23 de setembro de 2018

Capítulo 9

LUCIA
PAELSIA

Magnus a consideraria louca por ficar ali como hóspede de Amara um instante a mais do que o necessário.
Então Lucia aceitou a ideia de sair daquele complexo estranho e empoeirado. Era o local onde nascera, mas não era seu lar.
Limeros era. Ela sentia falta de seus aposentos no palácio, e conhecia várias amas de confiança lá que poderiam ajudá-la com Lyssa.
No entanto, não estavam indo para Limeros.
Seu pai queria ir para o palácio auraniano, onde poderia falar com lorde Gareth Cirillo. Gareth continuava sendo grão-vassalo do rei durante sua longa ausência. Por meio de lorde Gareth, o rei queria encontrar seu filho, Kurtis.
E Lucia queria ajudá-lo.
Na noite anterior à data definida para sua partida em direção ao palácio auraniano, Lucia procurou Jonas no complexo e o encontrou afiando a espada em seus aposentos.
— Você vem conosco? — ela perguntou. — Ou vai ficar em Paelsia?
Jonas olhou para ela como se estivesse surpreso em vê-la.
— Devo ir com você?
Lucia tinha sido obrigada a passar um tempo com Jonas quando ele recebera a tarefa de devolvê-la ao pai e ao irmão, mas agora — depois de todo aquele tempo juntos — a ideia de se separar do rebelde parecia estranhamente dolorosa.
Mas ela sem dúvida não admitiria em voz alta.
— Cleo precisa de você — ela disse.
Jonas arqueou as sobrancelhas.
— Ela disse isso?
— Quando Kyan voltar, ela vai precisar de toda a ajuda possível. E sei que Taran decidiu ficar com ela até tudo se resolver.
Ele ficou pensativo.
— Você fala como se não passasse de uma pequena inconveniência com uma solução simples.
Longe disso. Lucia precisava de tempo para fortalecer a própria magia, para descobrir a melhor maneira de aprisionar o deus do fogo — e a deusa da terra também — nas respectivas prisões de cristal.
— Sei que não é — ela confessou.
Jonas a observou.
— Para sua informação, já decidi ir com você para Auranos. Sinto uma grande necessidade de ficar de olho em você, princesa. Tanto em você quanto em Lyssa.
Lucia observou com atenção o rosto dele, em busca de algum sinal de fingimento, mas não encontrou nada além de sinceridade. Jonas Agallon era, possivelmente, a pessoa mais honesta que ela já havia conhecido na vida. Ela tinha aprendido a valorizá-lo.
E a ideia de que não precisaria se despedir dele acalmou algo inominável dentro de Lucia.
Então o grupo deixou o complexo — Lucia e Lyssa, Gaius, Cleo, Jonas, Taran, Felix, uma criada chamada Nerissa e um guarda chamado Enzo. Eles iniciaram a viagem de cinco dias para o sul, com permissão absoluta da imperatriz, pegando um navio do Porto do Comércio rumo a Cidade de Ouro em Auranos.
Lucia não falou com Cleo. A outra princesa tinha se isolado quando ficou sabendo da morte de Magnus.
Ela o amava, Lucia percebeu sem ninguém precisar confirmar.
Aquilo a fez odiar um pouco menos.
As águas ao longo do canal de Porto Real até a cidade onde ficava o palácio eram de um azul-esverdeado que fazia Lucia se lembrar da esfera de água-marinha que Cleo levava consigo em uma pequena bolsa de veludo amarrada com um cordão. Era da mesma cor dos olhos da princesa.
Lucia preferia que aquela esfera estivesse em segurança em suas mãos, junto com as outras três, mas ainda não tinha feito nenhuma exigência.
Pensar que Cleo tinha o poder de uma deusa dentro de si…
Parte dela sentia inveja. Outra parte sentia… solidariedade.
Enquanto observava, do convés do navio, as margens do rio passarem, Lucia girava o anel de ametista no dedo, perdida nos próprios pensamentos.
O anel a protegia de sua magia, instável e praticamente impossível de controlar. E o objeto a havia protegido de Kyan quando ele assumira sua forma monstruosa, algo com que Lucia tinha sonhado muitas vezes, não apenas o sonho que Jonas tinha testemunhado.
Kyan tinha tentado matá-la e teria conseguido, se não fosse pela magia misteriosa do anel.
Um anel que Cleo tinha lhe dado por livre e espontânea vontade.
Era o maior tesouro — à exceção de Lyssa — que Lucia tinha. Ela rezava para que a joia a ajudasse a derrotar Kyan quando chegasse a hora.
E, quando chegasse a hora, rezava para que sua magia também estivesse presente, sem falhas ou dúvidas.
A Cidade de Ouro apareceu ao longe, uma visão deslumbrante sob a luz do sol, cercada pela água azul e colinas verdes que pareciam intermináveis. Lucia ansiava por outra paisagem, um castelo negro como obsidiana no centro de uma terra completamente branca.
Seu lar.
Será que veria seu lar de novo? Talvez ele a fizesse lembrar muito de Magnus, seu irmão e melhor amigo.
Era outra pessoa que ela tinha traído um dia, e lhe partia o coração saber que nunca teria a chance de se desculpar.
Com Lyssa nos braços, Lucia desembarcou do navio e, enquanto caminhavam pelo longo deque de madeira até uma série de carruagens que os levariam até o palácio, ela protegeu os olhos do sol para observar a reluzente Cidade de Ouro e suas muralhas brilhantes. As enormes torres do palácio ficavam bem no centro da cidade murada.
Então sua visão da cidade foi substituída pelo rosto de Cleiona Bellos — a pele pálida e os olhos vermelhos, mas a cabeça estava erguida.
— Pois não? — Lucia perguntou quando a princesa demorou a falar.
— A ama que cuidou de mim e da minha irmã ainda está no palácio — Cleo disse. — Ela era maravilhosa: gentil e doce, mas nada fraca. Eu a recomendaria muito para cuidar da sua filha.
Lucia observou o rosto da bebê por um instante. Lyssa piscou, e seus olhos de um roxo sobrenatural logo ganharam um tom mais normal de azul.
Um tremor percorreu o corpo de Lucia. Ela não sabia por que aquilo aconteceu, nem o que significava.
— Muito obrigada pela sugestão — ela respondeu.
Cleo assentiu e se juntou à sua criada enquanto todos entravam no palácio.
Lá dentro, Lucia perguntou pela ama de Cleo e descobriu que a mulher estava disposta e apta a cuidar de Lyssa. A feiticeira conteve qualquer ameaça que estivesse tentada a fazer em relação ao bem-estar da filha.
Depois de beijar a testa da bebê, que estava no berço que a ama-seca tinha providenciado com rapidez, Lucia foi encontrar o pai para uma audiência com lorde Gareth.
O grão-vassalo do rei preferiu se reunir com eles na sala do trono, que um dia tinha sido decorada à moda auraniana, com muito dourado, faixas bordadas com imagens da deusa Cleiona e o brasão da família Bellos. Mas, no momento, o lugar tinha poucas referências à época do domínio do rei Corvin.
Ela observou as paredes familiares, os vitrais nas janelas. Um amplo piso de mármore e colunas revestiam o corredor, levando a uma plataforma e ao trono dourado.
Lorde Gareth esperava por eles no centro da sala. Sua barba tinha crescido e estava mais cheia, com mais fios brancos do que a última vez em que Lucia o tinha visto.
Ele estendeu as mãos ao rei e a Lucia.
— Bem-vindos, meus caros amigos. Espero que a viagem tenha sido agradável.
O som da voz esganiçada, parecida com a de seu odioso filho, fez o sangue de Lucia ferver.
— Tão agradável quanto pode ser uma viagem a bordo de um navio kraeshiano — o rei respondeu.
Lorde Gareth riu.
— A imperatriz não manteve nenhuma embarcação limeriana para ocasiões como essas?
— Parece que ela mandou queimar a maioria.
— E agora somos todos kraeshianos, de certo modo. Vamos torcer por dias melhores, certo? — Ele observou Lucia. — Você se tornou uma jovem extremamente bela, minha querida.
Ela não correspondeu ao elogio com um sorriso, um meneio de cabeça nem rubor no rosto, como se esperaria no passado. Em vez disso, a garota perguntou:
— Onde está seu filho, lorde Gareth?
A expressão amigável de lorde Gareth se desfez.
— Kurtis? Não o vejo desde que seu pai ordenou que eu deixasse Limeros para vir para cá.
— Mas trocou muitas mensagens com ele — o rei disse. — Mesmo depois que ele se tornou um dos seguidores mais leais de Amara.
A expressão do lorde ficou mais cautelosa.
— Vossa majestade, a ocupação foi difícil para todos nós, mas estamos tentando nos ajustar da melhor maneira possível às escolhas que fez para o futuro de Mítica. Se algo que meu filho fez parece desleal, posso garantir que ele só tentou se adaptar ao novo regime. Recebi notícias apenas hoje de que muitos dos soldados da imperatriz foram chamados de volta a Kraeshia. Fiquei imaginando se isso não significaria que a ocupação será reduzida aos poucos até chegar a quase nada.
— É possível — o rei respondeu. — Acho que Amara perdeu o interesse em Mítica.
— Ótimo. — Lorde Gareth indicou. — O que significa que podemos voltar ao normal.
— Kurtis contou que perdeu a mão recentemente? — o rei perguntou em tom casual, movimentando-se na direção dos degraus que levavam ao trono. Ele virou para trás. — Que meu filho a cortou na altura do punho?
Lorde Gareth piscou.
— Bem, sim. Ele mencionou isso. Também mencionou que foi resultado de suas ordens, vossa majestade, ele ter acabado com tão infeliz ferimento. Foi pedido que ele lhe entregasse a princesa Cleiona, e parece que o príncipe Magnus…
— Discordou — o rei terminou a frase por ele. — De maneira bem veemente. Sim, é verdade. Meu filho e eu discordamos em relação a muitas coisas. A princesa Cleiona sem dúvida é uma delas.
Lucia ficou observando, fascinada. Não tinha ouvido falar daquilo até então.
— Magnus cortou a mão de Kurtis… para salvar Cleo — ela disse em voz alta, perplexa.
— Foi uma atitude impulsiva — lorde Gareth respondeu com um quê de aversão. — Mas não pode ser desfeita, então vamos tentar esquecer isso, não é?
— Teve notícias recentes de Kurtis? — o rei perguntou ao sentar e recostar no magnífico trono dourado, olhando para lorde Gareth no patamar de baixo.
— Não recebo notícias dele há mais de uma semana.
— Então não sabe o que ele fez agora?
Lorde Gareth franziu profundamente a testa, olhando para Lucia por um instante com estranhamento.
— Não, não sei.
— Nem mesmo rumores? — Lucia perguntou.
— Ouvi muitos rumores — Lorde Gareth respondeu em voz baixa. — Mas a maioria era sobre você, princesa, e não sobre meu filho.
— Ah, é? Como o quê?
— Não acho necessário dar ouvidos às conversas dos camponeses.
Ela odiava aquele homem. Sempre odiara a maneira afetada como se comportava perto do rei, fingindo ser amigável e prestativo. Mas Lucia enxergava a dissimulação por trás de todas as palavras que dizia e de todos os movimentos que fazia.
— Talvez sejam os mesmos rumores que eu ouvi — o rei comentou. — De que Lucia é uma feiticeira poderosa e que reduziu muitos vilarejos de Mítica a cinzas. De que ela é um demônio que eu invoquei das terras sombrias dezessete anos atrás para ajudar a fortalecer meu domínio.
— Como eu disse — lorde Gareth observou o rei se levantar do trono e começar a descer as escadas —, conversas de camponeses.
— Eu sou um demônio? — Lucia disse em voz baixa, saboreando a palavra, em vez de considerá-la tão desagradável quanto já tinha achado. As pessoas temiam demônios.
Ela rapidamente havia aprendido que o medo era uma ferramenta muito útil.
— Vossa majestade — lorde Gareth disse, balançando a cabeça. — Sou seu humilde servo, como sempre fui. Sinto que não está feliz com Kurtis, e talvez comigo também. Por favor, diga como posso me redimir.
O rosto do rei era uma máscara, não demonstrava nenhum indício de emoção.
— Vossa majestade, você diz. Como se não tivesse jurado devoção a Amara, e apenas a Amara.
— Apenas palavras, vossa alteza. Acha que ela teria me deixado ficar aqui sem tal promessa? Mas não tenho dúvida de que seu poder será restaurado agora que ela foi embora de nossa terra.
— Então admite que é mentiroso — Lucia disse.
Lorde Gareth franziu a testa para ela.
— Não admito nada disso.
— Onde está Kurtis? — ela perguntou, perdendo a paciência.
— Neste momento? Não sei.
Lucia lançou um olhar para o pai, que assentiu. Ela voltou sua atenção ao lorde evasivo.
— Olhe para mim, lorde Gareth.
O homem a encarou nos olhos.
Lucia se concentrou, mas achou difícil evocar sua magia. Difícil, mas não impossível.
— Diga a verdade. Você viu seu filho?
— Sim — lorde Gareth respondeu. A palavra escapou de sua boca com a velocidade e o peso de uma bola de canhão. Ele franziu a testa. — O que eu…? Eu não queria dizer isso.
Lucia continuou encarando-o enquanto se esforçava para manter a própria magia ativa, que parecia areia escorrendo por seus dedos.
— Quando o viu?
— Hoje mais cedo. Ele suplicou por minha ajuda. Disse que tinha sido torturado, que Nicolo Cassian o tinha queimado. E confessou o que tinha feito com o príncipe Magnus.
Gareth fechou a boca com tanta força que parecia que seus dentes estavam sendo triturados. Sangue começou a escorrer de seu nariz.
O sangue ajudou.
Até mesmo uma feiticeira profetizada podia usar sangue para fortalecer sua magia.
— Não tente resistir — Lucia disse. Ela não podia se concentrar na menção desagradável a Nic Cassian naquele momento. Aquilo podia esperar. — O que Kurtis confessou?
— Ele… ele… — O rosto de Gareth ficou vermelho, quase roxo, enquanto ele resistia à magia de Lucia. — Ele… matou… o príncipe Magnus.
A confirmação foi um golpe que lhe roubou o fôlego. Ela se esforçou para manter a magia que estava usando para arrancar a verdade da boca do lorde.
— Como?
— Ele o enterrou vivo… em uma caixa de madeira. Para que ele… sofresse antes de morrer.
A garganta de Lucia se fechou, e seus olhos começaram a arder. Era exatamente o que tinha visto no feitiço de localização.
— Onde Kurtis está agora?
Seus olhos ficaram vidrados, e o sangue de seu nariz pingou no chão de mármore branco.
— Eu mandei o imbecil fugir. Se esconder. Se proteger como fosse necessário. O herdeiro do rei não era alguém para ser descartado como o conteúdo de um penico, e seu ato teria consequências.
— Sim — Lucia afirmou, tomada pelo ódio. — Com certeza haverá consequências.
Com isso, ela libertou o homem do tênue controle de sua magia. Ele tirou um lenço do bolso do sobretudo e limpou o sangue do nariz, voltando o olhar desesperado para Gaius, que tinha ouvido sua confissão em silêncio.
Tremendo de revolta, Lucia precisou se controlar para não matar lorde Gareth ali mesmo.
— Fico feliz por ter dito a verdade, mesmo que tenha sido sob pressão — Gaius finalmente disse quando todos ficaram em silêncio.
Lorde Gareth exclamou:
— Vossa alteza, ele é meu filho! Meu garoto. Temo por sua segurança mesmo sabendo que fez coisas tão horríveis e imperdoáveis.
O rei concordou.
— Eu entendo. Sinto o mesmo… — um pequeno músculo se contorceu em seu rosto — Sentia o mesmo em relação a Magnus. Conheço minha reputação de implacável. Não ignoro o temor que provoco nos outros e o quanto eles desejariam evitar a punição.
— E eu fiquei ao seu lado na distribuição dessas punições. Aprovei tudo… até agora. E agora devo suplicar por sua clemência.
— Entendo por que fez isso, por que quis ajudar seu filho. O que está feito está feito.
Lorde Gareth endireitou os ombros.
— Estou tão aliviado por entender minha posição nessa situação infeliz.
— Sim, eu entendo. Teria feito exatamente a mesma coisa.
Lorde Gareth soltou um suspiro trêmulo e apoiou a mão sobre o ombro do rei.
— Sou muito grato, meu amigo.
— No entanto, não posso perdoá-lo. — Em um movimento rápido, Gaius puxou uma faca do sobretudo e cortou o pescoço do lorde.
As mãos do lorde Gareth voaram para estancar o fluxo imediato de sangue.
— Quando eu encontrar Kurtis — o rei continuou —, prometo que ele vai morrer bem, bem devagar. Talvez até grite para você salvá-lo. Espero ansiosamente pelo momento de contar a ele que você já está morto.
Lucia não podia dizer que estava surpresa com as atitudes do pai. Na verdade, era totalmente a favor delas.
Lorde Gareth caiu no chão a seus pés sobre uma poça cada vez maior do próprio sangue, enquanto Lucia e Gaius iam na direção da saída.
Gaius limpou a lâmina ensanguentada da faca com um lenço.
— Queria fazer isso desde que éramos crianças.
— Vamos encontrar Kurtis sem ele — Lucia disse com calma.
Ele olhou para a filha.
— Você não está surpresa com o que acabei de fazer?
Gaius esperava que ela sentisse o mesmo horror de uma garotinha ao encontrar um gato moribundo?
— Se você não o tivesse matado — Lucia disse —, eu o faria.
O olhar do Rei Sanguinário ao ouvir a filha admitir o desejo de matar não foi de aprovação, ela notou. Havia uma ponta de arrependimento.
— Então os rumores sobre você são verdadeiros — ele comentou com seriedade.
Ela engoliu o nó que se formou de repente em sua garganta.
— Receio que a maior parte seja.
— Ótimo. — Gaius continuou encarando os olhos dela, mas Lucia desejou que ele desviasse o olhar. — Então seja um demônio, minha bela filha. Seja o que precisar ser para acabar com a Tétrade de uma vez por todas.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!