29 de outubro de 2018

Capítulo 104

O suor e o sangue sobre ele rapidamente congelando, Aedion ofegou quando se inclinou contra as muralhas agredidas da cidade e assistia o inimigo acampado recuar para a noite.
Uma piada doentia, um tormento cruel, Morath parar a cada pôr do sol. Até parecia algum tipo de civilidade, como se as criaturas que infestavam tantos dos soldados abaixo precisassem da luz.
Ele sabia por que Erawan ordenara isso. Derrotá-los dia a dia, para quebrar seus espíritos, em vez de acabar com eles em uma glória furiosa.
Não era apenas a vitória ou a conquista que Erawan desejava, mas a sua completa rendição. Eles implorando para que isso acabasse, que ele acabasse com eles, os governasse.
Aedion rangeu os dentes enquanto mancava pelas ameias, a luz rapidamente desaparecendo, a temperatura despencando.
Cinco dias.
As armas que eles estimaram que acabariam em três ou quatro dias duraram até hoje. Até agora.
Nos muros, um dos micênicos enviou uma nuvem de chamas para o valg ainda tentando escalar a escada de cerco. Onde ela queimou, demônios sumiram.
Rolfe estava ao lado da mulher empunhando as chamas, seu rosto ensanguentado e suado como o de Aedion.
Uma mão coberta por armadura negra segurou a ameia ao lado de Aedion quando ele passou, lutando para subir.
Sem um segundo olhar, Aedion bateu seu escudo nela. Um berro e um grito diminuindo foi a sua única confirmação de que o soldado caía ao chão.
Rolfe sorriu sombriamente quando Aedion parou ao seu lado, o peso de sua armadura como mil pedras. Acima, Crochans e Dentes de Ferro voaram lentamente de volta através das muralhas da cidade, capas vermelhas caídas sobre vassouras, asas de couro batendo irregularmente. Aedion observou o céu até ver a serpente alada sem cavaleiro que ele procurava todos os dias, todos as noites.
Ao avistá-lo também, Lysandra inclinou-se e começou uma lenta e dolorosa descida em direção à muralha da cidade.
Tantos mortos. Mais e mais a cada dia. Essas vidas perdidas pesavam a cada passo. Não havia nada que ele pudesse fazer para consertar isso – não realmente.
— Os arqueiros estão fora — disse Aedion para Rolfe como saudação enquanto Lysandra se aproximava, sangue dela e de outros nas asas, no peito. — Sem mais flechas.
Rolfe apontou o queixo para a guerreira micênica ainda lançando chamas em explosões aos trancos.
Lysandra pousou, transformando-se em um flash, e estava instantaneamente ao lado de Aedion, sob o seu braço do escudo. Um beijo suave e rápido foi sua única saudação. A única coisa que ele esperava ansiosamente todas as noites.
Às vezes, uma vez que eles estavam enfaixados e tinham comido alguma coisa, ele conseguia mais do que isso. Muitas vezes, eles não se incomodavam em se lavar antes de encontrar uma alcova escura. Então não era nada além dela, a pura perfeição dela, os pequenos sons que ela fazia quando ele lambia sua garganta, quando suas mãos tão lentamente exploravam cada centímetro dela. Deixando-a definir o ritmo, mostrar e dizer a ele até onde ela queria ir. Mas não aquela união final, ainda não.
Algo pela qual os dois viverem – esse era o voto não dito deles.
Ela cheirava a sangue valg, mas Aedion ainda pressionou outro beijo na têmpora de Lysandra antes de olhar para Rolfe. O Lorde Pirata sorriu sombriamente.
Bem ciente de que esses provavelmente seriam seus últimos dias. Horas.
O guerreiro micênico apontou seu fogo novamente, e o persistente valg caiu na escuridão, pouco mais do que ossos derretidos e pano esvoaçante.
— Esse é o último — Rolfe disse em voz baixa.
Aedion demorou uma batida do coração para perceber que ele não quis dizer o soldado que caía.
A guerreira micênica pousou seu lança-chamas com um baque pesado e metálico.
— Os lança-chamas chegaram ao fim — disse Rolfe.


A escuridão caiu sobre Orynth, tão espessa que até mesmo as chamas do castelo murcharam.
Nas ameias do castelo, Darrow silencioso ao seu lado, Evangeline assistiu as linhas de soldados marcharem das muralhas, dos céus.
Os tambores de osso começaram a bater.
A batida de um coração, como se o exército inimigo na planície fosse uma fera enorme e crescente, agora se preparando para devorá-los.
Na maioria dos dias, eles só tocavam de sol a sol, o som dos tambores bloqueado pelo barulho da batalha. Que eles tenham começado de novo quando o sol desapareceu... o estômago de se agitou.
— Amanhã — lorde Sloane murmurou de onde estava ao lado de Darrow. — Ou no dia seguinte. Isso estará acabado então.
Não vitória. Evangeline sabia disso agora.
Darrow não respondeu, e lorde Sloane deu um tapinha no ombro dele antes de ir para dentro.
— O que acontece no final? — Evangeline ousou perguntar a Darrow.
O velho olhou através da cidade, o campo de batalha cheio daquela terrível escuridão.
— Ou nos rendemos — ele falou, a voz rouca — e Erawan nos escraviza, ou lutamos até sermos todos carniça.
Palavras fortes e duras. No entanto, ela gostou disso – ele não suavizou nada por causa dela.
— Quem decidirá o que vamos fazer?
Seus olhos cinzentos esquadrinharam o rosto dela.
— A decisão cairia sobre nós, os lordes de Terrasen.
Evangeline assentiu. Fogueiras inimigas cintilaram à vida, suas chamas parecendo ecoarem a batida de seus tambores de osso.
— O que você decidiria? — a pergunta de Darrow foi baixa, hesitante.
Ela considerou a pergunta. Ninguém nunca lhe perguntara nada assim.
— Eu teria gostado muito de morar em Caraverre — admitiu Evangeline. Ela sabia que ele não reconhecia o território, mas isso não importava agora, não é? — Murtaugh me mostrou a terra – os rios e montanhas bem perto, as florestas e colinas. — Uma dor latejava em seu peito. — Eu vi os jardins perto da casa e gostaria de tê-los visto na primavera. — Sua garganta se apertou. — Eu gostaria que aquela tivesse sido minha casa. Que lá... que toda Terrasen fosse meu lar.
Darrow não disse nada e Evangeline pôs a mão nas pedras do castelo, olhando para o oeste agora, como se pudesse ver todo o caminho até Allsbrook e o pequeno território em sua sombra. Até Caraverre.
— Isso é o que Terrasen sempre significou para mim, sabe — Evangeline foi adiante, falando mais para si mesma. — Assim que Aelin libertou Lysandra, e se ofereceu para nos juntarmos à sua corte, Terrasen sempre quis dizer lar. Um lugar onde... onde o tipo de gente que nos fere não pode viver. Onde qualquer um, independentemente de quem seja e de onde veio e qual a sua posição pode morar em paz. Onde podemos ter um jardim na primavera e nadar nos rios no verão. Eu nunca tive isso antes. Um lar, quero dizer. E eu teria gostado que Caraverre, que Terrasen, fosse o meu. — Ela mordeu o lábio. — Então eu escolheria lutar. Até o fim. Pelo meu lar, novo como é. Eu escolho lutar.
Darrow ficou em silêncio por tanto tempo que ela olhou para ele.
Ela nunca tinha visto os olhos dele tão tristes, como se o peso de todos os seus anos verdadeiramente caíssem sobre ele.
— Venha comigo — ele disse apenas.
Ela o seguiu pelas ameias e para o interior aquecido do castelo, ao longo dos vários corredores sinuosos, todo o caminho até o Grande Salão, onde um jantar pequeno demais estava sendo preparado. Um dos seus últimos.
Ninguém se preocupou em desviar o olhar de seus pratos enquanto Evangeline e Darrow passavam entre as longas mesas abarrotadas de soldados drenados e feridos.
Darrow também não olhou para eles, enquanto ia até a fila de pessoas esperando por sua comida. Até a Aedion e Lysandra, seus braços envolvendo um ao outro enquanto esperavam a sua vez. Como deveria ter sido desde o início – os dois juntos.
Aedion, percebendo a aproximação de Darrow, virou-se. O general parecia desgastado.
Ele soube então. Que amanhã ou o dia seguinte depois desse seria o último. Lysandra deu a Evangeline um pequeno sorriso, e Evangeline sabia que também estava ciente disso. Tentaria encontrar uma maneira de tirá-la antes do final.
Mesmo que Evangeline nunca permitisse isso.
Darrow soltou a espada de sua cintura e estendeu-a para Aedion.
O silêncio começou a ondular pelo salão à visão da espada – a espada de Aedion. A Espada de Orynth.
Darrow a segurou entre eles, o antigo pomo de osso cintilando.
— Terrasen é o seu lar.
O rosto abatido de Aedion permaneceu imóvel.
— Desde o dia em que cheguei aqui.
— Eu sei — disse Darrow, olhando para a espada. — E você o defendeu muito mais do que seria esperado de qualquer filho nascido aqui. Além do que qualquer um poderia razoavelmente ser solicitado a dar. Você fez isso sem reclamar, sem medo, e serviu seu reino nobremente. — Ele estendeu a espada. — Perdoe um velho orgulhoso que também tentou fazer o mesmo.
Aedion tirou o braço do ombro de Lysandra e pegou a espada entre as mãos.
— Servir este reino tem sido a grande honra da minha vida.
— Eu sei — repetiu Darrow, e olhou para Evangeline antes de olhar para Lysandra. — Alguém muito sábio me disse recentemente que Terrasen não é apenas um lugar, mas um ideal. Um lar para todos aqueles que vagueiam, para aqueles que precisam de um lugar para recebê-los de braços abertos. — Ele inclinou a cabeça para Lysandra. — Reconheço formalmente Caraverre e suas terras, e você como sua senhora.
Os dedos de Lysandra encontraram os de Evangeline e apertaram-se com força.
— Por sua inabalável coragem diante do inimigo reunido em nossa porta, por tudo o que fez para defender esta cidade e reino, Caraverre é reconhecido, e é seu para sempre. — Um olhar entre ela e Aedion. — Os seus herdeiros terão direito sobre a terra, e os herdeiros deles também.
— Evangeline é minha herdeira — disse Lysandra com a voz rouca, apoiando uma mão quente em seu ombro.
Darrow sorriu levemente.
— Eu também sei disso. Mas gostaria de dizer mais uma coisa esta noite, talvez nossa última. — Ele inclinou a cabeça para Evangeline. — Nunca fui pai de nenhum filho nem adotei nenhum. Seria uma honra nomear uma jovem tão inteligente e corajosa como minha herdeira.
Silêncio absoluto. Evangeline piscou – e piscou novamente.
Darrow continuou, no silêncio aturdido:
— Eu gostaria de encarar meus inimigos sabendo que o coração das minhas terras, deste reino, baterá no peito de Evangeline. Que não importa a sombra que se reúna, Terrasen sempre viverá em alguém que entende sua essência sem precisar ser ensinado. Que incorpora suas melhores qualidades. — Ele gesticulou para Lysandra. — Se for de seu agrado.
Torná-la protegida dele – e uma dama ... Evangeline apertou a mão de Darrow. Ele apertou de volta.
— Eu... — Lysandra piscou e se virou para ela, os olhos brilhantes. — Não é minha decisão, é?
Então Evangeline sorriu para Darrow.
— Eu gostaria muito disso.


Os tambores de osso bateram a noite toda.
Que novos horrores seriam desencadeados com o amanhecer, Manon não sabia.
Sentada ao lado de Abraxos no ninho da torre, ela olhava o mar infinito de negrume junto com ele.
Acabaria em breve. A desesperada esperança de Aelin Galathynius havia se apagado.
Alguém poderia escapar quando as muralhas da cidade fossem quebradas? E para onde iriam? Depois que a sombra de Erawan se assentasse, haveria alguém para impedi-lo?
Dorian – Dorian poderia. Se ele tivesse conseguido as chaves. Se ele tivesse sobrevivido. Ele poderia estar morto. Poderia estar marchando contra eles agora, um colar negro em volta da garganta.
Manon encostou a cabeça na lateral quente de couro de Abraxos. Ela não seria capaz de ver seu povo em casa. De levá-los para os desertos.
Amanhã, em seus ossos velhos e perversos, ela sabia que seria amanhã que as muralhas da cidade finalmente caíram. Eles não tinham mais armas além das espadas e seu próprio desafio. Isso duraria apenas um tempo contra a força infinita que os esperava.
Abraxos moveu sua asa para protegê-la do vento.
— Eu gostaria de ter visto — Manon disse baixinho. — As terras desérticas. Só uma vez.
Abraxos bufou, cutucando-a suavemente com a cabeça. Ela passou a mão pelo focinho dele.
E mesmo com a escuridão tomando o campo de batalha, ela podia imaginar – o verde vibrante e ondulante que fluía para um mar agitado e cinzento. Uma cidade brilhante ao longo de sua costa, bruxas voando em vassouras ou serpentes aladas nos céus acima dela. Ela podia ouvir o riso das bruxas nas ruas, a música há muito esquecida de seu povo flutuando no vento. Um espaço amplo e aberto, exuberante e sempre verde.
— Eu gostaria de ter visto — Manon sussurrou novamente.

4 comentários:

  1. Esse velho bastardo me fez chorar...
    Eu sabia que a Evangeline ia amochoraro coração dele mas não esperava isso do Darrow

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  2. Ai carai, eles estao tao sem esperanca...
    Fico pensando se os féricos de Dorallene estão a caminho pra ajudar

    Ass: Ahgasa

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  3. Esse capítulos estão demais. Ñ tem como ñ se emocionar.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!