29 de outubro de 2018

Capítulo 113

Erawan ofegava quando se aproximou.
— Curandeira — ele respirou, seu poder profano emanando dele como uma aura negra.
Ela recuou um passo, mais perto da balaustrada da varanda. O rei das trevas a seguiu, um predador se aproximando da presa há muito esperada.
— Sabe quanto tempo procurei por você? — o vento bagunçou seus cabelos dourados. — Você ao menos sabe do que é capaz de fazer?
Ela hesitou, batendo na grade da varanda atrás dela, a queda tão horrível e interminável.
— Como acha que conseguimos as chaves, em primeiro lugar? — Um sorriso odioso e horrível. — No meu mundo, o seu tipo também existe. Não curandeiras para nós, mas carrascos. Donzelas da morte. Capazes de curar, mas também de fazer o oposto. Desvincular o próprio tecido da vida. De mundos. — Erawan sorriu afetadamente. — Então nós pegamos o seu tipo. Usamos para desvincular partes dos portões de Wyrd. Para retirar os três pedaços que formam as chaves de dentro de sua própria essência. Maeve nunca descobriu, e nunca descobrirá. — Sua respiração irregular se aprofundou enquanto saboreava cada palavra, cada passo para mais perto dela. — Foram necessárias todas elas para arrancar as chaves do portão, cada uma das curandeiras entre os meus. Mas você, com seus dons, seria necessário apenas você para fazê-lo novamente. E agora que as chaves voltaram para os portões... — outro sorriso. — Maeve pensa que eu vim para matá-la, destruí-la. Sua pequena rainha do fogo pensava assim também. Ela não podia nem conceber que eu queria encontrar você. Antes de Maeve. Antes que qualquer dano pudesse ser feito a você. E agora que a eu tenho... Quanta diversão nós dois teremos, Yrene Towers.
Outro passo mais perto. E então, não mais.
Erawan ficou parado. Tentou e não conseguiu se mover. Olhou então para as pedras da varanda. Para a marca de sangue que ele atravessou, focado demais em sua presa para notar.
Uma marca de Wyrd. Para segurá-lo. Para prendê-lo. A jovem curandeira sorriu para ele, e a luz branca em torno de suas mãos piscou quando seus olhos mudaram de dourados para safira.
— Eu não sou Yrene.


Erawan virou a cabeça para o céu enquanto Lysandra, na forma de um ruk, veio do outro lado da torre, em um voo rasante, de onde estava se escondendo. Yrene estava presa em suas garras.
O poder de Erawan começou a crescer, mas Yrene já estava brilhando, iluminando-se como o amanhecer distante.
Lysandra abriu as garras, deixando Yrene cair delicadamente nas pedras da sacada, a luz saindo dela enquanto corria em direção a Erawan.
Dorian se transformou de volta ao seu próprio corpo, a luz curativa jorrando dele também, enquanto ele fazia seu poder rodopiar ao redor da marca de Wyrd que segurava Erawan. A porta da torre se abriu num rompante, Elide saindo dela assim que Lysandra pousou na forma de um leopardo fantasma na sacada.
Erawan parecia não saber para onde olhar. Não sabia quando Dorian enviou um soco de sua luz de cura, que o desequilibrou. Não sabia quando Lysandra saltou sobre o rei escuro, prendendo-o nas pedras. Não sabia quando Elide, com Damaris em suas mãos, mergulhou a lâmina profundamente através do intestino de Erawan, e fincou nas pedras abaixo.
Erawan gritou. Mas o som não foi nada comparado ao que saiu dele quando Yrene o alcançou, as mãos brilhando como estrelas, em chamas, e bateu-as em seu peito.
O mundo desacelerou e dobrou.
No entanto, Yrene não teve medo.
Não teve medo de toda a luz branca e ofuscante que irrompeu dela, queimando Erawan.
Ele arqueou, gritando, mas Damaris segurou-o, aquela antiga lâmina inabalável.
Seu poder sombrio cresceu, uma onda grande o suficiente para devorar o mundo. Yrene não deixou que a onda a tocasse. Nem que tocasse qualquer um deles.
Esperança.
Era esperança que Chaol dissera que ela levava consigo. Esperança que agora crescia em seu ventre.
Para um futuro melhor. Para um mundo livre.
Foi esperança que guiou duas mulheres em extremos opostos deste continente há dez anos. Esperança que guiara a mãe de Yrene a pegar aquela faca e matar o soldado que teria queimado Yrene viva. Esperança que tinha guiado Marion Lochan quando ela escolheu comprar tempo para uma jovem herdeira correr pela vida dela.
Duas mulheres que nunca se conheceram, duas mulheres que o mundo considerou comuns. Duas mulheres, Josefin e Marion, que haviam escolhido a esperança face à escuridão.
Duas mulheres, no final, que compraram para eles este momento. Esta única chance de um futuro.
Por elas, Yrene não teve medo. Pela criança que carregava, ela não teve medo.
Pelo mundo que ela e Chaol construiriam para aquela criança, ela não teve medo.
Os deuses poderiam ter ido embora, Silba com eles, mas Yrene podia jurar que sentiu aquelas mãos quentes e gentis a guiando. Empurrando o peito de Erawan enquanto ele se debatia, a força de mil sóis escuros tentando destruí-la.
Seu poder rasgou todos eles.
Rasgou e atravessou e destruiu em seu centro, no verme que se contorcia dentro dele.
O parasita. A infecção que se alimentava de vida, de força, de alegria.
Distante, bem no fundo, Yrene sabia que ela estava incandescente como a luz, mais brilhante que o sol do meio-dia. Sabia que o rei sombrio sob ela não era nada mais do que um poço de serpentes se contorcendo, mordendo-a, tentando envenenar sua luz.
Você não tem poder algum sobre mim, Yrene disse a ele. Ao corpo que abrigava aquele parasita de parasitas.
Eu vou te despedaçar, ele assobiou. Começando com esse bebê em seu...
Um pensamento e o poder de Yrene queimou mais forte.
Erawan gritou.
O poder da criação e da destruição. Isso é o que estava dentro dela.
Doadora de vida. Criadora do Mundo.
Pouco a pouco, ela o queimou. Começando por seus membros, trabalhando de dentro.
E quando a magia dela começou a diminuir, Yrene estendeu a mão.
Ela não sentiu a dor de sua palma sendo cortada. Apenas sentiu a pressão da mão calejada que se ligava à dela.
Mas quando a magia crua de Dorian Havilliard caiu dentro dela, Yrene ofegou.
Ofegou e se transformou em luz das estrelas, em calor e força e alegria.


O poder de Yrene era a própria vida. Vida pura e não diluída.
Quase fez Dorian cair de joelhos quando encontrou com o seu próprio. Ao entregar seu poder a ela, de bom grado e feliz, Erawan se prostrou diante deles. Empalado.
O rei demônio gritou.
Feliz. Ele deveria estar contente com aquela dor, com aquele grito. Com o fim que certamente estava por vir.
Por Adarlan, por Sorscha, por Gavin e Elena. Por todos eles, Dorian deixou seu poder fluir através de Yrene.
Erawan se debatia, seu poder se manifestando apenas para atacar uma parede de luz impenetrável.
E, no entanto, Dorian se viu dizendo:
— O nome dele.
Yrene, concentrada na tarefa diante dela, não fez mais do que olhar em sua direção.
Mas Erawan, através de seus gritos, encontrou o olhar de Dorian.
O ódio nos olhos do rei demônio era suficiente para devorar o mundo. Mas Dorian repetiu:
— O nome do meu pai. — Sua voz não vacilou. — Você o tomou.
Ele não tinha percebido que queria isso. Precisava disso, tão intensamente.
Um homem patético e covarde, Erawan fervilhou. Assim como você
— Diga-me o nome dele. Devolva-o.
Erawan riu através de seus gritos. Não.
— Devolva-o.
Yrene olhou para ele dessa vez, dúvida em seus olhos. Sua magia fez uma pausa, apenas por uma batida do coração.
Erawan saltou, seu poder em erupção.
Dorian o jogou no chão outra vez, e se lançou para o rei demônio. Para Damaris.
O grito de Erawan ameaçou quebrar as pedras do castelo enquanto Dorian empurrava a lâmina mais fundo. Ele a torceu. Enviou seu poder afunilando através da espada.
— Diga-me o nome dele — ele ofegou entre os dentes.
Yrene, agarrando-se a sua outra mão, murmurou sua advertência. Dorian mal a ouviu.
Erawan apenas riu de novo, sufocando enquanto seu poder o queimava.
— Isso importa? — Yrene perguntou suavemente.
Sim. Ele não sabia por que, mas importava.
Seu pai havia sido varrido do pós-vida, de todos os domínios da existência, mas ainda podia ter seu nome devolvido a ele.
Mesmo que apenas para pagar a dívida. Se tão somente Dorian pudesse conceder ao homem algum fragmento de paz.
O poder de Erawan subiu até eles novamente. Dorian e Yrene o empurraram de volta. Agora. Tinha que ser agora.
— Diga-me o nome dele — rosnou Dorian.
Erawan sorriu para ele. Não.
— Dorian — Yrene avisou. Suor deslizava pelo rosto dela. Ela não podia segurá-lo por muito mais tempo. E arriscá-la...
Dorian enviou seu poder ondulando pela lâmina. O punho de Damaris brilhava.
— Diga-me...
É o seu próprio.
Os olhos de Erawan se arregalaram quando as palavras saíram dele.
Como se Damaris as tivesse arrancado dele. Mas Dorian não se maravilhou com o poder da espada.
O nome do pai dele...
Dorian.
Eu tomei o nome dele, Erawan cuspiu, contorcendo-se enquanto as palavras fluíam de sua língua sob o poder de Damaris. Eu o apaguei da existência. No entanto, ele se lembrou dele uma vez. Apenas uma vez. Na primeira vez que o pegou em seus braços.
Lágrimas escorregaram pelo rosto de Dorian diante daquela verdade insuportável.
Talvez seu pai tivesse inconscientemente escondido seu nome dentro dele, uma forma de desafio a Erawan. E nomeou seu filho com esse desafio, um marco secreto de que o homem dentro dele ainda lutava. Nunca havia parado de lutar.
Dorian. O nome do pai dele.
Dorian soltou o punho de Damaris.
A respiração de Yrene ficou irregular. Agora, tinha que ser agora.
Mesmo com o rei valg à sua frente, de alguma forma Dorian se sentiu mais leve. Ele estava curado.
Então Dorian disse para Erawan, suas lágrimas queimando sob o calor de sua magia.
— Eu derrubei a sua fortaleza. — Ele sorriu selvagemente. — E agora nós vamos derrubá-lo também.
Ele acenou para Yrene. Os olhos de Erawan chamejaram como carvão quente. E Yrene liberou seu poder por inteiro mais uma vez.


Erawan não pôde fazer nada. Nada contra aquela magia dura e crua, unindo-se a Yrene, entrelaçando-se nesse poder criador de mundos.
A cidade inteira, a planície, tornou-se incrivelmente brilhante. Tão brilhante que Elide e Lysandra tiveram que desviar os olhos. Até Dorian fechou os dele.
Mas Yrene, não. Queria ver o que estava no interior de Erawan.
A criatura distorcida e odiosa por dentro. Velha e fervilhante, pálida como a morte. Pálida, de uma eternidade na escuridão tão completa, que nunca vira a luz do sol. Nunca tinha visto sua luz, que agora escaldava sua carne antiga, branca como a lua.
Erawan se contorceu, contorcendo-se no chão, deste lugar que estava dentro dele.
Patético, Yrene disse simplesmente.
Olhos dourados queimavam, cheios de raiva e ódio.
Yrene apenas sorriu, convocando o rosto adorável de sua mãe em seu coração. Mostrando para ele. Desejando saber como a mãe de Elide tinha se parecido para que pudesse mostrar-lhe Marion Lochan também.
As duas mulheres que ele matou, direta ou indiretamente, e nunca havia pensado duas vezes sobre isso.
Duas mães, cujo amor por suas filhas e esperança por um mundo melhor foram maiores do que qualquer poder que Erawan pudesse exercer. Maiores do que qualquer chave de Wyrd.
E foi com a imagem de sua mãe ainda brilhando diante dele, mostrando-lhe o erro que havia cometido, que Yrene fechou os dedos em punho.
Erawan gritou.
Os dedos de Yrene se apertaram mais, e à distância, ela sentiu sua mão física fazendo o mesmo. Sentiu a ardência de suas unhas cortando as palmas.
Ela não ouviu os pedidos de Erawan. Suas ameaças. Ela apenas apertou mais o punho. Mais e mais.
Até que ele não havia nada além de uma chama escura dentro dela.
Até que ela apertou o punho, uma última vez, e aquela chama escura se apagou.
Yrene teve a sensação de cair, de cair dentro de si mesma. E ela estava realmente caindo, balançando de encontro ao corpo peludo de Lysandra, a mão escorregando da de Dorian.
Dorian esticou a mão até ela para renovar o contato, mas não havia necessidade.
Não havia necessidade de seu poder, ou do de Yrene.
Não quando Erawan, os olhos dourados abertos, voltados para o céu noturno acima, sem poder vê-lo, caiu sobre as pedras da sacada.
Não quando sua pele ficou cinza, então começou a murchar, a se desfazer. Uma vida apodrecendo por dentro.
— Queime. — Yrene ordenou, uma mão indo para sua barriga. Um pulso de alegria, uma centelha de luz, respondeu de volta.
Dorian não hesitou. Chamas saltaram, devorando o corpo em decadência diante deles.
Eles foram desnecessárias.
Antes mesmo de começarem a transformar suas roupas em cinzas, Erawan se dissolveu. Um monte de carne e ossos frágeis.
De qualquer forma, Dorian o queimou.
Eles assistiram em silêncio enquanto o rei Valg se transformava em cinzas.
Então um vento de inverno varreu a varanda da torre, e levou-as para longe, muito longe.

15 comentários:

  1. Vamos dar as mãos e gritar GLÓÓÓÓÓRIA irmãos!!!

    ResponderExcluir
  2. Não esperava que o nome do rei fosse Dorian.

    Gostei deles terem destruído o Erawan juntos. Já estava com medo de ser a Aelin a fazer todo o trabalho, esse negócio do protagonista ser o dono da porra toda é meio chato.

    ResponderExcluir
  3. Muito intenso esss capítulo!
    Trabalho em equipe. Amei

    ResponderExcluir
  4. Meu Deus eu amei a forma como eles executaram a morte do Erawan, adorei ver os 4 unidos nisso foi épico!

    ResponderExcluir
  5. Ain gente sei lá, achei sacanagem da Sarah fazer Aelin perder todo seu poder praticamente atoa.. Poxa se Yrene conseguiu matar Erawan não tinha necessidade dela perder os poderes so pra mandar aqueles Deuses ingratos pra casa affs

    ResponderExcluir
  6. Depois de tudo o que o Dorian passou com seu pai, foi legal esse fim para eles dois😥
    Cara Yrene arrasou!! Só mulher poderosa nestes livro!!
    Amooooo♥🙌🏻😎

    ResponderExcluir
  7. Adorei a vingança.. agora falta maeve

    ResponderExcluir
  8. A jovem curandeira sorriu para ele, e a luz branca em torno de suas mãos piscou quando seus olhos mudaram de dourados para safira.
    — Eu não sou Yrene.
    NEM EU ESPERAVA POR ISSO 😱 GENTE ESSE SQUAD ARRASOU 🎉🎉🎉🎉🎉 PELO MENOS AGR SABEMOS O NOME DO REI.
    JÁ FOI UM AGR FALTA O OUTRO 😡

    Ass:Dessa

    ResponderExcluir

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!