1 de setembro de 2018

Prólogo

O jovem acordou cercado de fogo e caos.
Ouvia-se o choque de espadas em uma batalha violenta à sombra das montanhas. Os gritos agudos dos moribundos atravessavam a brisa fria da manhã. Ele podia sentir o odor acre de medo e ódio daqueles que lutavam pela própria vida. Sentiu o amargor metálico do sangue que era absorvido pelo solo.
Foi o gosto do sangue que o acordou.
Ele pressionou as mãos contra a terra seca, onde labaredas lambiam sua pele descoberta, e tentou se levantar. Não conseguiu, e seu corpo gritou de dor com o esforço.
Quando sua visão clareou, olhou em volta mais uma vez. Estava no limite de um campo que, naquele momento, estava cercado. A uns cinquenta passos à esquerda, havia uma floresta. Era seca, esparsa e decadente, mas oferecia mais proteção do que a posição vulnerável em que se encontrava, perto da batalha. Dois homens — um baixo e um alto, ambos usando o uniforme vermelho da guarda — aproximaram-se dele com as espadas na mão.
— O que temos aqui? — perguntou o mais baixo. — Um escravo achando que pode escapar?
— Não sou escravo — a voz dele falhou, e a garganta pareceu tão seca e frágil quanto o solo aos seus pés.
O guarda mais alto baixou a lâmina com força, mas o jovem conseguiu desviar do golpe rolando a tempo. Ele levantou, as pernas fracas como as de um potro. Com os músculos gritando de dor, ele cambaleou na direção da floresta.
— Não temos tempo para perseguir um escravo fugitivo — disse o guarda mais alto, em um volume elevado o suficiente para se fazer ouvir entre os ruídos da batalha.
— Prefere ter sua garganta cortada por um rebelde na batalha? — perguntou o mais baixo.
— O rei preferiria que…
— Não dou a mínima para a preferência do rei. Vamos.
A floresta era esparsa, mas o jovem encontrou um arbusto ressecado para se esconder. Os galhos arranhavam sua pele sensível, mas ele ficou em silêncio e imóvel. Os guardas se aproximavam, golpeando a escassa folhagem com as espadas.
Ele olhou para as mãos e se encolheu. Quanto tempo demoraria até recobrar as forças? Já havia esperado uma eternidade para se libertar.
Acordei antes do tempo.
— Talvez seja melhor deixá-lo ir — disse o guarda mais baixo, perdendo a coragem de antes enquanto o medo tomava conta de sua voz. — Talvez tenha sido ele quem ateou fogo lá atrás. Pode ser perigoso.
— Não seja covarde. Fugitivos podem causar mais problemas e gerar mais fugitivos. Quero seu sangue em minha lâmina antes de mais nada.
Eles se aproximaram mais, e o jovem saiu cambaleando do esconderijo. Na fuga, tropeçou nas raízes entrelaçadas de um grande carvalho e caiu com tudo no chão. Os guardas logo o encontraram, e ele se arrastou para trás até encontrar o tronco grosso da árvore.
— Deve se sentir tão patético agora — o guarda alto o ridicularizou. — Escondido numa floresta, implorando por sua vida.
Ele de fato se sentia patético. Não era uma emoção que apreciava.
— Não estou implorando.
— Ah, mas logo estará. Tenho certeza. — O guarda abriu um sorriso que revelou o quanto gostava de provocar dor e sofrimento em indivíduos menores e mais fracos do que ele.
— O que você acha? — O guarda alto perguntou ao companheiro. — Devemos cortar as mãos dele antes de matá-lo? Ou os pés, para não tentar fugir de novo?
— Talvez seja melhor o levarmos para o calabouço, para apodrecer com os outros rebeldes.
— Isso não teria graça. — O guarda encostou a ponta da espada no queixo do jovem, forçando-o a encarar seus olhos cruéis. — Quem é você, rapaz? Um escravo que se curvava ao meu chicote na construção da estrada do rei? Ou um rebelde equivocado que acredita poder mudar o destino deste reino?
— Nenhum dos dois. — Seus lábios estavam ressecados, e a respiração, curta.
A espada levantou mais sua cabeça, perfurando um pouco a pele.
— Então quem é você? — o guarda perguntou.
— Eu… — ele começou a responder, bem devagar — … sou um deus.
— Um deus? É mesmo? — O guarda bufou, achando graça. — Estou curioso… os deuses sangram muito?
— Espere. — A voz do guarda mais baixo estava trêmula. — Os olhos dele. Veja os olhos dele!
O guarda alto afastou a espada e deu um passo trêmulo para trás.
— O quê…?
O jovem abriu o punho e olhou para a mão direita. Gravado na palma, havia um triângulo. As bordas brilhavam com a mesma luz azul que agora emanava de seus olhos.
— Você é um demônio — o guarda sussurrou. — É isso o que você é.
— Eu já disse o que sou. Mas acho que você não prestou atenção. — Ele se levantou. O símbolo em sua mão ficou mais brilhante quando ele a estendeu para o guarda. — Será que é melhor eu mostrar?
De repente, uma única labareda surgiu no chão árido diante deles. Ela tremeluziu, depois cresceu e lambeu a bota do guarda. Em uma linha fina, o fogo serpenteou ao redor do calcanhar e começou a envolver sua panturrilha e coxa. Ele tentou abafar as chamas com as mãos, o que só as fez aumentar. A labareda subiu até seu pulso e se retorceu em volta do braço como uma pulseira.
— O que está acontecendo? — O guarda procurou ajuda, mas seu amigo se afastou.
— Já está doendo? — o jovem perguntou com calma. — Se não, espere só mais um pouco. Vai doer.
O fogo se espalhou até que as pernas do guarda, seu torso, seus braços e, por fim, seu rosto confuso e assustado estivessem em chamas. O fogo então passou de laranja a azul.
Foi quando o guarda começou a gritar.
O outro ficou paralisado, horrorizado, observando o amigo queimar como uma tocha em plena luz da manhã. De repente, as chamas ficaram mais intensas, subindo a quase dez metros no ar e levando o guarda junto. Finalmente, ele parou de gritar.
Como uma escultura de vidro caindo num chão de mármore, seu corpo se estilhaçou em um milhão de pedaços.
O jovem se virou para o guarda que havia poupado.
— Corra.
Com os olhos arregalados de terror, o guarda se virou e fugiu.
Com o pouco de energia que lhe restava, ele caiu de joelhos. O símbolo em sua mão arrefeceu, tornando-se apenas um traço, uma marca que se assemelhava a uma cicatriz antiga. O chão ainda ardia no ponto onde o guarda alto estivera, embora não restasse mais nada dele além de uma vaga lembrança.
Finalmente, a dor diminuiu. Seus pensamentos ficaram mais claros, e um sorrisinho curvou os cantos de sua boca.
— É apenas o começo — ele sussurrou enquanto a escuridão se erguia para cobri-lo como um manto grosso.
Logo ele faria todos arderem em chamas pelo que haviam feito.

3 comentários:

  1. 😍 amo este livro
    Valeu Karina ✌

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  2. nao sei mais acho que o tornado significa ar, o terremoto terra, e o icendio do ultimo livro significa fogo, esse garoto surgiu apos o icendio, sera que de acordo com que as coisas acontecem surgem deuses que controlam essas coisas??? So falta agua... Vms descobrir.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!