5 de outubro de 2018

Capítulo 1

O príncipe estrangeiro

TEMPOS ATRÁS, NO REINO DESÉRTICO DE MIRAJI, havia um príncipe que desejava assumir o trono do pai. O jovem era movido pela crença de que o pai era um governante fraco e de que ele mesmo desempenharia melhor o papel de sultão. Não demorou e o jovem tomou o trono à força. Em uma noite sanguinária, seu pai e seus irmãos caíram diante de sua espada e do exército estrangeiro que liderava. Quando amanheceu, ele não era mais príncipe. Havia se tornado sultão.
O jovem governante ficou conhecido por tomar esposas do mesmo modo que havia tomado o país: à força.
No primeiro ano de reinado, duas dessas esposas deram à luz sob as mesmas estrelas. Uma esposa havia nascido nas areias. Seu filho pertencia ao deserto. A outra esposa havia nascido do outro lado das águas, em um reino chamado Xicha, e fora criada no convés de um navio. Seu filho não pertencia a lugar nenhum.
Apesar disso, os garotos cresceram como irmãos, protegidos pelas mães de tudo o que os muros do palácio não eram capazes de conter. E, por um tempo, tudo correu bem no harém.
Então a primeira esposa deu à luz novamente, mas dessa vez a criança não era do sultão. Era de um djinni, com cabelo atípico e fogo sobrenatural no sangue.
Por ter traído o sultão, a esposa foi alvo de sua ira, morrendo sob a força de seus golpes.
Em meio à fúria, o governante nem prestou atenção na segunda esposa, que fugiu com os dois garotos e a filha do djinni, atravessando o mar até o reino de Xicha, de onde havia sido roubada. Lá, seu filho, o príncipe estrangeiro, podia fingir que pertencia a algum lugar. Mas o príncipe do deserto não podia fingir: ele era estranho àquela terra, assim como seu irmão o fora na terra do sultão. Nenhum dos príncipes estava destinado a permanecer ali por muito tempo, no entanto. Logo os dois partiram de Xicha, em direção ao mar aberto.
Por um tempo, em navios indo para qualquer lugar e vindos de lugar nenhum, as coisas correram bem para os irmãos. Eles navegavam à deriva entre uma costa estrangeira e outra, sem se fixar em parte alguma.
Até que um dia avistaram Miraji da proa do navio.
O príncipe do deserto se lembrou do lugar a que realmente pertencia. Naquela enseada familiar, deixou o navio. Antes disso, no entanto, pediu que o irmão o acompanhasse, mas o príncipe estrangeiro se recusou. As terras de seu pai lhe pareciam vazias e estéreis, e ele não entendia a atração que exerciam em seu irmão.
Então seus caminhos se separaram. O príncipe estrangeiro permaneceu no mar por um tempo, numa fúria silenciosa por seu irmão ter preferido o deserto às águas. Enfim chegou o dia em que o príncipe estrangeiro não aguentava mais ficar separado do irmão. Quando voltou ao deserto de Miraji, descobriu que o príncipe do deserto tinha começado uma rebelião. Ele falava de feitos e ideias grandiosos, igualdade e prosperidade. Estava cercado de novos irmãos que amavam o deserto assim como ele.
Agora era conhecido como príncipe rebelde. Mesmo assim, recebeu-o de braços abertos.
E por um tempo tudo correu bem.
Até que surgiu uma garota, conhecida como a Bandida de Olhos Azuis. Criada nas areias e lapidada pelo deserto, ela ardia em chamas. Pela primeira vez, o príncipe estrangeiro entendeu o que seu irmão amava naquele deserto.
O príncipe estrangeiro e a Bandida de Olhos Azuis atravessaram as areias juntos, em direção a uma grande batalha na cidade de Fahali, onde aliados do sultão haviam se estabelecido.
Os rebeldes tiveram ali sua primeira grande vitória. Defenderam o deserto contra o sultão, que teria queimado todos vivos. Libertaram o demdji que, contra sua vontade, seria transformado em arma pelo sultão. Mataram o filho do sultão que teria derramado sangue até conquistar a aprovação de seu pai. Romperam a aliança do governante com os estrangeiros que vinham maltratando o deserto havia décadas. E reivindicaram parte da terra para si.
A história da batalha de Fahali se espalhou rapidamente e, com ela, a notícia de que o deserto estava aberto a novas conquistas. Miraji era o único lugar onde a magia antiga e as máquinas coexistiam; o único país com uma indústria rápida o suficiente para produzir armas para a grande guerra travada entre as nações do norte.
Olhos vorazes se voltaram para lá. Rapidamente, outros exércitos chegaram ao deserto, vindos de todos os lados, tentando forjar novas alianças ou conquistar o país.
Enquanto os inimigos de fora investiam contra as fronteiras do sultão e mantinham seu Exército ocupado, os rebeldes se apoderavam de cidade após cidade, tirando-as das mãos do sultão e ganhando apoio popular.
E por um tempo as coisas correram bem para a rebelião, para a Bandida de Olhos Azuis e para o príncipe estrangeiro.
Até que a balança começou a pender contra seu irmão. Duas dúzias de rebeldes caíram em uma armadilha, cercados por um exército mais numeroso e bem armado.
Uma cidade se ergueu contra o sultão, clamando à noite pelo nome do príncipe rebelde, mas acordou com os olhos vazios dos mortos. E a Bandida de Olhos Azuis foi atingida por uma bala em uma batalha nas montanhas, ficando gravemente ferida. Ali, pela primeira vez desde que seus caminhos se cruzaram, a Bandida de Olhos Azuis e o príncipe estrangeiro se separaram.
Enquanto ela lutava pela vida, ele foi enviado para a fronteira ocidental do deserto, onde um exército de Xicha estava acampado. O príncipe estrangeiro roubou um uniforme e entrou no acampamento xichan como se fosse um deles. Foi fácil permanecer ali, onde nem parecia estrangeiro. O príncipe estrangeiro ficou ao lado deles enquanto lutavam contra as forças do sultão, espionando em segredo para o irmão.
E por um tempo tudo correu bem para ele, escondido em meio ao exército xichan.
Até que um mensageiro usando o branco e dourado do sultão e carregando uma bandeira de paz trouxe uma carta.
O príncipe estrangeiro teria matado para saber o que dizia e poder contar tudo a seus aliados, mas não foi preciso. Todos sabiam que ele falava a língua do deserto, por isso foi convocado à tenda do general xichan para ser intérprete da conversa com o mensageiro do sultão, nenhum deles ciente de que se tratava de um inimigo. Na mensagem, o sultão pedia um cessar-fogo. Ele dizia estar cansado do derramamento de sangue e se mostrava pronto para negociar. O príncipe estrangeiro descobriu que o sultão estava convocando todos os governantes estrangeiros para tratar de uma nova aliança — qualquer rei, imperador ou príncipe interessado em seu deserto poderia ir até o palácio apresentar seus argumentos.
A carta foi enviada ao imperador xichan na manhã seguinte. O combate cessou. Em seguida, viriam as negociações. Então a paz. Sem a necessidade de proteger suas fronteiras, os olhos do sultão se voltariam para seu território novamente.
O príncipe estrangeiro entendeu que havia chegado a hora de voltar para o lado de seu irmão. A rebelião estava prestes a se transformar numa guerra.

Um comentário:

  1. que eles se SEPARARAM nao acredito ela vai ficar bem/ MEU DEUS que afliçao

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Boa leitura, E SEM SPOILER!