3 de setembro de 2018

Prólogo

Trinta e cinco anos antes

O monstro negro como piche se aproximou do garotinho com seus dedos longos e terríveis, pressionando-o contra a cama, sufocando-o. Ele fazia isso todas as noites. E todas as noites o garoto morria de medo.
— Não — ele sussurrava. — Não é um monstro, é só a escuridão. É só a escuridão!
Ele não era mais um bebê com medo do escuro. Tinha quase oito anos e jurou pela deusa que daquela vez não chamaria a mãe aos berros.
Mas a decisão durou apenas alguns minutos, até que não conseguiu mais conter o medo.
— Mãe! — gritou. E, como sempre, ela foi até o menino imediatamente e sentou na beirada da cama.
— Meu querido. — A mãe o abraçou, e, apertando-a com força e se sentindo fraco e tolo, o garoto soluçou junto ao ombro dela. — Está tudo bem. Estou aqui agora.
A luz se expandiu quando ela acendeu a vela ao lado da cama do filho. Embora seu belo rosto estivesse encoberto por sombras, o menino enxergava raiva em sua expressão, mas dava para ver que não era dirigida a ele.
— Eu já disse várias vezes para sempre deixarem uma vela acesa no seu quarto à noite.
— A brisa deve ter apagado — ele justificou, não querendo causar problemas a nenhuma de suas amas-secas.
— Talvez. — A mãe passou a mão no rosto dele. — Está se sentindo melhor?
Com luz e a mãe a seu lado, ele se sentia ridículo.
— Sinto muito. Eu devia ter sido mais corajoso.
— Muitos temem o escuro, e por bons motivos — ela disse. — Você não é o único que vê um monstro terrível nele. Mas o único jeito de derrotar o mostro é... Qual?
— Ficando amigo dele.
— Isso mesmo. — Ela gesticulou para a lamparina na parede, acendendo-a com sua magia do fogo. O menino a observou com admiração, como sempre fazia quando ela utilizava os elementia. Ela ficou surpresa com sua reação. — Você não acha que eu sou um monstro, acha?
— É claro que não — ele respondeu, balançando a cabeça. Sua mãe era uma bruxa, um segredo que havia compartilhado apenas com o filho. Dissera que algumas pessoas tinham medo de bruxas e as consideravam perversas, mas estavam erradas. — Conte a história de novo — o menino pediu.
— Qual delas?
— A história da Tétrade. — Era sua história preferida e sempre o ajudava a pegar no sono em noites agitadas.
— Muito bem. — Ela sorriu ao segurar a pequena mão do filho. — Era uma vez quatro esferas de cristal guardadas cuidadosamente pelos imortais. Cada esfera continha pura magia elementar, a magia que torna a vida possível. Dizia-se que a magia podia ser vista girando em espiral, sem parar, em seu interior, e que era possível sentir o poder ao segurá-las nas mãos. Na esfera de âmbar, ficava a magia do fogo. Na de água-marinha, a magia da água. Na de selenita, a magia do ar. E na esfera mais escura, de obsidiana, ficava a magia da terra. Quando as deusas imortais Valoria e Cleiona fugiram dos inimigos de seu mundo e vieram para o nosso, trouxeram duas esferas cada uma, que lhes davam poderes incríveis. Quais eram os poderes que Valoria possuía e protegia, meu querido?
— Terra e Água.
— E Cleiona?
— Fogo e Ar.
— Isso. Mas logo as deusas não estavam mais satisfeitas em possuir apenas metade dos elementia cada uma. Ambas queriam mais, para poder dominar o mundo sem ninguém para atrapalhar. — Sempre que contava essas histórias, sua mãe ficava com um olhar sonhador e distante. — Infelizmente, o desejo de poder transformou essas duas imortais, antes irmãs, em piores inimigas. Elas lutaram uma contra a outra em uma guerra terrível. No fim, nenhuma saiu vitoriosa. Ambas foram destruídas, e os cristais se perderam. Desde então, a magia vem desaparecendo do mundo, e vai continuar a desaparecer até alguém encontrar os cristais novamente e libertar seu poder. Uma profecia ancestral diz que um dia nascerá uma criança mortal com o poder de uma feiticeira, que será capaz de controlar todos os quatro elementos com uma força jamais vista em mil anos.
De jeito nenhum uma bruxa como sua mãe poderia fazer isso. Ela tinha alguma habilidade com a magia do fogo, suficiente para acender velas, e um pouco de magia da terra, que a ajudava a curar cortes e arranhões, mas só.
— Essa criança será a chave para encontrar a Tétrade e libertar a magia contida nela. — Ela corou de empolgação. — Mas, é claro, muitos acreditam que não passa de uma lenda.
— Mas você acredita que é real.
— Com toda a minha alma e coração. — Ela apertou a mão dele. — E também acredito que você vai encontrar essa criança mágica e importante e vai reivindicar o tesouro para si. Eu soube no instante em que você nasceu.
Ele se sentia muito especial sempre que a mãe lhe contava essa história, mas não demorou muito para a dúvida se instaurar e aquela sensação se esvair.
Como se percebesse a incerteza, ela segurou o rosto do garoto e olhou no fundo de seus olhos.
— Você não terá medo do escuro para sempre. Um dia será forte e corajoso. Vai crescer cada vez mais por muitos anos. A escuridão não vai te assustar. Nada vai. E sem o medo para contê-lo, tomará seu lugar no trono e cumprirá seu destino.
— Como meu pai?
O rosto dela se encheu de sombras.
— Não. Você será muito mais forte do que ele jamais poderia ser.
A visão que a mãe tinha do garoto parecia tão incrível que ele queria que se concretizasse no mesmo instante.
— Quando vou mudar?
Ela deu um beijo em sua testa.
— As mudanças mais importantes levam tempo e exigem paciência. Mas tenho fé em você, mais do que em qualquer um no mundo. Você está destinado à grandeza, Gaius Damora. E juro que a grandeza será sua, não importa o que eu tenha que fazer para garantir isso.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!