29 de setembro de 2018

Capítulo 8

NUNCA TINHA VISTO TANTA GENTE NA MINHA VIDA quanto do lado de fora da estação de trem de Juniper. À minha esquerda, um homem de barba grisalha gritava através do vapor que subia de sua barraca, enquanto botava mais espetos de carne no fogo. Do outro lado, uma mulher vestida de dourado e carregando sinos cantava a cada passo que dava. O som de alguém pregando ecoou sobre o burburinho. Um pai sagrado estava de pé na pequena plataforma acima da multidão, as mãos levantadas, as tatuagens circulares idênticas da ordem sagrada nas palmas, viradas para a plateia. O tom de sua voz, subindo e descendo conforme pregava, me lembrou de Tamid. Senti uma onda de culpa quando pensei no meu amigo. Eu o deixara sangrando na areia para me manter viva.
O pai sagrado abaixava as mãos no fim de cada prece, abençoando a multidão que se aglomerava a seus pés. Perdoando nossos pecados.
O fluxo de pessoas me levou adiante, até a ponta do souq, sob um arco sujo de fuligem. Mulheres carregando trouxas na cabeça passaram por mim; homens arrastando baús com o dobro de seu tamanho me empurraram.
Me movi com a multidão espremida até a parte sombreada da estação, cambaleando enquanto absorvia o cenário ao meu redor. Tinha ouvido falar dos trens, mas não estava pronta para aquilo. A enorme fera preta e dourada se estendia pela estação como um monstro das histórias antigas, respirando fumaça negra sob o domo de vidro sujo. A multidão se aglomerou para entrar.
— O bilhete? — Um homem de uniforme e boné amarelo pálido estendeu a mão, com cara de tédio.
Precisei me esforçar para abrir mão do bilhete e deixar que o pegasse. Eu havia levado dois dias para ir de Sazi a Juniper, mesmo no buraqi. Além disso, a bússola que eu roubara de Jin enquanto ele estava desmaiado (junto com metade dos seus suprimentos) estava quebrada e me levara para a direção errada, me obrigando a esperar até o nascer do sol para encontrar o caminho de novo.
Quando cheguei à cidade fui obrigada a fazer um péssimo negócio, vendendo o buraqi por metade do que ele valia. Mas metade era melhor que nada. E o mais importante: era suficiente para comprar um bilhete direto para Izman. Ver o nome impresso em tinta preta no papel amarelo o fazia parecer só mais uma lenda, prestes a desaparecer a qualquer momento das minhas mãos. Eu tinha escondido o bilhete sob o colchão do quarto que alugara, e fiquei verificando se estava lá tantas vezes que acabei decidindo que era mais fácil simplesmente mantê-lo colado em mim.
O cara do bilhete olhou para mim e franziu a testa. Ajeitei as roupas novas, insegura. Não era tão fácil me fingir de garoto à luz do dia, mas eu tinha que tentar. O machucado feio na minha bochecha tinha passado para um amarelo esverdeado que mal aparecia sob o sheema vermelho, e minhas roupas estavam soltas nos lugares certos. Tudo o que eu tinha de valor estava enfiado em faixas amarradas para esconder minha cintura, incluindo o que sobrara do meu dinheiro, algumas moedas de Xicha e a bússola velha que Jin tinha deixado pendurada perto dos alforjes. Bastaria alguém olhar bastante para mim para desmascarar meu disfarce. Mas até uma pobre imitação de garoto era melhor do que uma garota viajando sozinha.
Puxei a ponta da camisa, cobrindo a arma nova que tinha comprado com o dinheiro do buraqi. Não conseguiria entrar no trem à força, mas talvez conseguisse escapar dos homens de boné amarelo se precisasse.
Estava prestes a descobrir se seria necessário.
— Este bilhete é de primeira classe. — Ele balançou o bilhete na minha cara como se fosse uma mãe dando bronca no filho.
— Ah — eu disse, porque não sabia do que ele estava falando. Me esforcei para me acalmar. — É?
Por um instante tive certeza de que ele ia me acusar de ter roubado o bilhete. O que quer que fosse a primeira classe, aparentemente eu não tinha cara dela. Especialmente com a bochecha ferida e o corte no supercílio.
— Você precisa ir para a frente do trem. — Ríspido, ele me estendeu o bilhete e apontou para uma área mais adiante da fera de metal, além da multidão aglomerada.
— Ah — eu disse de novo. Peguei o bilhete de volta e abri caminho entre as pessoas, desviando por pouco de um homem que conduzia uma gaiola de rodinhas coberta, de dentro da qual saía um pio alto, audível mesmo no alvoroço da estação.
O homem que tinha me vendido o bilhete havia perguntado se eu queria uma cabine só para mim, e eu dissera que sim. Na hora pareceu mais sensato, e não pensei duas vezes em pagar o valor que ele pediu. Agora eu me perguntava se não teria mais vinte fouzas comigo se tivesse sido mais esperta.
Vi uma área isolada por cordas onde pessoas em khalats de tecido fino e sheemas coloridos esperavam, segurando bilhetes amarelos como o meu. Minhas roupas eram novas, mas eram roupas simples de deserto. Minha vida inteira estava na sacola pendurada no meu ombro. Não era grande coisa. Munição extra, uma muda de roupa. O básico para sobrevivência. Todas as outras pessoas pareciam carregar uma dezena de vidas em baús grandes e lotados.
Percebi um homem com barba trançada me analisando da cabeça aos pés pelo canto do olho, e as duas garotas atrás de mim tentavam disfarçar as risadas. Eu não tinha certeza se o homem que pegou meu bilhete estava erguendo as sobrancelhas por causa do modo como eu me vestia ou se aquela era sua expressão normal. Independente do motivo, ele aceitou o bilhete, rasgando-o com cuidado antes de devolvê-lo. Então subi os degraus de metal o mais rápido que pude sem parecer que estava me safando de algum crime.
Eu nunca tinha visto nada parecido com o interior do trem. Um longo corredor com carpete cor de sangue atravessava o vagão em linha reta, de onde se abriam portas de metal polido, cada uma com uma janela de vidro com cortina vermelha.
E eu achava que a família de Tamid tivesse dinheiro.
As garotas das risadinhas passaram por mim, os véus de musselina balançando. O homem atrás delas cuspiu um “com licença” ríspido, que soou como se não quisesse pedir licença a ninguém.
Abaixei a cabeça para ocultar meus olhos e acabei observando a bainha colorida dos khalats varrendo o carpete espesso e descendo o corredor.
Segui o grupo até encontrar uma cabine com o número inscrito no meu bilhete. Abri a porta com tanto cuidado quanto na vez em que me desafiaram a descobrir se uma cobra atrás da escola estava morta ou só dormindo. Ainda bem que minha mãe sabia o antídoto para veneno de cobra. Mas aquilo seria algo completamente desconhecido para ela.
Tranquei a porta da cabine e me enfiei na cama, tirando meu sheema com um suspiro de alívio. Estiquei a mão hesitante para acariciar o travesseiro incrivelmente limpo, mas meus dedos se retraíram instintivamente. Eu tinha tomado um banho naquela manhã. Em um banheiro decente, inclusive. Tinha passado óleo no cabelo e o penteado sob a água até que não estivesse mais embaraçado. O vapor seguira o caminho tortuoso das pinturas dos azulejos, fazendo meu cabelo enrolar. Mas eu ainda sentia como se estivesse carregando todo o deserto comigo, como se a areia tivesse penetrado fundo demais na minha pele depois de quase dezessete anos.
Um assovio cortou o ar. Um alarme? Levantei rápido e fui para o outro lado da cabine, arma em punho, apontando para a porta. Esperei alguém abrir de repente.
Nada aconteceu, embora houvesse bastante movimento do lado de fora. E então a cabine inteira sacudiu para o lado. Caí para a direita, aterrissando sentada na cama, e por pouco não apertei o gatilho por acidente. Me segurei enquanto o trem estremecia mais algumas vezes e começava a se movimentar, agora mais suave.
Eu não tinha parado pra pensar como seria andar de trem — achei que seria o mesmo que andar a cavalo. Estava errada. Sentei na cama, sentindo o trem acelerar por alguns instantes antes de levantar. Tudo o que podia enxergar pela janela era fumaça negra preenchendo a estação.
Então, em um impulso violento, estávamos livres. A fumaça correu para cima, sugada em direção ao céu do deserto. Minha janela clareou.
Descansei a testa no vidro. Pela primeira vez o deserto não parecia se estender para sempre. O horizonte acelerava na minha direção. Um sorriso esticou dolorosamente o machucado na minha bochecha.
Eu estava a caminho de Izman.
Deitei na cama macia, balançada gentilmente pelo movimento do trem. A cabine escureceu quando o sol percorreu o caminho de um lado do vagão para o outro. Finalmente, meu estômago começou a roncar, faminto.
Eu o ignorei pelo maior tempo possível. Mas era uma jornada de uma semana até Izman. Eu teria que deixar a cabine mais cedo ou mais tarde.
O trem estava bem movimentado quando pus o pé para fora. Mulheres em roupas finas passavam perto de mim nos corredores, e homens riam e batiam nas costas uns dos outros com as mãos tão cheias de anéis que era incrível que conseguissem levantá-las. Eu me peguei passando a mão pelo papel de parede grosso e vermelho conforme atravessava o trem. Enfiei a mão no bolso. Aquele não era o gesto de alguém da primeira classe.
Saí da área de dormir e entrei num vagão que parecia um bar. Era totalmente diferente do bar escuro e empoeirado em Sazi: estava repleto de luz e o teto tinha manchas da fumaça espessa dos cachimbos. Um grupo de homens jogando cartas caiu na risada perto de mim. Depois dessa área havia um vagão-restaurante. Parei hesitante na porta por um momento até que um homem de uniforme veio e me conduziu até uma mesa.
O couro escuro cedeu sob minhas costas enquanto me instalava apreensiva em uma poltrona perto da janela. Ela rangia embaixo de mim toda vez que eu mudava de posição. Uma mulher na mesa ao lado olhou para ver o que estava fazendo barulho, enquanto eu tentava me acomodar sentando o mais imóvel possível. Eu ainda estava me acostumando com a ideia de ficar sozinha, cercada de pessoas estranhas em vez daquelas que conhecia desde sempre. O melhor a fazer era não chamar atenção. Se alguém olhasse na minha direção, poderia se perguntar por que havia um garoto desarrumado, enrolado em seu sheema, comendo no meio das pessoas bem-vestidas.
Pratos coloridos com pilhas de comida foram colocados na minha frente. Afrouxei um pouco o sheema na boca, olhando em volta para ver se alguém estava prestando atenção em mim. Mas todo mundo olhava para a própria comida. Mantive a cabeça baixa enquanto enfiava uma garfada enorme na boca. Quase engasguei de surpresa. Temperos como aqueles valiam o salário de um mês na Vila da Poeira. Engoli antes de esvaziar o copo de áraque deixado para mim.
A segunda garfada, menor, foi melhor, porque eu já sabia o que esperar. Logo estava devorando a comida. Já estava raspando o garfo no desenho do prato quando vieram levá-lo embora.
Veio um prato depois do outro. Quando lambi a última gota de mel do baklava dos meus dedos, estava quase explodindo de tão cheia. Além de exausta.
Dormir para escapar do calor da tarde não era um luxo que podíamos ter na Vila da Poeira. Mas eu vi isso acontecer em Sazi, onde os mais ricos fugiam das ruas, se protegendo atrás de suas paredes frias. Pelo visto honravam essa tradição ali. As pessoas retornavam discretamente para a cabine ou encostavam nas almofadas do vagão-restaurante para tirar um cochilo.
Voltei para a minha cabine, chutando a porta para fechá-la atrás de mim. Arranquei as botas e desmaiei em cima dos lençóis limpos. Em uma semana estaríamos em Izman. Até lá, eu precisava descobrir como comer, me vestir e me portar do jeito que as pessoas da cidade grande esperavam.
Mas enquanto isso eu poderia fazer o que bem entendesse.

2 comentários:

  1. Ô vida boa, hein
    Pq tenho a impressão q isso n vai durar muito tempo?

    ResponderExcluir
  2. Ô vida boa, hein
    Pq tenho a impressão q isso n vai durar muito tempo?

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!