29 de outubro de 2018

Capítulo 100

Um cutucão da bota de Kyllian despertou Aedion antes do alvorecer.
Ele gemeu quando se esticou no colchonete no Grande Salão, o espaço ainda escuro. Inúmeros outros soldados dormiam em volta dele, a respiração pesada enchendo a sala.
Ele olhou para a pequena lanterna que Kyllian segurava acima dele.
— Chegou a hora — disse Kyllian, com os olhos cansados e vermelhos.
Todos já pareceram melhores. Estiveram melhores.
Mas eles ainda estavam vivos. Uma semana depois de as Treze terem se sacrificado e empurrado a maré de Morath, eles estavam vivos. As vidas das bruxas lhes compraram um dia inteiro de descanso. Um dia, e então Morath marchou novamente para as paredes de Orynth.
Aedion colocou o pesado manto de pele que usava como cobertor sobre os ombros, estremecendo com a dor latejante no braço esquerdo. Um ferimento descuidado, quando desviou sua atenção da defesa por um momento e um soldado de infantaria valg conseguiu cortá-lo.
Mas pelo menos ele não estava mancando. E pelo menos a ferida que o príncipe valg lhe fizera havia sarado.
Jogando seu escudo sobre o mesmo ombro, ele pegou sua espada e a colocou em sua cintura enquanto caminhava pelo labirinto de corpos adormecidos e exaustos. Um aceno para Kyllian fez o homem seguir para as muralhas da cidade.
Mas Aedion virou à esquerda ao sair do Salão Principal, indo para a torre norte.
Foi uma caminhada solitária e fria até o quarto que ele procurava. Como se o castelo inteiro fosse um túmulo.
Ele bateu de leve na porta de madeira perto do topo da torre, que imediatamente se abriu e fechou. Lysandra deslizou no corredor antes que Evangeline pudesse se mexer em sua cama.
Sob a luz bruxuleante da vela de Aedion, as sombras gravadas no rosto de Lysandra por uma semana de luta, do nascer ao pôr-do-sol, estavam mais e mais profundas.
— Pronta? — ele perguntou baixinho, voltando para as escadas.
Tornara-se sua tradição – ele ver Lysandra no andar de cima à noite e depois encontrá-la de manhã. O único ponto de luz em seus dias longos e horríveis.
Às vezes, Evangeline os acompanhava, narrando sua tarefa de entregar mensagens e recados para Darrow. Às vezes, eram apenas os dois caminhando com dificuldade.
Lysandra ficou em silêncio, seu andar gracioso mais pesado a cada passo que desciam.
— Café da manhã? — perguntou Aedion enquanto se aproximavam do final da escada.
Um aceno de cabeça. Os ovos e as carnes secas deram lugar a caldo quente e mingau. Duas noites atrás, Lysandra tinha voado em forma de serpente alada depois que a luta tinha acabado para o dia, e retornou uma hora depois com um veado agarrado em cada pata com garras.
Essa carne preciosa tinha ido embora cedo demais. Eles atingiram o fundo da escadaria da torre, e Aedion seguia para o refeitório quando ela o parou com uma mão em seu braço. Na escuridão, ele se virou para ela.
Mas Lysandra, aquele lindo rosto tão cansado, apenas deslizou os braços ao redor da cintura dele e pressionou a cabeça contra o seu peito. Ela apoiou-se tanto que Aedion deixou a vela em um ressalto próximo e passou os braços firmemente ao redor dela.
Lysandra caiu, apoiando-se ainda mais nle. Como se o peso da exaustão fosse insuportável.
Aedion descansou o queixo sobre a cabeça dela e fechou os olhos, respirando seu perfume em constante mudança.
A batida de seu coração trovejou contra o dele enquanto ele passava a mão por sua espinha. Gestos longos e suaves.
Eles não tinham compartilhado uma cama. Não havia lugar para isso de qualquer maneira. Mas isso, abraçarem-se – ela deu início na noite em que as Treze se sacrificaram. O detivera exatamente nesse ponto e apenas o abraçou por longos minutos. Até que a dor e o desespero diminuíssem o suficiente para que pudessem subir a escada.
Lysandra se afastou, mas não saiu completamente de seus braços.
— Pronto?


— Estamos ficando sem flechas — disse Petrah Sangue Azul para Manon na luz cinza-azulada pouco antes do amanhecer. Elas caminhavam pelo ninho improvisado sobre uma das torres do castelo. — Podemos querer considerar a possibilidade de designar alguns dos covens menores para ficarem para trás hoje para produzir mais.
— Faça isso — disse Manon, examinando as serpentes aladas ainda desconhecidas que dividiam o espaço com Abraxos. Sua montaria já estava acordada. Olhando para fora, solitária e fria, em direção ao campo de batalha além das muralhas da cidade. Na direção do trecho de terra explodido que nenhuma neve conseguiu apagar completamente.
Ela passou horas olhando para aquele trecho. Mal conseguia passar por cima dele durante a luta interminável a cada dia.
Seu peito, seu corpo, fora esvaziado.
Apenas se mover, passar por todos os movimentos comuns, a impedia de se enrolar em um canto deste ninho e nunca se levantar.
Ela precisava continuar andando. Precisava.
Ou então deixaria de funcionar.
Ela não se importava se era óbvio para os outros. Ansel de Penhasco dos Arbustos a procurou no Grande Salão na noite anterior por causa disso. A guerreira ruiva tinha deslizado para o banco ao lado dela, seus olhos cor de vinho sem perder a comida que Manon mal tinha comido.
— Sinto muito — Ansel falou. Manon apenas olhou para o prato praticamente intocado. A jovem rainha examinara o solene salão ao redor deles. — Eu perdi a maioria dos meus soldados — disse ela, seu rosto sardento pálido. — Antes de você chegar. Morath os massacrou.
Foi um esforço para Manon virar seu rosto em direção a Ansel. Para encontrar seu olhar pesado. Ela piscou uma vez, a única confirmação que poderia se incomodar em fazer.
Ansel pegou a fatia de pão de Manon, tirando um pedaço e comendo.
— Nós podemos compartilhar, você sabe. As terras desérticas. Se você quebrar essa maldição.
Na longa mesa, algumas das bruxas ficaram tensas, mas não olharam para elas.
— Honrarei as antigas fronteiras do Reino das Bruxas, mas manterei o resto. — Ansel continuou. A rainha levantou-se, levando o pão de Manon com ela. — Apenas algo a considerar, caso a oportunidade apareça. — Então ela se foi, indo para o seu próprio grupo de soldados restantes.
Manon não a encarou, mas as palavras, a oferta, permaneceram. Compartilhar a terra, recuperar o que elas tiveram, mas não a totalidade dos desertos... Leve o nosso povo para casa, Manon.
As palavras não paravam de ecoar em seus ouvidos.
— Você poderia ficar fora do campo de batalha hoje também — Petrah Sangue Azul disse agora, uma mão no flanco de sua montaria. — Usar o dia para ajudar as outras. E descansar.
Manon olhou para ela. Mesmo com duas Matriarcas mortas, Iskra com elas e nenhum sinal da mãe de Petrah, as Dentes de Ferro conseguiram se manter organizadas. Mmanter Manon, Petrah e as Crochans ocupadas.
Todos os dias, menos e menos saíam do campo de batalha.
— Ninguém mais descansa — Manon falou friamente.
— Todo mundo consegue dormir, no entanto — apontou Petrah. Quando Manon apenas encarou a bruxa, Petrah disse, sem pestanejar: — Acha que eu não a vejo, deitada acordada a noite toda?
— Eu não preciso descansar.
— A exaustão pode ser tão mortal quanto qualquer arma. Descanse hoje e junte-se à nós amanhã.
Manon mostrou os dentes.
— Da última vez que olhei, você não estava no comando.
Petrah não abaixou a cabeça.
— Lute, então, se é isso o que deseja. Mas considere que muitas vidas dependem de você, e se você cair porque está cansada demais, por ter ficado desleixada, todos sofrerão por isso.
Foi um sábio conselho. Um aviso sonoro.
No entanto, Manon olhou para o campo de batalha, o mar de trevas apenas se tornando visível. Em cerca de uma hora, os tambores bateriam de novo, e o estridente grito de guerra se renovaria.
Ela não podia parar. Não pararia.
— Eu não vou descansar. — Manon se virou para procurar Bronwen nos aposentos das Crochans. Ela, pelo menos, não teria noções tão ridículas. Mesmo que Manon soubesse que Glennis ficaria do lado de Petrah.
Petrah suspirou, o som irritou a espinha de Manon.
— Então, vou vê-la no campo de batalha.


O rugido e o estrondo da guerra se tornaram um burburinho distante nos ouvidos de Evangeline ao meio-dia. Mesmo com o vento gélido, o suor escorria por suas costas sob as pesadas camadas de roupa, enquanto ela subia mais uma escada às pressas, com a mensagem na mão. Darrow e os outros velhos senhores ficaram como nas duas últimas semanas: ao longo dos muros do castelo, monitorando a batalha além da cidade.
A mensagem que recebera, diretamente de uma Crochan que havia pousado tão brevemente que seus pés mal tocaram o chão, viera de Bronwen.
Era raro, Evangeline aprendera, tanto para as Dentes de Ferro quanto para as Crochans relatarem qualquer coisa aos humanos. Que a soldado Crochan a tivesse encontrado, soubesse quem ela era... Foi orgulho, mais do que medo, que fez Evangeline subir correndo as escadas, depois atravessasse as ameias até lorde Darrow.
Lorde Darrow, Murtaugh ao seu lado, já havia estendido a mão quando Evangeline parou.
— Cuidado — Murtaugh avisou. — O gelo pode ser traiçoeiro.
Evangeline assentiu, embora planejasse ignorá-lo. Mesmo que tivesse escorregado na escada no dia anterior – o que, felizmente, ninguém havia testemunhado. Especialmente Lysandra. Se ela visse a contusão que agora florescia sobre a perna de Evangeline, a que combinava com aquela no antebraço, ela a trancaria na torre.
Lorde Darrow leu a mensagem e franziu a testa para a cidade.
— Bronwen informa que elas viram Morath carregando uma torre de cerco para a muralha oeste. Nos alcançará em uma hora ou duas.
Evangeline olhou além do caos nas muralhas da cidade, onde Aedion, Ren e a Devastação lutavam tão valentemente, sob a confusão nos céus, onde bruxas batalhavam com bruxas e Lysandra voava em forma serpente alada.
Com certeza, uma forma maciça vinha na direção deles. O estômago de Evangeline caiu para seus pés.
— É... é uma daquelas torres de bruxa?
— Uma torre de cerco é diferente — disse Darrow com sua aspereza habitual. — Graças aos deuses.
— Ainda mortal — disse Murtaugh. — Só de uma maneira diferente. — O velho franziu o cenho para Darrow. — Eu vou para lá.
Evangeline piscou com isso. Nenhum – nenhum dos lordes mais velhos fora para a frente de batalha.
— Para avisá-los? — Darrow perguntou cuidadosamente.
Murtaugh deu um tapinha no cabo de sua espada.
— Aedion e Ren estão ocupados. Kyllian também, se você quiser continuar dizendo a si mesmo que é ele quem os lidera. — Murtaugh não baixou o queixo para Darrow, que endureceu. — Eu vou lidar com a parede ocidental. E aquela torre de cerco. — Uma piscadela para Evangeline. — Não podemos todos ser mensageiros corajosos, podemos?
Evangeline forçou-se a sorrir, embora o pavor se acumulasse nela.
— Devo... devo avisar a Aedion que você estará lá?
— Eu mesmo avisarei a ele — Murtaugh respondeu, e bagunçou o cabelo dela enquanto passava. — Tenha cuidado com o gelo — ele avisou-a novamente.
Darrow não tentou detê-lo quando Murtaugh saiu das ameias. Lento. Ele parecia tão lento e velho e frágil. E ainda assim ele manteve o queixo alto. Costas retas.
Se ela pudesse escolher um avô para si, teria sido ele.
O rosto de Darrow estava apertado quando Murtaugh finalmente desapareceu.
— Velho idiota — disse Darrow, com preocupação nos olhos enquanto se voltava para a batalha que se desenrolava à frente.

3 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!