29 de outubro de 2018

Capítulo 116

Chaol acordou com mãos quentes e delicadas acariciando sua testa, sua mandíbula.
Ele conhecia esse toque. Reconheceria até se fosse cego.
Uma hora ele estava lutando e abrindo caminho pelas ameias. No outro… ele estava apagado. Como se, qualquer que fosse a onda de poder que atravessara Yrene, não só tivesse enfraquecido suas pernas, mas também sua consciência.
— Eu não sei se começo a gritar ou a chorar — disse ele, gemendo quando abriu os olhos e encontrou Yrene ajoelhada diante dele.
No tempo de um batimento cardíaco ele avaliou os arredores: algum tipo de escada, onde ele estava esparramado nos degraus mais baixos perto de um patamar. Um arco aberto, a noite gelada revelando um céu estrelado e claro além deles. Nenhum sinal serpentes aladas por perto.
Havia clamores. Vitoriosos e selvagens.
Nenhum tambor de osso. Nenhum rosnado ou rugido.
E Yrene, ainda acariciando seu rosto, sorrindo para ele. Lágrimas nos olhos dela.
— Sinta-se à vontade para gritar o quanto quiser — disse ela, as lágrimas escorrendo livremente.
Mas Chaol apenas ficou boquiaberto quando lhe ocorreu exatamente o que havia acontecido. O porquê de essa onda de poder.
O que esta mulher notável havia feito.
Pois eles estavam clamando o nome dela. O exército, o povo de Orynth estava gritando seu nome.
Ele estava feliz por estar sentado.
Mesmo que não o surpreendesse, Yrene fez o impossível.
Chaol passou os braços pela cintura dela e enterrou o rosto em seu pescoço.
— Acabou, então — ele falou contra a sua pele, incapaz de parar o tremor que havia começado, a mistura de alívio, alegria e terror remanescente.
Yrene apenas passou as mãos pelos seus cabelos, pelas suas costas, e ele a sentiu sorrir.
— Acabou.
No entanto, a mulher que ele segurava, a criança que crescia dentro dela...
Erawan poderia estar acabado, a sua ameaça e exército junto. Maeve também.
Mas a vida, Chaol percebeu – a vida estava apenas começando.


Nesryn não acreditou. O inimigo acabara de... desmoronar. Até mesmo as híbridas kharankui.
Era tão improvável quanto os feéricos e os lobos que simplesmente surgiram através de buracos no ar. Um exército perdido, que não perdeu tempo ao se lançar contra Morath. Como se soubessem exatamente onde e como atacar. Como se tivessem sido invocados diretamente dos antigos mitos do norte.
Nesryn pousou nas muralhas encharcadas de sangue da cidade, observando os rukhin e as bruxas aliadas perseguirem as Dentes de Ferro em direção ao horizonte.
Ela estaria com eles, não fosse pelas marcas de garras que cercavam o olho de Salkhi. Pelo sangue.
Ela mal teve fôlego para gritar por uma curandeira enquanto desmontava.
Mal teve fôlego para tirar a sela do ruk, murmurando para o pássaro como costumava fazer. Tanto sangue, as linhas cinzeladas causadas pelo ilken eram profundas. Nenhum brilho ou sinal de veneno, mas...
— Você está ferida? — Sartaq. Os olhos do príncipe estavam arregalados, o rosto ensanguentado, enquanto ele a examinava da cabeça aos pés. Atrás dele, Kadara ofegava nas ameias, suas penas tão ensanguentadas quanto seu cavaleiro.
Sartaq agarrou os ombros dela.
— Você está ferida?
Ela nunca tinha visto tanto pânico em seu rosto.
Nesryn apenas apontou para o inimigo, ainda incapaz de encontrar as palavras.
Mas outros as encontraram por ela. Uma palavra, um nome, repetidamente. Yrene.
Curandeirss correram pelas ameias, mirando os dois ruks à frente, e Nesryn se permitiu deslizar, os braços ao redor da cintura de Sartaq. Se permitiu pressionar o rosto contra o peito blindado dele.
— Nesryn. — Seu nome era uma pergunta e um comando. Mas Nesryn apenas segurou-o com força. Tão perto. Eles tinham chegado tão perto da derrota absoluta.
Yrene, Yrene, Yrene, os soldados e as pessoas da cidade gritavam.
Sartaq passou a mão pelo cabelo embaraçado dela.
— Você sabe o que essa vitória significa, não é?
Nesryn levantou a cabeça, as sobrancelhas se estreitando. Atrás deles, Salkhi pacientemente ficou parado enquanto a magia da curandeira suavizava a área ao redor de seus olhos.
— Uma boa noite de sono, eu espero — respondeu ela.
Sartaq riu e deu um beijo em sua têmpora.
— Significa — disse ele contra sua pele — que estamos indo para casa. Que você está voltando para casa… comigo.
E mesmo com a batalha terminada, mesmo com os mortos e feridos ao redor deles, Nesryn sorriu. Casa. Sim, ela poderia ir para casa com ele, para o continente sul. E para todos que a esperavam lá.


Aelin, Rowan, Lorcan e Fenrys permaneceram na planície do lado de fora dos portões da cidade até terem certeza de que o exército caído não iria se levantar. Até que as tropas do khagan passassem entre os soldados inimigos, cutucando e chutando. E não recebessem resposta alguma.
Mas eles não os degolaram. Não os furaram e nem terminaram o trabalho.
Não naqueles com anéis ou colares negros.
Aqueles que as curandeiras ainda poderiam salvar.
Amanhã. Isso poderia ser feito amanhã.
A lua havia atingido o auge quando eles decidiram, sem palavras, que tinham visto o suficiente para determinar que o exército de Erawan jamais voltaria a se erguer. Quando os ruks, Crochans e as Dentes de Ferro rebeldes desapareceram, perseguindo a última legião aérea, durante a noite.
Então Aelin se virou para o portão sul de Orynth.
Como se em resposta, ele se abriu com um guincho para recebê-la.
Dois braços abertos.
Aelin olhou para Rowan, suas coroas de chamas ainda queimando, sem terem diminuído. Ela segurou a mão dele.
Com o coração trovejando através de todos os ossos de seu corpo, Aelin deu um passo em direção ao portão. Em direção a Orynth. Em direção ao seu lar.
Lorcan e Fenrys entraram atrás deles. As feridas deste último ainda sangravam pelo rosto, mas ele recusou as ofertas de Aelin e Rowan de curá-lo. Tinha dito que queria um lembrete. Eles não ousaram perguntar do que, ainda não.
Aelin ergueu alto o queixo, os ombros eretos conforme se aproximavam da arcada. Soldados já se encontravam alinhados de ambos os lados.
Não os soldados do khagan, mas homens e mulheres na armadura de Terrasen. E civis entre eles, também, admiração e alegria estampados em seus rostos.
Aelin olhou para o limiar do portão. Para as pedras antigas e familiares, agora cheias de sangue.
Ela enviou pequenas chamas sobre eles. Os últimos resquícios de seu poder.
Quando o fogo desapareceu, as pedras estavam limpas novamente. Novas. Como se a cidade pudesse ser renovada, levada a maiores alturas, a maiores esplendores. Um farol de aprendizado e luz outra vez.
Os dedos de Rowan se apertaram ao redor dos dela, mas ela não olhou para ele quando cruzaram a soleira, passando pelo portão.
Não, Aelin apenas olhou para o seu povo, sorrindo ampla e livremente, quando ela entrou em Orynth, e eles começaram a aplaudir, dando-lhe finalmente as boas-vindas ao seu lar.

4 comentários:

  1. Meu deus que gloria. Finalmente a paz desejada. A corte desejada

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  2. 👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏

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  3. 😍😍😍😍😍😍😍 que emoção minha CORAÇÃO de FOGO retornando ao lar! 👑👑👑👑👑👑

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  4. Ah que coisa lindaaaaaaaaaa, tô amando essa conclusão da história 😍

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Boa leitura, E SEM SPOILER!