5 de outubro de 2018

Capítulo 10

O SOL COSTURADO NO TOPO DO PAVILHÃO brilhava pálido à luz da lamparina. A luminosidade não era suficiente para preencher todo o espaço, e a escuridão parecia nos sufocar.
Eu, Shazad, Hala, Jin e Ahmed estávamos reunidos.
Deveria haver mais gente conosco. Se Bahi estivesse vivo. Se Delila não estivesse sob os cuidados da minha tia. Se Mahdi não houvesse se revelado um traidor e estivesse trancafiado. Se não tivéssemos concordado que Imin merecia pelo menos uma noite longe da rebelião depois do casamento.
— Você deveria ter matado Mahdi de uma vez, se quer minha opinião. — Os olhos de Hala estavam distantes, mas eu sabia que ela falava comigo.
— Não quero — respondi. Só conseguia pensar no medo nos olhos dele enquanto segurava Delila tremendo. Discutindo comigo pela vida de Sayyida porque era orgulhoso demais para implorar. — Se fosse Imin morrendo naquela tenda, você não teria feito o mesmo por ela?
— Não. — Hala falou baixo, daquele modo ameaçador que usava vez ou outra quando o assunto era a irmã. — Aliás, poderia muito bem ter sido Imin. Ou você, ou eu, ou os gêmeos. Todos nós arriscamos a vida todos os dias por pessoas egoístas como ele, e é assim que retribuem. — Egoísmo era o que o deserto mais produzia. Eu sabia disso melhor do que ninguém.
— O amor torna as pessoas egoístas — disse Jin, tão baixinho que quase acreditei que não era para eu ter escutado aquilo. Uma raiva fervente e repentina cresceu dentro de mim. Antes que pudesse retrucar, Hala falou outra vez.
— Não acho que nem metade do que fizeram comigo foi por amor. A menos que esteja se referindo ao amor pelo dinheiro. — Ela ergueu a mão esquerda sob a luz para mostrar os dois dedos faltando. — O restante de nós deve sofrer só porque Amani parece escolher quem vive e quem morre de acordo com seu estado de espírito?
— Chega — Shazad alertou.
Mas Hala a ignorou.
— Você é sempre muito boa em colocar todo mundo em perigo. Hoje foi Mahdi. Da outra vez agiu como se a vida do seu irmão valesse mais do que a de todo mundo no deserto. Quanto tempo vai levar até outra cidade se reduzir a uma cratera queimada? Ou até ele nos encontrar e transformar mais um em pó, como fez com Bahi? Ou talvez alguém consiga caçar seu irmão, como fizeram com Imin, e aí ele terá os olhos arrancados para que morra lentamente, quando você teve a chance de ter sido misericordiosa.
Disparei contra ela como uma bala.
Shazad se enfiou entre nós num segundo. Antes que pudesse alcançar Hala, antes que Hala pudesse conjurar algum terror na minha mente em retaliação.
— Eu disse chega! — Ela me puxou para trás, os braços nos meus ombros, me segurando enquanto Hala fazia cara de escárnio e desprezo. Forcei o corpo na direção dela, mas mãos familiares me seguraram, me arrastando para longe da briga.
Jin. Não me dei ao trabalho de lutar enquanto ele me puxava com facilidade para perto dele.
Senti o calor familiar de seu corpo quando minhas costas encontraram seu peito.
— Pare. Você sabe que não quer brigar com ela pra valer, Amani — Jin falou no meu ouvido, para que só eu pudesse escutar. Sua respiração fez os pelos na minha nuca arrepiarem. Tudo o que eu mais queria era me apoiar nele, a batida do seu coração junto às minhas costas, e relaxar. Mas recuperei o controle antes que fizesse isso, me obrigando a me afastar. A deixar algum espaço entre nós dois.
— Me solta. — Ele afrouxou o aperto quando sentiu meu corpo travar sob seu toque.
Me sacudi, e Jin afastou as mãos. Ainda podia sentir o calor se prolongando nos meus braços. Como uma queimadura. Só que uma demdji não deveria queimar tão fácil.
— Todo mundo nessa tenda tem alguém por quem viraria o mundo de cabeça para baixo. — Shazad virou para Hala. — O que está em jogo aqui não é sangue ou amor, e sim traição. Mahdi cometeu um crime contra nós e precisa ser julgado por isso.
Ahmed ainda não havia se pronunciado. Mas agora todos pareciam olhar para ele.
Finalmente falou:
— Meu pai o executaria.
— Seu irmão também — Jin falou atrás de mim. Estava a uma distância segura de mim agora. Mesmo sem olhar para ele, sentia a sua presença.
— Está defendendo a vingança? — disse Ahmed. — Olho por olho?
— Não — disse Jin. — Delila ainda está viva. Graças a Amani. Só uma pessoa precisa perder o olho nesse caso.
Ahmed tamborilou os dedos no mapa.
— Não me parece que um sultão deva dar ordens por rancor.
As palavras de Mahdi voltaram à minha mente. Fraco demais para controlar esse país inteiro.
Jin deu um passo na direção de Ahmed.
— Nossa irmã…
— Ela não é sua irmã. — Ele socou a mesa, silenciando a todos instantaneamente. Nenhum de nós tinha ouvido Ahmed atacar Jin daquele jeito. Até Shazad recuou, seus olhos alternando de um irmão para o outro. Como se fosse acabar tendo que segurar um deles. Jin e Delila podiam não ser irmãos de sangue como Delila e Ahmed eram, por parte de mãe, ou como Jin e Ahmed eram, por parte de pai. Mas haviam sido criados juntos. Jin nunca tinha chamado Delila de algo que não fosse irmã, e ela também o considerava assim. Mas o único ponto de ligação entre eles era Ahmed. — Essa decisão cabe a mim, não a você.
Jin cerrou os dentes.
— Ótimo. Enquanto toma a sua decisão, vou tomar conta da sua irmã, como aconteceu depois que minha mãe morreu. Mãe que inclusive salvou sua vida, se você já esqueceu. E que morreu enquanto você estava aqui bancando o salvador do país que a escravizou e que tentou matar sua irmã.
— Todo mundo fora. — Ahmed deu o comando sem tirar os olhos de Jin. — Essa conversa é entre nós dois.
— Nem se incomode. — Jin abriu a aba da tenda com um movimento violento. — Já terminamos aqui. — O ar da noite entrou no pavilhão conforme ele saía, e a luz da barraca de Ahmed se derramou pela areia como um farol.
Foi então que o tiroteio começou.
O mundo inteiro pareceu desacelerar ao nosso redor enquanto permanecíamos congelados, a mente lutando para acompanhar o ritmo. Uma bala acertou a mesa, a um fio de cabelo da mão esquerda de Ahmed. Logo acima surgiu um buraco no toldo, bem na parte amarela do sol de tecido.
Shazad foi a primeira a reagir. Pegou Ahmed pela camisa e o puxou com força para baixo da mesa, um segundo antes de ouvirmos o próximo tiro. E mais outro.
Jin me agarrou e me empurrou no mesmo momento. Eu me estatelei, perdendo o ar. Acertei o chão com força, e uma pontada violenta de dor percorreu meu ombro direito. Gritei, mas não tinha sido atingida. Conhecia bem a sensação. Ele me protegeu com o corpo enquanto as balas rasgavam o frágil tecido da tenda.
Sayyida.
A dedução veio firme e repentina como um tiro na cabeça. Não podia ser coincidência. Ela não havia “escapado” com Hala. Era uma isca. Uma armadilha. Eles a haviam seguido até nós.
Ouvi mais tiros lá fora. Outra bala passou por nós, espirrando areia a uma distância perigosamente próxima de onde eu e Jin estávamos. Os soldados atiravam às cegas, o que não queria dizer que não acabariam nos acertando.
Clamei meu poder, mas ele pairava frustrantemente fora de alcance. Senti algo frio no quadril e virei para ver melhor. Minha camisa havia sido puxada para cima, e o ferro da fivela do cinto de Jin pressionava minha pele, neutralizando minha metade djinni. Nós dois estremecemos quando outra bala acertou a mesa logo acima da cabeça de Ahmed e Shazad.
— Jin. — A queda havia me deixado sem ar, e uma dor irradiava do meu braço direito, como se ele tivesse quebrado. Era difícil falar com o peso sólido de Jin em cima de mim. — A fivela do cinto — finalmente falei, sentindo o pulmão queimar.
Ele entendeu e se afastou rápido de mim. Senti o ferro deixar minha pele. De repente o pânico não era mais uma sensação rugindo aprisionada no meu peito. Ele extravasava. Para o deserto. Para a areia.
Chamei o deserto na forma de uma tempestade.
Podia senti-la crescendo do lado de fora, ganhando cada vez mais força.
Empurrei-a para os limites do acampamento, tentando mantê-la o mais afastada de nós possível, mas a areia chicoteou as paredes furadas da tenda mesmo assim.
Fechei os olhos e deixei o deserto se agitar em frenesi. O tiroteio parou, vacilante sob a força da tempestade, mesmo quando a ventania atingiu a lateral do pavilhão, erguendo-o do chão, carregando-o para longe como se não fosse nada.
Do lado de fora, a tempestade de areia havia transformado o medo em caos. Os rebeldes corriam para amarrar sheemas em volta do rosto enquanto outros pegavam suprimentos ou tentavam acalmar os cavalos. Todo mundo conhecia o plano de retirada. Mas executá-lo no breu com balas cortando o ar era bem diferente.
Lutei para me controlar melhor. Ajoelhei e tentei respirar fundo. Os tiros vinham de cima, o que significava que os inimigos estavam nas paredes do desfiladeiro. Mudei de posição, abrindo os braços e empurrando meu poder na direção deles, criando um escudo contra os tiros da melhor forma que conseguia.
Enquanto a areia se movia, vi o primeiro corpo de um rebelde. Sangue fresco vermelho escorrendo da ferida de bala em seu peito. Senti meu controle escapar, mas o puxei de volta.
Shazad estava de pé, dando ordens enquanto eu mantinha o ar furioso ao nosso redor, colocando o caos em ordem.
— Amani! Temos que ir! — ela gritou acima do rugido da areia, tentando me alcançar.
— Vou dar cobertura! — gritei de volta. — Tire todo mundo daqui.
— Não sem você. — Ela sacudiu a cabeça. A trança já havia se soltado e o cabelo escuro chicoteava seu rosto freneticamente. Atrás dela, eu podia ver as pessoas desesperadas selando cavalos, algumas escalando as costas dos gêmeos em forma de rocs gigantes.
— Sim, sem mim! — gritei de volta. Queria dizer a ela que eu ficaria bem. Mas era perigoso para uma demdji fazer promessas. — Tire todo mundo daqui. Deixe Ahmed em segurança. Eles precisam de você, e você precisa de mim aqui.
Shazad hesitou por um momento. Minha amiga não estava convencida, mas a general sabia que eu tinha razão. Metade do acampamento morreria sem algum tipo de cobertura. E naquele instante eu era a única que havia.
Shazad se virou e olhou por cima do ombro para onde Ahmed tentava controlar os ânimos, depois olhou de volta para mim.
— Se não vier atrás da gente — ela se abaixou na minha frente, segurando meu ombro por um breve instante —, pode ter certeza de que vou atrás de você.
E então partiu. Botei para fora todo o poder que havia dentro de mim. Me esvaziei no deserto, criando um ciclone perfeito para proteger as fronteiras do acampamento, blindando a fuga.
Não sei por quanto tempo aguentei. O máximo que pude antes de meus braços começarem a tremer. Estava vagamente consciente do caos ao meu redor. Dos suprimentos sendo carregados, dos cavalos levados para a saída, de Izz e Mas disparando pelo ar sob uma saraivada de tiros. Dos gritos ao longe.
Mas o deserto era a única coisa que eu realmente entendia. Eu era parte integral da tempestade de areia, até que me veio o pensamento de que poderia me desfazer em poeira e ir embora junto com ela. Estava perdendo o controle. Não eram apenas os braços. Meu corpo inteiro tremia devido ao esforço. A areia chicoteava meu cabelo em vez de avançar na direção do inimigo. Precisava soltar o controle da areia. E se queria ter alguma chance de escapar, precisava fazer isso imediatamente.
Me obriguei a ficar de pé. Minhas pernas dobraram e cederam, sem forças. Alguém passou os braços em volta da minha cintura antes que eu tombasse no chão.
— Peguei você — Jin falou no meu ouvido. — Pode deixar, peguei você.
Um cavalo relinchava e dava coices, assustado com a tempestade que começava a se fechar ao nosso redor enquanto meu controle vacilava.
— Por que… ainda… está… aqui? — murmurei. — Shazad…
Minha cabeça girava com o esforço de controlar a areia. Se eu a soltasse naquele momento, todo mundo que ainda não tivesse ido embora seria soterrado.
— Shazad já tirou quase todo mundo. — A solidez do corpo de Jin era a única coisa me mantendo de pé.
— Mas não você.
— Jamais te deixaria para trás. — Sua voz soou baixa e assertiva no meu ouvido enquanto seu corpo se curvava ao redor do meu, me protegendo. Jin me colocou na sela e subiu atrás. Uma arma disparou perturbadoramente perto de nós. — Amani. Libere a tempestade. Estou com você, prometo. Confie em mim.
Então eu a libertei.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!