16 de setembro de 2018

Prólogo

Dezessete anos antes

Depois de ler a mensagem, Gaius amassou o pergaminho e caiu de joelhos.
Uma confusão de pensamentos e lembranças dominava sua mente. Tantas escolhas. Tantas perdas. Tantos arrependimentos.
Ele não sabia quanto tempo levara para o som reverberante de passos tirá-lo de seu devaneio doloroso. A mãozinha de seu filho de dois anos, Magnus, tocou seu braço. Sua esposa, Althea, estava do outro lado do quarto, bloqueando a luz da janela.
— Papai?
Com a vista embaçada, Gaius olhou para Magnus. Em vez de responder, ele puxou o pequeno corpo do garoto para perto e tentou se consolar no abraço do filho.
— O que estava escrito naquela mensagem para chateá-lo tanto? — Althea perguntou com frieza, olhando para Gaius com ar de superioridade.
A garganta dele ficou apertada, como se lutasse para falar a verdade.
Finalmente, ele se afastou do filho e olhou para a esposa.
— Ela está morta — disse Gaius, com palavras secas e frágeis como folhas secas.
— Quem está morta?
Ele não queria responder. Não queria falar com a esposa naquele momento, principalmente sobre aquele assunto.
— Papai? — Magnus chamou de novo, confuso, e Gaius encarou os olhos brilhantes do filho. — Por que está tão triste, papai?
Ele envolveu o rosto da criança com suas mãos.
— Está tudo bem — ele garantiu ao menino. — Está tudo bem, meu filho.
Althea rangeu os dentes, com um olhar desprovido de bondade.
— Recomponha-se para que nenhum criado o veja desse jeito, Gaius.
E se algum visse?, ele pensou. Althea sempre se preocupava demais com aparências e opiniões alheias, não importava de quem. O apreço de Gaius pela atenção aos detalhes e pela compostura majestosa da esposa com frequência se sobressaía à apatia generalizada que sentia por ela, mas, naquele momento, só conseguia odiá-la.
— Leve Magnus — ele disse, levantando-se e encarando a mulher com severidade. — E mande chamar minha mãe. Preciso vê-la imediatamente.
Ela franziu a testa.
— Mas, Gaius…
— Agora — ele gritou.
Com um suspiro impaciente, Althea pegou Magnus pela mão e o tirou do quarto.
Gaius começou a andar de um lado para o outro, da pesada porta de carvalho com a doutrina limeriana “força, fé, e sabedoria” entalhada na superfície até as janelas com vista para o Mar Prateado. Finalmente, ele parou e olhou em silêncio para as águas frias que batiam nos penhascos logo abaixo da janela do palácio.
Não demorou muito para a porta se abrir, e ele se virou para encarar sua mãe. A expressão de sofrimento em seu rosto deixava as sobrancelhas franzidas. Linhas finas abriam-se ao redor de seus olhos acinzentados.
— Meu querido — Selia Damora disse. — O que aconteceu?
Ele mostrou o pergaminho amassado. Sua mãe se aproximou, pegou a correspondência da mão dele e passou os olhos pela curta mensagem.
— Entendo — ela disse, com uma expressão fechada.
— Queime isso.
— Muito bem. — Usando magia do fogo, ela incendiou o pergaminho. Gaius observou a mensagem se transformar em cinzas e cair no chão.
— Como posso ajudar? — ela perguntou com um tom de voz calmo e suave.
— A senhora me ofereceu uma coisa uma vez, uma coisa poderosa… — ele respondeu, agarrando o tecido da camisa sobre o peito. — A senhora disse que poderia remover essa maldita fraqueza de mim de uma vez por todas. Para me ajudar a esquecer… ela.
O olhar solene de Selia encontrou o dele.
— Ela morreu dando à luz uma filha de outro homem. Um homem que ela escolheu bem depois que vocês se distanciaram. Estou surpresa que você não tenha conseguido superar tudo isso.
— Mesmo assim, não consigo. — Ele não ia implorar. Não se humilharia daquela forma diante da mulher mais forte e mais poderosa que conhecia. — Vai me ajudar ou não? É uma pergunta simples, mãe.
Selia cerrou os lábios.
— Não, não é nada simples. Toda magia tem um preço, principalmente esse tipo de magia negra.
— Não importa. Eu pago qualquer preço. Quero ser forte diante de qualquer desafio que se apresentar. Quero ser tão forte quanto a senhora sempre acreditou que eu poderia ser.
Sua mãe ficou em silêncio por um instante. Ela se virou na direção das janelas.
— Tem certeza absoluta? — ela perguntou.
— Sim. — A palavra saiu como o sibilo de uma cobra.
Ela assentiu e saiu do quarto para pegar o que Gaius havia pedido — ou melhor, implorado. Ao voltar, segurava o mesmo frasco de poção que havia lhe oferecido anos atrás — uma poção, ela dissera, que tornaria forte tanto seu corpo quanto sua mente. Eliminaria sua fraqueza. Afiaria seu foco e o ajudaria a obter tudo o que sempre quis.
E, o mais importante, a poção também o ajudaria a deixar seu amor por Elena Corso definitivamente onde deveria ficar: no passado.
Ele pegou o recipiente que a mãe segurava e encarou o frasco de vidro azul. Para um objeto tão pequeno, parecia incrivelmente pesado em sua mão.
— Você precisa ter certeza — Selia lhe disse com seriedade. — Os efeitos dessa poção o acompanharão até o dia de sua morte. Assim que tomá-la, nunca mais vai se sentir como se sente agora. A mudança será irrevogável.
— Sim — ele assentiu, rangendo os dentes. — Uma mudança para melhor.
Ele abriu o frasco, levou-o aos lábios e, antes que se permitisse duvidar, bebeu o líquido denso e morno em um só gole.
— A dor vai durar apenas um instante — Selia explicou.
Ele franziu a testa.
— Dor?
E lá estava: uma queimação repentina, como se ele tivesse engolido lava derretida. A magia negra fluiu por seu corpo, queimando tudo o que havia de fraco e desprezível. Ele ouviu os próprios gritos de angústia quando o frasco caiu de sua mão e se partiu no chão de pedra.
Gaius Damora tentou aceitar cada momento de agonia enquanto suas fraquezas remanescentes eram queimadas, suas lembranças de Elena transformavam-se em brasas, e o desejo pelo poder supremo crescia dentro dele como uma fênix renascendo das cinzas.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!