29 de outubro de 2018

Capítulo 110

Seu nome era Aelin Ashryver Whitethorn Galathynius.
E ela não teria medo.
Maeve e Erawan pararam. Assim como o exército atrás deles, um golpe final do martelo, pronto para tomar Orynth.
A magia em suas veias era pouco mais que uma brasa.
Mas eles não sabiam disso.
Suas mãos trêmulas ameaçavam soltar suas armas, mas ela se manteve firme. Ficou em posição.
Nem mais um passo.
Ela não permitiria que eles dessem em mais um passo para Orynth.
Maeve sorriu.
— Que caminho longo você viajou, Aelin.
Aelin limitou-se a apontar Goldryn. Encontrou o olhar dourado de Erawan.
Seus olhos brilharam quando ele pegou a espada. Lembrou-se disso.
Aelin mostrou os dentes. Deixou a chama com a qual alimentava a espada brilhar mais forte.
Maeve se virou para o rei valg.
— Vamos, então?
Mas Erawan olhou para Aelin. E hesitou.
Ela não teria muito tempo. Não demoraria muito até que percebessem que o poder que o fazia hesitar não existia mais.
Mas ela não permaneceu do lado de fora do portão sul para derrotá-los.
Apenas para ganhar tempo.
Para aqueles na cidade que ela tanto amava fugissem. Corressem e vivessem para lutar amanhã.
Ela tinha chegado em casa.
Era o suficiente.
As palavras ecoaram com ela a cada respiração. Afiara sua visão, fortalecendo sua espinha. Uma coroa de chamas apareceu em cima de sua cabeça, girando e inquebrável.
Ela nunca poderia ganhar contra os dois.
Mas ela não tornaria isso fácil. Levaria um deles com ela, se pudesse. Ou pelo menos os atrasaria por tempo suficiente para que os outros executassem seu plano, encontrassem uma maneira de detê-los ou derrotá-los. Mesmo que qualquer uma das opções parecesse improvável. Sem esperança.
Mas foi por isso que ela permaneceu aqui.
Para dar a eles aquele fiapo de esperança. Que continuassem lutando.
No final, se isso fosse tudo o que ela podia fazer contra Erawan e Maeve, ela iria para o além-mundo com o queixo erguido. Ela não teria vergonha de ver aqueles que amara com seu coração de fogo selvagem.
Então Aelin fez uma reverência para Erawan e falou com cada fragmento de bravura que possuía:
— Nós nos encontramos algumas vezes, mas nunca como verdadeiramente somos. — Ela piscou para ele. Mesmo quando seus joelhos tremeram, ela piscou para ele. — Por mais bela que essa forma seja, Erawan, acho que sinto falta de Perrington. Só um pouquinho.
As narinas de Maeve se alargaram.
Mas os olhos de Erawan semicerraram-se em diversão.
— Acha que foi destino nos encontramos em Forte da Fenda sem nos reconhecermos?
Palavras tão casuais e fáceis cheias daquela corrupção suja e horrível.
Aelin se obrigou a dar de ombros.
— Destino, ou sorte? — Ela apontou para o campo de batalha, sua cidade destruída. — Este é um cenário muito mais grandioso para o nosso confronto final, não acha? Muito mais digno de nós.
— Chega disso — Maeve sibilou.
Aelin arqueou uma sobrancelha.
— Passei o último ano da minha vida – dez anos, se considerar de certa maneira – me preparando para este momento. — Ela estalou a língua. — Perdoe-me se quero saboreá-lo. Falar com meu grande inimigo por mais de um momento.
Erawan riu e o som arrepiou seus ossos.
— Alguém poderia pensar que está tentando nos atrasar, Aelin Galathynius.
Ela fez um movimento de mão abarcando as muralhas da cidade atrás dela.
— Para quê? As chaves se foram, os deuses com eles. — Ela lançou-lhes um sorriso. — Vocês sabiam disso, não?
A diversão desapareceu do rosto de Erawan.
— Eu sei. — Morte – uma morte tão terrível ondulou em sua voz com isso.
Aelin deu de ombros novamente.
— Eu lhe fiz um favor, você sabe.
— Não deixe que ela fale — Maeve murmurou. — Nós terminamos isso agora.
Aelin riu.
— Alguém poderia pensar que você está com medo, Maeve. De qualquer tipo de atraso. — Ela se virou para Erawan mais uma vez. — Os deuses tinham planejado arrastá-lo com eles. Para despedaçá-lo — Aelin deu-lhe um meio sorriso. — Eu pedi a eles que não o fizessem. Assim você e eu podemos ter este nosso grande duelo.
— Como você sobreviveu? — exigiu Maeve.
— Eu aprendi a compartilhar — Aelin ronronou. — Depois de todo esse tempo.
— Mentiras — cuspiu Maeve.
— Eu tenho uma pergunta para você — disse Aelin, olhando entre os dois líderes negras, separados dela apenas pela neve rodopiante. — Vocês compartilharão o poder? Agora que os dois estão presos aqui. — Ela gesticulou para Maeve com seu escudo em chamas. — Da última vez que ouvi, você estava decidido a mandá-lo para casa. E reuniu um pequeno exército de curandeiros em Doranelle para poder destruí-lo no momento em que tivesse a chance.
Erawan piscou devagar.
Aelin sorriu.
— O que fará com todos aqueles curandeiros agora, Maeve? Vocês dois discutiram isso?
Escuridão girou em torno dos dedos de Maeve.
— Eu já aguentei o suficiente dessa tagarelice.
— Eu não — disse Erawan, seus olhos dourados ardentes.
— Bom — disse Aelin. — Eu fui prisioneira dela, você sabe. Por meses. Você ficaria surpreso com o quanto descobri. Sobre o marido dela – seu irmão. Sobre a biblioteca em seu castelo, e como Maeve aprendeu tantas coisas interessantes sobre caminhar pelos mundos. Você compartilhou esse conhecimento, Maeve, ou isso não faz parte de sua barganha?
Dúvida. Aquilo era dúvida começando a escurecer os olhos de Erawan.
— Ela o quer fora, você sabe. — Aelin pressionou. — Longe daqui. O que ela lhe disse quando a sua chave de Wyrd desapareceu? Deixe-me adivinhar: o rei de Adarlan entrou em Morath, matou a garota que você tinha escravizado para ser o seu portão vivo, destruiu seu castelo, e Maeve chegou a tempo de tentar impedi-lo... mas fracassou? Você sabia que ela trabalhou com ele por dias e dias? Tentando roubar a chave de você?
— Isso é mentira — retrucou Maeve.
— É? Devo repetir algumas das coisas que você disse em suas mais privadas reuniões com o lorde Erawan aqui? As coisas que o rei de Adarlan me contou?
O sorriso de Erawan cresceu.
— Você sempre teve um talento para o drama. Talvez esteja mentindo, como diz minha irmã.
— Talvez eu esteja, talvez não. Embora eu ache que a verdade da traição de sua nova aliada é muito mais interessante do que qualquer mentira que eu possa inventar.
— Podemos compartilhar outra verdade, então? — Maeve cantarolou. — Você quer saber quem matou seus pais? Quem matou lady Marion?
Aelin parou. Maeve acenou com a mão para Erawan.
— Não foi ele. Não foi nem mesmo o rei de Adarlan. Não, ele enviou um príncipe valg de baixo escalão para fazer isso. Ele não podia nem se incomodar em ir ele mesmo. Não achava que alguém importante fosse realmente necessário para realizar a ação.
Aelin olhou para a rainha. Para o rei Valg.
E então arqueou uma sobrancelha.
— Esta é alguma tentativa de me irritar? Você tem milhares de anos, e é tudo o que consegue pensar em dizer? — Ela riu de novo e apontou para Erawan com Goldryn. Ela poderia jurar que ele se afastou da lâmina flamejante. — Eu sinto muito por você, sabe. Que agora tenha se atado a essa pé no saco imortal. — Ela chupou um dente. — E quando Maeve te vender, suponho que me sentirei um pouco mal por você também.
— Vê como ela fala? — Maeve sibilou. — Esse sempre foi o dom dela: distrair e balbuciar enquanto...
— Sim, sim. Mas, como eu disse: você tem o campo. Não há mais nada que possa realmente impedi-lo.
— Exceto por você — disse Erawan.
Aelin pressionou o escudo contra o peito.
— Eu estou lisonjeada que ache isso — ela ergueu as sobrancelhas. — Embora eu ache que as duzentas curandeiras que temos na cidade agora possam estar um pouco ofendidos por você ter se esquecido delas. Especialmente quando eu as vi tão diligentemente expulsar seus valg dos hospedeiros que eles infectaram.
Erawan ficou rígido. Apenas um pouco.
— Ou esta é outra mentira? — Aelin meditou. — Um risco, então – entrar nesta cidade. Minha cidade, suponho. Para ver quem os está espera. Ouvi dizer que você teve muita dificuldade ao tentar matar uma das minhas amigas neste verão. A herdeira de Silba. Se eu fosse você, teria sido mais cuidadoso ao tentar acabar com ela. Ela está aqui, sabe. Veio até aqui para vê-lo e retribuir o favor.
Aelin deixou sua chama se tornar mais brilhante enquanto Erawan novamente hesitava.
— Maeve sabia. Ela sabe que as curandeiras estão aqui, esperando por você. E deixará que elas lidem com você. Pergunte a ela onde está sua coruja – a curandeira que ela mantém acorrentada a si. Para protegê-la de você.
— Não dê ouvidos às tolices dela — exclamou Maeve.
— Ela até fez uma barganha: poupar as vidas delas em troca de livrá-la de você — Aelin acenou com Goldryn na direção de Orynth. — Entrará em uma armadilha no momento em que entrar na cidade. Você e todos os seus pequenos amigos valg. E só Maeve restará no final, senhora de tudo.
As sombras de Maeve ergueram-se em uma onda.
— Já tive o suficiente disso, Aelin Galathynius.
Aelin sabia que Maeve seguiria em frente, sem Erawan. Trabalharia sem ele, se fosse necessário.
O rei sombrio olhou para Maeve e pareceu perceber também.
O cabelo preto de Maeve flutuava ao redor dela.
— Onde está o rei de Adarlan? Nós temos umas palavrinhas para trocar com ele — raiva feroz e fervilhante pulsava da rainha.
Aelin deu de ombros.
— Por aí lutando em algum lugar. Provavelmente não se incomodando em pensar em você — ela inclinou a cabeça. — Um esforço valente, Maeve, tentar desviar a conversa. — Ela se virou para Erawan. — As curandeiras o esperam lá. Você verá que estou dizendo a verdade. Embora eu suponha que será tarde demais então.
Dúvida. Aquilo era realmente dúvida nos olhos de Erawan. Apenas uma rachadura. Uma porta aberta.
E agora seria com Yrene – Yrene e as outras – aproveitar a chance.
Ela não quis pedir, planejar isso. Não queria arrastar mais ninguém.
Mas ela confiava nelas. Yrene, suas amigas. Ela confiava nelas para ver através disso. Quando ela não estivesse mais aqui. Confiava nelas.
Maeve se adiantou.
— Espero que você tenha se divertido nesses últimos momentos. — Ela mostrou seus dentes brancos demais, todos os traços daquela graça desaparecidos. Até mesmo Erawan pareceu piscar de surpresa – e novamente hesitou. Como se perguntando se as palavras de Aelin tinham sido verdadeiras. — Espero que tenha se entretido com sua idiotice tagarela.
— Eternamente — Aelin concordou com uma reverência zombeteira. — Suponho que ficarei ainda mais entretida quando eu varrê-la da face da terra. — Ela suspirou para o céu. — Deuses acima, que visão será.
Maeve estendeu a mão diante dela, a escuridão rodopiando em sua palma em concha.
— Não há deuses para assistir, receio. E não há deuses para ajudá-la agora, Aelin Galathynius.
Aelin sorriu e Goldryn ficou mais brilhante.
— Eu sou uma deusa.
Ela se atirou para cima deles.


Rowan soltou o estilhaço de ferro do ombro quando Maeve e Erawan chegaram.
Quando Aelin foi encontrá-los diante das muralhas de Orynth.
Sua magia estava quase vazia em suas veias, mas ele levou a mão ao braço sangrando enquanto corria para o portão sul. Desejou a cura.
A carne ardia quando se unia – muito devagar. Muito lentamente. Mas ele não podia voar com uma asa rasgada, como certamente estaria se se transformasse agora. Quarteirão após quarteirão, pela cidade que teria sido seu lar, ele correu para o portão sul.
Ele tinha que chegar até ela. Um grito de aviso das ameias fez com que ele levantasse um escudo por instinto. No mesmo momento em que uma escada de cerco colidiu com a muralha acima dele.
Infantaria de Morath derramou-se sobre as lâminas que aguardavam, tanto de soldados do khagan quanto guerreiros da Devastação. Muitos.
Dentes de Ferro colidiram com Crochans acima deles – Dentes de Ferro carregando vários soldados de Morath cada uma. Elas os depositaram nas ameias, nas ruas.
Pessoas gritavam. Mais para dentro da cidade, pessoas estavam gritando. Fugindo.
Apenas alguns quarteirões até o portão sul – até Aelin.
E ainda assim... aqueles gritos de terror e dor continuaram. Famílias. Crianças.
Lar. Este seria seu lar. Já era, se Aelin estivesse com ele. Ele iria defendê-lo.
Rowan sacou a espada e o machado.
Fogo explodiu além das muralhas, banhando a cidade em dourado. Ela não podia ter mais que uma brasa. Contra Erawan e Maeve, ela já deveria estar morta. No entanto, sua chama ainda estava enfurecida. O elo da parceria estava forte.
Uma mancha branca ao seu lado, e ali estava Fenrys, manchado de sangue e rosnando para os soldados que corriam pelas paredes. Um se aproximou deles, e um golpe de uma poderosa pata foi o suficiente para o valg estar em pedaços.
Um golpe – e depois uma rajada de vento negro. Lorcan.
Eles pararam por um batimento cardíaco. Ambos os machos olharam para ele em questionamento. Eles sabiam muito bem onde Aelin estava. Qual era o plano?
Outra explosão de chamas além das paredes. Mas os gritos dos inocentes na cidade... Ela nunca o perdoaria por isso. Se ele desse as costas.
Então Rowan inclinou suas armas. Virou-se para os gritos.
— Fizemos um juramento a nossa rainha e a esta corte — ele rosnou, avaliando os soldados que jorravam pelas muralhas. — Nós não vamos quebrá-lo.


Mesmo com três das grandes potências do continente lutando diante dos portões da cidade não foi suficiente para deter a guerra em torno deles.
Morath enxameava, e o exausto exército do khaganato se virou para encontrá-los mais uma vez. Para enfrentar os novos horrores que surgiram, bestas estalando dentes e uivando, ilken voando acima deles. Nenhum sinal das princesas valg, ainda não. Mas Elide sabia que elas estavam lá fora. Morath esvaziara seus poços mais sombrios para essa destruição final.
E na planície, diante dos portões, o fogo e a escuridão mais negra do que a noite caída.
Elide não sabia para onde olhar: para a batalha entre os exércitos, ou para Maeve e Erawan, e Aelin.
Yrene permaneceu ao lado dela, lorde Darrow, Lysandra e Evangeline assistindo com eles.
Um clarão de luz, uma onda de escuridão em resposta.
Aelin era um redemoinho de fogo entre Maeve e Erawan, a luta rápida e brutal.
Ela não tinha mais poder. Antes que os portões de Wyrd o tivessem tomado dela, Aelin poderia ter sido capaz de enfrentar um deles e sair triunfante. Mas com o sussurro de poder que lhe restava, e depois de um dia usando-o neste campo de batalha...
Maeve e Erawan não sabiam. Eles não sabiam que Aelin estava apenas desviando, não atacando. Que essa dança prolongada não era pelo espetáculo, mas porque ela lhes comprava o tempo que podia.
Lá no escuro, além das muralhas, soldados morreram e morreram. E na cidade, quando as escadas de cerco romperam as ameias, Morath entrou em Orynth.
Ainda Aelin segurou o portão contra Erawan e Maeve. Não os deixou chegar um passo mais perto da cidade. O sacrifício final de Aelin Galathynius por Terrasen.
No momento em que percebessem que Aelin não tinha mais nada, tudo acabaria. Qualquer divertimento que sentissem nessa troca superficial de poder e habilidade desapareceria.
Onde estavam os outros? Onde estava Rowan, ou Lorcan ou Dorian? Ou Fenrys e Gavriel? Onde eles estavam, ou eles não sabiam o que acontecia diante dos portões da cidade?
A respiração de Lysandra era superficial. Nada – a metamorfa não poderia fazer nada contra eles. E oferecer assistência à Aelin poderia ser o que faria Erawan e Maeve perceberem que a rainha os estava enganando.
Não havia voz gentil no ombro de Elide. Não mais. Nunca mais ela ouviria aquela voz sussurrante e sábia a guiá-la.
Olhe, Anneith sempre murmurara para ela. Olhe.
Elide examinou o campo, a cidade, a rainha lutando contra os líderes valg.
Aelin não fazia nada sem razão. Tinha ido lá para comprar tempo para eles. Para cansar os líderes valg, só um pouquinho. Mas Aelin não poderia derrotá-los.
Havia apenas uma pessoa que podia.
Os olhos de Elide pousaram em Yrene, o rosto da curandeira pálido enquanto observava Aelin.
A rainha nunca pediria. Nunca pediria a elas, a Yrene.
Mas ela poderia deixar um caminho aberto. Para elas, para Yrene, escolherem tomá-lo.
Percebendo seu olhar, Yrene desviou sua atenção da batalha.
— O que foi?
Elide olhou para Lysandra. Então para as muralhas da cidade, para os lampejos de gelo e chama ao longo deles.
Ela viu o que eles tinham que fazer.

5 comentários:

  1. Caraca véio!! Que orgulho da Elide ela cresceu muito durante a história!!

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  2. Mano do céu 😟😟😟😟😬😬😬😬😬😬

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  3. ELIDE RAINHA DONA DA SABEDORIA TODA.EU TE AMOOOO, NUNCA DISSE O CONTRÁRIO

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  4. Elide é muito meu amor deusulive dona da sensatez!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!