12 de setembro de 2018

Epílogo - Sonolência

Tentei me levantar e cumprimentá-lo, mas ele sacudiu a mão.
— Não precisa se levantar. Se não se importa, eu gostaria de me sentar com você um pouco.
Em minha mente, falei com ele, mas logo ficou evidente que ele não podia me ouvir.
Kadam pôs a mão em minhas costas e me falou de amor e perda. Falou sobre sua mulher e como foi difícil viver sem ela por tantos anos. Suas palavras me fizeram pensar em Ana e em Ren, e em como meu irmão acreditava que Kelsey o estivesse chamando. Kadam continuou a falar, sua voz familiar, reconfortante e calma contribuindo para aumentar a tranquilidade da floresta silenciosa. Eu me sentia sonolento e suspirei quando meus olhos se fecharam.
Então ouvi uma espécie de zumbido. Uma brisa beijou o pelo de minha nuca e senti o cheiro de flores silvestres... não... de jasmim. Meu coração silenciou e, se estivesse na forma humana, eu teria sorrido. A luminosidade do sol poente atravessava minhas pálpebras fechadas e a voz de Kadam foi se tornando cada vez mais fraca. Em seu lugar, eu ouvia o farfalhar das folhas lá no alto — um tilintar que ia se tornando mais rico a cada segundo.
Quando o último suspiro deixou meu corpo exausto, senti em meu ouvido a pressão de lábios macios que sussurraram:
Sohan.


Minha mão se imobilizou quando o tigre soltou seu suspiro final. Então me permiti chorar um pouco por meu menino, meu filho, que morreu 35 anos antes de sequer ter nascido. Abracei seu corpo, o pelo macio fazendo cócegas em meu rosto. Delicadamente, retirei o Amuleto de Damon de seu pescoço e usei seu poder para enterrá-lo no mesmo pedaço de terra em que um dia sepultaria seus pais e onde eu mesmo teria meu descanso final.
Ainda havia trabalho a fazer. Parecia interminável, no entanto, mais do que ninguém, eu estava ciente de que o fim estava de fato se aproximando. Eu teria de separar os pedaços do Amuleto de Damon, encontrar Ana no passado e levá-la comigo para dar os cinco pedaços de presente — um para cada líder de cada um dos cinco exércitos que haviam ajudado a derrotar Lokesh na montanha. Em seguida, eu precisaria ir ao primeiro templo de Durga e destruir a quinta coluna antes que Anamika tivesse chance de ver todas as coisas ali entalhadas.
Depois disso, eu teria que responder a um chamado que eu mesmo enviara a Phet quando lhe pedi que ajudasse com a memória de Ren. Embora a lista já tivesse sido muito longa, estava chegando ao fim um tanto rápido demais.
Pensando tanto no tigre branco quanto no negro, esfreguei o polegar na cara do tigre do amuleto e pousei a mão no monte de terra que cobria o corpo de Kishan.
Ele merecia mais.
O Príncipe Sohan Kishan Rajaram deveria ter tido um funeral magnífico. Deveria ter sido homenageado por todos os seus muitos descendentes, prestigiado por todas as pessoas que ele e sua mulher haviam ajudado ao longo dos séculos. Deveria ter sido mais do que uma nota de pé de página nos anais da história ou uma referência em um livro de mitologia. No mínimo, deveria ter sido sepultado ao lado da mulher.
Mas esse era o lugar em que sempre o encontrara em todas as linhas do tempo que eu vira, e, depois de tudo que fizemos juntos, eu não achava que ele se importaria muito em ser enterrado ali.
Levantando-me, limpei as mãos e olhei para o céu. O sol havia se posto e os insetos ciciavam nas árvores uma canção final para um herói tombado.
— Até logo, meu filho — falei, pressionando a mão sobre o coração e deixando as lágrimas fluírem. — Logo irei ao seu encontro.
Envolvendo o amuleto com a mão, saltei através do tempo e do espaço, tentando encontrar consolo no dever e no conhecimento de que logo eu estaria novamente entre aqueles que amei e perdi.

7 comentários:

  1. Aaaaaaaaaaaaaaah segurando aqui pra não chorar...

    Me pergunto agora se eu deveria ter parado no Destino do Tigre. Embora agridoce também porque o Kishan não tava mais lá... isso aqui parece mais triste ainda. Passado, presente, futuro... viagens do tempo são uma droga, na minha opinião. Ver as pessoas que você ama sem poder dizer à elas e ser só um observador, ou só poder observar o destino de desenrolando... e ainda, ver as pessoas que você ama morrendo. Talvez morrendo após seu final feliz, mas ainda assim morte é morte, partiu para o outro mundo >.<
    Imagina o sofrimento. Mas pelo menos o Kishan e o Ren e a Kelsey e o povinho tiveram seu final feliz...

    Não acredito muito que tenha algo após a morte, mas esse final realmente me faz desejar acreditar nisso.

    E "[...] Deveria ter sido mais do que uma nota de pé de página nos anais da história ou uma referência em um livro de mitologia. [...]", não se preocupe, não nos esqueceremos de você Kishan!! Ou de vocês pessoal, Kelsey, Ren, Kadam...!

    Por que é sempre tão triste quando a série encerra, mesmo se é final feliz? T_T
    Acho que deve ser a saudade que vai bater dos personagens...

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    1. Néeee esse fim foi muito triste </3 me lembrou As Peças Infernais. Por um lado, foi ótimo a Colleen ter desenvolvido mais, não ter acabado a história quando as tarefas acabaram e tals. Mas quando mostra todo esse tempo passando, eles morrendo... Foi triste.

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  2. Depois que livro acaba, principalmente serie, fica uma dor no peito e to me segurando para nao chora...

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  3. Sinceramente não era o final que eu esperava .Me segurando pra não chorar

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  4. Ela podia escrever um conto contando sobre a visa de Dihen e Kelsey. Gostaria de ve-los mais juntos. Kisan ficou mais com ela que Hen.

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  5. A autora deveria publicar uns contos pra mostrar a vida de Dihen e Kelsey. Kisan passou mais tempo com ela.

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  6. manoooooo...

    sem palavras!

    embora triste eu amei esse final

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Boa leitura, E SEM SPOILER!