16 de setembro de 2018

Capítulo 8

MAGNUS
LIMEROS

— Diga, pai — Magnus disse, segurando firme as rédeas do cavalo. — Você escondeu minha avó em um bloco de gelo? É onde ela viveu por todos esses anos?
O rei não respondeu, e Magnus não esperava que respondesse. Ele estava em silêncio desde o início da viagem, que já durava meio dia. Tinham conseguido cinco cavalos com o dono da hospedaria antes de partir naquela manhã, e cavalgavam em fila, com o rei e Milo à frente, Magnus no meio e Enzo e Cleo atrás.
Ele preferia cavalgar na frente da princesa. Sem observá-la o tempo todo, conseguia pensar sem se distrair. Até então, Magnus sabia que estavam seguindo na direção leste, mas não fazia ideia de qual seria o destino final.
Será que os quatro homens que os seguiam sabiam?
Quando o rei exigiu descansar perto de um rio, Enzo e Milo começaram a fazer uma pequena fogueira. Magnus desceu do cavalo e se aproximou do pai. Ele estava preocupado por que Gaius parecia pior — seu rosto estava pálido como a neve sobre a qual pisavam, tão branco que dava para ver as veias azuis e arroxeadas sob sua pele.
— Amara mandou alguns soldados nos seguir — ele disse.
— Eu sei — o rei respondeu.
— Pretende fazer alguma coisa a respeito? Imagino que sua nova esposa não ficaria feliz em saber que você mentiu sobre os motivos dessa viagem.
— Tenho certeza de que minha nova esposa ficaria surpresa se eu não tivesse mentido. — O rei fez um sinal com a cabeça para Enzo e Milo. — Cuidem deles.
Os guardas assentiram, montando os cavalos e saindo a galope sem perder tempo. Magnus sabia perfeitamente bem o que “cuidem deles” significava, e não se opôs.
— Até onde vamos viajar? — ele perguntou.
— Estamos indo para os Glaciares — o rei respondeu.
Magnus arregalou os olhos.
— Os Glaciares? Então parece que minha teoria do bloco de gelo não estava tão errada, afinal.
Os Glaciares eram uma faixa de terra perto da Costa do Granito, composta basicamente por brejos congelados e vales gélidos. Era o lugar mais frio de Limeros. O gelo ali nunca derretia, nem quando os habitantes do oeste vivenciavam a breve estação temperada que chamavam de verão. Havia apenas um vilarejo localizado nos Glaciares, e Magnus presumiu que aquela cidadezinha congelada devia ser onde Selia Damora estivera escondida esse tempo todo.
O rei não deu mais informações. Ele virou as costas para Magnus e foi encher seu odre no rio. Magnus foi até Cleo, que protegia o rosto com o manto forrado de pele.
— Como você aguenta essa temperatura por tanto tempo? — ela perguntou.
Ele mal tinha notado o frio.
— Deve ser meu coração congelado.
— Pensei que o gelo tinha derretido pelo menos um pouco nas beiradas.
— Ah, não. — Magnus não conseguiu conter um sorriso. — Todos os limerianos têm corações congelados. Derretemos até virar poças d’água em locais como Auranos, com aquele calor implacável.
— Você está me fazendo sentir falta de Auranos. Eu adoro aquele calor. E as árvores, as flores… flores por todo lado. E o pátio do palácio… — A voz dela falhou, e Magnus pôde ver a melancolia em seus olhos. Ela sentou sobre um tronco caído, tirando as luvas para aquecer as mãos na fogueira. Magnus sentou ao lado dela, sem perder o pai de vista.
— Existem pátios em Limeros — ele disse.
Ela balançou a cabeça.
— Não é a mesma coisa. Nem chega perto.
— É verdade. Está com sede? — Ele ofereceu seu odre a Cleo.
Ela olhou com desconfiança.
— Isso está cheio de água ou vinho?
— Infelizmente, água.
— Que pena. Um pouco de vinho seria bom para aquecer.
— Concordo plenamente.
Os dedos enluvados de Magnus roçaram os de Cleo quando ela tirou o odre da mão dele. Ela deu um longo gole e o devolveu.
— Enzo e Milo foram matar os homens que estão nos seguindo, não foram?
— Foram. Isso incomoda você?
— Acho que você deve ter esquecido que não sou a mesma garota que eu era mais de um ano atrás, que teria tremido ao saber de tamanha violência.
Ele arqueou a sobrancelha.
— E agora?
— Sem mais tremores. Só um leve arrepio.
Magnus sentiu vontade de envolvê-la para ajudá-la a se aquecer, mas manteve o foco na fogueira diante deles.
— Não se preocupe. Logo voltaremos a montar os cavalos, rumo aos ainda mais gélidos Glaciares. — Ele pegou um graveto e atiçou a pequena fogueira com ele.
— Quanto tempo até chegarmos lá?
— Um dia. No máximo dois, se meu pai não cair do cavalo.
— Não me importaria de testemunhar isso.
Ele sorriu ao pensar naquela imagem.
— Nem eu.
— O que sabe sobre sua avó? Sei que não a vê há muitos anos, mas se lembra de alguma coisa que possa ser útil?
Ele tentou pensar em sua infância, época que ele não gostava de relembrar.
— Eu não tinha mais de cinco ou seis anos quando presumi que ela estava morta… Foi logo depois que meu avô foi enterrado. Não consigo me lembrar de ninguém me dizendo aquilo diretamente, mas eu já tinha percebido que quando as pessoas desapareciam de repente costumava significar que estavam mortas. Lembro de uma mulher de cabelo escuro e com uma mecha branca bem aqui… — Ele passou a mão em um cacho do cabelo de Cleo, caído sobre a testa, desejando não estar usando luvas de couro para poder tocá-la de verdade. — E lembro que ela sempre usava um pingente prateado de cobras entrelaçadas.
— Adorável.
— Na verdade, eu gostava.
— Eu já imaginava. — Ela abriu um sorriso, que desapareceu rapidamente. — Acha que seu pai está com o cristal do ar neste exato momento?
O rei estava agachado perto do rio, de cabeça baixa, como se não tivesse forças para mantê-la erguida. Magnus observava aquela versão frágil do homem que temera a vida toda.
— Provavelmente não. Deve tê-lo escondido em algum lugar antes de sair. — Ele inclinou a cabeça, reconsiderando a pergunta. — Mas, ao mesmo tempo, ele teria medo que alguém pudesse encontrá-lo, então é provável que o tenha trazido.
— Então quer dizer que não faz ideia.
— É exatamente isso que quero dizer. — Ele riu baixo. — Você está com o seu cristal, no entanto.
Cleo estendeu a mão para mostrar a esfera de obsidiana.
— Ele salvou nossa vida — ela afirmou, observando a pedra negra. — Sabemos que funciona. Nós o vimos causar dois terremotos. Mas preciso de mais. Precisamos de mais.
— Conseguiremos mais — ele garantiu. — Meu pai não nos traria até aqui se não achasse que minha avó poderia ser útil. E eu não teria vindo se não achasse que ela poderia ajudar a quebrar essa terrível maldição lançada sobre você.
O rosto dela se fechou com a lembrança.
— Veremos. Claramente é possível liberar a magia se Lucia estiver envolvida. Ela ajudou Kyan a canalizar o poder do cristal do fogo.
Pensar naquilo causava uma dor quase física em Magnus.
— Talvez. Mas não temos certeza disso.
— Não consigo pensar em outra razão para ele ser capaz de uma magia como aquela.
— Se for isso mesmo, Lucia poderia fazer o mesmo por nós — ele disse.
— Temo que você seja irremediavelmente otimista quando se trata de sua irmã.
Magnus engoliu em seco.
— Temo que você esteja certa, mas não quer dizer que eu esteja errado.
Não demorou para Enzo e Milo voltarem, indicando para o rei que a ordem havia sido cumprida.
Devagar e com a ajuda de Milo, Gaius voltou a montar o cavalo, e o grupo seguiu caminho. Acabaram viajando por três dias, parando frequentemente para o rei descansar, e passando por pequenos vilarejos cobertos de neve e cidades incrustadas no gelo. Ainda não havia soldados de Amara patrulhando aquele extremo leste, então não foi preciso tentar se esconder daqueles que poderiam avisar a imperatriz que o rei Gaius estava viajando ao lado de Magnus e de Cleo.
Justo quando Magnus estava pronto para exigir mais respostas do pai — respostas que tinha certeza de que não receberia —, eles chegaram a um vilarejo nos Glaciares chamado Scalia. Não parecia diferente dos outros pelos quais haviam passado, mas, ainda assim, Magnus teve a sensação de que algo tinha mudado. Seu pai agora cavalgava com os ombros eretos.
Eles seguiram o rei, que os levava por uma fileira de casinhas de pedra idênticas. Saía fumaça de todas as chaminés, tão densa no ar frígido que parecia bolas de algodão.
O rei desmontou do cavalo e então olhou pra Magnus.
— Venha comigo.
— Parece que chegamos — Magnus disse a Cleo.
— Até que enfim — a princesa disse. Apesar do tom de voz seco, Magnus notou que havia esperança nos olhos dela.
Eles acompanharam o rei, que se aproximou da porta da segunda casa à esquerda. Gaius parou por um instante, endireitando a postura. Magnus ficou chocado ao ver hesitação em seu pai. Finalmente, o rei respirou fundo, levantou o punho fechado e bateu três vezes na porta.
Levou um tempo até a porta se abrir e uma mulher olhar para eles. Ela arregalou os olhos imediatamente.
— Gaius — ela disse, com uma voz fraca.
Era ela: a avó de Magnus. Estava diferente — mais velha, claro. O cabelo preto tinha ficado cinza-escuro, mas a mecha branca ainda estava lá.
— Mãe — Gaius respondeu, desprovido de emoção.
O olhar dela passou pelo rei e parou em Magnus e Cleo.
— Que surpresa.
— Sem dúvida — disse o rei.
O olhar de Selia retornou ao rei.
— Gaius, meu querido, o que aconteceu com você? — Antes que ele pudesse responder, ela abriu mais a porta. — Entrem, por favor. Todos vocês.
O rei fez sinal para Milo e Enzo esperarem do lado de fora, montando guarda, mas ele, Magnus e Cleo entraram na casinha.
— Por favor, sentem. — Selia indicou algumas cadeiras modestas em volta de uma pequena mesa de madeira. — Me diga por que parece tão doente.
O rei sentou rigidamente em uma das cadeiras.
— Primeiro, caso não o reconheça, este é seu neto.
— Magnus — ela disse, assentindo. — Claro, eu reconheceria você em qualquer lugar. Você mudou pouco. — Ela franziu a testa ao passar a mão pelo rosto dele, encarando a cicatriz.
— Acredite, eu mudei muito — ele disse. — Esta é a princesa Cleiona Bellos, de Auranos. Minha… esposa. — Pela primeira vez desde o casamento forçado dos dois, ele não sentiu amargura nem ressentimento ao dizer aquela palavra.
— Cleiona Bellos. — O olhar analítico da mulher seguiu devagar para a princesa. — Filha mais nova de Elena e Corvin.
— Sim — o rei sibilou.
Selia arqueou a sobrancelha.
— Você não adotou o nome Damora ao se casar com meu neto?
— Não. Preferi continuar honrando o nome de minha família, já que sou a última Bellos que sobrou — Cleo respondeu.
— Acho que é compreensível. — Selia voltou a atenção ao rei. — Agora, conte como ficou nesse estado deplorável, meu filho. Suponho que este seja o motivo desta visita tão inesperada.
Magnus não notou acusação na voz dela, apenas preocupação.
— Um dos motivos — o rei admitiu. Então, em seguida, contou rapidamente sobre sua queda do penhasco, sem dar detalhes específicos do motivo da queda.
Selia praticamente desabou sobre uma cadeira ao fim da história.
— Então temos muito pouco tempo. Eu temia que esse dia chegasse e só me restava rezar para a deusa para que viesse até mim quando acontecesse.
— Sabe o que fazer? — o rei perguntou.
— Acredito que sim. Só espero que possa ser feito a tempo.
— Por que está aqui? — Magnus finalmente verbalizou seus pensamentos. — Por que desapareceu durante todos esses anos para viver aqui, em Scalia, um dos lugares mais indesejáveis de Limeros?
Selia olhou para ele com perplexidade.
— Seu pai não te contou?
— Não. Mas, para falar a verdade, meu pai não é muito de falar. Pensei que a senhora estivesse morta. — Ele rangeu os dentes, zangado mais uma vez por não saber daquele segredo por tanto tempo. — Obviamente, não está.
— Não, não estou — ela concordou. — Estou exilada.
Magnus lançou um olhar para o rei.
— Por qual motivo?
— Foi escolha dela — o rei respondeu, enfraquecido. — Algumas pessoas do conselho real exigiram a execução dela; aqueles que acreditam até hoje que a execução foi feita de maneira privada. Em vez disso, sua avó veio morar aqui. E aqui ficou por todos esses anos sem que ninguém no vilarejo – ou no palácio – soubesse.
— Por que alguém exigiria sua execução? — Magnus perguntou, trocando olhares confusos com Cleo.
— Porque — Selia começou a explicar lentamente — eu confessei ter envenenado meu marido.
Magnus balançou a cabeça, perplexo.
— Mas eu vi meu pai envenená-lo!
— Viu? — Ela o observava com interesse. — Então viu o veneno que dei para ele. Gaius não podia levar a culpa e assumir o trono, então facilitei as coisas para que ele pudesse assumir o reinado de maneira muito melhor do que Davidus. — Ela explicou com tanta simplicidade que parecia falar sobre o clima. — Não tem sido tão ruim, na verdade. Às vezes esta cidadezinha é insuportavelmente fria, mas é agradável na maior parte dos dias. Tenho amigos aqui, o que me ajuda a passar o tempo depois da última visita rápida de meu filho. Quando foi, Gaius? Cinco anos atrás?
— Seis — Gaius respondeu.
— Sabina me visitou duas vezes desde então.
— A senhora era mentora dela. Não estou surpreso.
Cleo se manteve em silêncio, mas Magnus sabia que ela estava arquivando informações naquela linda cabecinha loira.
— Não temos mais tempo para conversas — Selia levantou. — Precisamos partir neste instante para a cidade de Basilia.
— O quê? — Magnus olhou para o pai.
— Fica no oeste de Paelsia.
O rei também pareceu surpreso.
— É uma longa viagem. E acabamos de chegar aqui.
— Sim, e agora precisamos partir. Tenho um amigo nessa cidade que pode fornecer a magia de que necessito para ajudar você antes que seja tarde demais.
— O que preciso mais do que isso, mãe, é sua magia para nos ajudar a encontrar Lucia. Ela desapareceu quando mais precisamos dela.
— Então a profecia era verdadeira — Selia sussurrou. — E você só me fala isso agora? Eu poderia tê-la ajudado como ajudei Sabina.
— Preferi tutores que não soubessem da profecia.
Ela não disse nada por um instante, depois assentiu.
— Você fez bem em ser cuidadoso com ela. No entanto, encontrar sua localização atual será um desafio. Depois de tantos anos me escondendo, minha magia foi enfraquecendo até quase se tornar inútil. A resposta para isso também está em Basilia. Vamos para lá obter o necessário para os próximos passos do plano. — Ela segurou as mãos do rei, sorrindo. — Finalmente tudo está entrando nos conformes. Mas preciso que você esteja bem.
— Nunca soube que a senhora era bruxa — Magnus disse, optando por permanecer o máximo possível em silêncio até aquele momento, observando e escutando.
Selia olhou para ele.
— Contei esse segredo a poucas pessoas.
— E a senhora acha que vai conseguir restaurar seus elementia?
Ela assentiu.
— Não senti necessidade de fazer isso por anos, mas, para encontrar minha neta, para conseguir a magia necessária para curar meu filho… vai valer a pena.
— Meu pai me contou há pouco tempo sobre uma maldição… — Ele olhou para Cleo, cuja expressão era lúgubre.
Selia arregalou os olhos.
— Sim, é claro. A trágica maldição sobre Elena Bellos. Sinto muito por sua perda, Cleiona.
Cleo aceitou os pêsames.
— Eu também. Gostaria muito de ter conhecido minha mãe.
— Claro que gostaria. Mesmo com minha magia enfraquecida, ainda posso sentir essa poderosa maldição à sua volta quando me concentro. Não vou dizer que vai ser fácil, mas prometo fazer todo o possível para quebrá-la quando minha magia se fortalecer.
O nó no peito de Magnus finalmente se afrouxou um pouco.
— Ótimo.
Ele viu alívio nos olhos de Cleo.
— Obrigada — ela disse.
— O que é essa magia que existe em Basilia e pode me ajudar? — Gaius perguntou enquanto Selia pegou uma sacola de lona e começou a enchê-la com alguns pertences.
— A magia que já pertenceu aos próprios imortais — ela respondeu. — Um objeto de muito poder que poucos sabem que existe.
— E que objeto é esse? — Magnus perguntou.
— Chama-se pedra sanguínea. Vamos encontrá-la juntos e, quando conseguirmos, tenho certeza de que vai devolver seu pai à sua antiga magnitude.
— Parece um tesouro valioso — o rei disse. — Que a senhora nunca mencionou para mim antes.
— Não contei tudo o que sei para você, Gaius.
— Tenho certeza de que não.
A voz deles se tornou um eco distante enquanto Magnus refletia sobre a existência dessa pedra sanguínea — outra pedra imbuída de grande poder e magia e que poderia, supostamente, curar até mesmo alguém que já parecia morto e enterrado.
Esqueça seu pai, Magnus pensou. Aquela era uma magia que ele queria para si próprio.

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