29 de setembro de 2018

Capítulo 9

ACORDEI NO ESCURO. A luz fraca do outro lado das cortinas da cabine me dizia que o sol tinha acabado de se pôr. Ainda faltava um tempo para a noite cair de vez no deserto. Logo o pessoal acordaria de novo para jantar.
A refeição ainda pesava no meu estômago, e o sacolejo do trem não estava ajudando. A cabine parecia quente e apertada, mesmo depois do crepúsculo. Eu precisava de ar fresco. Tentei abrir a janela, mas não havia como.
Eu tinha comprado algumas roupas. Puxei uma camisa limpa, curtindo seu toque contra minha pele, antes de me aventurar pelo corredor. Estava silencioso; o vagão ainda parecia tomado pelo sono da tarde. Se bem que os ruídos abafados atrás de algumas portas sugeriam que certas pessoas não estavam exatamente descansando. Abri a janela mais próxima o máximo possível e deixei o ar fresco do deserto entrar.
Como o corredor estava vazio, baixei meu sheema e encostei a testa no painel de vidro. Fiquei lá, respirando fundo, deixando a comida refinada assentar na minha barriga. O sopro de ar, como se eu corresse em direção a Izman, em direção à aventura, mais rápido do que nunca, me fez finalmente sentir que estava em movimento.
Uma porta foi aberta com força atrás de mim. Estava puxando meu sheema para cima quando identifiquei um rosto familiar.
Congelei.
Dando um passo para fora da porta, com a cabeça inclinada para a frente enquanto fechava o botão mais alto de um khalat rosa e amarelo, cabelos pretos despenteados cascateando sobre os ombros, lá estava Shira. A visão dela era tão familiar que se destacava como um prego enferrujado naquele lugar novo.
Ela não me viu. Deu outro passo sem olhar, esperando que o mundo saísse de seu caminho, como sempre. Ela quase esbarrou em mim. Foi só então que levantou a cabeça. Estava tão perto que dava para ver o comentário sarcástico se formando em sua boca. Seus lábios se abriram numa exclamação de surpresa, e então ela sorriu como uma hiena.
— Prima.
Eu já tinha apontado a arma para a cara dela antes que terminasse de falar.
— Não grite. — Eu já estava procurando um jeito de escapar.
— Por que eu faria isso? — Havia um tom de zombaria em sua voz, e Shira entrelaçou as mãos atrás das costas, inclinada casualmente contra a parede. — Você não vai atirar em mim.
— Ah, é? — Coloquei o dedo no gatilho.
— É pecado matar a própria família. — Ela fez um biquinho. — Viu, eu presto atenção nas preces.
— O que está fazendo aqui?
Olhei para os lados o mais rápido que pude sem tirar os olhos dela por muito tempo, evitando que tentasse alguma coisa. Alguém podia aparecer a qualquer momento e nos ver.
Ela revirou os olhos.
— Você realmente achava que era a única que queria uma vida fora daquela cidadezinha horrível? — Verdade seja dita, eu nunca tinha parado pra pensar no que Shira queria. Imaginava que ela era igual a todo mundo, conformada em ficar na Vila da Poeira. — Fazim e eu costumávamos imaginar um futuro em que seríamos ricos e teríamos tudo o que desejássemos no mundo. Só que, para Fazim, não importava às custas de quem ele enriqueceria. — Ainda havia uma marca no meu pulso, no lugar onde Fazim tinha me segurado. — Então vou atrás da minha fortuna sem ele. Aquele comandante jovem e charmoso que arrebentou a sua cara foi gentil o suficiente de me trazer com ele. Eu sabia que você estaria aqui, prima.
— Como?
Ela levantou um ombro de leve.
— Bem, você não dorme a um metro de alguém sem descobrir algumas coisas. — Isso era verdade. Eu sabia que Shira gostava de roupas amarelas, odiava limão em conserva e brincava com o cabelo quando mentia. E Shira sabia que eu iria para Izman se algum dia escapasse da Vila da Poeira.
Mas não havia como ela saber que eu estaria naquele trem.
Mesmo se só saísse um por mês.
— E o que você ganha com isso? — perguntei.
— Vou te mostrar, prima. — Ela sorriu como se estivéssemos compartilhando uma grande piada.
Então respirou fundo e gritou.
Antes que eu pudesse reagir, a porta da cabine mais próxima se abriu com força, e Naguib cambaleou para fora. Era a mesma cabine da qual Shira tinha saído na ponta dos pés. Ele parecia mais novo sem a jaqueta do uniforme, com a camisa desabotoada no pescoço. Arregalou os olhos quando me viu.
— Socorro! Eu a encontrei! — Shira berrou. — O traidor deve estar por perto. Socorro!
Gastei um instante precioso tentando pensar em uma boa mentira, mas minha língua travou. Minhas pernas não podiam se dar a esse luxo.
Agarrei Shira e comecei a me mexer no mesmo momento em que o trem sacolejou. A força arremessou minha prima na direção do comandante com um gritinho. Ele a segurou de modo desajeitado.
Corri até a porta do vagão, ignorando os gritos atrás de mim. Abri caminho empurrando passageiros no corredor e atravessei a porta seguinte, procurando freneticamente uma tranca que pudesse fechar atrás de mim. Qualquer coisa que dificultasse a perseguição.
Nada.
Praguejando, voltei a correr sem parar até chegar à metade da segunda classe. Dava para ouvir pessoas vindo atrás de mim. Logo chegaria ao fim do trem. Precisava pensar no que fazer antes que fosse parar no meio da areia.
Não, eu me preocuparia com isso quando fosse a hora.
Me atirei contra a porta no final do vagão. Ela estava emperrada.
Sacudi a maçaneta, olhando para trás para ver se tinha alguém uniformizado. Bati o ombro contra a porta, de novo e de novo. Os gritos estavam chegando mais perto, embora fosse difícil identificá-los com o barulho do trem.
A porta cedeu. O ar noturno, os trilhos e a areia vieram na minha direção conforme eu caía para a frente. Agarrei a moldura da porta, me segurando no último instante.
Onde existia uma passarela entre os outros vagões, ali só havia um fosso perigoso com uma conexão estreita de metal entre os dois carros. Com a luz do vagão atrás de mim eu conseguia enxergar os trilhos que passavam correndo embaixo dos meus pés. As rajadas de ar açoitavam minhas roupas, como dedos invisíveis tentando me arrastar de volta para a areia, onde era o meu lugar.
Havia uma porta do outro lado. Talvez eu conseguisse passar por ali.
Provavelmente conseguiria.
Só tinha um jeito de descobrir.
Saltei e acertei a porta com força total. Ela cedeu com um baque surdo. Caí no chão do vagão, machucada e sem fôlego, mas viva.
Puxei meus pés pendurados pra fora de modo apressado e deselegante. A porta fechou sozinha, errando meus dedos por pouco. Ela tinha uma trava; eu a tranquei e levantei rápido.
Não havia mais cabines ali, só fileiras de beliches até o fundo. Dezenas de passageiros esticaram o pescoço contornando as estruturas de metal para me observar. Pareciam prisioneiros, pressionando o rosto desesperado contra as barras de ferro da cama. Algum deles me deduraria assim que os soldados passassem pela porta.
Me esquivei entre as camas. Um grupo de homens estava entretido com um jogo de dados e bebidas. Estavam sentados no chão, usando o beliche como mesa. Cartas manchadas se espalhavam pelos lençóis, entre um punhado de moedas. Abri caminho pela multidão, procurando um lugar para me esconder. Quatro mulheres se aglomeravam em um único beliche, penteando o cabelo umas das outras e comendo tâmaras. Um garotinho de pés descalços tentou roubar uma. Levou uma pancada na mão com um pente e começou a chorar.
Me dei conta de que meu sheema estava solto em volta do pescoço. Meu cabelo esparramado me identificava como garota. Uma garota com roupas de garoto. Ergui a mão para enrolá-lo de novo em volta do rosto. Antes que pudesse fazer isso, alguém me pegou pela cintura e cobriu minha boca com a mão. Fui puxada para fora da multidão e empurrada contra a parede do trem entre dois beliches.
Levantei a cabeça e dei de cara com os olhos familiares do forasteiro.
— Você é realmente muito esquisita — Jin disse, me mantendo presa.
O pânico diminuiu. Jin não parecia estar lá muito feliz em me ver, mas era melhor do que ser pega por um soldado. Eu o empurrei para tirar sua mão da minha boca.
— Vou considerar um elogio. O que está fazendo aqui?
— Procurando você por todo canto deste maldito trem — ele disse, aparentemente aliviado.
— Bem, você não procurou na parte da frente — eu disse.
— Na parte da frente? — Ele levantou uma sobrancelha, parecendo confuso, e então entendeu. — Você comprou um bilhete de primeira classe? Por quê? Como?
Eu nunca admitiria que não sabia o que estava fazendo. Em vez disso, falei:
— Vendi Iksander.
— Iksander? — Jin diminuiu um pouco a força com que me segurava.
— O buraqi — expliquei, olhando por cima do ombro dele. Era só uma questão de tempo até que eu visse os uniformes dourados e brancos.
— Você o chamou de Iksander? — Havia uma expressão curiosa em seu rosto, como se ele estivesse tentando me decifrar.
— Eu tinha que chamar o buraqi de algum jeito, e Iksander é um nome tão bom quanto qualquer outro. Meu tio tinha uma égua que chamava Azul. Não sei quanto a você, mas eu nunca vi um cavalo azul. — Não sabia por que estava na defensiva.
— Então você o batizou com o nome de um príncipe que foi transformado em cavalo por um djinni duzentos anos atrás?
— Que diferença faz há quanto tempo isso aconteceu? — perguntei, irritada. — Ele não vai ficar com o nome mesmo. Eu o vendi. Para um comerciante que se intitulava Oman das Mãos Rápidas, embora suas mãos só parecessem suadas. Ele não era exatamente honesto, porque um comerciante honesto teria me dedurado por ser uma garota.
— Ou uma bandida de olhos azuis — Jin parecia estar se divertindo. — Eu deveria te entregar.
— Bem, você vai ter sua oportunidade em breve, porque o Exército está neste trem, atrás de mim. Na verdade atrás de você, mas estou no meio do caminho.
Jin levantou a cabeça rapidamente, olhando na direção de onde eu tinha vindo.
— Tudo bem — ele disse. — Me dá a bússola que vou tirar a gente daqui.
— A bússola? — Eu não sabia exatamente o que esperava depois de Jin ter passado três dias me rastreando pelo deserto, mas não era aquilo.
— Você é inteligente demais para se fingir de burra, Bandida.
Os olhos dele me analisaram, como se eu pudesse estar escondendo a bússola debaixo do seu nariz.
— Não estou me fingindo de burra. Só estou pensando que você é um idiota por correr atrás de uma bússola velha.
Ele segurava meu pulso firme.
— Devolva a bússola e podemos esquecer que você me envenenou. Não vou nem pedir para me pagar metade do dinheiro da venda do buraqi que roubou.
— Não envenenei você. Só te botei pra dormir. E aquele buraqi era meu. — Tentei soltar meu braço, mas Jin era mais forte. — Você o roubou de mim. Se não tivesse dado um mau exemplo, talvez eu nunca tivesse roubado sua bússola quebrada.
— Quebrada? — Ele apertou a mão até eu sentir dor.
— Sim. — Tentei não fazer uma careta. Ele não estava mais sorrindo. — Cavalguei a noite toda na direção errada seguindo aquela agulha, até que o sol apareceu e me colocou na direção certa.
Senti Jin relaxar um pouco.
— Se não é útil para você, então não vai fazer falta.
— Se não é útil para mim, por que acha que eu teria guardado?
— Amani. — Ele se inclinou na minha direção até eu sentir o calor de sua pele. — Onde está a bússola?
Contraí a mandíbula.
— Os soldados estão vindo.
— Então é melhor me contar rápido, Bandida.
Não falei nada na hora. Era a determinação dele contra a minha. Eu queria mentir. Dizer que tinha me livrado da bússola junto com o buraqi. Continuar a fazê-lo sofrer por se recusar a me levar da Vila da Poeira, por dizer em Sazi que eu não chegaria até Izman. Por tentar me manter presa enquanto eu lutava com tanto afinco para escapar.
— Amani — ele baixou a voz. Senti um tom real de desespero quando disse meu nome. — Por favor. — Minha raiva se desfez com aquelas palavras.
— Está escondida na minha roupa — admiti, finalmente. Ele me soltou.
Levantei a camisa, ciente de seus olhos em mim ao expor a pele para alcançar o pano que tinha enrolado em volta da cintura. Deslizei a mão entre o tecido e a pele, sentindo o metal e o vidro frios.
Deixei minha camisa cair de volta enquanto puxava a bússola. Era um objeto velho de latão. O vidro estava arranhado e lascado em uma ponta. A agulha oscilava sobre um fundo de céu azul, da mesma cor dos meus olhos, pontuado por estrelas amarelas. Imaginei que tivesse algum valor. A expressão de Jin mudou conforme sua mão se fechou sobre a bússola, prendendo-a entre nossas mãos. A tensão se esvaiu de seu corpo e ele apoiou a testa contra a minha, me pegando desprevenida. Senti o cheiro do deserto nele.
— Obrigado — ele disse.
Seus olhos estavam fechados, mas os meus estavam bem abertos. Daquela distância, dava para analisar a menor das cicatrizes em seu lábio superior. Eu estava plenamente ciente da nossa respiração misturada com a proximidade. Não precisaria de quase nada para me inclinar e encostar a boca naquela cicatriz.
Houve um estrondo e um grito na outra ponta do vagão. Jin arregalou os olhos. Finalmente pareceu se tocar dos soldados dos quais eu vinha falando, e seu rosto mudou.
— Venha. — Ele começou a me conduzir por entre os beliches. — Vamos…
Branco e dourado reluziram pelo vagão, destoando dos passageiros maltrapilhos da terceira classe.
Tarde demais.
Não havia tempo para correr, e menos tempo ainda para pensar. Precisávamos nos esconder. E o único lugar para isso era exatamente onde estávamos. Puxei Jin de volta na minha direção. Meus punhos roçaram as pontas do sol tatuado em seu peito. Foi a última coisa que percebi antes de beijá-lo.
Sua mandíbula ficou rígida de surpresa por um momento; ele segurou meu braço com força, a ponto de doer. Então seu corpo grudou no meu, me empurrando contra a parede do trem.
Eu era uma garota do deserto. Achei que soubesse o que era calor.
Estava enganada.
O contato provocou um arrepio tão súbito em mim que comecei a me afastar antes que pegasse fogo. Mas Jin prendeu meu rosto com as mãos. Eu não tinha para onde fugir. Não tinha para onde correr.
E não havia nenhum lugar aonde eu quisesse ir.
Eu tinha feito aquilo sem pensar, e agora não havia mais espaço para pensamentos. Só a força de seus dedos contra minha nuca.
A respiração de Jin pulsou pelo meu corpo até eu não conseguir sentir nada além de desejo.
Mais do que desejo.
Necessidade.
Seu polegar encostou onde Naguib tinha me acertado com a arma. Um gemido involuntário de dor escapou dos meus lábios.
Jin se afastou e o momento foi quebrado. O ar frio percorreu o espaço entre nós, preenchendo o lugar onde suas mãos tinham encostado na minha pele um momento antes. Agora ele pressionava as palmas abertas contra a parede atrás de mim.
Seus olhos não estavam mais em mim. Ele olhava para a arma na minha cintura. Vi de relance um uniforme por baixo do seu braço. Seu corpo não estava pressionado contra o meu. Não estava me desejando — lembrei a mim mesma —, apenas me escondendo.
Eu respirava como alguém que nunca teve ar suficiente. Em algum lugar no fundo dos meus pulmões, encontrei forças para falar novamente.
— Eles ainda não estão fora de vista.
Jin não olhou para mim.
— Não. — Seus braços continuavam apoiados cada um de um lado da minha cabeça, pressionando a parede sacolejante do vagão. Ele se inclinou um pouco, e meu corpo avançou em direção ao dele. — Não estão mesmo.
Alguém deu um tapinha nas costas dele e o mundo voltou a entrar em foco.
— Quanto ela está cobrando, amigo? — A um beliche de distância, alguém riu.
Na outra ponta do vagão, uma cabeça que talvez pertencesse a um soldado se virou em direção ao som. Jin pegou minha mão.
— Vamos dar o fora daqui.
A porta por onde eu havia passado ainda estava aberta. Eu estava prestes a dizer a Jin que não adiantava voltar por aquele caminho, que não tínhamos onde nos esconder. Então seus braços estavam em torno da minha cintura.
Não tive tempo de dizer nada antes de Jin pular.

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