13 de outubro de 2018

A garota do mar

ELA NASCEU NO CONVÉS DE UM NAVIO, sonhando com a terra firme.
Sua família pertencia ao mar. Eles iam aonde quer que o vento os levasse. Diziam que se alguém os cortasse, sangrariam água salgada. Mas a filha mais nova era diferente. Quando criança, espalhava seda verde pelo chão e fingia que era grama. Subia o mais alto possível no navio para procurar terra firme, o próximo porto, e depois que partiam contava os dias que faltavam para voltar a sentir o chão sólido sob os pés. A garota se imaginava dormindo em uma cama que não balançasse ao capricho do mar, acordando toda manhã com o mesmo horizonte. E jurava infinitas vezes que um dia, quando aportassem, correria até não conseguir mais ver água nenhuma. Ela encontraria um marido com quem cultivaria campos a perder de vista e criaria filhos que correriam livres, sem ser interrompidos pela balaustrada de um navio.
Em um dia de pouco vento, ela estava no alto das velas quando avistou o navio que a levaria de vez para terra firme. Ele era três vezes maior que o navio de sua família, e tinha muito mais armas. Mesmo assim, ela não se deu conta de que deveria ter medo até o grande navio estar logo ao lado, fazendo sombra, enquanto cordas se esticavam como tentáculos em direção à pequena embarcação.
Mas aí era tarde demais. As tábuas do navio da garota ficaram encharcadas de vermelho. Enquanto era arrastada para longe aos berros, viu que, no fim das contas, sua família não sangrava água salgada. Ela gritou até não poder mais, até a voz sumir e a visão escurecer.
Quando acordou, estava sem equilíbrio. E percebeu que era porque o chão não se movia — ela estava em terra firme. Onde por tanto tempo desejou estar. Mas agora ela queria qualquer coisa menos isso. A garota não precisava falar a língua deles para saber o que aconteceria em seguida. Ela já tinha visto homens examinando os tecidos de seu pai da mesma forma que aqueles homens a examinavam. Ela viu dinheiro passando de uma mão para outra, e foi passada adiante também. Em todos os seus sonhos com a terra firme, a garota sempre conseguia ver o horizonte. Mas o lugar para onde foi levada só tinha paredes. A garota assistia o sol cruzando o céu lá fora, sem nunca conseguir enxergar onde nascia ou se punha. Nesse reino de paredes e sem horizontes, ela estava cercada por garotas vestidas tão exuberantes como pássaros, e conversavam o dia todo em idiomas que ela não conhecia. Nenhuma parecia se dar conta de que estavam presas. Ela nunca conversava com ninguém, mas as observava. Ela assistia quando alguma jovem era levada para longe e depois trazida de volta, sabendo o que tinha sido feito com ela. E a garota decidiu que não seria levada. Ela partiria por conta própria.
Ela encontrou um lugar no reino onde a parede não era lisa, mas tinha buracos onde poderia enfiar os dedos e lugares ásperos para firmar os pés. Ela começou a escalar, como tinha escalado mastros e cordames, em busca do horizonte. De uma fuga.
Quando estava na metade do caminho até o topo, ouviu um barulho. Ao olhar para baixo, percebeu que não estava sozinha. Soldados tinham entrado no jardim e estavam cada vez mais perto da parede que ela escalava. Os homens já teriam chegado até a garota, mas ela notou que uma jovem que parecia ter vindo do deserto estava caída no chão. Ela estava esparramada na frente do portão, como se bloqueasse o caminho deles deliberadamente. Dando tempo para a garota do mar escapar. A garota do mar se sentiu grata à garota do deserto, e se esforçou para subir mais rápido. Ela tentou chegar ao topo antes que pudessem passar por cima de sua cúmplice. Mas na sua pressa, a mão escorregou, e ela caiu. E eles a capturaram. E a levaram embora, como tinham feito com as outras garotas.
Finalmente, a garota do mar encontrou o governante do reino de paredes. E o governante do deserto que ficava além dessas paredes. Um homem que mais parecia um garoto. Exceto pelos seus olhos, que carregavam o peso de séculos. Aqueles olhos não desgrudaram dela nem por um segundo. Ela continuou sentindo aquele olhar em suas costas mesmo depois de ele terminar e mandá-la de volta.


A garota passou dias olhando por cima do ombro. Depois de ser devolvida ao reino das paredes, não demorou muito para a garota do mar ser encontrada pela garota do deserto. Ela sentou do lado da garota do mar. Ela não disse nada. As duas apenas ficaram olhando fixamente para o oeste juntas. Enfim, a garota do deserto ofereceu seu nome. Nadira. E a garota do mar ofereceu o seu. Lien. Depois disso, elas nunca mais se separaram.
Trocaram palavras em suas próprias línguas até conseguirem se entender em ambas. Não demorou muito para as duas perceberem que estavam grávidas. A garota do mar teve raiva quando se deu conta disso. Ela odiava a criança que havia sido imposta a ela. Odiava porque ela pertencia ao homem que a aprisionara. O governante de seu reino de paredes.
A garota do mar e a do deserto deram à luz sob o mesmo céu. E quando isso aconteceu, Lien jurou para todas as estrelas que odiaria essa criança, que a rejeitaria. Que se livraria dela e nunca mais a veria de novo. Mas assim que ouviu o choro de seu filho, quebrou essa promessa. Ela queria dizer ao bebê que esse mundo também a fazia chorar. Ela estendeu as mãos para a criança, e quando a segurou no colo, sabia que não conseguiria odiá-la. Aquele bebê não se parecia em nada com o homem que a engravidara. Ele se parecia com sua família — a que fora tirada dela. Aquela criança era uma nova família.
As duas garotas estavam deitadas lado a lado, maravilhadas com seus filhos, quando o governante chegou. Ele não falou com elas, tinha vindo apenas para ver os filhos. As garotas seguraram mais forte os bebês, e Lien jurou que mataria aquele homem se ele tentasse tirar o menino de seus braços. Mas ele simplesmente foi embora.
Depois que partiu, um serviçal voltou e informou a elas os nomes que o governante tinha escolhido para seus filhos. A garota do mar decidiu que não chamaria seu filho pelo nome que tinha sido dado a ele por outra pessoa. O menino não pertencia ao governante, ela não permitiria isso. Ele pertencia a ela. Então ela fragmentou o nome, desobedecendo completamente o governante, e encontrou o nome de seu pai no meio. Ela o chamaria de Jin, e nada mais.
Os dois príncipes foram criados juntos, ouvindo histórias de suas mães sobre o mundo além das muralhas. Uma vez, Lien fez um barco de sabão para seu filho pequeno. Ela o esculpiu com as próprias unhas, e o colocou para flutuar nas águas dos banhos, enquanto contava sobre suas origens. Em algum momento, o barco de sabão se dissolveu na água. Por um tempo, a garota do mar conseguiu se convencer de que aquilo era o que ela queria. Terra firme, com espaço para sua criança correr. Mas ela sabia que conforme crescessem, eles não esbarrariam na balaustrada de um navio, como ela, mas sim nas paredes que os cercavam.
Até o dia em que Nadira contou a Lien seu segredo. Ela estava grávida novamente. E esse não pertencia ao governante, mas a uma divindade. E ela seria morta se isso fosse descoberto. Lien se sentiu partida ao meio. Uma parte dela odiava a irmã por se expor a tamanho risco. De ser tão egoísta a ponto de arriscar perder tudo. O outro lado era grato por Nadira arrancar Lien da apatia em que vivia. Da submissão de morar em um reino feito por outra pessoa. Nadira deu a ela um motivo para escalar as paredes outra vez. E então elas começaram a planejar. Preparar. Buscar uma forma de fugir das paredes. Finalmente, quando a barriga de Nadira estava ficando grande, elas estavam prontas para escapar. Elas levantaram em uma alvorada, sabendo que seria a última que assistiriam atrás daquelas paredes. Elas partiriam quando escurecesse. Cruzariam aquelas paredes ou morreriam tentando. Só que conforme a manhã avançava, a segunda criança de Nadira decidiu vir ao mundo. Nadira tentou esconder, rezou para sua criança adiar sua chegada apenas algumas horas. Mas logo os serviçais notaram, e o governante foi informado.
Nadira se viu deitada entre eles, com Lien segurando sua mão, dando à luz a criança que queriam fugir para salvar. Como esperado, assim que a criança nasceu, ficou claro que ela não era filha de um mortal. Antes que qualquer um pudesse dizer algo, o governante estava lá, encarando o bebê que revelava a traição de Nadira. O governante apenas ordenou que ela fosse levada a julgamento diante dele. Nadira foi arrastada para longe do aposento e de seu bebê que gritava. Manteve a cabeça erguida enquanto arrancavam sua mão da de Lien e a conduziam para a morte. E pela primeira vez desde o dia em que se apresentaram uma à outra, Lien se viu sozinha. E mais uma vez ela se sentiu partida ao meio.
Só que agora era seu luto em conflito com sua determinação. Ela não deixaria aquela criança morrer. Não permitiria que a morte de Nadira fosse em vão. Ela pegou a criança da parteira, prometendo acalmá-la. E como a mulher não podia negar o desejo de uma esposa do sultão, entregou a criança.
Embalando a pequenina, Lien caminhou até sair da vista de todos. E então correu. Ela acordou os outros dois meninos, que estenderam os braços para que ela os pegasse no colo. Mas ela disse que não poderia carregá-los. Eles teriam que caminhar. Precisavam ajudá-la.
E foi o que fizeram. Eles seguiram Lien até o portão protegido pelo soldado que tinham chantageado. Seguiram até o serviçal com quem tinham feito amizade, que logo os ajudou a vestir roupas escuras com capuzes para cobrir o rosto. Seguiram até subirem na carroça de um mercador que tinham subornado. E, enfim, até o convés de um navio, que os levaria para bem longe.
E pela primeira vez desde o fatídico dia em que sua família foi morta, Lien estava de pé no convés de um navio, e observou o sol nascer sem paredes para esconder o horizonte. Ela o observou se erguer sobre o mar, e tentou lembrar por que um dia desejou tanto viver em terra firme.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!