29 de outubro de 2018

Capítulo 108

Os soldados de Morath pulavam e rastejavam sobre a serpente alada caída bloqueando seu caminho. Eles encheram o arco, a passagem.
Um escudo dourado os manteve à distância. Mas não por muito tempo.
No entanto, o alívio que Gavriel lhes trouxera permitiu que a Devastação esvaziasse as últimas gotas de seus odres de água, recolhesse as armas caídas.
Aedion arfava, um braço apoiado na passagem do portão. Atrás do escudo de Gavriel, o inimigo fervilhava e rugia.
— Você está ferido? — perguntou o pai. Suas primeiras palavras para ele.
Aedion conseguiu levantar a cabeça.
— Você encontrou Aelin — foi tudo o que ele disse.
O rosto de Gavriel se suavizou.
— Sim. E ela selou os portões de Wyrd.
Aedion fechou os olhos. Pelo menos isso.
— Erawan?
— Não.
Ele não precisava dos detalhes sobre por que o bastardo não estava morto. O que deu errado.
Aedion se afastou da parede, oscilando. Seu pai o estabilizou com uma mão em seu cotovelo.
— Você precisa descansar.
Aedion puxou o braço do aperto de Gavriel.
— Diga isso aos soldados que já caíram.
— Você cairá, também — disse seu pai, mais afiado do que jamais ouvira — se não se sentar por um minuto.
Aedion encarou o macho. Gavriel encarou de volta.
Sem besteira, sem espaço para argumentar. O rosto do Leão.
Aedion apenas balançou a cabeça.
O escudo dourado de Gavriel se dobrou sob o ataque dos valg ainda fervilhando.
— Nós temos que fechar o portão de novo — disse Aedion, apontando para as duas portas cheias de marcas, mas intactas, empurradas contra as paredes. O acesso a elas bloqueado pelos soldados de Morath ainda tentando romper o escudo de Gavriel — ou eles invadirão a cidade antes que nossas forças possam se reagrupar.
Estar atrás das muralhas não faria diferença se o portão oeste estivesse aberto.
Seu pai seguiu sua linha de visão. Olhou para os soldados que tentavam ultrapassar suas defesas, seu fluxo forçado a diminuir pela serpente alada que ele tão cuidadosamente derrubara diante deles.
— Então vamos fechá-los — disse Gavriel, e sorriu sombriamente. — Juntos.
A palavra era mais uma pergunta, sutil e dolorosa.
Juntos. Como pai e filho. Como os dois guerreiros que eles eram.
Gavriel – seu pai. Ele veio.
E olhando para aqueles olhos castanhos, Aedion soube que não foi por Aelin ou por Terrasen que o pai fizera aquilo.
— Juntos — disse Aedion.
Não apenas nesse obstáculo. Não apenas nesta batalha. Mas para o que viria depois, se sobrevivessem. Juntos.
Aedion poderia jurar que algo como alegria e orgulho encheram os olhos de Gavriel. Alegria e orgulho e tristeza, pesadas e antigas.
Aedion caminhou de volta para a linha da Devastação, apontando ao soldado ao lado dele para que cedesse lugar a Gavriel, para que este se juntasse à sua formação. Um grande impulso agora, e eles assegurariam o portão. Seu exército entraria pelo sul, e eles encontrariam um jeito de se reunir antes que o novo exército chegasse à cidade. Mas o oeste, eles limpariam e selariam. Permanentemente.
Pai e filho, eles fariam isso. Derrotar esta ameaça.
Mas quando seu pai não se juntou ao seu lado, Aedion se virou. Gavriel ia diretamente para o portão. Para a linha dourada de seu escudo, agora sendo empurrada para trás, para trás, para trás. Empurrada por aquela parede de soldados inimigos, recuando cada vez mais. Atravessando a passagem. Passando sob o arco.
Não.
Gavriel sorriu para ele.
— Feche o portão, Aedion — foi tudo o que seu pai disse.
E então Gavriel foi além dos portões. Aquele escudo dourado ficando mais fino.
Não.
A palavra subiu, um grito crescente na garganta de Aedion.
Mas os soldados da Devastação corriam para as folhas do portão.
Empurrando-as para fechar. Aedion abriu a boca para rugir para eles pararem. Que parassem, parassem, parassem.
Gavriel levantou sua espada e adaga, brilhando dourado à luz do dia. O portão se fechou atrás dele. Selando-o para fora.
Aedion não conseguia se mexer.
Ele nunca tinha parado, nunca cessou seus movimentos. No entanto, ele não conseguiu ajudar os soldados, empilhando madeira, correntes e metal contra o portão oeste.
Gavriel poderia ter ficado. Poderia ter ficado e empurrado o escudo de volta o tempo suficiente para eles fecharem os portões. Ele poderia ter permanecido aqui...
Aedion correu então.
Devagar demais. Seus passos eram lentos demais, seu corpo muito grande e pesado, quando ele empurrou seus homens. Quando seguiu para as escadas que subiam para as muralhas.
Luz dourada brilhou no campo de batalha.
Então ficou escuro.
Aedion correu mais rápido, um soluço queimando sua garganta, saltando e lutando sobre soldados caídos, tanto mortais quanto valg.
Então ele estava no topo das muralhas. Correndo para a sua beirada.
Não. A palavra foi uma batida ao lado de seu coração.
Aedion abateu valg em seu caminho, matou qualquer um que viesse pela escada do cerco.
A escada. Ele podia abrir caminho por ela, alcançar o campo de batalha, o pai...
Aedion desceu a espada com tanta força contra o soldado valg diante dele que a cabeça do homem se separou de seus ombros.
E então ele estava na beirada. Perscrutando naquele espaço diante do portão. O aríete estava em lascas. Valg formavam uma pilha ao redor. Diante do portão. Ao redor da serpente alada. Tantos que o acesso ao portão oeste fora cortado. Tantos que o portão estava seguro, uma ferida aberta agora estancada.
Quanto tempo ele ficou lá, incapaz de se mover? Ficou parado, incapaz de fazer qualquer coisa enquanto seu pai fazia aquilo?
Foi o cabelo dourado que ele viu primeiro.
Diante do monte de valg, que ele empilhara até o alto. O portão que ele fechara para eles. A cidade que ele tinha assegurado.
Um tipo terrível de pressa tomou conta do corpo de Aedion.
Ele parou de ouvir a batalha. Parou de ver a luta ao redor dele, acima dele.
Parou de ver tudo menos o guerreiro caído, que encarava o céu que escurecia com olhos que não podiam ver.
Sua garganta tatuada aberta. A espada ainda em sua mão.
Gavriel.
O seu pai.


O exército de Morath recuou do portão oeste seguro. Recuou e se juntou aos braços do exército que avançava. Para o resto do exército de Morath.
Mancando de um corte profundo em sua perna, seu ombro dormente com a ponta da flecha que permanecia alojada nele, Rowan enfiou sua lâmina através do rosto de um soldado em fuga. Sangue preto espirrou, mas Rowan já estava se movendo, seguindo para o portão oeste.
Onde as coisas tinham ficado tão, tão quietas. Ele só foi para lá quando viu Aelin lutando em direção ao distante portão sul, Ansel com ela, depois que derrubaram as torres de cerco ao redor. Era através do portão seguro que a maior parte do seu exército agora se apressava, as forças do khagan correndo para ficar atrás das muralhas da cidade antes que fossem selados.
Eles tinham uma hora, no máximo, antes de Morath atacá-los novamente, antes de serem forçados a fechar o portão sul também, bloqueando qualquer retardatário para serem empurrados contra as paredes.
O portão oeste permaneceria selado. A serpente alada abatida e os montes de corpos ao redor dele assegurariam isso, junto com quaisquer defesas internas.
Rowan vira a luz dourada queimando minutos atrás. Tinha lutado seu caminho até aqui, amaldiçoando o pedaço de ferro em seu ombro que o impedia de se transformar. Fenrys e Lorcan se afastaram para apanhar os soldados de Morath que tentavam atacar os que fugiam para o portão sul e, no alto, os ruks carregavam as curandeiras, Elide e Yrene com elas, trazidas para a cidade em pânico.
Ele tinha que encontrar Aelin. Colocar seus planos em movimento antes que fosse tarde demais.
Ele sabia quem provavelmente marchava com aquele exército que avançava. Não tinha intenção de deixá-la enfrentá-lo sozinha.
Mas essa tarefa... ele sabia o que estava por vir. Sabia, e ainda foi.
Rowan encontrou Gavriel diante do portão oeste, dezenas de mortos empilhados ao redor dele.
Um verdadeiro muro entre o portão e o exército inimigo.
A luz desaparecia a cada minuto. Soldados de Morath e Dentes de Ferro iam para seus reforços que se aproximavam.
O exército do khagan tentou matar o máximo que puderam, enquanto se precipitavam para o portão sul.
Eles tinham que entrar na cidade. Por qualquer meio possível.
Levantando as escadas de cerco que haviam sido derrubadas para o chão apenas alguns minutos ou horas antes, o exército dos khagan escalou as muralhas, alguns carregando os feridos em suas costas.
Com sua magia pouco mais que uma brisa, Rowan cerrou os dentes contra a perna e o ombro latejantes e afastou a cria de Morath meio esparramado sobre Gavriel.
Séculos de existência, anos de guerra e jornada pelo mundo – se foram. Rendido em nada além deste corpo imóvel, esta concha descartada.
Os joelhos de Rowan ameaçaram se dobrar. Cada vez mais suas forças escalavam as muralhas da cidade, um voo ordenado, mas rápido, para um refúgio temporário.
Continuar. Eles tinham que continuar. Gavriel assim gostaria. Dera sua vida por isso.
No entanto, Rowan abaixou a cabeça.
— Espero que você tenha encontrado paz, meu irmão. E no além-mundo, espero que você a veja novamente.
Rowan se inclinou, grunhindo contra a dor em sua coxa, e puxou Gavriel para cima de seu ombro bom. E então ele se levantou.
Foi até a escada de cerco ainda ancorada ao lado do portão oeste. Escalou as muralhas. Cada passo mais pesado que o anterior. Cada passo uma lembrança de seu amigo, uma memória dos reinos que tinham visto, os inimigos que tinham enfrentado, os momentos de silêncio que nenhuma canção jamais mencionaria.
Ainda que as canções mencionariam isto – que o Leão caiu diante do portão oeste de Orynth, defendendo a cidade e o seu filho. Se eles sobrevivessem a hoje, se de algum modo vivessem, os bardos cantariam sobre isso.
Mesmo com o caos dos soldados do khaganato e da cavalaria Darghan fluindo para a cidade, o silêncio caiu onde Rowan desceu das escadas na ameia, carregando Gavriel.
Mal conseguiu dar um aceno agradecido e aliviado para Enda e Sellene, feridos e ensanguentados, recuperando o fôlego com um grupo de primos com o que restavam de suas catapultas. Seu sangue e parentesco, embora o guerreiro por cima de seu ombro – Gavriel também era da família. Mesmo quando ele não percebeu isso.
O peso impossível e hediondo em seu ombro piorou a cada passo enquanto ia até onde Aedion estava ao pé da escada, a Espada de Orynth pendurada em sua mão.
— Ele poderia ter ficado — foi tudo o que Aedion disse quando Rowan gentilmente colocou Gavriel no primeiro degrau. — Ele poderia ter ficado.
Rowan olhou para seu amigo caído. Seu amigo mais próximo. Que tinha ido com ele em tantas guerras e perigos. Que merecia esse novo lar tanto quanto qualquer outro.
Rowan fechou os olhos que não viam de Gavriel.
— Eu vou vê-lo no além-mundo.
O cabelo dourado de Aedion pendia flácido com sangue e suor, a antiga espada em suas mãos cobertas de sangue negro. Soldados passavam correndo por ele, descendo as escadas, mas Aedion apenas encarava o pai. Uma rocha ensanguentada no fluxo da guerra.
Então Aedion foi para as ruas. Lágrimas e gritos viriam depois. Rowan o seguiu.
— Precisamos nos preparar para a segunda parte desta batalha — disse Aedion, a voz rouca. — Ou não duraremos a noite.
Enda e Sellene já usavam sua magia para puxar blocos de escombros caídos contra o portão oeste. As pedras oscilavam, mas se moveram. Era mais poder do que Rowan poderia reivindicar.
Rowan se virou para subir as muralhas e não se atreveu a olhar para trás – para onde ele sabia que soldados levavam Gavriel mais para dentro da cidade. Para algum lugar seguro.
Se fora. Seu amigo, seu irmão, se fora.
— Sua Alteza. — Um cavaleiro ruk ofegante, salpicado de sangue, estava na parede da muralha. Ele apontou para o horizonte. — A escuridão oculta muito, mas temos uma estimativa para o exército que se aproxima. — Rowan se preparou. — Vinte mil no mínimo. — A garganta do cavaleiro balançou. — Suas fileiras estão cheias de valg – e seis kharankui.
Não kharankui. Mas as seis princesas valg que as infestavam.
Rowan se obrigou a se transformar. Seu corpo se recusou.
Rangendo os dentes, ele tirou a armadura do ombro e estendeu a mão para a ferida. Mas ela havia se fechado. Prendendo o fragmento de ferro lá dentro. Evitando que ele se transformasse e voasse para Aelin. Onde quer que ela estivesse.
Ele tinha que chegar até ela. Tinha que encontrar Fenrys e Lorcan e encontrá-la. Antes que fosse tarde demais.
Mas quando a noite caiu, enquanto ele libertava uma adaga e a levava para a ferida fechada em seu ombro, Rowan sabia onde ela estaria.
Embora os deuses já tivessem partido, Rowan ainda se encontrava rezando.
Através da agonia quando abriu o ombro, ele orou. Que ele pudesse alcançar Aelin a tempo.
Eles sobreviveram tanto tempo, contra todas as probabilidades e desafiando antigas profecias. Rowan enfiou a faca mais fundo, procurando o pedaço de ferro preso ali dentro.
Depressa, ele tinha que se apressar.

5 comentários:

  1. Que nervosoooooooo
    Todo mundo vai morrer
    MEU DEUS
    To sentindo

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  2. Tão triste pelo Gavriel. Poxa eu achei mesmo que ele e o Aedion iriam ter uma chance, meu coração está chorando assim como eu chorei ao ver o Leão cair. 😔

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  3. Gavriel sempre tão calmo e tão sereno. PQ SARAHHHH???

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  4. Mas um a morte levou!
    E a lista só aumenta...

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  5. Não consigo parar de chorar aki...
    Gavriel, sentiremos muito a sua falta...

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