29 de outubro de 2018

Capítulo 111

Nesryn não previra os ilken. Quão terrível algumas dúzias seriam.
Ágeis e cruéis, eles percorreram as linhas de frente das fileiras lotadas de Morath. Negros como a noite que caía e mais do que ansiosos para encontrar os ruks em combate.
Sartaq dera a ordem de atirar as flechas ardentes que conseguissem encontrar. O fogo de uma delas queimou os dedos de Nesryn quando ela mirou no meio da luta e disparou.
A chama percorreu a noite, direto para um ilken pronto para rasgar um cavaleiro Darghan. A flecha o atravessou, e o grito do ilken chegou até os ouvidos de Nesryn. O cavaleiro Darghan apunhalou profundamente com seu sulde, e o grito do ilken foi cortado. Um golpe de sorte e corajoso.
Nesryn pegava outra flecha e mais suprimentos quando o cavaleiro Darghan caiu.
Não morto – o ilken não estava morto, mas sim fingindo. O grito de dor do belo cavalo percorreu a noite enquanto garras rasgavam seu peito. Outro golpe e o esterno do cavaleiro foi rasgado.
Nesryn procurou a pederneira para acender o pano encharcado de óleo ao redor da ponta da flecha.
Para cima e para baixo no campo de batalha, ilken atacavam. Cavaleiros, cavalos e rukhin caíram.
E aparecendo na parte de trás do campo de batalha, como se esperassem por sua grande entrada, esperando para pegar o que restava deles, um novo tipo de escuridão se preparava.
As princesas valg. Em seus novos corpos kharankui. A surpresa final de Erawan.
Nesryn apontou e disparou sua flecha, procurando por Sartaq. O príncipe conduziera uma unidade rukhin mais para dentro das linhas inimigas, uma surrada Borte, Falkan e Yeran o ladeando.
Um empurrão final e desesperado.
Um do qual nenhum deles provavelmente andaria ou voaria para longe.


A respiração de Yrene estava apertada em sua garganta, seu coração uma batida selvagem em todo o seu corpo, mas o medo o qual ela pensou que cederia não tinha assumido. Ainda não.
Não enquanto Lysandra, em sua forma de ruk, pousou nas muralhas da cidade, o suficiente para que Yrene e Elide pudessem desmontar rapidamente. Exatamente onde Chaol e Dorian lutavam, um esforço desesperado para manter os valg longe dos muros.
A menor das suas preocupações. Ali perto, matando em seu caminho mais perto deles – aqueles eram ilken.
Silba salvasse todos eles.
Chaol a viu primeiro. Seus olhos se acenderma com puro terror.
— Volte para o castelo.
Yrene não fez isso. E quando Dorian se virou, ela disse ao rei:
— Nós precisamos de você, Sua Majestade.
Chaol se distanciou dos muros, seu coxear pronunciado.
— Volte para o castelo.
Yrene o ignorou novamente. Assim como Dorian, quando o rei destruiu o valg diante dele, empurrou o demônio sobre os muros e correu para Yrene.
— O que foi?
Elide apontou para o portão sul. Para o fogo que brilhava na escuridão atacante.
O rosto salpicado de sangue de Dorian ficou drenado de cor.
— Ela não tem mais nada.
— Nós sabemos — disse Elide, apertando a boca. — É por isso que precisamos de você.
Chaol deve ter percebido o plano antes de seu rei. Porque o seu marido se virou para ela, escudo e espada pendurados ao lado do corpo.
— Você não pode.
Elide rápida e sucintamente explicou sua ideia imprudente, louca. A ideia da Senhora de Perranth.
Yrene tentou não tremer. Tentou não tremer quando percebeu que eles estavam, de fato, prestes a fazer isso.
Mas Elide simplesmente subiu nas costas encouraçadas da metamorga e chamou o rei para segui-la. E Dorian, para seu crédito, não hesitou.
No entanto, Chaol largou a espada e o escudo nas pedras sanguinolentas e segurou o rosto de Yrene entre as mãos.
— Você não pode — disse ele novamente, a voz quebrando. — Você não pode.
Yrene colocou as mãos sobra as de Chaol e os colocou testa a testa.
— Você é minha alegria — foi tudo o que ela disse para ele.
Seu marido, seu amigo mais querido, fechou os olhos. O cheiro de sangue de valg e metal se agarrava a ele, e ainda sob isso – abaixo, estava o seu cheiro. O cheiro de casa.
Chaol finalmente abriu os olhos, o bronze deles tão vívido. Vivo. Totalmente vivo. Cheio de confiança e compreensão e orgulho.
— Vá salvar o mundo, Yrene — ele sussurrou, e beijou sua testa.
Yrene deixou aquele beijo afundar em sua pele, uma marca de proteção, de amor, que ela carregaria com ela para o inferno e além dele.
Chaol se virou para onde Dorian estava sentado com Elide em cima da metamorfa, o amor no rosto do marido endurecendo em algo feroz e determinado.
— Mantenha-a segura — foi tudo o que Chaol disse. Talvez a única ordem, Yrene percebeu, ele jamais daria a seu rei. O rei deles.
Era por isso que ela o amava. Por que ela sabia que a criança em seu ventre jamais passaria um único momento se perguntando se era amada.
Dorian inclinou a cabeça.
— Com a minha vida. — Então o rei ofereceu uma mão para ajudar Yrene a subir nas costas de Lysandra. — Vamos fazer valer a pena.


O peito de Manon queimava a cada inspiração, mas Abraxos voou sem hesitar através da refrega.
Tantos. Tantos. E os novos horrores que Morath desencadeara, os ilken entre eles...
Gritos e sangue encheram os céus. Crochan e Dentes de Ferro e ruks – aqueles eram ruks – lutaram por sua própria existência.
Qualquer esperança de vitória que Aelin Galathynius trouxe com ela estava se esvaindo.
Manon e Abraxos se chocaram contra as fileiras de Dentes de Ferro, mergulhando para rasgar a infantaria e o soldados mais baixos. Ceifadora do Vento era pesada como chumbo em sua mão. Ela não conseguia mais discernir seu suor de sangue.
A rainha de Terrasen viera, um exército junto, e ainda não seria suficiente.


Lorcan sabia que Maeve tinha vindo. Podia sentir a presença dela em seus ossos, uma canção sombria e terrível através do mundo. Uma música de valg.
Ele lutou ao longo das muralhas da cidade, Whitethorn e Fenrys nas proximidades, Aedion pulando de soldado em soldado com uma ferocidade que Lorcan sabia vir de um sofrimento profundo e brutal.
Gavriel estava morto. Tinha morrido para dar a seu filho e aqueles do portão oeste a chance de fechá-lo novamente.
Lorcan afastou a pontada no peito ao pensar nisso. Que o Leão não existia mais. Qual deles seria o próximo?
A luz se ergueu do outro lado da muralha. A escuridão a devorou. Muito rapidamente, muito facilmente.
Aelin tinha que ser insana. Deve ter perdido toda a inteligência, se pensava que poderia enfrentar não apenas Maeve, mas Erawan também.
No entanto, Rowan parou. Teria sido derrubado por um soldado valg se Lorcan não tivesse atirado uma adaga diretamente no rosto do demônio.
Com um aceno para Lorcan e Fenrys, Rowan se transformou, um falcão pairando instantaneamente sobre as paredes.
Lorcan olhou para Fenrys. Encontrou o macho eriçado. Consciente do movimento além das muralhas. Já era tempo.
— Nós terminamos juntos — rosnou Fenrys, e se transformou também, um lobo branco pulando descendo das ameias para as ruas da cidade abaixo. Em direção ao portão.
Lorcan olhou para o castelo, onde sabia que Elide assistia. Ele deu sua despedida silenciosa, enviando o que restava de seu coração ao vento para a mulher que o salvara de todas as formas que importavam.
Então Lorcan correu para o portão – para a rainha das trevas que ameaçava tudo o que ele queria, o que esperava. Ele tinha esperança. Encontrara algo melhor lá fora. Alguém melhor.
E ele faria de tudo para defender isso.


Era uma dança, e uma que Aelin passou toda a sua vida praticando.
Não apenas os movimentos de sua espada, seu escudo. Mas o sorriso que ela mantinha em seu rosto quando encontrava cada explosão de escuridão, quando percebia de novo e de novo quem eram seus parceiros de dança.
Onde avançavam um passo, Aelin enviava uma nuvem de fogo. Não deixou sua própria dúvida aparecer, não se atreveu a imaginar se o fogo era principalmente cor e luz.
Eles ainda se esquivavam. Evitaram-no. Esperando que ela mergulhasse fundo, para fazer aquele golpe mortal que eles antecipavam.
E embora seu fogo desviasse a escuridão, embora Goldryn fosse uma canção em chamas em sua mão, ela sabia que seu poder romperia em breve.
As chaves se foram. Assim como a Portadora do Fogo. Eles não teriam utilidade para ela. Não haveria necessidade de escravizá-la, salvo para atormentá-la.
Poderia ir para qualquer lado. Morte ou escravidão.
Mas não haveria chaves, nenhuma maneira de Erawan criar mais pedra de Wyrd, ou trazer seus valg para possuir outros.
Aelin atacou com Goldryn, estocando Erawan ao mesmo tempo em que levantou seu escudo contra Maeve. Ela enviou uma onda de chamas ardentes para os lados, mantendo-os perto.
Erawan atacou de volta, mas Maeve parou. Parou quando Aelin perdeu um passo, ofegando.
O cheiro acobreado de sangue cobriu sua boca. Um arauto do esgotamento iminente.
Maeve observou a chama de Aelin chiar através da neve, derretendo-a até a grama seca de Theralis. Um mar ondulante de verde nos meses mais quentes. Agora uma ruína encharcada de sangue.
— Para uma deusa — Maeve falou, suas primeiras palavras desde que esta dança começara minutos ou horas ou uma eternidade atrás — você não parece muito disposta a nos ferir.
— Símbolos têm poder — Aelin ofegou, sorrindo quando girou Goldryn em sua mão, a chama sibilando pelo ar. — Tenha pressa, e isso arruinará o impacto. — Aelin reuniu todos os fragmentos de arrogância e piscou para Erawan. — Ela quer que eu o desgaste, perceba. Quer que eu o canse, assim aquelas curandeiras no castelo podem acabar com você sem muita dificuldade.
— Chega — Maeve libertou seu poder e Aelin ergueu o escudo, desviando o ataque.
Mas por pouco. O impacto ondulou em seus ossos, seu sangue. Aelin não se permitiu mais do que estremecer enquanto lançava um chicote de chamas em direção a Maeve, e a rainha negra dançou para trás.
— Apenas espere, ela logo vai fechará a armadilha sobre você.
— Ela é uma mentirosa e uma tola — Maeve atirou. — Ela procura nos dividir porque sabe que podemos derrotá-la juntos. — Novamente, aquele poder sombrio se reuniu em torno de Maeve.
O rei sombrio apenas olhou para Aelin com aqueles olhos dourados e ardentes, e sorriu.
— De fato. Você...
Ele fez uma pausa. Aqueles olhos dourados ergueram-se acima de Aelin. Acima dos portões e da parede atrás dela. Para algo bem acima.
Aelin não se atreveu a olhar. Para mover sua atenção por tanto tempo. Ter esperança.
Mas o dourado nos olhos de Erawan brilhou. Reluziu – com raiva e talvez uma pontada de medo.
Ele virou a cabeça para Maeve.
— Há curandeiros naquele castelo.
— Claro que há — replicou Maeve.
No entanto, Erawan ficou rígido.
— Há curandeiros habilidosos lá. Maduros com poder.
— Direto de Torre Cesme — disse Aelin, assentindo solenemente. — Como eu falei.
Erawan só olhou para Maeve. E aquela dúvida voltou a surgir.
Ele olhou para Aelin. Para o fogo dela, a espada dela. Ela inclinou a cabeça.
— Se ela falou com verdade, você é carniça — Erawan sussurrou para Maeve.
E antes que Aelin pudesse reunir uma brasa, uma forma escura e vigorosa varreu a escuridão atrás de Erawan e o arrebatou. Um ilken.
Aelin não gastou seu poder tentando derrubá-los, não com as defesas do ilken contra magia. Não com Maeve rastreando Erawan enquanto ele era carregado para o céu. Para a cidade.
Contra dois líderes valg, ela já deveria estar morta. Contra a fêmea diante dela, Aelin sabia que ainda era apenas uma questão de tempo. Mas se Yrene, se suas amigas, pudessem derrubar Erawan...
— Apenas nós, então — disse Maeve, com os lábios curvados num sorriso de aranha. O sorriso das criaturas horrendas que se lançavam contra Orynth.
Aelin levantou Goldryn novamente.
— É exatamente assim que eu queria — ela respondeu. Verdade.
— Mas eu conheço o seu segredo, Herdeira do Fogo — Maeve cochichou e atacou novamente.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!