23 de setembro de 2018

Prólogo

Cem anos antes

Era seu sonho favorito.
A adaga dourada estava diante de Valia, sobre uma almofada de veludo. Bela. Poderosa. Fatal. Ela a pegou e sentiu o cabo dourado frio como gelo junto à pele. Pensar na magia negra de sangue contida nela, contida apenas pelos símbolos dos elementia gravados na superfície da lâmina, provocava-lhe um arrepio na espinha.
Aquela arma continha magia que podia ser utilizada para moldar o mundo como ela quisesse. Sem conflito, sem disputa, sem dor. Suas decisões, seu reino… — tudo.
Com aquela lâmina nas mãos, todos a idolatrariam e a amariam.
Sim, era seu sonho favorito — uma pedra preciosa brilhando em uma caverna profunda e escura de pesadelos. E ela se permitiu desfrutar cada momento.
Pelo menos até Timotheus decidir interromper.
O imortal levou a mente inconsciente de Valia para um campo de grama verde e flores silvestres — uma mudança brusca em relação ao gelo e à neve ao redor de seu pequeno chalé isolado nas montanhas ao norte de Limeros. No sonho, ela podia sentir o cheiro doce de pólen e o calor do sol na pele.
Ela encarou os olhos dourados de Timotheus. Ele tinha mais de mil anos, mas conservava o rosto e o corpo de um belo homem de vinte e poucos. Tinha a mesma aparência desde seu surgimento, criado a partir dos próprios elementos, um dos primeiros seis imortais cuja missão era proteger a Tétrade e vigiar o mundo dos mortais.
Vê-lo a deixava igualmente irritada e apavorada.
— O fim está chegando — Timotheus disse.
As palavras dele suscitaram um arrepio no meio da espinha de Valia.
— Quando? — ela perguntou com o máximo de calma que conseguiu. Timotheus estava a apenas dois passos dela no campo de flores coloridas.
— Não sei ao certo — ele respondeu. — Pode ser amanhã. Pode ser daqui a algumas décadas.
A irritação se sobrepôs ao pavor.
— Sua cronologia não é nada confiável. Por que está me perturbando com essa bobagem? Não me importa o que vai acontecer nem quando.
Ele franziu os lábios, analisando-a com cuidado antes de responder.
— Porque sei que você se importa. Que sempre se importou.
O imortal a conhecia muito melhor do que ela gostaria.
— Você está errado, Timotheus. Como sempre.
Ele balançou a cabeça.
— Mentir nunca foi sua melhor habilidade, minha velha amiga.
O maxilar de Valia ficou tenso.
— Eu estava tendo um sonho maravilhoso antes de ser interrompida por você. Diga logo o que veio dizer, pois eu gostaria de voltar a ele.
Ele franziu a testa enquanto a estudava. Sempre analisando, sempre observando. O imortal era irritante. Mais do que os outros.
— As linhas cada vez mais profundas em seu rosto a levaram a alguma epifania sobre a vida? — ele perguntou.
Valia se ofendeu com a menção à sua juventude perdida. Ela tinha quebrado o último espelho em seu chalé no dia anterior, odiando a mulher envelhecida que ele refletira.
— Sua tendência a falar por meio de enigmas nunca foi sua característica mais cativante, Timotheus.
— E a falta de empatia nunca foi a sua.
Ela deu uma risada fria e irritadiça como um metal atingindo o chão congelado.
— Você me culpa por isso?
Ele arqueou uma sobrancelha enquanto caminhava vagarosamente em círculos ao redor dela. Em vez de acompanhar seus movimentos, ela se concentrou em observar um aglomerado de margaridas amarelas à sua esquerda.
— Você tem outro nome agora — ele disse. — Valia.
Ela ficou tensa.
— Sim.
— Um nome novo não muda nada.
— Eu discordo.
— Eu devia ter visitado seus sonhos anos atrás. Peço desculpas pela minha negligência. — O olhar dele foi parar na mão esquerda dela. — Acredito que isso a perturbe mais do que as rugas em seu rosto.
O rosto dela ficou quente diante daquela observação indelicada, e ela enfiou a mão estranhamente deformada dentro do bolso do manto.
— Uma leve magia do ar pode fazer maravilhas para ocultar isso durante o dia.
— De quem ainda se esconde? Você escolheu uma vida de solidão.
— Isso mesmo — Valia sibilou. — A vida é minha, a escolha é minha. E nada disso é da sua conta. E o que importa? Se o fim está próximo, como você diz, amanhã ou daqui a um século, que seja. Que o mundo acabe. Ele todo! Agora vá embora. Meus sonhos são privados. Minha vida é privada, e gosto dela assim.
A voz vacilou no final, e Valia torceu para que ele não tivesse notado.
— Trouxe um presente para você — ele disse depois de um longo momento de silêncio. — Uma coisa que achei que pudesse querer.
Timotheus segurava um fragmento achatado e irregular de rocha preta e brilhante.
Valia observou o objeto, em choque. Era a Adaga Obsidiana — uma arma mágica ancestral de possibilidades de uso ilimitadas.
— Você sabe o tipo de magia que isso lhe possibilitaria exercer — ele disse. — E como pode ajudar.
Sem fôlego, ela só conseguiu assentir com a cabeça.
Valia tentou pegá-la, primeiro com a mão amaldiçoada e depois com a boa. Tinha medo de tocá-la, de ceder à esperança que aquilo lhe dava depois de tantos anos de um desespero crescente.
Então veio a hesitação.
— O que você quer em troca? — ela perguntou em voz baixa.
— Um favor — Timotheus respondeu. — Que você vai fazer sem exigir explicações quando chegar o dia.
Ela franziu a testa.
— Se o fim está chegando, você tem um plano? Já contou aos outros? E Melenia? Sei que ela pode ser terrivelmente vaidosa e egoísta, mas também é poderosa, esperta e implacável.
— Ela é. Todo dia ela me faz lembrar de uma outra pessoa. Alguém perdido para nós há muitos anos.
Valia se concentrou nas margaridas de novo, não querendo encarar os olhos inquisidores do imortal.
— Melenia é mais útil para você do que eu jamais serei.
Quando ela se obrigou a olhar para Timotheus, não encontrou respostas em seus olhos dourado-escuros.
— Um favor — ele repetiu. — Aceita ou não?
Sua necessidade de respostas imediatas diminuiu quando uma ganância familiar surgiu dentro dela, forte demais para ser deixada de lado. Ela precisava daquele presente, precisava dele para fortalecer sua magia, que estava desaparecendo, e recuperar a juventude e a beleza. Para ajudá-la a controlar o que ainda podia na existência que parecia incontrolável.
A Adaga Obsidiana tinha apenas uma fração do poder da adaga dourada com que Valia sonhava e que desejava mais do que tudo. Mas ela sabia que precisava daquilo. Desesperadamente.
Talvez o passado não importasse mais.
Apenas a magia importava. Apenas a sobrevivência importava.
Apenas o poder importava, não interessava como ela o conseguiria.
Finalmente, Valia pegou a Adaga Obsidiana das mãos de Timotheus. Sentir o peso dela foi um grande conforto depois de tantos anos de dor e luta.
— Sim, Timotheus — ela disse sem hesitar. — Eu aceito.
Ele assentiu.
— Sou grato a você. Sempre.
Em seguida, o imortal e o mundo de sonho para o qual ele a havia trazido viraram escuridão.
Quando Valia acordou, deitada em seu pequeno chalé com o fogo da lareira reduzido a brasas incandescentes, o cabo irregular da lâmina ainda estava em sua mão.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!