29 de outubro de 2018

Capítulo 102

Eles tinham esvaziado uma pequena câmara perto do Grande Salão para sua vigília.
A sala era iluminada por quaisquer velas que puderam ser poupadas, as pedras antigas lançando um alívio cintilante ao redor da mesa onde o colocaram.
Lysandra permaneceu na porta enquanto olhava para o corpo coberto por um lençol no fundo da sala.
Ren ajoelhado diante dele, a cabeça abaixada. Como estivera por horas agora. Desde que a notícia chegara ao pôr-do-sol, que Murtaugh havia caído.
Derrubado pelos soldados valg enquanto tentava estancar o fluxo deles sobre a muralhas da cidade, cortesia de uma de suas torres de cerco.
Eles haviam transportado Murtaugh de volta da muralha da cidade, uma multidão de soldados em volta dele.
Mesmo dos céus, voando com as bruxas depois que Morath interrompeu o ataque por mais uma noite, Lysandra ouviu o grito de Ren. Tinha visto de cima como Ren correu pelas ameias para o corpo carregado pelas ruas da cidade.
Aedion estava lá em poucos segundos. Mantivera Ren de pé enquanto o jovem lorde soluçava e quase o carregara para cá, apesar dos novos ferimentos no príncipe.
E assim Aedion ficou. Fazendo a vigília permanentemente ao lado de Ren todo esse tempo, uma mão sobre o ombro dele.
Lysandra viera com Evangeline. Tinha abraçado a garota atordoada enquanto ela chorava e continuou enquanto Evangeline ia até o corpo de Murtaugh para pressionar um beijo em sua testa. Tanto quanto o lençol lhes permitiria ver, depois do que o valg fizera.
Ela acompanhava sua protegida para fora da câmara quando Darrow e os outros chegaram.
Lysandra não se incomodou em olhar para Darrow, para qualquer um deles que não ousava fazer o que Murtaugh fizera. Sua morte, eles souberam, tinha reunido os homens nas muralhas. Fez com que eles derrubassem a torre de cerco. Uma vitória de sorte e de preço muito alto.
Lysandra ajudou Evangeline a se banhar, garantiu que ela fizesse uma refeição quente e enfiou-a na cama antes de voltar.
Encontrou Aedion ainda ao lado de Ren, a mão ainda no ombro do lorde ajoelhado.
Então ela permaneceu ali, na porta. Sua própria vigília, enquanto o poço de seu poder era reabastecido, enquanto as feridas que ela sofreu cicatrizavam centímetro por centímetro.
Aedion murmurou algo para Ren e retirou a mão. Ela se perguntou se eram suas primeiras palavras em horas.
Aedion se virou para ela então, piscando. Esvaziado. Oco. Exausto e de luto e suportando um peso que ela não podia ver.
Até o habitual andar rápido de Aedion era pouco mais do que um arrastar.
Ela o seguiu para fora, olhando para trás apenas uma vez para onde Ren ainda se ajoelhava, cabeça curvada.
Um silêncio tão terrível em torno dele.
Lysandra manteve o passo ao lado de Aedion quando ele se virou para o refeitório. A esta hora, a comida seria escassa, mas ela encontraria. Para ambos. Caçaria se precisasse.
Ela abriu a boca para dizer isso a Aedion.
Mas lágrimas escorriam pelo rosto dele, cortando sangue e sujeira.
Lysandra parou, puxando-o para que parasse também.
Ele não encontrou os seus olhos enquanto ela enxugava as lágrimas de uma bochecha. Então de outra.
— Eu deveria estar no muro oeste — ele falou, a voz embargada.
Ela sabia que nenhuma palavra o confortaria. Então enxugou as lágrimas de Aedion novamente, lágrimas que ele só deixaria escorrer nesta passagem escura, depois de todos os outros terem encontrado suas camas.
E quando ele ainda não encontrou seu olhar, ela segurou o rosto dele, levantando a cabeça.
Por um instante, pela eternidade, eles se entreolharam.
Ela não aguentou a tristeza, o pesar, em seu rosto. Não aguentou.
Lysandra se ergueu na ponta dos pés e roçou a boca sobre a dele.
Um sussurro de um beijo, uma promessa de vida quando a morte pairava.
Ela se afastou, encontrando o rosto de Aedion tão distraído quanto antes.
Então ela o beijou novamente. E permaneceu em sua boca quando ela sussurrou:
— Ele era um bom homem. Um homem corajoso e nobre. Assim como você. — Ela o beijou uma terceira vez. — E quando esta guerra acabar, da maneira que acabar, eu ainda estarei aqui, com você. Seja nesta vida ou na próxima, Aedion.
Ele fechou os olhos, como se estivesse respirando suas palavras. Seu peito realmente levantou, seu ombros largos tremendo.
Então ele abriu os olhos, e eles eram pura chama turquesa, alimentados por aquela tristeza e raiva e desafio à morte em torno deles.
Ele segurou a cintura dela em uma mão, a outra mergulhando em seu cabelo, e deitou a cabeça dela para trás enquanto a boca encontrava a dela.
O beijo a queimou até seus ossos em constante mudança, e ela envolveu os braços ao redor do pescoço dele enquanto o segurava com força.
Sozinhos no corredor silencioso e escuro, sons de morte no campo de batalha ali perto, Lysandra se deu naquele beijo cauterizante, para Aedion, incapaz de se impedir seu gemido quando a língua dele roçou a dela.
O som o libertou, e Aedion os girou, batendo as costas dela contra a parede. Ela arqueou, desesperada para senti-lo contra si. Ele grunhiu em sua boca, e a mão em seu quadril deslizou para a coxa, erguendo-a para enrolar-se na cintura dele enquanto seus dedos afundavam dentro dela, exatamente onde ela precisava dele.
Aedion tirou sua boca da dela e começou a explorar seu pescoço, sua mandíbula, orelha. Ela sussurrou o nome dele, passando as mãos por suas costas poderosas, flexionadas sob o seu toque.
Mais. Mais. Mais.
Mais desta vida, deste fogo para queimar todas as sombras.
Mais dele.
Lysandra deslizou as mãos pelo peito dele, os dedos cravando em sua jaqueta, buscando a pele quente por baixo. Aedion apenas mordiscou sua orelha, arrastou seus dentes ao longo da mandíbula dela, e tomou sua boca em outro beijo saqueador que a fez gemer novamente.
Passos soaram pelo corredor, junto com uma tosse pontuada, e Aedion se endireitou.
Barulho – eles devem ter feito barulho demais...
Mas Aedion não se moveu, apesar de Lysandra desenganchar sua perna da cintura dele. No mesmo momento em que a sentinela passou, os olhos para baixo.
Passou rapidamente.
Aedion manteve os olhos grudados no homem o tempo todo, nada de humano nos olhos de Aedion. O ápice predador que finalmente encontrava sua presa.
Não, não presa. Nunca com ele.
Mas seu igual. Seu parceiro.
Quando a sentinela desapareceu dobrando o corredor, sem dúvida correndo para contar a todos quem ele interrompera, quando Aedion se inclinou para beijá-la novamente, Lysandra o parou com uma mão gentil em seus lábios.
— Amanhã — ela falou, e beijou sua bochecha, saindo de seus braços. — Sobreviva a amanhã, lute amanhã, e nós... continuaremos.
Sua respiração desigual, os olhos atentos.
— Foi por pena? — uma pergunta quebrada, miserável.
Lysandra deslizou a mão contra a bochecha coberta de barba por fazer e apertou a boca contra a dele. Permitiu-se saboreá-lo novamente.
— Foi porque estou farta de todas essas mortes. E eu precisei de você.
Aedion fez um som baixo e dolorido, então Lysandra o beijou pela última vez. Foi tão longe a ponto de correr a língua ao longo da união de seus lábios. Ele se abriu para ela e logo eles estavam emaranhados um no outro novamente, dentes e línguas e mãos vagando, tocando, degustando.
Mas Lysandra conseguiu se distanciar novamente, sua respiração tão irregular quanto a dele.
— Amanhã, Aedion — ela falou.


— Temos o suficiente restando em nosso arsenal para os arqueiros usarem por mais três dias, talvez quatro se eles economizarem seu suprimento — Darrow falou, braços cruzados enquanto lia a contagem.
Manon não desgostava do velho – parte dela até admirava seu controle de ferro. Mas esses conselhos de guerra a cada noite estavam começando a cansá-la.
Especialmente quando traziam notícias cada vez mais sombrias.
Ontem, havia mais um lugar nesta câmara. Lorde Murtaugh.
Hoje, apenas seu neto se sentava em uma cadeira, com os olhos avermelhados. Um fantasma vivo.
— Alimentos estocados? — perguntou Aedion do outro lado da mesa.
O príncipe-general tinha visto dias melhores também. Todos eles tinham. Cada rosto nesta sala tinha a mesma expressão sombria e maltratada.
— Temos comida por um mês, pelo menos — disse Darrow. — Mas nada disso vai importar se não houver ninguém para defender os muros.
O capitão Rolfe aproximou-se da mesa.
— Os lança-chamas estão quase no refugo. Nós teremos sorte se eles durarem até amanhã.
— Então, também os economizamos — disse Manon. — Use-os somente para valg de alto escalão que atravessarem as muralhas da cidade.
Rolfe assentiu. Outro homem que ela a contragosto admirava – embora sua arrogância pudesse contar.
Foi um esforço não olhar para as portas seladas da câmara. Onde Asterin e Sorrel deveria estar esperando. Defendendo.
Em vez disso, Petrah e Bronwen estavam lá. Não como suas novas tenentes, mas apenas representantes de suas próprias facções.
— Digamos que as flechas durem quatro dias — disse Ansel de Penhasco dos Arbustos, franzindo a testa profundamente. — E façamos os lança-chamas durarem por três, se usados ​​de maneira conservadora. Quando eles acabarem, o que resta?
— As catapultas ainda funcionam — disse um dos feéricos da realeza de cabelos grisalhos. A fêmea.
— Eles estão infligindo danos longe no campo, no entanto — apontou o príncipe Galan, que, como Aedion, exibia os olhos de Aelin. — Não perto para lutar.
— Então nós temos nossas espadas — disse Aedion com voz rouca. — Nossa coragem.
Essa última, Manon sabia, estava acabando também.
— Nós podemos manter as Dentes de Fero afastadas — Manon falou — mas não podemos ajudá-los nos muros também.
Eles estavam de fato lutando contra uma maré implacável que não diminuía.
— Este é o fim, então? — perguntou Ansel. — Em quatro, cinco dias, oferecemos nossos pescoços para Morath?
— Lutaremos até o último de nós — Aedion rosnou. — Até o último.
Mesmo lorde Darrow não se opôs a isso. Assim eles se separaram, o encontro terminado.
Não havia mais nada para discutir. Dentro de alguns dias, todos eles seriam um grande festim para os corvos.

7 comentários:

  1. Aaaaaa! Não! Vou chorar...

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  2. Não é justo!Mas vou ter um pouco de paciência, Karina, e segurar minha tristeza e impaciência pra ler esses últimos capítulos

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  3. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH NÃOOOO
    SÓ PQ EU TÔ ANSIOSAAAAAA

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  4. Putz, essa espera sósóe deixa mais ansiosa para o final

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  5. Na estamos em novembro quando você vai traduzir?????

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  6. Naaaaaaaooooooooo não faz isso!! Mergulhei de cabeça na leitura e agora não consigo mais sair... como assim não tá traduzido????!?!?!

    Corre Karina, a guerra depende de você também!!!

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    1. Nesse feriadão prometo que alcanço vocês e traduzo aqui!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!