3 de setembro de 2018

Capítulo 8

MAGNUS
LIMEROS

O pai de Magnus costumava insistir para que ele participasse das reuniões do conselho real quando era mais jovem, embora o príncipe não prestasse muita atenção nelas. Ele se arrependia disso agora, enquanto tentava com muito empenho não se afogar em um mar de dilemas complicados e decisões políticas.
A primeira reunião tinha sido ruim, e os conselheiros não hesitaram em demonstrar seu desânimo por Kurtis não estar mais no comando. É claro que não ousaram ser rudes, mas, de seu assento à cabeceira da longa mesa, Magnus pôde sentir a desaprovação crescente na rígida linguagem corporal e nos olhares severos. Muitos dos atuais conselheiros, incluindo os ricos e influentes lorde Francus e lorde Loggis, e o sumo sacerdote Danus, faziam parte do círculo mais próximo do rei desde que Magnus era um garoto emburrado com o hábito de se manter escondido no palácio. Com certeza, naquela época, não o viam como um forte e competente herdeiro ao trono. E Magnus sabia que ainda era julgado daquela maneira, sem saberem que ele estava diferente, muito mais parecido com o pai em vários aspectos.
O conselho solicitou por unanimidade que o lorde Kurtis assumisse um assento no conselho, alegando ser seu direito, em razão de toda a responsabilidade que havia assumido durante a ausência de seu pai. Como Kurtis não havia cometido nenhum crime de fato contra o trono, e para acalmar o conselho, Magnus decidiu atender à solicitação.
Magnus examinou o documento que havia sido entregue a ele no início da reunião do dia.
— É um problema e tanto, não é, vossa alteza? — Kurtis perguntou em seu tom agudo.
A guerra com Auranos — por mais curta que tivesse sido — havia custado a Limeros uma grande fortuna. O déficit também foi potencializado pelo alto custo da construção da Estrada Imperial. Para compensar, mesmo os cidadãos mais pobres tinham começado a pagar impostos até chegar à miséria absoluta. O reino ainda não havia falido por completo, mas estava claro que algo precisava mudar.
— A situação é extremamente preocupante — Magnus disse devagar. — Mas o que mais me preocupa, lorde Kurtis, é que nos meses em que seu pai foi grão-vassalo do rei, ele não foi capaz de chegar a uma solução razoável.
— Minhas mais sinceras desculpas, vossa alteza, mas meu pai não tinha autoridade para fazer mudanças tão rigorosas sem a permissão do rei. E o rei ficou em Auranos, ocupado com assuntos do sul por tanto tempo que ouso dizer que muitos de seus súditos quase se esqueceram de seu rosto.
Um comentário tão insolente quanto aquele deveria ter recebido olhares sinistros dos outros membros do conselho, mas, em vez disso, Magnus os viu assentindo.
Um guarda entrou na sala.
— Vossa alteza — disse o guarda, fazendo uma reverência —, peço desculpas por interromper, mas a princesa Cleiona está aqui.
Essa era a última coisa que esperava ouvir de um guarda ao interromper uma reunião do conselho.
— E?
O guarda franziu a testa e então olhou para Kurtis, que se levantou.
— Vossa alteza, isso é obra minha. Sua adorável esposa expressou interesse em participar desta reunião do conselho durante nossa aula de arqueirismo hoje pela manhã, e não a dissuadi.
— Entendo — Magnus respondeu, áspero.
— Ela está ansiosa para aprender sobre tudo, vossa alteza, mas é claro que vou entender se considerar que não há lugar para uma mulher em reuniões como esta.
Ouviu-se o burburinho na mesa do conselho de velhos, que concordavam com aquela afirmação.
Magnus achou que sabia o que Kurtis estava tentando fazer. Ele queria que Magnus parecesse um tolo perante o conselho, fosse por permitir que uma mulher se juntasse à reunião — mulheres eram rigorosamente proibidas de participar de quaisquer afazeres oficiais do palácio — ou por se opor àquela sugestão, arriscando assim ofender a princesa, o que permitiria que Kurtis ganhasse mais um pouco da confiança de Cleo.
Magnus gesticulou para o guarda.
— Deixe-a entrar.
Cleo entrou na sala do trono, com o olhar intenso e o queixo levantado. Se estava nervosa por estar ali, não demonstrava.
Seu vestido era azul, a cor de Auranos, e sua favorita. O cabelo longo e loiro caía solto até a cintura, sem tranças nem cachos.
Magnus preferia quando ela usava o cabelo preso. Assim não o distraía tanto.
— Princesa — ele disse com firmeza, indicando a cadeira vaga à sua direita. Um pouco hesitante, ela se aproximou e sentou.
Durante o tempo que passaram em Limeros, é claro que ele via Cleo durante as refeições e outros eventos públicos, mas não falava em particular com ela desde a discussão que tiveram na varanda. Magnus lembrou que devia evitar varandas no futuro — eram lugares perigosos para ficar a sós com ela.
— Todos vocês tiveram a honra de conhecer a princesa Cleiona Bellos de Auranos. — Ele apresentou os membros do conselho mais uma vez, que acenaram com a cabeça. — E, é claro, princesa, que já conhece bem o lorde Kurtis.
— De fato. Lorde Kurtis tem me ensinado arco e flecha durante esta última semana — Cleo explicou aos conselheiros. — Ele é um excelente tutor.
— E você é uma excelente aluna — Kurtis respondeu. — Logo estará vencendo competições como sua irmã, se for esse seu objetivo.
Ah, sim, Magnus pensou com ironia. Tenho certeza de que é exatamente por isso que ela quer aprender a atirar flechas afiadas precisamente.
Magnus decidiu imaginar o olho direito de Kurtis como seu próprio alvo pessoal.
— Vossa alteza, talvez seja interessante pedir a opinião da princesa sobre o problema em pauta? — Kurtis sugeriu.
Aquilo soou muito como um desafio.
— Sim — Magnus concordou. — Seria interessante, não?
— Isto é absolutamente ridículo — o sumo sacerdote disse em voz baixa.
— O quê? — Magnus perguntou, ríspido. — Disse alguma coisa?
O sacerdote abriu um sorriso fraco.
— Não, vossa alteza. Estava apenas pigarreando. Estou ávido para ouvir o que sua esposa pensa.
Magnus empurrou o documento financeiro para Cleo. Ela o examinou rapidamente, e sua expressão ficou séria.
— Esta é uma quantia enorme de dinheiro — ela disse. — Quem é o credor?
— O rei Gaius tem um acordo com os usurários de Veneas — Kurtis respondeu. — Eles esperam ser pagos sem grandes atrasos.
— E então vocês estão cobrando impostos de todo o povo limeriano para alcançar essa grande soma? — Ela lançou um olhar intenso para cada um dos membros do conselho. — E os ricos?
— O que há com os ricos, vossa graça? — perguntou lorde Loggis.
— De acordo com este documento, os problemas financeiros foram causados por decisões tomadas pelos ricos. Por que não se espera que eles contribuam com seu quinhão desta dívida e limpem a própria bagunça?
— É uma opinião e tanto para alguém da realeza auraniana — Loggis retrucou. — Por outro lado, os pobres de Auranos seriam equivalentes a nossos ricos, não?
— Obrigada por sua opinião sobre minha terra natal, mas não respondeu à minha pergunta — Cleo disse, com um sorriso paciente. — Devo entender seu insulto como uma forma de evitar o assunto? Ou como incerteza quanto ao motivo de os impostos serem estruturados dessa maneira?
Magnus a observava com um deleite que mal conseguia disfarçar. Cleo com certeza não estava ganhando muitos aliados na sala, mas ele achava aquela habilidade de defender seu próprio ponto de vista profundamente admirável.
Mas não pretendia admitir isso em voz alta algum dia, é claro.
— E então? — Cleo insistiu, lançando um olhar para lorde Kurtis.
Kurtis estendeu as mãos abertas.
— Podemos apenas esperar que seu marido encontre uma solução que beneficie a todos. É ele, afinal, quem está no comando.
Naquele momento Magnus imaginou outra flecha entrando no olho esquerdo de Kurtis. Aos poucos. Repetidamente.
— Bem — Magnus disse depois de um longo silêncio —, o que sugere, princesa?
Cleo o encarou, e era a primeira vez que o olhava de forma tão direta desde a última conversa na varanda.
— Quer saber mesmo?
— Se não quisesse, não perguntaria.
Ela o encarou por mais um instante, antes de voltar a falar:
— Meu pai nunca teve problema com dívidas.
— Que bom para o seu pai — lorde Loggis resmungou.
Ela lançou um olhar penetrante para o lorde, depois se virou para se dirigir ao resto do grupo.
— Na verdade, foi exatamente o oposto. Auranos era e é muito rico. Meu pai emprestou dinheiro a outros reinos com frequência, assim como se sabe que aqueles de Veneas fazem.
— E? — Magnus provocou depois que todos na mesa ficaram em silêncio. — Como essa lembrança do passado pode auxiliar na situação atual? As finanças de Auranos foram incluídas como parte deste documento; parte de Mítica como um todo. E eles também tiveram os cofres esvaziados numa tentativa de pagar uma parcela desta dívida.
“Graças à sede de poder do seu pai” eram as palavras não ditas que Magnus tinha certeza de que tinha visto brilhando nos olhos semicerrados da princesa.
Cleo limpou a garganta e em seguida suavizou a expressão, que tinha se tornado dura, com um sorriso paciente.
— Talvez — ela disse. — Mas o problema tem origem em Limeros, não em Auranos. Limeros, pelo que sei, nunca chegou nem perto de ser rica como Auranos. Há muitas coisas separando nossos povos, não apenas a terra paelsiana. Mas, em meio a essas diferenças, acredito que possamos encontrar uma resposta.
Lorde Francus se inclinou para ficar mais próximo e analisou a princesa com uma expressão de descontentamento, ainda que demonstrasse curiosidade.
— E qual, precisamente, é essa resposta, vossa graça?
— Em uma palavra só? — Ela lançou um olhar para todos da mesa. — Vinho.
Magnus piscou.
— Vinho.
— Sim, vinho. Suas leis proíbem qualquer tipo de bebida alcoólica, mas, ainda assim, o vinho é uma fonte de grande fortuna; tanto pelas vendas dentro do reino quanto pelas exportações. Enquanto o solo limeriano é provavelmente frio demais para cultivar qualquer coisa, os vinhedos de Paelsia não ficam tão longe daqui. Um bom terço da terra deles ainda é rico, mesmo que o povo não seja. Se trabalhadores e mercadores limerianos ajudarem os paelsianos na produção e no comércio de vinho, com a ajuda dos auranianos, Mítica pode voltar a ser um reino de muita abundância.
— O vinho é proibido em Limeros — o sumo sacerdote comentou, de forma ríspida.
Cleo franziu a testa.
— Então desproíbam. Este conselho certamente tem o poder para fazê-lo, correto?
— A deusa proibiu! — o sumo sacerdote gritou. — Apenas ela pode fazer tal mudança, e não a vejo sentada à mesa. Uma sugestão dessas é... — Ele balançou a cabeça em negativa. — Ridícula. E, francamente, ofensiva!
Cleo o encarou, exasperada.
— A sugestão para mudar uma lei obsoleta que impede que a crise financeira seja resolvida, que poderia garantir o futuro do reino se fosse revertida, é ofensiva?
— Nossa deusa... — ele começou.
— Esqueça sua deusa — Cleo o interrompeu. Vários membros do conselho engasgaram. — É preciso pensar nos cidadãos, especialmente nos pobres, que estão sofrendo neste exato momento.
Todos começaram a falar ao mesmo tempo, um argumento se sobrepondo ao outro, criando uma cacofonia de resmungos.
Magnus recostou na cadeira, juntou as mãos sobre as pernas e observou em silêncio o acesso de fúria. As bochechas de Cleo ficaram vermelhas, mas ele sabia que não era por constrangimento, mas sim por pura raiva.
— Quietos, todos vocês — Magnus disse, mas ninguém o escutou por causa do barulho que faziam. Ele gritou: — Silêncio!
O conselho finalmente se calou, e todos os olhares se voltaram para ele, cheios de expectativa.
— A sugestão da princesa Cleiona sem dúvida é... — Qual seria a melhor maneira de colocar? — auraniana.
— Revoltante é mais adequado — Loggis resmungou.
— Revoltante para nós, talvez. Mas não significa que não tenha seu mérito. Talvez Limeros tenha ficado presa ao passado por muito tempo. Deixando a tradição religiosa de lado, a princesa sugeriu uma solução em potencial, e concordo que mereça mais consideração e discussão.
Cleo virou para ele, o rosto tomado pela surpresa.
— Mas a deusa... — o sumo sacerdote começou a protestar mais uma vez.
Magnus levantou a mão.
— No momento, a deusa não ocupa um assento neste conselho.
— Eu represento a deusa aqui, caso tenha se esquecido — ele continuou, com a voz inflamada, em tom de desafio. E torceu o nariz quando Magnus lançou um olhar severo, depois baixou os olhos para a mesa, rangendo os dentes.
Magnus se levantou e deu a volta na longa mesa, ponderando sobre aquele problema.
— Vou enviar uma mensagem para meu pai apresentando essa proposta. Como ele nunca tentou suspender as vendas e o consumo de bebidas alcoólicas em Auranos, acredito que possa ver o potencial nisso de resolver muitos problemas com uma decisão arrojada. — O sumo sacerdote abriu a boca mais uma vez, e Magnus levantou a mão para interrompê-lo. — Pode jurar pela deusa neste exato momento que nunca provou nem uma gota de vinho na vida, sumo sacerdote Danus? Eu, com certeza, não posso.
— Nem eu — Kurtis reconheceu. — A princesa é tão esperta e inovadora quanto é bonita.
— De fato, ela é — Magnus concordou sem pensar.
Cleo olhou de relance para ele, claramente surpresa com aquela confissão. Os olhares se encontraram e se mantiveram. Ele foi o primeiro a desviar.
— Esta reunião chegou ao fim — Magnus anunciou, recobrando a voz.
Os membros do conselho se movimentaram para sair, mas lorde Loggis levantou um dedo e os impediu.
— Há um último assunto a ser discutido, vossa alteza — ele disse. — A enorme equipe de busca formada por guardas que foi enviada para procurar a princesa Lucia não encontrou nada. Desculpe, mas manter tantos homens nessa tarefa parece mau uso tanto de mão de obra quanto de recursos.
O nome de sua irmã atraiu toda a atenção de Magnus.
— Eu discordo.
— Mas, vossa alteza, nada nessa atual situação indica que sua irmã esteja em perigo — lorde Loggis prosseguiu. — Talvez... — Ele pigarreou. — Talvez assim que a princesa tiver tempo suficiente para refletir sobre seus últimos atos e sobre como podem ter causado certo alarde, ela simplesmente retorne ao palácio, e todos ficarão bem e serão perdoados.
Quando Magnus triplicou o número de guardas encarregados de procurar Lucia, não deu a eles e nem a seus comandantes nenhum detalhe sobre o desaparecimento. Não revelou que o tutor dela era um Vigilante exilado. Que Lucia era uma feiticeira. Que o único lugar onde sabia que ela tinha estado de fato fora deixado manchado de sangue, com cadáveres do lado de fora e uma tempestade de gelo conjurada por magia elementar pura e irrestrita.
— Mais uma semana — Magnus disse. — Se os guardas não a encontrarem nesse período, convoco metade deles de volta. — Lorde Loggis abriu a boca para protestar mais, mas Magnus levantou a mão. — É minha decisão final.
O lorde concordou, com um olhar desprovido de qualquer cordialidade.
— Sim. É claro, vossa alteza.
Magnus apontou para a porta, e os membros do conselho marcharam para fora da sala.
— Princesa, espere — ele disse, interrompendo Cleo, que estava prestes a atravessar a porta.
Ela se virou para Magnus, outra vez com uma expressão de surpresa, e então ele fechou a porta quando os outros saíram, deixando-os sozinhos na cavernosa sala do trono.
— Pois não? — ela disse.
— Pode parecer estranho, mas acho necessário agradecer por sua participação hoje.
Ela levantou as sobrancelhas.
— Me agradecer? Estou sonhando?
— Não se preocupe. Estou certo de que não vai acontecer de novo tão cedo. — Magnus se aproximou ainda mais de Cleo, e o sorriso dela se desfez.
— Deseja mais alguma coisa? — ela perguntou.
Se ao menos você soubesse, ele pensou. Provavelmente fugiria correndo daqui e nunca olharia para trás.
— Não — ele respondeu.
Ela limpou a garganta.
— Nerissa chegou pela manhã.
— Então foi ela a responsável por seu cabelo hoje? — Ele enrolou uma mecha sedosa e loira no dedo e a examinou com cuidado, sentindo o perfume, como se fosse uma flor exótica e intoxicante.
— Foi — Cleo respondeu depois de uma longa pausa.
— Em Limeros, mulheres decentes não usam o cabelo solto desse jeito. Diga a ela para fazer tranças ou prendê-los daqui por diante. A menos que seu objetivo seja parecer uma cortesã.
Cleo puxou o cabelo da mão dele.
— Preciso lhe agradecer também, Magnus.
— Por quê?
— Por me lembrar constantemente de como você realmente é. Às vezes eu me esqueço.
Com isso, Cleo passou por ele e deixou a sala.


Dizia-se que a razão pela qual a deusa Valoria havia proibido o consumo de álcool em suas terras era garantir que o povo sempre mantivesse a pureza, a saúde e a clareza de pensamento.
Mas em qualquer terra onde se proibia algo, sempre havia maneiras de se adquirir o proibido. Magnus tinha ouvido rumores sobre uma das maneiras — e sobre como ter acesso a ela — a apenas alguns quilômetros do palácio, em uma hospedaria que parecia caindo aos pedaços, chamada Uróboro.
Ele entrou na hospedaria, deixando o único guarda que havia levado consigo esperando do lado de fora com os cavalos. Estava quase vazia; apenas uns poucos clientes ocupavam a pequena área com mesas, e nenhum deles se deu ao trabalho de levantar a cabeça para ver quem tinha entrado.
Magnus analisou o local, protegido pelo pesado capuz de seu manto negro, e seu olhar pousou sobre uma porta de madeira com aldrava de bronze na forma de uma cobra devorando o próprio rabo. Ele a segurou e bateu três vezes rápido, três vezes devagar.
A porta abriu com um rangido pouco depois, e ele a atravessou para chegar a outro salão — muito maior e com mais pessoas do que o anterior. Magnus examinou os rostos rosados em vinte ou mais mesas, as mãos agarradas às canecas de cerveja, até se deparar com um rosto dolorosamente familiar.
— Incrível — ele resmungou enquanto se aproximava da mesa no fundo do salão.
— Ora, ora! — Nic exclamou com a língua enrolada, levantando a caneca e derramando cerveja. — Veja quem está aqui! Devo fazer um anúncio formal de sua chegada?
— Prefiro que não. — Magnus passou os olhos de novo pelo grande salão, mas ninguém parecia tê-lo reconhecido até então.
— Venha. — Nic empurrou com o pé a pesada cadeira de madeira que estava a seu lado. — Junte-se a mim. Odeio beber sozinho.
Magnus ponderou por um instante e depois fez o que Nic sugeriu. Manteve-se de costas para o resto das pessoas para continuar ocultando sua identidade.
— Está com sede? — Nic perguntou, sinalizando para que o taberneiro fosse até a mesa deles sem nem esperar a resposta.
O homem corpulento e careca, com barba cheia e escura, aproximou-se com confiança, mas, no momento em que Magnus olhou para ele por baixo do capuz, seus passos se tornaram hesitantes.
— Vossa alteza — o homem disse, ofegante.
— Silêncio — Magnus respondeu. — Não é necessário informar a ninguém sobre minha presença.
O homem tremeu enquanto se curvava e baixou o tom de voz até um sussurro rouco.
— Eu imploro, não me julgue com tanto rigor. Normalmente não sirvo tais bebidas malditas e pecaminosas aqui. Mas a noite está tão fria e... bem, estes leais cidadãos procuravam apenas alguma coisa para aquecer a barriga.
Magnus olhou para o homem com calma.
— Então é isso? Em uma sala exclusiva que requer uma batida especial para entrar?
O taberneiro fez uma careta, e seus ombros desabaram.
— Poupe minha família. Leve-me. Execute-me. Mas os deixe em paz. Eles não têm nenhuma responsabilidade por minhas decisões sombrias.
Magnus estava sem paciência para mártires chorões aquela noite.
— Traga-me uma garrafa de seu melhor vinho paelsiano. Não há necessidade de taça.
— Mas... — O homem piscou repetidamente. — Bem, vossa alteza, vinho paelsiano é vendido somente em Auranos. É parte do acordo entre eles, como o senhor decerto sabe. Mesmo que a lei me permitisse vendê-lo, não poderia ser importado para cá.
Magnus olhou feio para ele.
— Sim, é claro, muito bem — cuspiu o taberneiro. — Minha melhor garrafa de vinho paelsiano. Já está a caminho.
O homem desapareceu em uma sala nos fundos e voltou quase no mesmo instante com uma garrafa verde-escura de vidro com o símbolo paelsiano, uma videira, gravado de forma tosca. Enquanto o taberneiro a desarrolhava, Magnus olhava de relance para Nic.
— Isso é proibido. — Nic apontou para a garrafa. — Príncipe Sanguinário mau. Muito mau!
Magnus sinalizou para o taberneiro sair, então tomou um grande gole direto da garrafa e se permitiu um momento para apreciar a doçura familiar enquanto a bebida deslizava por sua língua.
Nic bufou.
— Mas é claro, você pode fazer o que quiser. Contanto que seu pai diga que está tudo bem.
Embora Magnus acreditasse que Nic merecia uma morte dolorosa havia tempos, precisava admitir que aquele rapaz o divertia de vez em quando.
— Seria bom você considerar a possibilidade de eu não me importar com o que meu pai diz — ele disse, tomando mais um gole. — Há quanto tempo está bebendo aqui, Cassian?
Nic balançou a mão de forma petulante.
— O suficiente para não me importar com o que vai acontecer depois. Posso matá-lo agora mesmo. Sério. Simplesmente atravessá-lo com essa faca de mesa. Até que esteja bem morto.
— Claro, bom, o sentimento é recíproco. Agora podemos escolher alguma coisa pela qual valha a pena brindar esta noite?
Nic voltou sua atenção à cerveja, olhando para baixo como se a bebida pudesse dizer seu futuro.
— Ao príncipe Ashur.
— Como?
— Príncipe Ashur. Lembra-se dele? — Seu rosto ficou melancólico. — Quero saber se ele foi enterrado e onde. Não é certo que fique em uma sepultura sem identificação. Ele era da realeza, sabe? Seu corpo devia ter sido tratado com mais respeito.
Magnus fez menção de tomar mais um gole, mas percebeu que já tinha bebido todo o conteúdo da garrafa. Poucos segundos depois, o taberneiro nervoso correu para substituí-la.
— Qual a relação entre vocês dois, exatamente? — Magnus perguntou, a nova garrafa já aberta. Estava curioso sobre Nic e Ashur desde a noite em que fora revelado que trabalhavam juntos contra Amara.
Nic não respondeu e continuou olhando fixamente para sua bebida. Então, o efeito sublime de beber vinho rápido começou a tomar conta de Magnus, e o salão ao redor começou a girar e brilhar. O peso do dia finalmente tinha sido aliviado.
— Ah, agora resolveu fechar a boca, é? Considerando os boatos que ouvi a respeito do príncipe, não fico muito surpreso.
Nic franziu a testa.
— Que boatos?
Magnus o encarou.
— Estou certo de que entendeu o que eu disse.
Nic tomou a cerveja, envolvendo a caneca com as mãos pálidas.
— Não é isso. Ele era meu amigo.
— Uma amizade bem curta, e, ainda assim, a morte dele causou um pesar tão profundo.
— Não quero falar sobre isso.
O rosto do rapaz corou. Parecia que Magnus tinha chegado perto demais da verdade. Ele quis ficar satisfeito com a pequena vitória, mas não parecia capaz de invocar tal emoção. Em vez disso sentiu... o que era aquilo? Compaixão?
Ele tomou um bom gole do vinho.
— Deve ser muito desagradável sentir algo tão... inegável por alguém por quem não deveria sentir nada. — Ele fez uma pausa, perdendo-se em seus pensamentos. — E saber que tais sentimentos são errados.
— Não havia nada errado naquilo — Nic resmungou.
Magnus prosseguiu, ignorando o argumento.
— Se permitir, essa... fraqueza por outra pessoa pode destruí-lo. Não, ela vai destruí-lo. Não tem outro fim possível. Então você precisa ser forte, mesmo quando não parece haver esperança. Quando não há como negar que há uma... uma pedra no seu sapato, irritante, dolorosa e impossível de ignorar.
Nic o encarou.
— Sobre o que está falando, pelo amor da deusa?
Magnus secou o que restava na nova garrafa antes de voltar a falar.
— Esqueça.
— Sabe, eu entendo — Nic disse, estreitando os olhos. — Você não consegue me enganar. Sei por que fez o que fez. Por que mais teria salvado a vida dela? Você a deseja, não?
O pior medo de Magnus — de ser tão transparente, mesmo para alguém tão insignificante quanto Nicolo Cassian — estava diante dele, ameaçando enfraquecê-lo a um ponto do qual não conseguiria se recuperar.
Ele deveria apenas levantar e sair sem dizer mais nada, mas seus membros estavam tão pesados, e os pensamentos tão confusos, que ficou ancorado no lugar.
— Não estamos falando sobre quem eu desejo — ele devolveu. — E sim sobre você desejando o príncipe Ashur.
— Cale a boca — Nic o repreendeu.
Magnus levantou da mesa para encarar o rapaz de uma posição superior.
— Não, cale você a boca. Se há alguém que quero, é Lucia. Apenas Lucia.
Tenho certeza de que ouviu rumores sobre como o desejo que sinto por minha irmã controla tudo o que faço, cada decisão que tomo.
Uma sombra de dúvida surgiu no olhar de Nic.
— Talvez eu tenha. Mas rumores são rumores, e estive observando-o. A maneira como olha para Cleo, às vezes...
Quase imediatamente, Magnus desembainhou a espada e a pressionou contra o pescoço de Nic.
— Você vê coisas que não existem — ele sussurrou.
A fúria brilhou nos olhos de Nic.
— Vá em frente. Corte minha garganta. Você podia não saber quem era Theon quando o matou, mas imagine como o ódio de Cleo por você será muito maior se me matar também. É por isso que sei que não fará nada. Ela o defendeu para mim muitas vezes, mas eu vejo a verdade. Não importa quantas vezes salve a vida dela ou poupe a minha. O que fez, os atos pelos quais sua família foi responsável são imperdoáveis. Não importa o que tiver que fazer para protegê-la de você, eu o farei.
— Você é tão forte, não? Tão valente.
— Sou mais forte e valente do que pode imaginar. Anote o que estou dizendo, vossa alteza: odiarei você e seu pai pelo resto da eternidade. Agora me mate ou me deixe ir.
— Só está valente esta noite por causa da cerveja. Não estaria dizendo nada disso se já não estivesse embriagado.
Nic afastou a ponta da espada de Magnus da garganta.
— Pode ter certeza de que eu estaria.
Nic levantou, tomou o resto da bebida da caneca e saiu da taberna.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!