23 de setembro de 2018

Capítulo 8

NIC
PAELSIA

Nic se lembrava de estar no fundo de um fosso.
Com Cleo.
Com Ashur.
Preso e incapaz de escapar, mas pelo menos estavam juntos.
O instante de esperança em um futuro — qualquer futuro — foi logo extinto quando o incorpóreo deus do fogo se apoderou de seu corpo, fazendo a consciência de Nic cair em espiral por um abismo sem fim.
Ele ainda podia ver, ainda podia ouvir, mas não conseguia pensar. Não conseguia processar o que tinha acontecido com ele ou entender o que significava. Era como estar perdido em um sonho eterno.
Mas quando Magnus segurou o punho de Kyan, algo muito estranho aconteceu.
Nic despertou.
A primeira coisa que Nic viu com clareza foi Magnus, coberto de terra da cabeça aos pés, encarando-o como se fosse um monstro.
A segunda coisa que achou ter visto foi o príncipe Ashur Cortas, escondido nas sombras, atrás do príncipe limeriano.
“Ashur!”, ele quis gritar, mas não conseguiu formar as palavras.
Kyan ainda estava no controle.
Ainda assim, Nic sentiu a confusão de Kyan com o repentino choque da magia fria e desconhecida. Tanto que o deus do fogo não foi atrás de Magnus nem notou a presença de Ashur.
O que tinha acontecido?
Nic sabia de uma coisa: o príncipe Ashur tinha muito interesse em magia. Ele havia explorado o mundo, muito além de Kraeshia e Mítica, em busca de qualquer rastro de magia. Em um navio kraeshiano, durante a viagem de Auranos a Limeros, antes do confronto no Templo de Valoria pela Tétrade da água, Ashur tinha contado a Nic sobre os muitos tesouros que havia procurado e desejado adquirir, antes de colocar os olhos — junto com sua irmã — na Tétrade.
“Existe um amuleto que supostamente permite que alguém fale com felinos”, o príncipe tinha lhe contado um dia durante uma breve visita. Seu leve sotaque era como vinho doce.
Nic, prisioneiro dos Cortas na época, não estava totalmente sob a influência do charme palpável do príncipe, mas nunca conseguia resistir a uma boa história.
“Que tipo de felino? Gatos domésticos? Gatos selvagens?”
“Imagino que ambos.”
“Por que apenas felinos? Por que não cães ou lobos das neves? Ou mesmo roedeiros?”
Ashur franzira a testa.
“O que vem a ser um roedeiro?”
“É uma espécie de coelho… rato… tudo misturado. Mas não é coelho nem rato. São bem saborosos, com o molho apropriado.”
“Um coelho misturado com rato”, Ashur repetira devagar.
“Exato.”
“Por que desejaria se comunicar com ele se vai comê-lo?”
“Eu não disse que queria me comunicar com ele, só estava tentando esclarecer…” Nic suspirara. “Deixe para lá.”
“Não, não. Por favor, me explique. A lógica de Nicolo Cassian é fascinante.” Ashur tinha ficado olhando para ele nas sombras da pequena cabine fechada de Nic, onde Amara acreditava que ele estivesse inconsciente ou amarrado. “Você diria a esse roedeiro que pretendia devorá-lo? Ou apenas perguntaria como foi o dia dele?”
“Bem…”, Nic tinha ponderado com cuidado. “Se eu pudesse me comunicar com ele, não iria querer comê-lo. Então, sim, acho que perguntaria como foi o dia dele.” Depois ele tinha feito uma careta para Ashur, o rosto vermelho. “Está rindo de mim? Sou um divertimento para você, é isso?”
O sorriso de Ashur apenas ficara maior.
“Cada vez mais.”
A questão era que Ashur conhecia magia. E foi só quando apareceu na floresta, depois da fogueira, que Nic conseguiu pensar com clareza, mesmo que apenas para se lembrar de uma conversa trivial com o príncipe.
Ashur tinha feito alguma coisa para ajudar Nic. Algum feitiço, talvez.
Nic não tinha certeza.
Nem Kyan. O deus do fogo deixou a fogueira e voltou ao chalé onde estava desde o ritual fracassado.
Olivia esperava por ele. Estava sentada no chão, do lado de fora, perto da porta, as mãos entrelaçadas com mudas de ervas que estariam verdes e viçosas durante o dia. Sob a pouca luz da lua, pareciam desagradáveis, como uma aranha gigantesca.
A deusa da terra tinha passado os últimos dois dias cercando a casa temporária deles — um simples chalé de pedra — com uma vegetação exuberante.
Kyan observou aquilo com aversão.
— Você vai chamar atenção com toda essa vida nova. Paelsia é uma terra seca.
— Não por muito tempo. Vou restaurar essa terra ao que era muito antes. — Ela virou para Kyan, incapaz de disfarçar o frio em seu olhar. — Não consegui restaurá-los.
Nic sabia que ela estava falando dos antigos donos do chalé — um casal de idosos que havia resistido à expulsão de sua casa. Os cadáveres estavam próximos o bastante para o cheiro da carne incinerada ainda se fazer sentir no ar frio da noite.
— Você não tem esse poder, querida irmã. — A frase soou mais dura do que Kyan pretendia. — A magia da terra requer uma fagulha de vida para funcionar.
— Ah, muito obrigada por me explicar, Kyan. Como eu poderia saber, não é?
Seu tom sarcástico quase o fez recuar.
— Peço desculpas.
— De qualquer modo, todos os mortais serão eliminados logo mais. Teremos uma tela em branco para começar tudo de novo. — Olivia levantou e limpou as mãos na parte da frente do vestido. — Encontrou o príncipe Magnus?
— Não — Kyan mentiu. — Seria conveniente tê-lo como escravo, mas não importa.
— Tudo bem. — O rosto da deusa da terra se contorceu de irritação, alterando as feições imortalmente belas de Olivia. — Então você precisa se concentrar em encontrar a feiticeira e trazê-la para o nosso lado de novo. Não podemos terminar isso sem ela.
Kyan reuniu paciência.
— Eu sei.
Nic não conseguia ouvir os pensamentos do deus do fogo, mas podia senti-los com clareza. Lucia era vital para eles, mais do que Kyan tinha acreditado.
O fato de precisar ir até ela, aquela simples garota que tinha destruído sua antiga carapaça, para implorar sua ajuda… Kyan preferia incendiar o mundo naquele instante e acabar logo com tudo.
Mas não podia.
Ele precisava desesperadamente se reunir com os outros — água e ar.
Cleo e Taran.
O pânico tomou conta de Nic ao pensar que Cleo corria grande perigo, e ele não podia fazer nada para impedir aquilo.
Ele precisava tentar retomar o controle. Se conseguia pensar, ainda estava lá. Não estava morto.
Foco, disse a si mesmo.
Ele se concentrou na própria mão. Na mão direita. E se concentrou em tentar movê-la, o que antes era fácil e totalmente inconsciente.
Ele tentou movê-la, levantá-la só um pouco, mas não o suficiente para Kyan notar.
Não conseguiu. Mas conseguiu mexer o dedo mindinho — só um pouco.
Não é muito, mas é um começo, ele pensou desanimado.
— Ele ainda está esperando por você — Olivia disse a caminho da porta do chalé. — E estava fazendo tantas perguntas que achei que precisava do silêncio aqui de fora.
Kyan entrou com ela no chalé, passando os olhos pela casa simples. Ele meneou a cabeça na direção da lareira, e o fogo se acendeu. Em seguida, olhou para o jovem que se encolhia no canto.
Eles o tinham encontrado perambulando por ali com dois amigos. Kyan tinha queimado os amigos sem hesitar, mas achou que aquele — lorde Kurtis Cirillo — poderia ser útil.
— Não sei por-por que está fazendo isso, Nicolo — Kurtis gaguejou. — Mas meu pai é um homem muito poderoso. Ele pode lhe dar tanto ouro quanto desejar para me deixar ir embora ileso.
Kyan ficou observando o garoto, finalmente se permitindo sorrir.
Ele gostava mais dos mortais quando suplicavam.
— Meu nome é Kyan. — Ele acendeu a mão com chamas, desfrutando o olhar de terror de Kurtis.
No entanto, Nic sentiu um estranho baque de empatia por Kurtis, mesmo desprezando profundamente o ex-grão-vassalo do rei. Uma morte rápida seria muito mais afável do que o que Kyan tinha em mente.
Kyan inclinou a cabeça.
— Vamos começar?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!