29 de outubro de 2018

A princesa

O ferro a sufocava. Ele havia apagado o fogo em suas veias, tão certo como se as chamas tivessem sido extintas.
Ela podia ouvir a água, mesmo na caixa de ferro, mesmo com a máscara de ferro e as correntes adornando-a como fitas de seda. O rugido; o interminável som de água correndo sobre pedra. Preenchia as lacunas entre seus gritos.
Um pedaço de ilha no coração de um rio coberto de névoa, pouco mais que uma laje lisa de rocha entre as corredeiras e as quedas. Foi onde a colocaram. Guardaram. Em um templo de pedra construído para algum deus esquecido.
Assim como ela provavelmente seria esquecida. Era melhor que a alternativa: ser lembrada por seu completo fracasso. Se houvesse alguém para se lembrar dela. Se restasse alguém no final.
Ela não permitiria isso. Esse fracasso.
Ela não lhes contaria o que desejavam saber. Não importa quantas vezes seus gritos se afogassem no rio caudaloso. Não importa quantas vezes o estalar de seus ossos partisse pelas corredeiras.
Ela tentou acompanhar os dias. Mas não sabia por quanto tempo eles a mantiveram naquela caixa de ferro. Quanto tempo forçaram seu sono, embalada até o esquecimento pela fumaça doce que verteram enquanto viajavam para cá. Para esta ilha, este templo da dor.
Ela não sabia a duração das lacunas entre seus gritos e seu despertar. Entre a dor terminando e começando de novo.
Dias, meses, anos — eles sangraram juntos, conforme seu próprio sangue muitas vezes escorria pelo chão de pedra e até o próprio rio.
Uma princesa que viveria mil anos. Mais do que isso.
Esse tinha sido seu presente. Agora era sua maldição.
Outra maldição para suportar, tão pesada quanto a que foi colocada sobre ela muito antes de seu nascimento. De se sacrificar para corrigir um erro antigo. De pagar a dívida de outra pessoa aos deuses que encontraram o mundo deles, ficaram presos nele. E então o governaram.
Ela não sentia a mão quente da deusa que a abençoara e a condenara com um poder tão terrível. Ela se perguntou se aquela deusa da luz e da chama sequer se importava que ela agora estivesse presa dentro da caixa de ferro — ou se a imortal tinha transferido suas atenções para outro. Para o rei que poderia se oferecer em seu lugar e entregar sua vida, poupar seu mundo.
Os deuses não se importavam com quem pagaria a dívida. Então ela sabia que eles não iriam buscá-la, salvá-la. Assim, ela não se incomodou em rezar para eles.
Mas ela ainda contava uma história a si mesma, às vezes ainda imaginava que o rio cantava para ela. Que a escuridão que vivia dentro do caixão selado também cantava para ela.
Era uma vez, em uma terra há muito queimada até as cinzas, uma jovem princesa que amava o seu reino...
Fundo ela mergulharia, profundamente naquela escuridão, dentro do mar de chamas. Tão fundo que quando o chicote descia, quando o osso se partia, ela às vezes não sentia.
Na maioria das vezes sim.
Era durante aquelas horas infinitas que ela fixava seu olhar em sua companhia.
Não o caçador da rainha, que conseguia tirar a dor como um músico dedilhando uma melodia de um instrumento. Mas o enorme lobo branco, acorrentado por grilhões invisíveis. Forçado a testemunhar.
Havia alguns dias em que ela não aguentava olhar para o lobo. Quando ela chegava tão perto, perto demais, de quebrar. E apenas a história a impedia disso.
Era uma vez, em uma terra há muito queimada até as cinzas, uma jovem princesa que amava o seu reino...
Palavras que ela dissera para um príncipe. Uma vez… há muito tempo.
Um príncipe de gelo e vento. Um príncipe que tinha sido dela, e ela, dele. Muito antes de o vínculo entre suas almas se tornar conhecido por eles.
Era sobre ele que a tarefa de proteger aquele reino outrora glorioso caía agora.
O príncipe cujo aroma era beijado por pinheiro e neve, o cheiro daquele reino que ela amava com seu coração de fogo.
Mesmo quando a rainha sombria presidia os cuidados do caçador, a princesa pensava nele. Segurava-se em sua memória como se fosse uma pedra no rio caudaloso.
A rainha sombra com sorriso de aranha tentou empunhá-lo contra ela. Nas teias de obsidiana que ela tecia, nas ilusões e nos sonhos que manipulava culminando em cada ponto de ruptura, a rainha tentava torcer a lembrança dele como uma chave em sua mente.
Elas estavam ficando borradas. As mentiras e verdades e memórias. O sono e a escuridão no caixão de ferro. Os dias presa ao altar de pedra no centro da sala, ou pendurada em um gancho no teto, ou esticada entre correntes ancoradas nas paredes de pedra. Tudo estava começando a borrar, como tinta na água.
Então, ela contava a história para si mesma. A escuridão e a chama profunda dentro dela também sussurravam, e ela cantou de volta para eles. Trancada naquele caixão escondido em uma ilha dentro do coração de um rio, a princesa recitou a história, repetidas vezes, e permitiu que eles soltassem uma eternidade de dor em seu corpo.
Era uma vez, em uma terra há muito queimada até as cinzas, uma jovem princesa que amava o seu reino...

11 comentários:

  1. Aaaaaah meu coração não vai aguentar meu povo !!!

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  2. Meu Deus que macumba é essa? Nem comecei o livro direito e já estou quase tendo um ataque do coração!

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  3. Alguém sabe um xingamento novo? Porque eu esgoto todos com a Maeve.

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  4. Tenho a sensação de que esse livro vai acabar comigo ...

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  5. Mal começou e eu já tô sofrendo

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  6. Mal comecei o livro e já estou chorando feito uma condenada!

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  7. Nao tenho certeza se a aelin ta morrendo mais q eu SCORRO

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  8. Nossa mal comecei a ler já tô emocionada minha série preferida.
    Calena.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!