5 de outubro de 2018

Capítulo 11

CAVALGAMOS COMO SE TENTÁSSEMOS VENCER uma corrida contra o pôr do sol rumo ao horizonte. O exército estava atrás de nós. Tínhamos que entrar fundo o suficiente nas montanhas para despistá-lo.
Desmaiei pouco depois de deixarmos o acampamento e dormi durante as horas de escuridão que ainda restavam. Quando acordei, recostada em Jin, uma nova manhã se anunciava sobre nós e o exército continuava nos perseguindo. Usei o que restava do meu poder para erguer o deserto atrás de nós, criando o melhor escudo possível entre os soldados e nosso pequeno agrupamento.
Cerca de uma dúzia de retardatários que não haviam conseguido fugir com os gêmeos ou com a primeira leva de Shazad estavam conosco. Alguns cavalgavam juntos em nossos últimos cavalos. Não conseguia distinguir os rostos enquanto acelerávamos pelas areias escaldantes. Não sabia quem havia fugido com Ahmed e Shazad, ou se quem estava conosco cavalgaria bem o suficiente para acompanhar o ritmo. De qualquer forma, não era como se tivessem escolha.
Sentia uma dor constante na lateral do corpo que piorava cada vez que olhava para trás. Precisei dar o melhor de mim para impedir que a dor dispersasse minha concentração.
Chegou uma hora em que não pude mais aguentar, tampouco os cavalos. Se não tivéssemos despistado o exército, o jeito seria lutar. Deixei o escudo cair. Jin pareceu sentir a tensão abandonar meu corpo. Ele virou um animal ofegante, de arma na mão, verificando se alguém estava em nosso encalço. Minha visão turvou de puro alívio por não estar mais usando meu poder. Protegi os olhos contra o que restava do sol do deserto. Ficamos completamente imóveis enquanto observávamos o horizonte procurando algum sinal de movimento. Mas não havia nada atrás de nós além de um amplo deserto. Tínhamos conseguido.
— Vamos montar acampamento aqui — Jin ordenou, sua voz reverberando por seu peito e minhas costas. Ele estava rouco de sede.
— Não estamos seguros — argumentei.
— Nunca estaremos — ele disse, mas somente eu o ouvi.
— Não temos como nos proteger, e os cavalos…
— Os cavalos precisam descansar, e não conseguiremos escapar a pé — Jin disse no meu ouvido. — Também não temos chance sem você. Vamos ficar de guarda e retomamos o caminho se virmos alguma nuvem de poeira no horizonte.
Ele desmontou e começou a dar ordens para armar tendas e fazer o inventário dos suprimentos que haviam agarrado na fuga. Abriu um cantil e deu um gole antes de me passar.
Levei a água à boca e bebi devagar, com as mãos trêmulas, mantendo o ombro machucado próximo ao corpo. Se éramos cerca de uma dúzia, devia haver um monte de corpos na areia caso os outros não tivessem fugido com Ahmed e Shazad. Eu era a única demdji entre nós. Com alguma sorte, isso significava que Hala e Delila estavam juntas, e as duas eram capazes de ocultar até um grande grupo de rebeldes em movimento. Shazad levaria todos eles para um lugar seguro. Eu precisava acreditar que estariam esperando por nós.
Minha tia estava entre os que haviam escapado conosco, assim como duas outras mulheres de Saramotai. Imaginei que fosse difícil seguir um plano de fuga totalmente desconhecido. Tia Safiyah ajudava a distribuir os alimentos.
Reconheci alguns rostos à nossa volta. Isso aliviou um pouco meu coração.
Não haveria fogueira à noite. Isso nos deixaria vulneráveis a pesadelos ou carniçais, mas ficaríamos muito mais vulneráveis se acendêssemos um aviso luminoso para o exército do sultão. Só podíamos cercar o acampamento com o ferro que tínhamos e torcer pelo melhor.
Todo mundo estava destruído pela fuga. Alguns já enfiavam pão na boca e desabavam enquanto o sol se punha. Precisávamos definir uma vigília, dividir os suprimentos entre os cavalos e armar as tendas. E havia mais algumas centenas de coisas para pensar. Minha cabeça girava e eu não conseguia raciocinar.
Bebi água até a tontura passar. Não precisaríamos economizar tanto assim. Àquela altura eu já conhecia nossa parte do deserto. Estávamos a três dias de cavalgada da cidade portuária de Ghasab. Cavalgando dia e noite, chegaríamos no próximo anoitecer. Lá, poderíamos nos reabastecer e depois nos reunir com os outros no ponto de encontro nas montanhas. Bem, pelo menos com aqueles que haviam escapado.
Guardei a água e tentei descer do cavalo devagar, apoiando o peso no braço direito enquanto me segurava na sela. Ele fraquejou imediatamente, e caí na areia num amontoado confuso.
— Você está machucada. — Jin estendeu a mão para mim. Ignorei e me pus de pé usando o braço bom e o estribo. O cavalo estava tão cansado que mal protestou.
— Vou sobreviver. — Tentei manter o braço o mais normal possível enquanto me afastava dele. — Sempre sobrevivo.
— Amani! — Jin gritou alto a ponto de alguns rebeldes olharem na nossa direção antes de decidirem voltar ao trabalho. Todo mundo ali sabia o suficiente da nossa história para não se meter. — Já te vi atravessar um deserto inteiro. Memorizei o jeito como se move. Parece que deslocou o ombro. Me deixa dar uma olhada.
— Posso dar alguma coisa para aliviar a dor — Safiyah interrompeu, limpando areia dos dedos. Quase todo mundo sabia o suficiente para não se meter.
— Ela não precisa de algo para a dor — Jin disse calmamente para Safiyah, sem tirar os olhos de mim. — Precisa que alguém coloque o braço de volta no lugar antes que a gente tenha que amputar.
Aquilo me fez parar.
Virei para encará-lo. Jin havia desenrolado seu sheema e o envolvido no pescoço. Eu podia ver sua expressão claramente. Ele sempre fora bom em blefar. Um sorriso discreto reapareceu, como se pudesse ler meus pensamentos mais fácil do que eu conseguia ler os dele. Aquele sorriso sempre significava problema.
— Vai arriscar a sorte, Bandida?
Tinha quase certeza de que ele estava mentindo. Mas meu desejo de ter dois braços funcionais era maior que minha certeza.
— Tudo bem. — Estendi o braço para ele o tanto quanto possível, como uma criança segurando um animal ferido que encontrou no deserto. Jin não o segurou. Em vez disso, colocou uma mão nas minhas costas. Um arrepio familiar percorreu minha coluna. Meu corpo parecia não saber que eu estava com raiva dele. Jin me levou para a pequena tenda azul que alguém havia armado para mim. Ele deixou a aba se fechar atrás de nós, nos dando privacidade.
O teto era baixo demais para ficarmos de pé. Agachei relutante até Jin me puxar para o chão e me sentar à sua frente. A noite caía rapidamente ao nosso redor, mas ainda havia luz o bastante para enxergar. Do lado de fora, dava para ouvir os ruídos do acampamento enquanto se preparava para a noite no deserto.
— Preciso dar uma olhada nisso. — Sua voz soava gentil agora que estávamos a sós.
Levei um segundo para entender o que ele queria.
— Tudo bem — eu disse novamente, evitando seu olhar.
Com muito cuidado, Jin colocou uma mão no alto do meu braço e passou a outra pela minha gola, por dentro da camisa. Seus dedos eram quentes e familiares. Um tempo atrás ele teria feito alguma piada sobre enfiar as mãos por baixo da minha roupa. Mas agora havia uma tensão silenciosa entre nós.
— Tem certeza de que sabe o que está fazendo? — perguntei, sem poder aguentar mais.
— Confie em mim. — Jin não me encarava, embora estivesse tão perto que eu era praticamente o único lugar para onde podia olhar. — Aprendi no Gaivota Negra antes disso começar. — Isso. Eu sabia que ele se referia à rebelião. Quase ri. Uma palavra tão pequena para abranger todos nós e tudo o que havíamos feito, além de tudo o que ainda precisávamos fazer. — Muitos marinheiros se machucam ao se enroscar nas cordas.
Ele fez alguma coisa que levou uma pontada de dor percorrer meu tronco. Soltei um gemido.
— Desculpe.
— Você devia mesmo se desculpar. — A dor afiava minha língua. — Isso aconteceu quando você me derrubou, sabia?
— Tem razão — Jin brincou, os dedos ainda me cutucando gentilmente. — Devia ter deixado você tomar um tiro. A recuperação seria muito mais fácil.
— E o que você sabe sobre isso? — Estávamos fugindo da morte certa. Aquele não era o momento de brigar, não no meio de uma guerra. Mas não tinha sido eu quem trouxera o assunto à tona. — Você não estava por perto da última vez.
— Preferia que eu tivesse ficado para te ver morrer? — Ele pareceu tenso.
— Eu não morri.
— Mas podia ter morrido.
— E você podia ter morrido espionando os xichan! — Ficamos em silêncio, mas ninguém se mexeu. Nenhum de nós se afastou ou avançou. Os dedos de Jin continuaram a explorar meu ombro sensível.
Ele quebrou o silêncio:
— Está deslocado, mas não quebrado. — Estava bem acima de mim, então eu podia ver sua boca e a sombra de barba no seu maxilar. Jin apertou meu ombro entre as duas mãos. — Agora vai doer pra valer. Está preparada?
— Bem, com você falando assim, como poderia não estar? — Aquela curva sutil em sua boca que sempre me fazia sentir que estávamos juntos para o que der e vier reapareceu. — Pronta.
— Vamos lá. — Ele se virou para ficarmos frente a frente. — Vou colocar seu ombro de volta no três, está bem? — Cerrei os dentes e me preparei. — Um…
Respirei fundo.
— Dois…
Antes que eu pudesse deixar o corpo tenso para o “três”, Jin puxou meu braço para o lado e para cima.
A dor foi como uma punhalada do cotovelo ao ombro, e reagi violentamente.
— Puta que pariu! — Outro xingamento saiu, agora em xichan, depois um em jarpoorian que Jin havia me ensinado enquanto atravessávamos o deserto, a dor fazendo brotar um insulto em cada língua que eu conhecia. Estava quase pronunciando um xingamento memorável em gallan quando Jin me beijou.
As palavras que me restavam morreram catastroficamente no segundo em que sua boca encontrou a minha. Meus pensamentos se desfizeram em seguida.
Eu quase havia esquecido a sensação daquele beijo.
Deus, ele sabia fazer aquilo muito bem.
Jin me beijou como se fosse a primeira e a última vez. Como se nós dois fôssemos acabar queimados vivos por causa disso. E eu me desmanchei como se não me importasse com mais nada. A rebelião podia estar se despedaçando ao nosso redor, talvez até o deserto inteiro estivesse em perigo, mas por enquanto ainda estávamos vivos e juntos, e a raiva havia se transformado em um fogo diferente que nos engolira até eu não saber mais quem estava consumindo o outro.
Jin se afastou com uma velocidade súbita e arrasadora, tão rápido quanto havia se aproximado. Minha respiração irregular preencheu o silêncio que se seguiu.
Estava totalmente escuro. Tudo o que eu conseguia ver eram seus ombros subindo e descendo e a palidez de sua camisa branca.
— Por que fez isso? — A pergunta saiu com uma respiração baixa. Eu estava tão perto que vi sua garganta se mexer quando ele engoliu em seco. Tive a súbita vontade de encostar minha boca ali e descobrir se sua respiração estava tão instável e incerta quanto a minha.
Quando Jin falou, sua voz saiu firme como uma rocha.
— Para te distrair. Como está se sentindo?
Percebi que a dor alucinante tinha se acalmado enquanto o restante do meu corpo ganhava vida com o beijo de Jin. Ele estava certo; não doía mais nem metade do que doera quando colocou meu braço de volta no lugar.
Jin pegou algo do chão: meu sheema vermelho. Devia ter escorregado. Ele tocou meu braço de novo, mas dessa vez sua mão era carne e osso no meu cotovelo, não fogo invadindo minha pele. Atou meu sheema em volta do braço e o passou pelo meu pescoço como uma tipoia, dando um nó firme atrás do meu pescoço antes de ficar de pé.
— Além disso… — Sua voz soou calma, como se tudo não passasse de uma piada e fôssemos dois estranhos flertando antes de cada um seguir seu caminho. Não duas pessoas tão conectadas como nós. Que haviam cruzado o deserto juntas. Que haviam enfrentado a morte repetidas vezes. — Quem resistiria a uma boca como a sua?
Ele foi tão rápido ao roubar outro beijo que já havia ido embora antes de eu senti-lo por completo.
Fiquei sentada no escuro por um longo período depois que ele se foi, sem levantar nem ao ouvir os sons de uma refeição preparada às pressas sendo servida do lado de fora. Não tinha fome. Me sentia em carne viva. Queimada. Terra arrasada.
Lembrei vagamente dessa expressão, que Shazad havia me ensinado. Tinha algo a ver com táticas de guerra. Não sabia ao certo se Jin e eu estávamos em guerra.
Ouvi o acampamento se acomodar ao meu redor enquanto repassava tudo na cabeça. Tudo por que havíamos passado. Tudo o que teríamos à nossa frente. Tudo o que ele não diria. Quanto mais o silêncio caía sobre o acampamento, mais ruidosa minha raiva se tornava.
Nós dois éramos incrivelmente teimosos, mas alguém teria que ceder mais cedo ou mais tarde.
Levantei antes que pudesse pensar muito a respeito e saí. O acampamento estava completamente silencioso, todos acomodados em suas tendas exceto os que estavam de guarda. Atravessei-o a passos largos. Conhecia a tenda de Jin de vista, vermelha e remendada em um dos lados, armada bem diante da minha. Não sabia o que faria: se gritaria com ele, se o beijaria, ou algo completamente diferente.
Decidiria quando o visse.
Estava quase lá — a dois passos — quando alguém tampou minha boca com força, me impedindo de respirar. O pânico tomou conta de mim quando um tecido de cheiro adocicado e enjoativo, como se bebida tivesse sido derramada, cobriu meu rosto.
O instinto falou mais alto. Joguei o cotovelo para trás. Uma dor lancinante brotou do ombro ferido. Um erro. Minha boca se abriu para buscar ar. Inspirei fundo e o vapor me invadiu, prendendo-se à minha língua, à minha garganta, a todo caminho até os pulmões.
Alguém estava me envenenando.
Senti os efeitos instantaneamente. Minhas pernas fraquejaram e o mundo saiu de órbita.
O exército do sultão havia nos encontrado.
Por que ninguém havia nos alertado? Eu poderia ter feito alguma coisa. Poderia ter erguido o deserto. Poderia ter impedido. Agora mal conseguia lutar. Golpeei impotente, cravando as unhas na mão que cobria minha boca. Me revirei, lutando para me soltar. Mas sabia que era tarde demais. Enquanto caía vi dois corpos tombados na areia, sem se mexer.
A guarda, já morta.
Eu precisava alertar os outros. O mundo estava desaparecendo. Eu ia desmaiar. Ia morrer. Jin. Precisava dar a ele uma chance de escapar. Salvar os outros.
Abri a boca para gritar e alertá-los, mas a escuridão me engoliu junto com as palavras.

Um comentário:

  1. PQP!!!! Mas nada da certo minha gente?! Acorda povo. Amani ta sendo levada!!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!