11 de setembro de 2018

Prólogo - Brasas

Seu coração selvagem disparou, palpitando de maneira caótica, igualzinho ao riacho junto do qual ela parou. Seus membros finos tremiam e, quando o luar revelou sua figura, pude ver o pulso latejando e os olhos correndo de um lado para outro, alertas ao perigo. Eu a observava das sombras entre as árvores — um espectro negro empenhado em sua morte. Depois de erguer o nariz no ar uma última vez, ela baixou a cabeça com nervosismo para beber.
Saltando de meu esconderijo, atravessei grama e matagal, devorando a distância como uma estrela cadente. Minhas garras rasparam uma raiz nodosa que se projetava do chão como o braço de um esqueleto despertando e ela ouviu o ruído.
Partindo em disparada, a corça lançou-se para a esquerda. Saltei sobre ela, mas meus dentes pegaram apenas os fios grossos de sua pelagem de inverno. Ela deixou escapar um grito de pavor.
Enquanto ia atrás dela, meu sangue corria e eu me senti mais vivo do que me sentia havia meses. Saltei novamente e dessa vez envolvi com as garras seu torso arquejante em um abraço mortal. Ela se debateu sob mim, resistindo o melhor que pôde enquanto eu mordia seu pescoço. Cravando os dentes nele, prendi sua traqueia. Esmagá-la a sufocaria, e eu acreditava que essa era uma maneira mais gentil e humana de abater um animal, mas, de repente, tive a sensação de que era eu que estava lentamente me asfixiando.
A euforia que senti ao caçar se esvaiu e me vi mais uma vez com o vazio que constantemente ameaçava me consumir. Ele sufocava e estrangulava, me matando sem pressa, da mesma maneira que eu estava tirando a vida daquela criatura.
Abri as mandíbulas e ergui a cabeça. Percebendo a mudança, a corça lançou-se para dentro do riacho, me derrubando de suas costas. Enquanto ela desaparecia em meio à vegetação, a água fria corria sobre minha pelagem densa, e por um momento desejei poder apenas aspirá-la e me libertar. Me libertar de minhas lembranças. De minha decepção. De meus sonhos.
Se ao menos eu acreditasse que a morte seria tão generosa...
Aos poucos, saí do riacho. Minhas patas estavam tão enlameadas quanto meus pensamentos. Desalentado, sacudi a água do pelo e estava inutilmente tentando me livrar da lama em minhas garras quando ouvi a risada de uma mulher.
Erguendo a cabeça bruscamente, vi Anamika agachada no galho de uma árvore, o arco dourado atravessado em seu ombro e uma aljava com flechas presa às costas.
— Essa foi a caçada mais patética que já vi — zombou.
Rosnei baixinho, mas Anamika ignorou a advertência e continuou com seus comentários:
— Você escolheu a criatura mais fraca da floresta e ainda assim não conseguiu abatê-la. Que espécie de tigre é você?
Ela desceu com agilidade do galho robusto. Anamika usava o vestido verde e, ao vir em minha direção, fui momentaneamente distraído por suas pernas longas e torneadas, mas então ela abriu a boca mais uma vez.
A jovem deusa pôs as mãos nos quadris e disse:
— Se está com fome, posso abater sua comida, visto que você é fraco demais para fazer isso sozinho.
Lançando um sopro sarcástico pelas narinas, dei as costas a ela e parti na direção contrária, mas Anamika logo me alcançou, igualando minha velocidade mesmo eu tendo disparado em meio às árvores. Quando percebi que não tinha como me livrar dela, parei e me transformei.
Como homem, girei, voltando-me para ela, e gritei, aborrecido:
— Por que você insiste em ser a minha sombra, Anamika? Já não basta eu estar preso aqui com você dia após dia?
Ela estreitou os olhos.
— Eu estou tão presa aqui com você quanto você está preso aqui comigo. A diferença é que eu não desperdiço a minha vida querendo uma coisa que nunca vou ter!
— Você não sabe nada do que eu quero!
Ela ergueu uma sobrancelha diante dessas palavras e eu soube o que ela estava pensando. Na verdade, ela sabia tudo que eu queria. Ser o tigre de Durga significava que nós dois tínhamos um elo, uma conexão mental que nos ligava todas as vezes que assumíamos as formas de Durga e Damon. Tentávamos dar espaço um ao outro, erguendo uma espécie de barreira mental, mas ambos sabíamos muito mais sobre o outro do que estávamos dispostos a reconhecer.
Um exemplo disso era que eu percebia que ela sentia muitíssima falta do irmão. Ela também odiava assumir o papel de Durga. O poder não lhe interessava, o que, justamente, a tornava a escolha perfeita para governar como deusa. Ela nunca abusaria das armas ou usaria o Amuleto de Damon para propósitos egoístas. Isso era algo que eu admirava nela, embora jamais fosse admitir.
Havia outras coisas que eu me dava conta de que tinha aprendido a respeitar nos últimos seis meses. Anamika era justa e sábia ao resolver disputas, sempre pensava nos outros antes de pensar em si mesma e manejava armas melhor do que a maioria dos homens que eu conhecia. Ela merecia uma companhia que a apoiasse e a ajudasse a tornar seu fardo mais leve. Essa deveria ser minha função, mas, em vez disso, eu estava sempre chafurdando na autopiedade. Estava prestes a pedir desculpas quando ela começou a me provocar de novo:
— Acredite ou não, eu não estou seguindo você para infernizar sua vida. Estou simplesmente garantindo que não se machuque. Você vive distraído, o que significa que coloca seu bem-estar em risco.
— Me machucar? Me machucar? Eu não me machuco, Anamika!
— Machucado é como você vem vivendo os últimos seis meses, Damon — disse ela em um tom mais calmo. — Tenho tentado ser paciente, mas você continua a mostrar essa... essa fraqueza.
Furioso, aproximei-me dela e espetei o dedo no ar, diante de seu nariz, ignorando de maneira eficaz as sardas quase imperceptíveis porém tentadoras que o cobriam e os olhos verdes de cílios longos nos quais um homem podia se perder.
— Vamos esclarecer algumas coisas, Ana. Primeiro, como eu me sinto é problema meu. E segundo... — Fiz uma pausa e a ouvi arquejar. Preocupado com a possibilidade de a estar assustando, dei um passo para trás e parei de gritar. — Segundo: em público, sou Damon, mas quando estivermos sozinhos, por favor, me chame de Kishan.
Dando as costas a ela, levei a mão ao tronco de uma árvore próxima e deixei a chama furiosa que ela sempre provocava em mim se extinguir até se tornar brasas fumegantes. Concentrando-me em desacelerar a respiração, não notei que ela havia se aproximado até que senti sua mão em meu braço. O toque de Anamika sempre provocava um formigamento quente que se espalhava pela minha pele, o que era parte de nossa conexão cósmica.
— Eu sinto muito... Kishan — disse ela. — Não era minha intenção deixar você furioso ou trazer à tona suas emoções voláteis.
Dessa vez seus comentários irritantes não me aborreceram. Em vez disso, ri secamente.
— Vou tentar me lembrar de manter minhas “emoções voláteis” sob controle. Nesse meio-tempo, se você parar de perturbar o tigre, ele não vai mostrar os dentes tão rápido.
Ela me observou em silêncio por um momento, então passou por mim, empertigada, seguindo na direção de nossa casa. O som abafado de seus resmungos desapareceu enquanto ela caminhava entre as árvores, mas ainda escutei a frase: “Eu não tenho medo dos dentes dele.”
Senti uma culpa passageira por deixá-la voltar para casa sozinha, mas tinha percebido que ela estava usando o Amuleto de Damon e sabia que não havia nada nesta Terra que pudesse machucá-la.
Quando ela se foi, me espreguicei e me perguntei se devia voltar para a casa que partilhávamos — sendo “partilhar” um termo relativo — ou se devia passar a noite na floresta. Tinha acabado de decidir procurar um belo trecho de grama onde dormir quando meu corpo se imobilizou, pressentindo a presença de outra pessoa. Quem estaria aqui? Um caçador? Anamika teria retornado?
Devagar, dei meia-volta, sem fazer qualquer barulho, e, quando já havia me virado completamente, dei um pulo para trás, meu coração disparando com o choque.
À minha frente encontrava-se um homenzinho, aparentemente surgido do nada, o que provavelmente era verdade. O luar reluzia em sua careca e, quando ele se moveu, as sandálias esmagaram ruidosamente a grama. Não tínhamos visto o monge desde aquele fatídico dia em que eu cedera minha noiva, a garota que eu amava mais do que a vida, a meu irmão. O dia em que assisti a meus sonhos, minhas esperanças e meu futuro saltarem por um vórtice de chamas e desaparecerem, extinguindo-se como uma lamparina cujo óleo se acabara.
Desde então eu me sentia devastado.
— Phet — falei simplesmente —, o que traz você à minha versão do inferno?
O homem segurou meu ombro e me fitou com olhos castanhos e lúcidos.
— Kishan — disse ele com gravidade —, Kelsey precisa de você.

13 comentários:

  1. Karina ,os episódios 23 e 28 não estão abrindo

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  2. To morrendo de um ataque cardíaco aqui aaaaaaaaaaaaaaaaa que saudade eu estava deles.

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  3. Nossa “o que o traz à minha versão do inferno”
    Aaaaa Kelsey

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  4. "sempre provocava um formigamento quente que se espalhava pela minha pele, o que era parte de nossa conexão cósmica." Já ouvi essa história antes
    Kkkkkkkk

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  5. Nossa como sempre muito intenso o relacionamento deles... tô louca pra descobrir mais

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  6. ate que em fim... eu nao estava mais me aguentando, lendo e relendo os outros livros a espera desse

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  7. eu vou chorar de alegria, amo meu tigre de olhos amarelos, obrigado por ter volta do a minha vida Baby 😍😍😍😍😍😍😍😍 te amo

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Boa leitura, E SEM SPOILER!