13 de outubro de 2018

A lenda do herói Attallah e da princesa Hawa

ERA UMA VEZ, QUANDO O DESERTO AINDA ERA JOVEM... E a humanidade estava enfrentando a grande guerra contra a Destruidora de Mundos, um ferreiro teve um filho. O menino não tinha nada além do nome que seu pai lhe deu. Esse nome era Attallah.
Do outro lado do deserto, sob as mesmas estrelas, nasceu a filha de um sultão. Ela tinha tudo que poderia querer. Era tão rica que até seus olhos roubavam a cor das safiras na sala do tesouro de seu pai. Seu nome era Hawa.
As duas crianças, nascidas em lugares tão distantes, tinham fortunas muito diferentes, mas o mesmo destino. E no momento em que seus caminhos se cruzassem muitos anos depois, elas mudariam o mundo.
Quando cresceu, Attallah se tornou alto, forte e talentoso com a espada. Ele treinava diariamente com as armas do pai, e se não estava treinando, ajudava seu velho a perambular pelas montanhas centrais, coletando ferro para fabricar lâminas que defenderiam seu povo. A princesa Hawa se tornou uma jovem adorável e gentil. E mesmo antes de aprender a falar, todos já sabiam que ela possuía uma voz tão linda que, quando cantava, deixava todos ao redor dela tão encantados que não conseguiam fazer nada além de escutar. Alguns diziam que o próprio sol parecia parar para ouvir Hawa cantar.
Enquanto Attallah e Hawa cresciam, tão distantes um do outro, a guerra contra os monstros da Destruidora de Mundos também crescia. E não demorou para os monstros que caçavam a humanidade alcançarem as montanhas centrais, onde Attallah vivia com sua família.
O garoto estava longe de casa no dia em que chegaram, coletando ferro, já que seu pai estava velho e cansado demais para viajar tão longe. Então quando seu povo foi atacado pelos pesadelos às sombras da montanha, Attallah não estava por perto. Alguns dizem que Attallah poderia ter salvado todos se estivesse presente. Outros afirmam que ele também teria morrido, junto com o resto de seu povo. Mas uma coisa era certa: se Attallah não tivesse voltado para casa no dia seguinte e encontrado seu povo massacrado, não teria sacado sua espada e partido em direção a Izman para avisá-los sobre o exército de carniçais que se aproximava.
Naquele tempo tão distante, Izman não era a cidade que você conhece agora. Ela não tinha muitas casas e grandes muros, nem portões firmes e soldados para protegê-la contra carniçais invasores. Naquela época, Izman era uma cidade de tendas, um conjunto de muitas tribos que haviam se reunido. O pai da princesa Hawa era o primeiro sultão, o homem escolhido para proteger esse povo. Sua sabedoria e a força de seus homens eram tudo o que Izman e seus moradores tinham para se defender.
Os pesadelos saíram como um enxame da escuridão e avançaram em direção às tendas. Os homens ergueram tochas e armas contra eles, enquanto as mulheres se juntaram para rezar pedindo ajuda. Os homens lutaram com todas as forças que tinham, mas a noite parecia não ter fim — como se o sol nunca mais fosse nascer para salvá-los.
E os homens estavam perdendo a batalha.
Entre eles estava Attallah, que havia se juntado à luta após transmitir o aviso, e embora lutasse com bravura e habilidade ao lado do sultão, era apenas um homem.
Quando todos foram obrigados a bater em retirada, e os pesadelos continuavam a avançar, as mulheres se reuniram em volta da tenda do sultão, onde a princesa Hawa estava. Ela fez o melhor que pôde para confortá-las, e elas imploraram para que a garota cantasse, pois isso abrandaria o medo que sentiam. Então, no momento mais escuro da noite, Hawa começou a cantar. Foi quando algo surpreendente aconteceu. O sol nasceu sobre a tenda da princesa Hawa no meio da noite, só para ouvi-la cantar. Como vocês sabem, pesadelos não sobrevivem à luz. E embora fossem capazes de apagar as tochas dos homens, não podiam vencer o sol.
Alguns queimaram imediatamente, enquanto o resto se enterrou de volta na areia, fugindo amedrontados para a escuridão à espera de uma nova noite. Os homens recuaram, aproveitando o descanso da batalha graças à chegada antecipada da manhã. A maioria deles foi cuidar das feridas ou afiar as armas antes da próxima batalha que viria ao anoitecer. Mas não Attallah.
De tão encantado que ficou pela voz que ouvira, o jovem passou o dia percorrendo as tendas da cidade em busca de sua dona, certo de que seu coração pararia de bater caso não a encontrasse. Em suas caminhadas, Attallah se deparou com o óleo que as mulheres usavam para cozinhar. E assim teve uma ideia. Incapaz de encontrar a dona daquela voz, ele foi atrás do sultão, que reconheceu Attallah como um dos homens que haviam lutado com muita coragem ao seu lado, e o recebeu com alegria em sua tenda. O jovem guerreiro explicou o plano que havia concebido: eles espalhariam óleo na areia onde os pesadelos tinham se enterrado, e esperariam seu retorno ao cair da noite. Depois, incendiariam o óleo — assim, os pesadelos queimariam antes que pudessem cercá-los outra vez.
O plano impressionou o sultão, que logo começou a dar ordens aos servos para que o colocassem em ação na mesma hora, oferecendo a Attallah seus próprios aposentos para descansar, em agradecimento aos seus esforços. Foi o que ele fez, e nem passou por sua cabeça que a garota cuja voz despertara tanto amor em seu coração descansava na tenda ao lado.
Mas o sol não havia afugentado todos os monstros. E não foi apenas Attallah que se sentiu atraído pelo canto da princesa Hawa.
Um andarilho havia adentrado Izman, rastejando pelas sombras das numerosas tendas para se manter a salvo do sol, também em busca da garota cuja voz dissipou a escuridão. Quando finalmente encontrou a tenda de Hawa, o monstro aguardou escondido nas sombras do lado de fora até uma serviçal aparecer com uma bandeja de tâmaras para a princesa. O andarilho saltou rápido sobre a serviçal, devorando seu corpo e vestindo suas roupas. Depois, em sua pele roubada, ele rastejou para dentro da tenda, onde encontrou a jovem dormindo tranquila, exausta daquela noite. Enquanto dormia, o monstro se abaixou, ergueu suas pálpebras e arrancou seus olhos de safira. A princesa acordou de repente e, ao perceber que estava cega, começou a gritar desesperada.
Na tenda vizinha, Attallah ouviu os gritos de Hawa e foi correndo ajudá-la. Lá ele encontrou o andarilho prestes a comer os olhos da princesa. Attallah gritou para impedi-lo, dizendo ao monstro que pouparia sua vida se ele aceitasse seus próprios olhos em troca dos de Hawa. O andarilho concordou, pensando que quando Attallah estivesse cego poderia devorar os dois. O andarilho observou enquanto o jovem fingia arrancar os próprios olhos da cabeça. Mal sabia ele que Attallah segurava sementes de tâmara, e num truque rápido com as mãos, convenceu o andarilho de que oferecia seus próprios olhos escuros. O andarilho soltou os olhos de Hawa na palma estendida de Attallah, mas quando o atacou para devorá-lo, o herói abriu os olhos e o matou com um golpe de sua espada.
Attallah devolveu os olhos a Hawa assim que a criatura caiu morta. Quando a princesa recolocou os olhos no rosto, viu seu salvador pela primeira vez. No momento em que seus olhares se cruzaram, ela sentiu o coração parar. E então voltar a bater, mais rápido e urgente do que nunca.
Seu coração reconheceu no jovem a mesma coisa que ele havia reconhecido quando ouvira seu canto: que os dois, seus caminhos e suas vidas estavam destinados a se unir. Que ela o amava.
Mas isso foi há muito tempo, nos primórdios da humanidade, na época do idioma primordial. Não existia uma palavra para o amor. Não em um mundo onde as pessoas casavam e engravidavam apenas para garantir a sobrevivência da humanidade.
Então Hawa não entendeu o que seu coração sentia, só que doía. E teve medo de que a mera visão daquele homem fosse capaz de matá-la. Ela convocou os soldados de seu pai e pediu que expulsassem Attallah da cidade. O sultão quis saber o motivo, uma vez que aquele jovem valente havia salvado a princesa — e talvez até a cidade inteira — de um monstro.
Hawa descobriu que não sabia explicar. Mas precisava que ele partisse.
O amor de Attallah era tão grande que ele só conseguia fazer o que ela mandasse. Ele percebeu, pesaroso, que faria qualquer coisa que ela quisesse. Ele se mataria se essa fosse a vontade de Hawa.
Mas, antes de partir, Attallah pediu para o sultão ordenar ao povo que deixassem suas tendas afastadas umas das outras, para que suas sombras nunca se tocassem e não houvesse como um carniçal voltar a invadir Izman. Para que a princesa pudesse ficar segura sem ele.
O sultão acatou seu conselho, pedindo que todos movessem suas tendas para longe umas das outras. Enquanto sua própria tenda era movida pouco antes de anoitecer, Hawa viu Attallah partir em direção ao pôr do sol. E sentiu a vontade súbita de correr atrás dele.
Mas antes que pudesse, o sultão ordenou aos seus soldados que ateassem fogo ao óleo sobre a areia, e uma enorme barreira de chamas se ergueu entre os dois, queimando os pesadelos que rastejavam para fora da areia, e separando Hawa de Attallah.
E quando a alvorada chegou e as chamas finalmente morreram, o herói Attallah já havia desaparecido.
Dias se passaram. Depois semanas. Então meses. Por fim, um ano. E Hawa percebeu, desesperada, que a ausência de Attallah só fez seu coração doer ainda mais. Ela sentia como se morresse a cada anoitecer e, ainda assim, voltasse a acordar pela manhã.
O sultão temia por sua filha que já não sorria nem cantava. Ele enviou homens pelo país em busca de uma cura para a tristeza que a afligia. Eles não voltaram com uma cura. Mas muitos tinham notícias de Attallah e suas numerosas proezas. Ele havia matado, sozinho, uma centena de pesadelos que tentavam atravessar a ponte em Jalaz. Tinha domesticado um roc para lutar contra o monstro de asas escamosas que a Destruidora do Mundo usava como montaria. E estabelecera a paz entre duas tribos que disputavam o mesmo pedaço de terra onde pretendiam construir seu forte contra os carniçais.
E então chegaram notícias de outra cidade, onde mortais também haviam se reunido para combater os monstros, na tentativa de salvar um número maior de pessoas. Eles tinham tentado construir muros para se defender dos ataques dos carniçais, mas suas defesas eram derrubadas toda noite pelos monstros. Nem o grande herói Attallah foi capaz de ajudá-los. Para piorar, ao saber que ele estava presente, os carniçais começaram a cercar o lugar, ansiosos para destruir o homem que causava tanto estrago.
Ele havia amaldiçoado a si mesmo com suas conquistas. E, de acordo com as notícias, não duraria nem mais uma noite naquela cidade. Os monstros preparavam um novo ataque.
Ao saber disso, Hawa sentiu seu coração partir em mais de mil pedacinhos. E finalmente entendeu que não era a presença de Attallah que a mataria, mas sim sua ausência. Se ele morresse, a vida dela também acabaria.
A princesa Hawa não sabia o que fazer. Ela correu para longe de sua tenda e entrou no deserto, certa de que precisava chegar a Attallah antes da morte. De que poderia alcançá-lo mais rápido do que o pôr do sol.
Mas suas pernas logo falharam, enfraquecidas durante aquele ano terrível longe dele. Ela caiu de joelhos, incapaz de andar. Então se arrastou.
Mas logo já não tinha forças nem para isso. Hawa começou a chorar, certa de que morreria sem conseguir salvar seu amado.
Enquanto chorava amargamente sobre a areia, sua tristeza era tão grande que foi ouvida por todos à sua volta. E uma criatura imortal foi tocada pelo pesar da princesa.
Um buraqi, um cavalo feito de areia e vento, surgiu diante dela, dourado como o sol do meio-dia. Ele pegou a princesa e a ergueu sobre seu dorso. Rápido como o vento, ele a carregou pelo deserto, mais veloz do que qualquer mortal. Ele correu sem jamais tocar o chão, saltou sobre as montanhas centrais como se não fossem nada, carregando Hawa acima das nuvens. Ele a levou até a cidade onde Attallah enfrentava os carniçais.
Eles chegaram ao anoitecer e encontraram uma cidade tomada pelo caos. Nenhuma das artimanhas de Attallah fora capaz de manter os monstros à distância. Eles escalavam o muro com suas garras, e o jovem protegia o povo sozinho, usando apenas sua espada. A mesma que havia usado no dia em que perdera seu lar, agora desgastada depois de tantas batalhas. Hawa viu quando a lâmina se estilhaçou nos dentes de um carniçal.
O medo de perder seu herói devolveu a vida à princesa Hawa, e pela primeira vez desde a noite em que havia repelido os pesadelos, ela cantou. E como esperado, o sol nasceu sobre sua cabeça.
Hawa apressou o buraqi e os dois galoparam juntos rumo aos muros da cidade. O sol seguiu a princesa enquanto ela cavalgava, abrindo caminho até Attallah, afastando todos os carniçais. Assim que o alcançou, ele abandonou a espada quebrada e pegou uma nova arma para proteger a princesa.
Hawa e Attallah ficaram diante dos muros destruídos — ela manteve o sol brilhando durante a noite inteira, e ele permaneceu ao seu lado. Ao redor deles, as pessoas da cidade consertaram os estragos que os monstros tinham feito o mais rápido que puderam. E quando a manhã de fato chegou, a princesa libertou o sol e desabou nos braços de Attallah.
Enquanto o povo reconstruía o muro, Attallah carregou Hawa para sua tenda. E ainda que estivesse quase sem voz por ter cantado com tanto afinco, a jovem sussurrou para ele que tinha errado ao bani-lo e se arrependia. E que agora temia que ele a afastasse por mágoa. Ela disse que tinha vindo porque ele nascera sem nada e ela tinha tudo — mas entregaria a ele tudo o que tinha e tudo o que era, se Attallah não a mandasse embora.
Attallah não a mandou embora. Em vez disso, o jovem contou que todos os seus feitos — da luta contra os pesadelos na ponte em Jalaz a domar o roc para lutar no céu — foram por ela. Tudo o que ele fez foi apenas para tornar o deserto mais seguro para Hawa, porque ele também sentia que sua vida acabaria se ela morresse. E tudo isso foi feito com a esperança de que, se um dia a princesa quisesse procurá-lo, saberia aonde ir ao ouvir as notícias de suas proezas. Attallah queria dividir sua vida com ela, e se ela também quisesse, assim seria até o dia de suas mortes.
Hawa chorou aliviada e os dois se abraçaram. Quando Attallah pediu para a princesa ficar com ele, ela respondeu, com o último fiapo de voz, que ficaria.
E ficou.
Eles ficaram juntos até a noite cair. E quando os carniçais voltaram, Hawa cantou outra vez. Cantou tanto que os muros puderam ser erguidos mesmo na escuridão, sem a praga dos monstros os destruindo. E quando a manhã chegou, ela desmaiou de exaustão.
E assim se seguiu: a princesa cantou por cem noites enquanto os muros da grande cidade eram construídos — muros como nunca se vira no deserto. Uma muralha intransponível, fosse por homem ou carniçal. Uma muralha que resistiria enquanto o deserto resistisse.
Attallah e Hawa estavam enfim seguros, e pela primeira vez em suas vidas os jovens ousaram ter esperança de que o destino lhes reservava algo além da morte. Uma vida juntos. Então eles casaram.
Mas os carniçais encararam a grande muralha da cidade como um desafio a ser vencido, e se reuniram em número ainda maior para atacar Attallah e Hawa, deixando os amantes presos atrás dos muros impenetráveis que tinham ajudado a construir. Mas não demorou para o sultão descobrir que um exército de monstros pretendia matar a princesa, e enviar seus homens para ajudar sua filha e o marido.
A batalha durou cem noites.
Hawa já estava quase sem voz, então não poderia mais chamar o sol para ajudar seu amor. Só podia assistir. Dos muros, ela assistia seu marido partir ao anoitecer e voltar pela manhã, arranhado, ensanguentado e cansado. Mas vivo. Ainda vivo.
Os soldados e os civis da cidade viam a cena e sussurravam entre si que o amor de Hawa protegia Attallah. Que enquanto ela o observasse, nem ele nem o exército falhariam.
Hawa o assistiu por cem noites. E o exército lutou. E continuou a matar os carniçais. Embora parecesse que, para cada monstro que caía, dois outros surgiam.
E então, na centésima primeira noite, uma flecha errante acertou em cheio o coração da princesa Hawa.
Hawa pensava que, se Attallah morresse, seu coração se despedaçaria de forma irreparável, e ela também partiria. Mas ao ver seu amor cair da muralha, foi o coração do guerreiro que se partiu, e ele morreu com a espada em punho.
O exército ficou sem líder, e os carniçais se prepararam para vencê-lo. Mas enquanto o corpo de Hawa caía, disseram que o sol nasceu não do céu, mas do coração da própria princesa. Brilhando mais do que nunca. E ela caiu como uma estrela cadente, tão brilhante que nenhum carniçal teve tempo de fugir.
Eles simplesmente queimaram diante de sua luz, e quando seu corpo atingiu a areia, o campo de batalha não passava de cinzas.
A cidade ficou de luto. Eles lamentaram a perda de seu herói e de sua princesa. O sultão apareceu e chorou sobre o corpo caído da filha, que descansava ao lado do marido.
Eles deram à cidade o nome de Saramotai em honra à princesa. E ficaram de luto por cem dias após suas cinzas serem soltas ao vento de cima da muralha.
Mas fora uma tremenda vitória. Disseram que aquele foi o dia em que mais carniçais da Destruidora de Mundos foram mortos desde o começo da guerra. Em apenas uma noite, milhares deles pereceram, reduzindo e assustando os batalhões da Destruidora de Mundos. Alguns de seus monstros até fugiram para se esconder no deserto, passando a temer a luta contra os mortais. E nenhum carniçal voltou a assombrar Saramotai.
A morte de Hawa e Attallah acabou salvando muitas vidas. O mundo mudou. Pela primeira vez, homens caçavam monstros e não o contrário. E, ainda hoje, as muralhas de Saramotai permanecem de pé.

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