evitamos o Avery até Anielle. Marchamos para o interior. E quando a cidade estiver segura, começaremos uma campanha para o norte, ao longo do Avery.
Nesryn se afastou da parede para se aproximar pelo lado do príncipe.
— No Desfiladeiro Ferian? Estaríamos enfrentando as bruxas, então.
Sartaq deu-lhe um meio sorriso.
— Então é uma coisa boa que temos ruks.
Hasar se inclinou sobre o mapa.
— Se conseguirmos alcançar o Desfiladeiro Ferian, poderíamos marchar até Terrasen, tomando a rota interior. — Ela assentiu com a cabeça. — Mas e o exército?
— Eles aguardam a frota de Kashin — disse Sartaq. — Nós levamos os soldados, a cavalaria Darghan, os ruks, e eles esperam que o resto do exército chegue e diz a eles para nos encontrarem aqui.
Esperança se agitou no peito de Chaol.
— Mas isso ainda nos deixa pelo menos uma semana atrás do exército marchando para Anielle — apontou Nesryn.
Verdade – eles nunca alcançariam a tempo. Qualquer atraso poderia custar vidas incalculáveis.
— Eles precisam ser avisados — disse Chaol. — Anielle deve ser avisada e ter tempo para se preparar.
Sartaq assentiu.
— Eu posso estar lá em poucos dias de voo.
— Não — disse Chaol, e Yrene levantou uma sobrancelha. — Se você puder me poupar um ruk e um cavaleiro, eu mesmo irei. Fique aqui e prepare os ruks para voar. Amanhã, se possível. Um dia ou dois no máximo. — Ele gesticulou para Hasar. — Aporte os navios e conduza as tropas para o interior o mais depressa que eles puderem marchar.
Os olhos de Yrene se tornaram cautelosos, bem conscientes do que e quem ele enfrentaria em Anielle. O regresso ao lar que ele jamais imaginara, certamente não sob estas circunstâncias.
— Eu vou com você — disse sua esposa. Ele apertou a mão dela novamente, como se dissesse, Não estou nada surpreso em ouvir isso.
Yrene apertou de volta.
Sartaq e Hasar assentiram, e Nesryn abriu a boca como se tivesse objeções, mas assentiu também.
Eles partiriam esta noite, sob a cobertura da escuridão. Encontrar Dorian novamente teria que esperar. Yrene mordeu o lábio, sem dúvida calculando o que precisariam preparar, o que dizer às outras curandeiras.
Ele rezou para que fossem rápidos o suficiente, rezou para que ele pudesse descobrir o que diabos dizer a seu pai, depois do juramento que ele quebrou, depois de tudo o que havia entre eles. E, mais do que isso, o que diria a sua mãe e ao irmão não tão jovem que ele deixara para trás quando escolhera Dorian sobre seu direito de primogenitura.
Chaol deu a Yrene o título que lhe devia em casamento: lady Westfall. Ele se perguntou se poderia suportar ser chamado de lorde. Se isso importava, dado o que se abateria sobre a cidade do Lago Prateado.
Se isso sequer importava, dado que talvez não conseguissem chegar a tempo.
Sartaq apoiou a mão no cabo da espada.
— Mantenha as defesas pelo maior tempo que puder, lorde Westfall. Os ruks estarão um dia atrás de você, a cavalaria uma semana atrás.
Chaol apertou a mão de Sartaq e depois a de Hasar.
— Obrigado.
A boca de Hasar se curvou em um meio sorriso.
— Agradeça se salvarmos a sua cidade.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!