29 de outubro de 2018

Capítulo 118

Yrene caiu no banco de três pernas em meio ao caos do Grande Salão. A história era familiar, embora a configuração fosse ligeiramente diferente: outra sala poderosa transformada em uma enfermaria temporária. O amanhecer não estava longe, mas ela e as outras curandeiras continuavam trabalhando. Aqueles que sangravam não conseguiriam sobreviver sem elas.
Humanos, feéricos, bruxas e Lobos... Yrene nunca tinha visto tanta variedade de pessoas em um só lugar.
Elide chegou em algum momento, resplandecente apesar dos feridos ao redor delas.
Yrene supôs que todos tivessem o mesmo sorriso. Embora o seu próprio tivesse vacilado um pouco na última hora, enquanto a exaustão se instalava. Ela tinha sido forçada a descansar depois de lidar com Erawan, e esperou até que suas reservas de energia tivessem enchido apenas o suficiente para começar a trabalhar novamente.
Ela não podia ficar parada. Não quando via a coisa que estava debaixo da pele de Erawan toda vez que fechava os olhos. Ele tinha partido para sempre, sim, mas… ela se perguntou quando o esqueceria. A sensação escura e oleosa dele. Horas atrás, ela não fora capaz de dizer se o vômito que se seguiu foi da memória dele ou do bebê em seu ventre.
— Você deveria encontrar o seu marido e ir para a cama — disse Hafiza, claudicando para perto dela e franzindo a testa. — Quando foi a última vez que você dormiu?
Yrene levantou a cabeça, mais pesada do que há alguns minutos.
— A última vez que você dormiu, eu aposto. — Dois dias atrás.
Hafiza estalou a língua.
— Matar um senhor das sombras, curar os feridos... É uma maravilha que você não esteja inconsciente agora, Yrene.
Yrene estava prestes ficar, mas a desaprovação na voz de Hafiza lhe endireitou a espinha.
— Eu posso trabalhar.
— Eu estou ordenando que você encontre aquele seu marido impetuoso e vá dormir. Em nome da criança em seu ventre.
Droga. Quando a Alta Curandeira colocava assim...
Yrene gemeu quando se levantou.
— Você é impiedosa.
Hafiza apenas deu um tapinha no ombro dela.
— As boas curandeiras sabem quando descansar. O esgotamento contribui para decisões descuidadas. E decisões descuidadas...
— Custam vidas. — completou Yrene. Ela ergueu os olhos para o teto alto e abobadado, bem acima. — Você nunca para de ensinar, não é?
A boca de Hafiza se abriu em um sorriso.
— Isto é vida, Yrene. Nós nunca paramos de aprender. Mesmo na minha idade.
Há muito tempo, Yrene suspeitava que o amor pelo aprendizado era o que mantinha a Alta Curandeira jovem em espírito todos esses anos. Ela apenas sorriu de volta para sua mentora.
Mas os olhos de Hafiza se suavizaram. Ficaram contemplativos.
— Permaneceremos enquanto formos necessários, até que os soldados do khagan possam ser transportados para casa. Vamos deixar alguns para trás para cuidar de qualquer ferido que reste, mas dentro de algumas semanas iremos embora.
A garganta de Yrene se apertou.
— Eu sei.
— E você — Hafiza falou, pegando a mão dela — não voltará conosco.
Os olhos dela arderam, mas Yrene sussurrou:
— Não, não voltarei.
Hafiza apertou os dedos de Yrene, sua mão quente. Forte como aço.
— Terei que encontrar uma nova herdeira, então.
— Sinto muito. — ela sussurrou.
— Pelo quê? — Hafiza riu. — Você encontrou amor e felicidade, Yrene. Não há mais nada que eu possa desejar para você.
Yrene enxugou a lágrima que escorregou.
— Eu só... eu não quero que você pense que eu ocupei o seu tempo à toa...
Hafiza urrou de tanto rir.
— Ocupar o meu tempo? Yrene Towers... Yrene Westfall — a mulher mais velha segurou o rosto de Yrene com suas mãos fortes e idosas — você salvou a todos nós.
Yrene fechou os olhos quando Hafiza lhe deu um beijo na testa.
Uma bênção e uma despedida.
— Você permanecerá nessas terras — disse Hafiza, com um sorriso inabalável. — Mas mesmo com o oceano nos dividindo, vamos continuar unidas aqui. — Ela tocou o peito, bem sobre o coração. — E não importa os anos que se passarão, você sempre terá um lugar na Torre. Sempre.
Yrene colocou a mão trêmula sobre o próprio coração e assentiu. Hafiza apertou seu ombro e voltou a caminhar na direção dos pacientes. Mas Yrene disse:
— E se...
Hafiza se virou, as sobrancelhas erguendo-se.
— Sim?
Yrene engoliu em seco.
— E se, depois de eu me instalar em Adarlan, e ter esse bebê... Quando for a hora certa, e se eu fundar a minha própria Torre, aqui?
Hafiza inclinou a cabeça, como se ouvisse a cadência da sugestão enquanto ecoava em seu coração.
— A Torre Cesme no norte.
Yrene continuou:
— Em Adarlan. Em Forte da Fenda. Uma nova Torre para prover mais uma vez o que Erawan destruiu. Ensinar as crianças que talvez não percebam que têm o dom e as que nascerão com ele. — Porque muitos dos feéricos que vinham do campo de batalha eram descendentes dos curandeiros que haviam presenteado as mulheres da Torre com seus poderes, há muito tempo. Talvez eles apreciassem ajudar novamente.
Hafiza sorriu de novo.
— Eu gosto muito dessa ideia, Yrene Westfall.
Com isso, a Alta Curandeira voltou para a batalha da cura e da dor.
Mas Yrene permaneceu ali em pé, uma mão acariciando o ligeiro inchaço em sua barriga.
E ela sorriu, ampla e infalivelmente, para o futuro que se abria diante dela, brilhante como o amanhecer que se aproximava.


O nascer do sol estava próximo, mas Manon não conseguia dormir. Não se preocupou em encontrar um lugar para descansar, não enquanto as Crochans e Dentes de Ferro continuavam feridas, e quando ainda não terminara a contagem de quantas sobreviveram à batalha. À guerra.
Havia um espaço vazio dentro dela onde doze almas haviam queimado ferozmente.
Talvez fosse por isso que ela não encontrara uma cama, nem mesmo quando soube que Dorian estava provavelmente procurando e ajeitando um canto um canto para dormir. Porque ela ainda permanecia no ninho, Abraxos cochilando ao lado dela, e olhando para o campo de batalha silencioso.
Quando os corpos fossem limpos, quando a neve derretesse, quando a primavera chegasse, um pedaço de terra queimada ainda marcaria a planície diante da cidade? Permaneceria para sempre assim, uma marca de onde elas caíram?
— Temos uma contagem final — disse Bronwen atrás dela, e Manon encontrou a Crochan e Glennis emergindo da escadaria da torre, Petrah em seus calcanhares.
Manon se preparou para isso enquanto acenava com uma mão em um pedido silencioso.
Era ruim. Mas não tão ruim quanto poderia ter sido.
Quando Manon abriu os olhos, as três apenas olharam para ela. Dentes de Ferro e Crochan, juntas em paz. Como aliadas.
— Vamos recolher os mortos amanhã — disse Manon, com a voz baixa. — E queimá-los ao nascer da lua. — Como tanto Crochans quanto Dentes de Ferro faziam. A noite seguinte seria de lua cheia. O ventre da Mãe. Uma boa lua para ser queimada. Ser devolvida à Deusa de Três Faces e renascer dentro daquele útero.
— E depois disso? — Petrah perguntou. — O que faremos então?
Manon olhou de Petrah para Glennis e Bronwen.
— O que vocês gostariam de fazer?
— Ir para casa — Glennis respondeu suavemente.
Manon engoliu em seco.
— Você e as Crochans podem ir embora a hora que quiserem.
— Para as Terras Desérticas — disse Glennis. — Juntas.
Manon e Petrah trocaram um olhar. Petrah disse:
— Nós não podemos.
Os lábios de Bronwen se curvaram em um sorriso.
— Vocês podem.
Manon piscou. E piscou novamente quando Bronwen estendeu o punho em direção a Manon e abriu-o.
Dentro havia uma flor roxa pálida, pequena como a unha de Manon. Linda e delicada.
— Um bastião de Crochans acabou de chegar aqui, um pouco atrasado, mas elas ouviram o chamado e vieram. Todo o caminho desde as Terras Desérticas.
Manon olhou e olhou para aquela flor roxa.
— Elas trouxeram isto. Da planície diante da Cidade das Bruxas.
A planície árida e sangrenta. A terra que não produzia flores, nem vida além de grama e musgo e...
A visão de Manon ficou borrada, e Glennis pegou sua mão, guiando-a na direção de Bronwen antes que a bruxa colocasse a flor na palma de Manon.
— Apenas juntas pode ser desfeita — Glennis sussurrou. — Seja a ponte. Seja a luz.
Uma ponte entre os dois povos, como Manon se tornara. Uma luz, como as Treze tinham explodido em luz, não escuridão, em seus momentos finais.
— Quando o ferro se fundir — Petrah murmurou, seus olhos azuis nadando em lágrimas.
As Treze fundiram aquela torre. Fundiram as Dentes de Ferro dentro dela. E a elas mesmas.
— Quando as flores nascerem nos campos de sangue — continuou Bronwen.
Os joelhos de Manon se dobraram quando ela olhou para aquele campo de batalha. Onde incontáveis flores foram colocadas sobre o sangue e as ruínas onde as Treze encontraram o seu fim.
— Que a terra seja testemunha — Glennis concluiu.
O campo de batalha onde líderes e cidadãos de tantos reinos, tantas nações, vieram prestar tributo. Para testemunhar o sacrifício das Treze e honrá-las.
O silêncio caiu sobre elas, e Manon sussurrou, sua voz tremendo quando ela segurou aquela pequena e imensuravelmente preciosa flor em sua palma:
— E retornem para casa.
Glennis inclinou a cabeça.
— E assim a maldição está quebrada. Assim iremos juntos para casa, como um só povo.
A maldição foi quebrada.
Manon apenas olhou para elas, sua respiração se tornando irregular. Então ela despertou Abraxos, e estava na sela com o coração batendo. Ela não lhes ofereceu nenhuma explicação, nenhum adeus, quando saltou desembestada para a noite.
Enquanto guiava sua serpente alada para o pedaço de terra destruída no campo de batalha. Direto ao seu coração.
E sorrindo através de suas lágrimas, rindo de alegria e tristeza, Manon colocou aquela preciosa flor dos Desertos no chão.
Em agradecimento e amor.
Assim elas saberiam, assim Asterin saberia, no reino onde ela, seu caçador e sua bruxinha andavam de mãos dadas, que eles tinham conseguido.
Que eles iriam para casa.


Aelin queria, mas não conseguia dormir. Tinha ignorado as ofertas para encontrar um quarto, uma cama, no caos do castelo.
Em vez disso, ela e Rowan tinham ido ao Grande Salão para conversar com os feridos, para oferecer a ajuda que podiam para aqueles que mais precisavam.
Os feéricos perdidos de Terrasen, seus lobos gigantes e o grupo humano adotado com eles, queriam falar com ela tanto quanto os cidadãos de Orynth. Como eles haviam encontrado a Tribo dos Lobos há uma década, como haviam terminado com eles na selva das montanhas e do interior, era uma história que ela logo aprenderia. O mundo aprenderia.
Seus curandeiros enchiam o Grande Salão, juntando-se às mulheres da Torre. Todos descendiam daqueles do continente do sul, e aparentemente foram treinados por eles também. Dezenas de curandeiros novos, cada um com suprimentos muito necessários. Eles se deram perfeitamente bem no trabalho ao lado daquelas da Torre. Como se tivessem feito isso por séculos.
E quando os curandeiros, tanto humanos como feéricos, os enxotaram, Aelin vagou pelo castelo.
Por cada corredor e andar, olhando para os quartos tão cheios de fantasmas e memórias. Rowan caminhava ao seu lado, uma presença silenciosa e infalível. Andar por andar, eles subiram cada vez mais.
Eles estavam se aproximando do topo da torre norte quando amanheceu.
A manhã estava brutalmente fria, ainda mais no alto da torre, que ficava no alto do mundo, mas o dia seria claro. Brilhante.
— Então aqui está — disse Aelin, apontando para a mancha escura nas pedras da sacada. — Onde Erawan encontrou o seu fim nas mãos de uma curandeira. — Ela franziu a testa. — Espero que dê para lavar.
Rowan bufou, e quando ela olhou por cima do ombro, o vento chicoteando seus cabelos, encontrou-o encostado na porta da escada, os braços cruzados.
— Estou falando sério — ela falou. — Será odioso ter essa coisa aqui. E eu pretendo usar essa varanda para me bronzear. Ele vai estragar tudo.
Rowan riu e fechou a porta, indo para a grade da varanda.
— Se não sair, jogaremos um tapete por cima.
Aelin riu e se juntou a ele, inclinando-se em seu calor enquanto o sol iluminava o campo de batalha, o rio, as montanhas Galhada do Cervo.
— Bem, agora você viu todos os corredores, salas e escadarias. O que acha da sua nova casa?
— Um pouco pequena, mas nós damos um jeito.
Aelin cutucou-o com um cotovelo e empurrou o queixo para a torre ocidental próxima. Se a torre norte era alta, a torre ocidental era larga. Grande. Perto de seus níveis superiores, pairando sobre a perigosa queda, um jardim de pedras muradas brilhava à luz do sol. O jardim do rei.
Da rainha, ela supôs.
Não havia mais nada a não ser um emaranhado de espinhos e neve. No entanto, ela ainda se lembrava dele, de quando pertencia a Orlon. As rosas e a treliça das glicínias que pendiam, as fontes que pontuavam a borda do jardim e o ar livre lá embaixo, a macieira florida como flocos de neve na primavera.
— Eu nunca percebi quão conveniente seria para Ligeirinha — disse ela, falando sobre o jardim privado e secreto. Reservado apenas para a família real. Às vezes apenas para o rei ou a rainha. — Não ter de descer correndo as escadas da torre toda vez que ela precisar fazer xixi.
— Tenho certeza de que seus ancestrais tinham em mente hábitos sanitários caninos quando o construíram.
— Eu espero que sim — resmungou Aelin.
— Ah, eu acredito nisso — disse Rowan, sorrindo. — Mas você pode me explicar por que não estamos lá agora, dormindo?
— No jardim?
Ele torceu o nariz.
— Na suíte do outro lado do jardim. No nosso quarto.
Ela o guiou rapidamente pelo espaço. Ainda estava preservado bem o suficiente, apesar da ruína em que se encontrava o resto do castelo. Um dos aliados dos adarlanianos, sem dúvida, usaram o cômodo.
— Eu quero limpá-lo de qualquer vestígio de Adarlan antes de ficar lá — ela admitiu.
— Ah.
Ela soltou um suspiro, sugando o ar da manhã. Aelin ouviu-os antes de vê-los, sentiu o cheiro deles. E quando eles se viraram, encontraram Lorcan e Elide caminhando na varanda da torre, Aedion, Lysandra e Fenrys seguindo-os. Ren Allsbrook, hesitante e cauteloso, surgiu atrás deles.
Como eles sabiam onde encontrá-los, e porque eles vieram, Aelin não tinha ideia. As feridas de Fenrys haviam se fechado, pelo menos, embora duas cicatrizes vermelhas tivessem permanecido, cortando de sua testa até a mandíbula. Ele não parecia notar ou se importar.
Ela também não deixou de notar a mão que Lorcan mantinha nas costas de Elide. O brilho no rosto da dama.
Aelin poderia adivinhar bem o que esse brilho era. Até os olhos escuros de Lorcan estavam brilhantes.
Isso não impediu Aelin de segurar o olhar de Lorcan. E dar-lhe um olhar de advertência que transmitia tudo o que ela não se incomodou em dizer: que se ele quebrasse o coração da Senhora de Perranth, ela o queimaria. E convidaria Manon Bico Negro para assar algum jantar sobre seu cadáver em chamas.
Lorcan revirou os olhos, e Aelin considerou essa resposta boa o suficiente quando perguntou a todos:
— Alguém se incomodou em dormir?
Apenas Fenrys levantou a mão.
Aedion franziu a testa para a mancha escura nas pedras.
— Colocaremos um tapete sobre ele — Aelin revelou para ele.
Lysandra riu.
— Algo bem brega, eu espero.
— Estou pensando em rosa e roxo. Bordado com flores. Apenas coisas que Erawan teria amado.
Os machos feéricos ficaram boquiabertos, Ren piscou. Elide abaixou a cabeça enquanto ria.
Rowan bufou novamente.
— Pelo menos esta corte não será nada tediosa.
Aelin pôs a mão no peito, o retrato da indignação.
— Você estava sinceramente preocupado que seria?
— Que os deuses nos ajudem — Lorcan murmurou. Elide lhe deu uma cotovelada.
Aedion disse a Ren, o jovem lorde que permanecia na porta, como se ainda estivesse debatendo se deveria fazer uma fuga rápida:
— Agora é a sua chance de escapar, sabe. Antes que seja sugado para essa bobagem sem fim.
Mas os olhos escuros de Ren encontraram os de Aelin. Analisaram-nos.
Ela tinha ouvido falar sobre Murtaugh. Sabia que agora não era a hora de mencioná-lo, a perda transbordando dos olhos dele. Então ela manteve o rosto aberto. Honesto. Caloroso.
— Nós podemos sempre aproveitar mais um entre as bobagens — disse Aelin, uma mão invisível estendida.
Ren a examinou novamente.
— Você abriu mão de tudo e ainda assim voltou para cá. Ainda lutou.
— Tudo isso por Terrasen — ela disse baixinho.
— Sim, eu sei — falou Ren, a cicatriz no rosto destacada sob o sol nascente. — Eu entendo isso, agora. — Ele ofereceu-lhe um pequeno sorriso. — Acho que eu poderia precisar de alguma bobagem, depois dessa guerra.
— Você vai se arrepender de dizer isso — Aedion murmurou.
Mas Aelin esboçou um sorriso.
— Oh, ele certamente vai. — Ela sorriu para os machos reunidos. — Eu juro para vocês, não vou entediá-los a ponto de levá-los às lágrimas. O juramento de uma rainha.
— E o que não nos entediará, então? — perguntou Aedion.
— Reconstruções — respondeu Elide. — Muitas reconstruções.
— Negociações comerciais — apontou Lysandra.
— Treinar uma nova geração em magia — prosseguiu Aelin.
Mais uma vez, os machos piscaram para elas.
Aelin inclinou a cabeça, piscando de volta para eles.
— Vocês não tem nada que valha a pena contribuir? — ela estalou a língua. — Três de vocês são velhos como o inferno, sabe. Eu teria esperado mais de bastardos velhos e irritantes.
As narinas deles chamejaram. Aedion sorriu, Ren sabiamente apertou os lábios para não fazer o mesmo.
— Quatro. Quatro de nós são velhos como o inferno — Fenrys corrigiu.
Aelin arqueou uma sobrancelha.
Fenrys sorriu, o movimento esticando suas cicatrizes.
— Vaughan ainda está lá fora. E agora livre.
Rowan cruzou os braços.
— Ele nunca será pego novamente.
Mas o sorriso de Fenrys se tornou conhecedor. Ele apontou para o exército feérico acampado na planície, os lobos e os humanos entre eles.
— Tenho a sensação de que alguém lá embaixo poderia saber por onde poderíamos começar. — Ele olhou para Aelin. — Se você for favorável a outro bastardo velho e irritante se juntar a esta corte.
Aelin deu de ombros.
— Se você puder convencê-lo, não vejo por que não.
Rowan sorriu e observou o céu, como se pudesse ver seu amigo desaparecido pairando ali.
Fenrys piscou.
 — Eu juro que ele não é tão miserável quanto Lorcan. — Elide bateu no braço dele, e Fenrys se afastou, as mãos para cima enquanto ria.  — Você vai gostar dele — ele prometeu à Aelin. — Todas as moças gostam — acrescentou ele com outra piscadela para ela, Lysandra e Elide.
Aelin riu, o som mais claro, mais livre do que qualquer outro que ela tenha produzido, e se virou para o reino em movimento.
— Prometemos a todos um mundo melhor — ela falou depois de um momento, a voz solene. — Então, vamos começar.
— Começar pequeno — Fenrys observou. — Gosto disso.
Aelin sorriu para ele.
— Eu gostei da coisa vamos-votar-sobre-as-chaves-de-Wyrd que fizemos. Então vamos começar com mais disso, também.
Silêncio. Então Lysandra perguntou:
— Votar sobre o quê?
Aelin deu de ombros, colocando as mãos nos bolsos.
— Coisas.
Aedion arqueou uma sobrancelha.
— Como o jantar?
Aelin revirou os olhos.
— Sim, como no jantar. Comitê do Jantar.
Elide tossiu.
— Eu acho que Aelin quer dizer sobre coisas vitais. Sobre como administrar esse reino.
— Você é a rainha — disse Lorcan. — O que há para votar?
— As pessoas devem ter uma opinião sobre como são governadas. Políticas que as afetam. Devem ter uma palavra sobre como esse reino é reconstruído. — Aelin ergueu o queixo. — Eu serei rainha e meus filhos... — Suas bochechas coraram enquanto ela sorria para Rowan. — Nossos filhos — ela falou suavemente — governarão. Um dia. Mas Terrasen deveria ter voz. Cada território, independentemente dos senhores que o governam, deve ter voz. Uma escolhida por seu povo.
A equipe se entreolhou. Rowan disse:
— Havia um reino, ao leste. Muito tempo atrás. Eles acreditavam em tais coisas. — Orgulho brilhava em seus olhos, mais reluzente do que o amanhecer. — Era um lugar de paz e aprendizado. Um farol em uma parte distante e violenta do mundo. Assim que a Biblioteca de Orynth for reconstruída, pediremos aos eruditos que encontrem o que puderem sobre esse lugar.
— Poderíamos ir ao próprio reino — apontou Fenrys. — Ver se alguns de seus estudiosos ou líderes podem querer vir aqui. Para nos ajudar. — Ele deu de ombros. — Eu poderia fazer isto. Viajar até lá, se você quiser.
Ela sabia que ele queria viajar como seu emissário. Talvez para trabalhar com tudo o que viu e suportou. Para fazer as pazes com a perda do irmão. Consigo mesmo. Ela tinha a sensação de que as cicatrizes em seu rosto só desapareceriam quando ele quisesse.
Aelin assentiu. E enquanto ela alegremente enviaria Fenrys para onde ele desejasse...
— A biblioteca?
Rowan apenas sorriu.
— E o Teatro Real.
— Não havia teatro, não como em Forte da Fenda.
O sorriso de Rowan cresceu.
— Mas agora terá.
Aelin acenou para ele.
— Preciso lembrá-lo que, apesar de termos vencido essa guerra, não estamos mais cheios de ouro agora do que antes?
Rowan deslizou o braço ao redor dos ombros dela.
— Preciso lembrá-la que, desde que você decapitou Maeve, eu sou um príncipe de Doranelle mais uma vez, com acesso aos meus bens e propriedades? E que, com Maeve como impostora deposta, metade de sua riqueza vai para você... e a outra para os Whitethorn?
Aelin piscou para ele lentamente. Os outros sorriram. Até mesmo Lorcan.
Rowan a beijou.
— Uma nova biblioteca e um Teatro Real — ele murmurou em sua boca. — Considere-os meus presentes de laço de parceria para você, Coração de Fogo.
Aelin se afastou, examinando seu rosto. Lendo a sinceridade e convicção.
E, jogando os braços ao redor dele, rindo para o céu iluminado, ela começou a chorar.


Seria um dia de muitos encontros, decidiu Aelin, sentada em uma câmara quase vazia e empoeirada, sorrindo para seus aliados. Seus amigos.
Ansel de Penhasco dos Arbustos, contundida e arranhada, sorriu de volta.
— Sua metamorfa era uma boa mentirosa — disse ela. — Tenho vergonha de não ter percebido.
O príncipe Galan, igualmente maltratado, soltou uma risada.
— Em minha defesa, eu nunca a encontrei. — Ele inclinou a cabeça para Aelin. — Então, olá, prima.
Aelin, encostada na mesa meio decadente que servia como a única peça de mobília na sala, sorriu para ele.
— Eu o vi de longe uma vez.
Os olhos Ashryver de Galan acenderam.
— Aassumirei que foi durante a sua antiga profissão e obrigado por não me matar.
Aelin riu, mesmo quando Rolfe revirou os olhos.
— Sim, corsário?
Rolfe acenou com a mão tatuada, o sangue ainda visível sob as unhas.
— Vou me abster de comentar.
Aelin sorriu.
— Você é o herdeiro do povo micênico — disse ela. — Brigas mesquinhas estão abaixo de você, agora.
Ansel bufou.
Rolfe lançou-lhe um olhar.
— O que você pretende fazer com eles agora? — perguntou Aelin.
Ela supôs que o resto de sua corte deveria estar lá, mas quando despachou Evangeline para reunir seus aliados, ela optou por deixá-los descansar. Rowan, pelo menos, fora procurar Endymion e Sellene. Aparentemente, esta última estava prestes a aprender muito sobre seu próprio futuro. O futuro de Doranelle.
Rolfe deu de ombros.
— Nós teremos que decidir para onde ir. Voltar a Baia da Caveira, ou... — Seus olhos verde como o mar se estreitaram.
— Ou? — Aelin perguntou docemente.
— Ou decidir se preferimos reconstruir nosso antigo lar em Ilium.
— Por que você mesmo não decide? — perguntou Ansel.
Rolfe acenou com a mão tatuada.
— Eles ofereceram suas vidas para lutar nesta guerra. Eles devem ser capazes de escolher onde querem viver depois dela.
— Sábio — Aelin comentou, estalando a língua.
Rolfe endureceu, mas relaxou ao ver o calor em seu olhar.
Ela olhou para Ilias, a armadura do assassino, amassada e arranhada.
— Você falou durante essa guerra toda?
— Não — Ansel respondeu por ele. O filho do Mestre Mudo olhou para a jovem rainha. Segurou seu olhar.
Aelin piscou ao olhar o que passou entre eles. Nenhuma animosidade, nenhum medo. Ela poderia ter jurado que Ansel corou.
Poupando sua velha amiga, Aelin disse a todos eles:
— Obrigada.
Eles a encararam novamente.
Ela engoliu em seco e colocou a mão sobre o coração.
— Obrigada por terem vindo quando pedi. Obrigada, em nome de Terrasen. Estou em dívida com vocês.
— Estávamos em dívida com você — retrucou Ansel.
— Eu não estava — Rolfe murmurou.
Aelin lançou-lhe um sorriso.
— Nós vamos nos divertir, você e eu.
Ela examinou seus aliados, cansados e exaustos da batalha, mas ainda de pé. Todos eles ainda estavam de pé.
— Acho que vamos nos divertir bastante.


Ao meio-dia, Aelin encontrou Manon em um dos ninhos das bruxas, Abraxos olhando para o campo de batalha.
Ataduras cobriam suas laterais e asas. E cobriam a antiga Líder Alada.
— Rainha das Crochans e das Dentes de Ferro — disse Aelin em saudação, soltando um assobio baixo, o que fez Manon girar devagar. Aelin analisou as próprias unhas. — Impressionante.
No entanto, o rosto se que se virou para ela...
Exaustão. Luto.
— Eu ouvi — Aelin falou baixinho, abaixando as mãos, mas sem se aproximar.
Manon não disse nada, seu silêncio transmitindo tudo que Aelin precisava saber.
Não, ela não estava bem. Sim, isso a destruiu. Não, ela não queria falar sobre isso.
— Obrigada — Aelin apenas disse.
Manon assentiu vagamente. Então Aelin caminhou na direção da bruxa, depois passou por ela. Direto para onde Abraxos estava sentado, olhando em direção a Theralis. O pedaço de terra maldito.
Seu coração se apertou ao vê-los. A serpente alada, a terra e a bruxa depois dela. Mas Aelin sentou-se ao lado da serpente alada. Passou a mão sobre a sua cabeça de couro. Ele se inclinou ao seu toque.
— Haverá um monumento — ela falou a Abraxos, a Manon. — Se você quiser, vou construir um monumento bem ali. Assim, ninguém jamais esquecerá o que foi dado. A quem temos que agradecer.
O vento cantou pela torre, frio e rápido. Mas então, passos trituraram no feno, e Manon sentou-se ao lado dela.
No entanto, Aelin não falou de novo e não fez mais perguntas. E Manon, percebendo isso, deixou os ombros dela se curvarem para baixo, deixando a cabeça tombar. Como ela nunca mais poderia fazer com outra pessoa. Como ninguém mais poderia entender, o peso que ambas suportavam.
Em silêncio, as duas rainhas olharam para o campo dizimado. Para o futuro além dele.

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