29 de outubro de 2018

Capítulo 105

Sangue choveu no campo de batalha.
Sangue e flechas, tantas que quando encontraram seu alvo no flanco de Lysandra, suas asas, mal foram registradas.
Morath estivera reservando seu arsenal. Até hoje.
Ao amanhecer, eles haviam desencadeado tal torrente de flechas que decolar para o céu tinha sido um desafio letal. Ela não queria saber quantas Crochans haviam caído, apesar dos melhores esforços das Dentes de Ferro rebeldes para protegê-las com os corpos de suas serpentes aladas.
Mas a maioria alcançara o ar - e logo foram atacadas pela legião Dentes de Ferro.
Lá embaixo, Morath atacava com uma urgência que ela ainda não havia testemunhado. Um mar negro que se chocou contra as muralhas da cidade, quebrando sobre ela de vez em quando.
Escadas de cerco subiram mais rápido do que poderiam ser derrubadas, e agora, o sol mal chegando ao seu ápice, as torres de cerco avançavam.
Lysandra se atracou com uma bruxa Dentes de Ferro – uma Bico Negro, pela faixa de couro tingido em sua testa – e a arrancou da sela antes de morder a garganta de sua serpente alada.
Uma. Apenas uma arrancada da massa nos céus.
Ela mergulhou, escolhendo outro alvo.
Então outro. E outro. Não seria o suficiente.
E onde a legião Dentes de Ferro havia se contentado em engajá-las numa batalha nas últimas semanas, hoje elas pressionaram. Conduziu-as de volta passo a passo na direção de Orynth.
E não havia nada que Lysandra, nem qualquer das Crochans ou das Dentes de Ferro rebeldes, pudesse fazer para impedir.
Então bruxas morreram.
E abaixo delas, nas muralhas da cidade, soldados de tantos reinos morreram também.
A última posição, as últimas horas, de sua desesperada aliança.


A respiração de Manon era um raspar em sua garganta, o braço da espada doendo.
De novo e de novo, elas se reuniram e dirigiram contra a legião Dentes de Ferro. De novo e de novo, elas foram empurradas para trás. De volta para Orynth. Para as muralhas.
As fileiras Crochan estavam caindo. Até mesmo as Dentes de Ferro rebeldes começaram a voar de maneira desleixada.
Como eles lutavam e lutavam e ainda chegaram a esse ponto? As Treze haviam desistido de suas vidas; seu peito estava vazio, o som da batalha ainda era um rugido distante sobre o silêncio em sua cabeça. E, no entanto, chegara a esse ponto.
Se continuasse assim, seriam invadidos ao anoitecer. Se não reconfigurassem seu plano de ataque, não teriam mais nada até o amanhecer. O suficiente de seu espírito desafiador permanecia para ela achar isso inaceitável. Para se enfurecer contra esse fim.
Eles tinham que se retirar para as muralhas da cidade. Para reagrupar e usar Orynth, as montanhas atrás, a seu favor. Quanto mais tempo permanecessem ao ar livre, mais mortífero se tornaria.
Manon libertou a corneta de sua cintura e soprou duas vezes.
Crochan e Dentes de Ferro se voltaram para ela, os olhos arregalados em choque. Manon tocou a corneta de chifre novamente.
Recuar, a corneta anunciou. Recuar para a cidade.


O portão oeste da cidade estremeceu.
Onde intrincados entalhes antigos haviam enfeitado as placas de ferro, agora só restavam os amassados e o sangue salpicado.
Um estrondo ensurdecedor ecoou por toda a cidade, pelas montanhas, e Aedion, ofegando enquanto lutava sobre as ameias acima dos portões, ousou desviar o olhar de seu último oponente. Ousou examinar o rastro do último golpe do aríete.
Soldados enchiam a passagem para o portão, mais alinhando-se nas ruas além. Tantos quanto poderiam ser poupados das muralhas.
Em breve agora. Em breve o portão oeste cederia. Depois de milhares de anos, ele finalmente quebraria.
A Espada de Orynth estava escorregadia em sua mão molhada de sangue, seu escudo ancestral, grudento.
O povo já fugia para o castelo. As corajosas almas que haviam permanecido na cidade todo esse tempo, se mantendo com a esperança de que sobreviveriam. Agora eles corriam, crianças em seus braços, para o castelo que seria o bastião final contra as hordas de Morath. Por quanto tempo durasse.
Horas, talvez.
Manon dera a ordem de recuar, e Crochans e Dentes de Ferro aterrissaram na muralha junto ao portão sul ainda firme, algumas se juntando à batalha, outras segurando a linha contra a legião aérea inimiga em suas caudas.
O portão ocidental estremeceu novamente, balançando para dentro, madeira, metal e correntes com que o reforçaram se curvando.
Aedion sentiu o inimigo correndo à esquerda exposta e ergueu o escudo, infinitamente pesado. Mas uma serpente alada sem cavaleiro interceptou o soldado, rasgando o homem em dois antes de lançar seus restos das ameias.
Com um flash de luz, Lysandra estava lá, pegando roupas, espada e escudo de um Assassino Silencioso caído.
— Diga-me onde para onde mandar Manon e as outras pela cidade — ela pediu, ofegante muito. Um corte corria pelo braço dela, sangue vazando por toda parte, mas ela não parecia notar.
Aedion tentou afundar naquele lugar frio e calculista que o guiara através de outras batalhas, outras quase derrotas. Mas esta não era uma quase derrota.
Esta seria uma derrota pura e brutal. Um abate.
— Aedion. — Seu nome era um apelo frenético.
Um soldado valg correu na direção deles, e Aedion abriu o homem do umbigo ao nariz com um golpe da Espada de Orynth. Lysandra mal piscou para o sangue negro que espirrou em seu rosto.
O portão ocidental se dobrou, o ferro guinchou quando começou a se partir.
Ele tinha que ir – tinha que descer até lá para liderar a luta no portão.
Onde ele faria sua última posição. Onde encontraria seu fim, defendendo o lugar que ele mais amava. Era o mínimo que ele podia fazer, com todos os guerreiros que haviam caído graças a ele, às suas escolhas. Cair por Terrasen.
Uma morte digna de uma canção. Um fim digno de ser contado em torno de uma fogueira.
Se no novo mundo de trevas de Erawan as chamas fossem permitidas a existir.
A legião Dentes de Ferro de Morath atacou suas parentas rebeldes; as exaustas Crochans pousaram nas pedras enquanto bebiam água, verificavam ferimentos. Um suspiro antes do empurrão final.
Ao longo da muralha, soldados valg surgiram e surgiram e surgiram sobre as ameias.
Então Aedion se inclinou e beijou Lysandra, beijou a mulher que deveria ter sido sua esposa, sua parceira, uma última vez.
— Eu te amo.
Sofrimento encheu seu lindo rosto.
— E eu a você. — Ela gesticulou para o portão oeste, para os soldados que esperavam que ele caísse. — Até o fim?
Aedion ergueu o escudo, girando a Espada de Orynth em sua mão, liberando a rigidez que havia tomado seus dedos.
— Eu vou encontrá-la novamente — ele prometeu a ela. — Em qualquer que seja a vida vem depois disso.
Lysandra assentiu.
— Em toda vida.
Juntos, eles se voltaram para as escadas que os levariam até os portões. Ao abraço da morte que os esperava.
Uma corneta de chifre partiu o ar, a batalha, o mundo.
Aedion ficou imóvel.
Girou em direção ao som daquele chifre, ao sul. Além das fileiras apinhadas de Morath. Além do mar de negrume, até os contrafortes que cercavam as bordas da vasta planície de Theralis.
Mais uma vez, aquela corneta de chifre soou, um rugido de desafio.
— Essa não é uma corneta de Morath — Lysandra sussurrou.
E então eles apareceram. Ao longo da borda dos montes. Uma linha de guerreiros de armadura dourada, soldados de infantaria e cavalaria. Mais e mais e mais, uma grande linha se espalhando pela crista da última colina.
Enchendo os céus, estendendo-se no horizonte, poderosos pássaros de armadura com cavaleiros voavam. Ruks.
E diante de todos eles, a espada erguida para o céu quando a corneta de chifre soprou uma última vez, o rubi no pomo da lâmina ardendo como um pequeno sol...
Diante de todos, montada no Senhor do Norte, estava Aelin.

13 comentários:

  1. Tô tão desidratada... Sério, não sei como consigo continuar chorando

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  2. Caceeeeeeeeeete, o que foooooi isso? Foda de mais Brasil, a cena da Aelin montando o Senhor do Norte apareceu aqui na minha cabeça numa cena foda de mais!!!!!

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  3. ABRAM ALAS QUE A RAINHA CHEGOUUUUU (atrasada, mas chegou)

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  4. SOCORRO!!!!! TO MARAVILHADA COM ESSA CENA, TO PULANDO DE EMOÇÃO AQUI!

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  5. eu ja estava em desespero
    ainda to tremendo

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  6. Me lembrei até do senhor dos anéis as duas torres, empolgante demais.

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  7. Meu coração ta esbagaçado espremido de tanta emoção

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  8. Só eu acho q o rubi dessa espada esteve realmente absorvendo poder esse tempo todo em q esteve com Aelin (q nm algumaalgumas pedras em Eragon) e q em algum momento ela vai conseguir acessar esse poder, qm sabe até pra matar a Maeve??
    ~Leh

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  9. ABRAM ALAS QUE A RAINHA DA POHA TODA CHEGOUOOOO

    Ass: Ahgasa

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  10. Me arrepiei todinha. Aelin, rainha das entradas triunfantes

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Boa leitura, E SEM SPOILER!