16 de setembro de 2018

Capítulo 9

AMARA
LIMEROS

Desde criança, Amara sempre gostara de dar longas caminhadas no esplendor tropical de Joia do Império, desfrutando de suas cores vibrantes e do clima ameno, frequentemente com Ashur ao seu lado. O beijo da luz do sol lhe dava uma esperança renovada quando seu pai era muito cruel ou seus irmãos, Dastan e Elan, ignoravam sua existência. Em Kraeshia, ninguém precisava usar mantos forrados com pele grossa nem se aconchegar perto de fogueiras para não congelar.
Sim, ela sentia saudade de casa, desesperadamente, e desejava retornar assim que conseguisse o que procurava. Então daria adeus àquele reino congelado e implacável de uma vez por todas.
Amara virou as costas para a enorme janela do salão principal, emoldurada com cristais de gelo, que dava para as dependências cobertas de gelo da quinta, para encarar Kurtis. Ele tinha entrado no salão para trazer as notícias do dia e estava ajoelhado diante dela, os braços cheios de papéis.
— Levante e fale, lorde Kurtis — ela ordenou enquanto se dirigia ao pequeno trono.
— Os preparativos estão sendo feitos para sua mudança para o palácio limeriano amanhã, vossa graça — ele começou.
— Excelente. — Gaius tinha sugerido a mudança três dias atrás, antes de sua partida, e ela preferia não ficar na quinta mais tempo do que o necessário.
Ela se esforçou para ter paciência enquanto Kurtis lutava, com apenas uma mão, para examinar a pilha de papéis.
— Meus homens relataram alguma coisa sobre a localização atual de meu marido? — ela perguntou.
Ele passou os olhos por mais algumas folhas de pergaminho antes de responder.
— Não, vossa graça. Ainda não.
— É mesmo? Nada?
— Não. — Ele abriu um pequeno sorriso. — Mas tenho certeza de que ele ficaria satisfeito em saber que sua esposa está tão ansiosa por seu retorno.
— Sim, claro. — Amara o observou em silêncio por um instante, ainda tentando decidir se tinha passado a valorizar a presença dele nos últimos dias.
Segundo Gaius, e o próprio Kurtis, o jovem tinha sido um grão-vassalo respeitável, que comandara Limeros durante meses até Magnus chegar e tirar todo o seu poder.
Amara observou o coto do braço direito de Kurtis. Apesar dos curativos novos, uma mancha de sangue começava a aparecer.
— Que outras notícias você tem aí? — ela perguntou, tomando um gole de sidra do cálice que Nerissa tinha providenciado mais cedo.
— Meu pai, lorde Gareth, enviou uma mensagem.
— Leia para mim.
Ele desenrolou o pergaminho, deixando vários outros papéis caírem no chão.
— “Grande imperatriz, em primeiro lugar, minhas profundas congratulações pelo casamento com o rei Gaius, um verdadeiro e caro amigo meu. Ele me avisou sobre a atual situação em Mítica, e desejo que saiba que entendo e aproveito a chance para servir à minha gloriosa nova imperatriz de todas as formas que possa necessitar. 
Sim, Amara pensou com ironia, tenho certeza disso, já que a alternativa seria a morte ou a prisão.
— “Por ora” — Kurtis continuou —, “a menos que exija meus serviços em outro lugar, vou permanecer no palácio auraniano, na Cidade de Ouro. Por favor, saiba que receberei todo e qualquer kraeshiano como amigo e aliado.”
— Muito bem. — Amara presenteou Kurtis com um pequeno sorriso quando ele terminou. — Seu pai parece um bom homem, como você. Muito receptivo a mudanças inesperadas.
Kurtis retribuiu com um sorriso exagerado, indicando que tinha interpretado a observação irônica como um elogio.
— Ambos temos um talento especial para reconhecer a grandeza em um líder.
— Muito prudente de sua parte — ela comentou, já enojada pelo comentário bajulador de Kurtis.
De canto de olho, Amara viu Nerissa entrar no salão com uma bandeja com comida e vinho. A garota deixou-a calmamente sobre uma mesa. Quando Kurtis fez um sinal imediato para que ela saísse, Amara virou para a porta.
— Fique — Amara ordenou. — Quero falar com você.
Nerissa se curvou.
— Sim, imperatriz.
— Lorde Kurtis, isso é tudo o que tem para me dizer?
Kurtis ficou tenso.
— Tenho muitos outros papéis para ler.
— Sim, mas contêm algo importante? — Ela arqueou a sobrancelha e esperou. — Vital? Alguma notícia de meus soldados à beira de uma revolta? Ou notícias da chegada iminente do príncipe Ashur?
— Não, vossa graça.
— Então pode nos deixar a sós.
— Sim, vossa graça. — Sem dizer mais nada, Kurtis abaixou a cabeça e saiu da sala. Nos poucos dias desde que conhecera o grão-vassalo, Amara havia notado uma coisa importante: ele acatava ordens muito bem.
Nerissa aguardava na porta.
Amara levantou do trono e alisou a saia ao se aproximar da garota.
— Traga o vinho e venha comigo.
Nerissa fez o que lhe foi pedido, e Amara a conduziu a seus aposentos, uma série de cômodos muito mais confortáveis e menos formais.
— Por favor, sente — ela disse.
Nerissa hesitou por alguns instantes antes de sentar ao lado de Amara, que tinha escolhido uma poltrona estofada de veludo em frente ao espelho da penteadeira.
Cleo sabia muita coisa sobre a Tétrade. Havia uma possibilidade de sua criada ter escutado algo que pudesse ajudar Amara, principalmente sobre a importância de Lucia. Amara pretendia arrancar tudo o que Nerissa pudesse saber.
— Não tivemos chance de conversar em particular desde que foi destinada a me servir — Amara disse. — Tem muita coisa em você que me deixa curiosa, Nerissa Florens.
— É uma honra que esteja curiosa a respeito de alguém como eu — Nerissa respondeu com educação.
— Florens… É um nome incomum para um mítico, não é?
— Um tanto quanto incomum, sim. Mas minha família não é de Mítica. Não originalmente. Minha mãe me trouxe para cá quando eu era pequena.
— E seu pai?
— Foi morto em uma batalha quando minha cidade natal foi invadida.
Amara ficou um pouco boquiaberta.
— Você fala com tanta franqueza e sem emoção. Parece kraeshiana como eu.
Os cantos da boca de Nerissa se retorceram, quase formando um sorriso.
— Minhas origens não são mais kraeshianas que míticas, ainda que seu pai tenha feito o possível para mudar isso. Minha família era das Ilhas Gavenos.
— Ah, sim. — Aquilo fazia muito sentido. “Florens” parecia muito com os sobrenomes comuns nas Ilhas Gavenos, um grupo de pequenos reinos que o pai de Amara tinha conquistado com facilidade quando ela era criança. — Fico surpresa que tenha decidido revelar isso para mim.
— Não fique, vossa majestade. Não guardo rancor de algo que seu pai fez mais de quinze anos atrás. — Nerissa suspirou. — Segundo minha mãe, nossa terra era um lugar horrível antes de se tornar parte do Império Kraeshiano. A guerra nos deu um motivo para partir.
— Mas seu pai…
— Ele era um bruto. Espancava minha mãe com frequência. Fazia o mesmo comigo quando eu era pequena. Embora, felizmente, eu não tenha lembranças disso. Foi uma benção e não uma maldição termos sido obrigadas a começar uma nova vida em Mítica.
— Sua mãe deve ser uma mulher muito corajosa para assumir um desafio desses sozinha.
— Ela era. — Nerissa sorriu um pouco, e seus olhos castanho-claros foram para longe ao se lembrar. — Ela me ensinou tudo o que sei. Infelizmente, faleceu há quatro anos.
— Sinto muito por sua perda — Amara disse com sinceridade. — Estou curiosa para saber o que, especificamente, essa mulher tão formidável lhe ensinou.
Nerissa arregalou os olhos.
— Posso ser sincera, imperatriz?
— Sempre — Amara respondeu e teve que se forçar a não se aproximar muito da nova companheira.
— A coisa mais importante que ela me ensinou foi a como conseguir tudo o que eu quiser.
— É uma habilidade muito valiosa.
— Sim, sem dúvida se provou útil.
— E como ela sugeria que você fizesse isso? — Amara perguntou com curiosidade.
— Dando aos homens o que eles querem primeiro — Nerissa disse com um sorriso. — Depois que fugimos das ilhas, minha mãe virou cortesã. Uma cortesã muito bem-sucedida. — Vendo o olhar chocado de Amara, ela deu de ombros. — Durante minha infância, um dia normal para ela era cheio de atividades que fariam a maioria das pessoas corarem.
Amara teve que rir.
— Bem, isso foi um tanto quanto inesperado, mas, para ser sincera, admirável. Acho que gostaria de ter conhecido sua mãe.
Amara também gostaria de ter conhecido a própria mãe, aquela que deu a vida por ela. Mulheres fortes e corajosas deviam ser celebradas e lembradas, e não descartadas e esquecidas.
Amara notava esse tipo de força em Nerissa. Afinal, ela devia ter feito alguma coisa certa para chegar tão longe ilesa.
— Preciso perguntar, presumindo que você estivesse no palácio durante o cerco, como veio parar aqui na quinta? O rei a trouxe para cá de imediato?
— Não, quem fez isso foi seu guarda, Enzo — Nerissa disse de maneira trivial. — Ele estava preocupado com meu bem-estar.
— Muito mais do que com o de todas as outras criadas do palácio?
— Ah, sim. — Nerissa olhou para ela com um sorriso travesso. — Depois da ocupação, Enzo me trouxe para cá para trabalhar em outra parte da quinta. Quando percebeu que eu estava aqui, o rei me escolheu para servi-la. Fazer Enzo acreditar que somos muito mais próximos do que na verdade somos me beneficiou muito, não é verdade?
— De fato, eu diria que sim. — Amara começou a abrir um sorriso. — Temos mais em comum do que eu poderia imaginar.
— Temos?
Amara assentiu.
— Eu gostaria de usar essa sua habilidade especial para conhecer melhor meus soldados e descobrir o que dizem sobre mim. Para ser específica, gostaria de saber se têm alguma intenção de desafiar uma ordem vinda de uma imperatriz, e não de um imperador.
Nerissa franziu os lábios por um breve momento antes de falar.
— Os homens kraeshianos não são tão abertos a essas mudanças, são?
— Acho que só vou descobrir isso com o tempo, mas gostaria muito de ter conhecimento prévio de qualquer motim.
— Com certeza farei o possível.
— Obrigada. — Amara observou Nerissa, esperando ver sinais de relutância ou hesitação diante do que havia pedido, mas não notou nada. — Entendo por que os homens gostam de você, Nerissa. Você é muito bonita.
— Obrigada, vossa graça. — Nerissa ergueu o olhar e fitou Amara. — Devo servir o vinho?
— Sim, por favor. Sirva uma taça para cada uma de nós. — Amara ficou observando enquanto a garota cumpria a ordem, imaginando-a fazer o mesmo por Cleo e Magnus. — Quantas criadas Cleo tinha?
— Em Auranos, várias garotas limerianas foram designadas a ela, mas nenhuma era de seu agrado. Depois que cheguei, ela não precisou de mais ninguém.
— Claro. Me conte, ela está apaixonada pelo príncipe Magnus? Eu achava que não, já que pouco tempo atrás ele era inimigo dela, mas agora não tenho tanta certeza, tendo em vista os rumos de seu último discurso.
Nerissa entregou um cálice de vinho a Amara e recostou no assento, bebendo do próprio cálice.
— Apaixonada? Não tenho certeza. Atração, sem dúvida. Apesar de parecer inocente, sei que a princesa é uma excelente manipuladora. — Ela desviou o olhar. — Eu não devia estar dizendo essas coisas.
Amara tocou a mão dela.
— Não, por favor. Você deve falar livremente comigo. Nada do que diz será usado contra você. Está bem?
Nerissa assentiu.
— Sim, vossa graça.
— Diga, a princesa alguma vez mencionou alguma coisa sobre onde está Lucia Damora? Elas estiveram em contato em algum momento desde que Lucia fugiu para se casar?
Nerissa franziu a testa.
— Só sei que a princesa Lucia fugiu com seu tutor e que foi um grande escândalo. Que eu saiba, ninguém mais a viu desde então… A menos que se dê ouvido aos rumores.
Amara tirou os olhos do vinho e encarou o rosto da adorável garota.
— Que rumores?
— De que o rei escondeu a verdade durante todos esses anos, de que sua filha é uma bruxa. E há rumores recentes sobre uma bruxa que está viajando por Mítica e matando todos os que aparecem em seu caminho, queimando vilarejos inteiros.
Amara também tinha ouvido tais rumores.
— Acha que é Lucia?
A garota deu de ombros.
— É mais provável que seja exagero dos aldeãos, procurando formas de explicar uma fagulha perdida que incendiou a cidade. Mas não tenho certeza de nada, claro.
A garota não tinha nenhuma informação útil no momento, mas Amara tinha apreciado a conversa. Ela estendeu o braço e segurou a mão de Nerissa.
— Obrigada por conversar comigo. Com certeza você me provou seu valor hoje, e prometo não esquecer disso.
Em um movimento fluido, ao mesmo tempo gracioso e ousado, Nerissa entrelaçou os dedos aos de Amara.
— Fico feliz em ajudar como for necessário, imperatriz.
Amara olhou em choque para as mãos dadas, mas não recuou. O calor de Nerissa penetrou sua pele, e ela se deu conta de como tinha passado frio aquela manhã.
— É muito bom saber disso. — Amara fez uma pausa, considerando, cada vez mais interessada, a adorável jovem diante dela. — Os próximos dias serão desafiadores, e é bom saber que tenho alguém em quem posso confiar.
— Tem, sim.
Finalmente, e com um pouco de relutância, Amara soltou a mão de Nerissa e a apoiou com delicadeza sobre o cálice.
— Pode ir agora.
Nerissa abaixou a cabeça. Amara a viu se levantar de maneira graciosa e seguir devagar na direção da porta. Ela parou e olhou para trás.
— Estarei por perto, caso precise. Sempre que precisar.
Sem dizer outra palavra, a garota saiu.
Amara ficou ali sentada por um tempo, refletindo sobre sua conversa com a intrigante Nerissa enquanto terminava de tomar seu cálice de vinho.
Sozinha em seus aposentos pela primeira vez naquele dia, Amara levantou e foi até o guarda-roupa. Passou a mão pelas dobras de seu manto verde-esmeralda e tirou o maior tesouro que possuía. Segurando-a com as duas mãos, encarou a esfera de água-marinha.
O cristal da água.
— Exatamente da mesma cor dos olhos de Cleo — Amara disse em voz alta, notando essa semelhança no tom azul brilhante do cristal pela primeira vez. — Que irritante.
Ela observou os filamentos pretos e sombreados de pura magia da água girando dentro da esfera.
— Lucia sabe como libertá-lo? — ela sussurrou junto ao tesouro. — Ou você não passa de uma pedra tão decepcionantemente inútil quanto tentadora?
Algo quente roçou seus ombros. Ela agarrou o cristal frio e passou os olhos pelo quarto, franzindo a testa.
— O que foi isso? — disse em voz alta.
Lá estava de novo: uma brisa quente passando e a acariciando, dessa vez na direção oposta.
— Imperatriz…
O coração dela disparou.
Rapidamente, Amara guardou a esfera no esconderijo. Andou pelo quarto, procurando a origem daquela voz assustadora e da brisa quente que arrepiou os pelos de sua nuca.
Ela ouviu um estrondo vindo da lareira no canto do quarto. Amara se virou e ficou boquiaberta. O fogo que os criados tinham acendido ao amanhecer tinha se reduzido a brasas. Agora, ardia novamente, com uma força maior do que ela já havia visto. O olhar trêmulo de Amara foi para além da lareira. Uma chama dançava sobre o pavio de todas as velas do aparador — as velas, de algum modo, tinham se acendido sozinhas.
Amara respirou fundo desesperada e depois se esqueceu por completo de como respirar. A visão que tivera no navio que a levara a Limeros voltou a aparecer em sua mente, vívida, nítida e assombrosa.
Ashur, o irmão que ela tinha matado, voltando dos mortos para se vingar.
— Ashur? — ela perguntou com cautela.
— Não sou Ashur.
Amara ficou imóvel como um cadáver ao ouvir a voz grave e masculina que ecoava por seu quarto misteriosamente tomado pelo fogo. Era uma voz sem corpo — a única coisa de que Amara tinha certeza era de que não havia mais ninguém no quarto com ela.
— Quem é você? — ela perguntou.
— Você possui o cristal da água.
A coluna de Amara congelou como se tivesse sido atingida por uma adaga de gelo. Agora tinha certeza: a voz não era nem um pouco abafada, como se alguém estivesse falando do lado de fora da pesada porta de aço e madeira. A voz estava vindo de dentro do quarto.
Superando o som das batidas de seu coração disparado, Amara conseguiu dizer:
— Não sei do que está falando.
— Não me insulte com mentiras.
Ela queria gritar por ajuda, mas contra o quê? Não. Primeiro precisava saber com o que estava lidando.
— Diga quem você é e o que quer — ela disse, ofegante. — Estou no comando aqui e me recuso a ser intimidada por uma voz sem corpo.
— Ah, minha pequena imperatriz — a voz provocou. — Acredite, sou muito mais do que apenas uma voz.
Sem aviso, as chamas aumentaram, e Amara se encostou contra a parede. O fogo brilhava tanto que ela precisou proteger os olhos da ofuscante luz branca.
— Veja com os próprios olhos.
Graças às várias camadas de saias que ajudavam a esconder o tremor de seus joelhos, Amara se aproximou das chamas. Mais cautelosa do que já havia sido com qualquer tarefa, ela as encarou. Não vendo nada além de chamas devoradoras, ela chegou mais perto, até sentir o calor ameaçando queimar sua pele. Então… lá estava. Amara jurou que podia ver alguma coisa — alguém — olhando para ela.
Um grito escapou de sua garganta enquanto se afastava do fogo. Ela se apoiou em uma cadeira para não cair.
— Eu sou Kyan — disse o rosto que aparecia nas chamas. — Sou a divindade do fogo, libertado de minha prisão de âmbar. E posso ajudá-la a encontrar o que procura.
Seu corpo tremeu. Amara tinha certeza de que só podia ser uma ilusão ou um sonho. Hesitante, estendeu o braço na direção das chamas, sentindo o calor palpável, e tentou falar com a ousadia necessária para ocultar o medo.
— Você… — ela começou a dizer com a voz rouca. — Você é o deus do fogo.
— Sou.
Amara sentiu que todo o seu mundo havia mudado.
— Você pode falar — ela disse.
— Garanto que posso fazer muito mais que isso. Diga, pequena imperatriz, o que você quer?
Ela demorou mais um momento para se recompor e tentar assumir o controle da situação.
— Quero encontrar Lucia Damora — ela disse ao rosto de chamas.
— Porque acredita que ela pode liberar a magia do cristal que você possui. E com essa magia você será mais poderosa do que já é.
— Sim. — Ela ficou sem fôlego. — Essa magia, a magia do cristal da água, é como você? Consciente, sagaz, pensante…?
— Sim. Isso a assusta? — Havia um toque de divertimento naquela voz grave.
Ela endireitou os ombros.
— Não tenho medo. Possuo o cristal da água, o que significa que a magia dentro dele…
— Pertence a você — Kyan completou.
Ela esperou, quase sem fôlego, até a voz falar novamente.
— Posso ajudá-la a conquistar tudo o que sempre desejou, pequena imperatriz. Mas primeiro você precisa me ajudar.
— Como?
— A feiticeira cujo nome você pronunciou destruiu minha forma física, acreditando que assim me destruiria também. Mas o fogo não pode ser destruído. No entanto, só posso continuar neste mundo como um mero esboço de minha verdadeira forma. Com sua ajuda, serei totalmente restaurado à minha força anterior, e então lhe darei mais do que já sonhou ser possível.
Ele fez uma pausa, como se quisesse deixá-la assimilar o que tinha acabado de dizer. O que ele dizia vinha direto de uma lenda kraeshiana, uma criatura mágica de outro mundo que prometia conceder desejos a alguém.
Uma mistura intoxicante de medo e curiosidade a consumia. A ideia de que possuía, durante todo esse tempo, uma esfera de cristal com uma entidade como ele a deixava aturdida. Magia elementar… mas com consciência própria. Incrível, ela pensou.
Ainda assim, Amara tinha dúvidas.
— Você faz grandes promessas, mas não mostra nada tangível.
A chama aumentou mais, e ela deu um salto para trás.
— Posso recorrer a outras pessoas; pessoas que concordariam com o que peço sem hesitar. Ainda assim, escolhi você porque vejo com clareza que é mais grandiosa do que todas as pessoas juntas. Você tomou o poder com força e inteligência que vão além daquelas de qualquer homem que já existiu. Você é melhor, mais forte, mais inteligente do que seus inimigos, e mais merecedora da glória do que a feiticeira.
O rosto de Amara corou. As palavras dele eram como um bálsamo de cura para a fraca esperança que tinha para o futuro.
— Fale mais. Conte como libertar o ser mágico que há dentro do cristal da água para me ajudar a solidificar meu reinado como imperatriz.
Kyan não disse nada por um instante, e Amara procurou seu rosto nas chamas. Ele surgia e sumia enquanto o fogo queimava. Parecia que o deus do fogo podia aparecer e desaparecer quando quisesse.
— Sangue e magia. É disso que você precisa, que nós dois precisamos. O sangue da feiticeira e a magia de uma bruxa poderosa. Quando as peças estiverem no lugar, serei restaurado à minha antiga glória; e você, pequena imperatriz, terá poder infinito.
Um tremor de satisfação percorreu suas costas enquanto ela encarava as chamas.
— O que preciso fazer?
— A pergunta correta é: aonde você precisa ir?
Ela respirou fundo e assentiu.
— Aonde?
As chamas se agitaram, os tons de vermelho e laranja, branco e azul, ficaram mais fortes, mais vibrantes.
— Paelsia.

Um comentário:

  1. A Amara é tão carente que chega a dar dó, vai acreditando em tudo o que os outros falam...

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