1 de setembro de 2018

Capítulo 8

NIC
AURANOS

Limpar a sujeira dos terríveis cães do rei Gaius não era tarefa para um guarda do palácio. Mas era tarefa de Nic. Ele não acreditava se tratar de uma coincidência.
Dois guardas detestáveis chamados Burrus e Milo riram quando um dos cães puxou a guia e arrastou Nic, literalmente, em direção aos estábulos em busca do melhor lugar para se aliviar.
— Está se divertindo? — Burrus perguntou.
— Muito — Nic respondeu sem hesitar.
— Agradeça que essa tenha sido a pior tarefa solicitada pelo rei esta semana. Ele parece estar de péssimo humor.
E o rei alguma vez esteve de bom humor? Alguma vez que não fosse apenas para manter as aparências?
— Mas não se preocupe — Milo disse com desdém. — Tenho certeza de que a paciência dele com você já está no fim. Cuidar desses cachorros vai parecer um luxo comparado ao que o futuro reserva.
— Auranianos — Burrus murmurou. — Não servem para nada.
— Exceto limpar a bunda dos cães do rei.
Ambos tiveram um ataque de riso com a própria sagacidade.
Ignorar os companheiros tinha se tornado mais fácil depois que Nic foi promovido de cavalariço a guarda (embora promovido seja um termo relativo, diante de suas obrigações atuais). Nic não demorou muito para concluir que, mesmo que morasse, dormisse e comesse com os outros guardas, não desejava se tornar amigo deles.
Só havia se metido em uma briga durante a semana, resultando num olho roxo causado por Burrus, que ainda não havia desaparecido por completo.
Limerianos. Ele cuspiu para o lado.
Odiava todos eles.
Normalmente, tentaria responder rápido e com ironia, fazer piadas ou contar uma história. Qualquer coisa para distrair os inimigos que usavam o mesmo uniforme que ele.
Passara a desprezar a cor vermelha.
Milo e Burrus finalmente foram embora.
— Terminou? — ele perguntou para a cadela. Ela olhou para trás e rosnou, mostrando os mesmos dentes afiados que tinham estraçalhado um coelho gordo poucos minutos antes. — Não, não, tudo bem. Não se apresse, madame. Tenho todo o tempo do mundo.
Ela se agachou. Ele esperou.
E foi isso. Era assim que sobrevivia naquela nova era de Auranos conquistada.
Por que ainda estou aqui?
— Não deveria estar — ele respondeu a si mesmo.
Sua família estava morta. Sua irmã, Mira, tinha sido assassinada pelo próprio rei por, supostamente, escutar uma conversa dele com o abominável príncipe Magnus.
Ele havia falhado com Mira. Deveria estar perto para protegê-la, mas não estava. Aquele pensamento o torturava dia e noite. Queria se vingar, mas, em vez disso, obedecia ordens. Era um covarde tentando sobreviver, perdido em um mar de inimigos.
Com o coração apertado, Nic virou para levar os cães de volta ao castelo e sentiu a bota esquerda afundar em uma pilha de estrume.
— Fantástico — a voz dele estremeceu, o resto de força que lhe restava se esvaiu e ele se sentiu à beira de lágrimas.
Por que continuava ali? Por que não saía pelos portões, embarcava em um navio e atravessava o mar para começar uma nova vida em algum lugar bem distante?
Era um guarda do palácio, não o bobo da corte. Talvez devesse começar a agir como tal.
Nic nunca iria embora sem se despedir de Cleo. Seria a primeira vez que falaria com ela desde que saíra correndo depois que ela rejeitou tanto suas intenções românticas quanto sua oferta para levá-la embora daquele lugar horrível, cheio de fantasmas. Tudo tinha acontecido apenas duas semanas antes, mas parecia que um ano já havia se passado.
É provável que Cleo não tivesse percebido, mas Nic a observava de longe nos últimos dias. Mesmo que agora o desprezasse, ele havia prometido mantê-la em segurança.
E desde quando deixá-la para trás seria mantê-la em segurança?, ele se questionou. A princesa não precisava mais de sua ajuda. Talvez a ideia de que algum dia tivesse precisado não passava de uma ilusão criada por ele mesmo para se sentir útil.
Nic a encontrou no pátio, lendo em um banco à sombra de um grande carvalho. A princesa sempre estava lendo no pátio — um comportamento tão distinto da Cleo com quem havia crescido, que só tocava em um livro quando os tutores insistiam. E, às vezes, nem assim.
O livro da vez tinha um falcão na capa — bronze escuro sobre couro marrom claro, e parecia tratar das lendas dos vigilantes imortais e seu Santuário místico. Empilhados ao lado dela havia mais livros, incluindo o caderno de anotações em que às vezes a via desenhar para ajudar a passar o tempo. A aula de artes era uma das únicas que parecia apreciar.
— Cleo — ele disse em voz baixa.
Ela levantou o olhar para ele, protegendo os olhos do sol forte.
— Nic!
— Desculpe incomodar, mas quis vir aqui e…
Ela deu um salto e se jogou nos braços dele.
— Ah, Nic! Senti tanto a sua falta! Por favor, não fique bravo comigo. Sinto muito por ter sido tão cruel com você. Não foi minha intenção.
Um grande nó logo se formou em sua garganta, e seus olhos começaram a arder. Então um sorriso tomou conta de seu rosto, e o peso em seu coração se suavizou um pouco.
Ela segurou o rosto dele entre as mãos, encarando-o com preocupação.
— Você me odeia — ela disse.
— O quê? É claro que não odeio você, Cleo. Eu pensei que… bem, pensei que você me odiasse.
Ela ficou boquiaberta.
— Isso é ridículo. Eu nunca seria capaz de odiar você, Nic. Nunca!
Nic sentiu a coisa mais próxima de alegria de que se lembrava. A mensagem de adeus que pretendia transmitir morreu em sua língua.
— Preciso pedir perdão pelas coisas que disse.
Cleo sacudiu a cabeça.
— Não há necessidade de pedir perdão. Por favor, sente comigo por um instante.
— Acho que não posso. — Ele olhou na direção dos outros guardas encostados na parede mais distante. Entre eles, no centro do pátio, havia um belo jardim com flores e árvores frutíferas, mas os guardas tinham uma visão bem clara da princesa.
— Ignore-os. Não vão nos incomodar. E, de onde estão, não podem ouvir o que estamos falando.
Cleo pegou a mão dele. Nic sentou ao seu lado no banco e olhou para o anel de ametista.
— Descobriu mais alguma coisa sobre o anel? — ele sussurrou.
— Sim. Mas confesso que não sei direito o que fazer agora. — Então, rapidamente e em voz baixa, contou a história mais bizarra que Nic já tinha escutado, sobre magia, profecias e uma princesa feiticeira.
Quando terminou, Nic estava tonto.
— Inacreditável — ele conseguiu dizer.
— Mas é tudo verdade — ela disse, apertando a mão dele. — Você é a única pessoa do mundo em quem confio neste momento. — Cleo respirou fundo, trêmula. — A magia de Lucia está relacionada aos vigilantes. Este anel pertenceu à feiticeira original. Dizem que ajudava a controlar sua magia e impedia que a feiticeira fosse corrompida. Com o anel, e com Lucia, serei capaz de encontrar o maior tesouro dos vigilantes… a própria Tétrade.
Tratava-se de uma informação perigosa, mas Cleo não estava errada em confiar nele. Nic nunca diria nada que pusesse a vida dela em risco, nem mesmo sob tortura. Nem mesmo se prometessem um carregamento de ouro.
Depois que Mira se fora, Cleo passou a ser o mais próximo que Nic tinha de uma irmã. Era sua família agora — mas, por outro lado, sempre tinha sido. Até então ele não tinha se dado conta do peso dos segredos que guardava. Precisava desabafar, confiar nela como ela confiava nele.
Deveria ter feito isso dias antes.
Apesar de Cleo garantir que os dois não podiam ser ouvidos, Nic inspecionou a área antes de decidir que era seguro continuar falando com total privacidade.
— O príncipe Ashur me perguntou sobre seu anel — ele começou. — Ele sabe o que é, Cleo, e está muito interessado em encontrar a Tétrade para si.
O rosto dela ficou pálido.
— Quando ele falou com você?
— Depois que discutimos. Ele me seguiu até uma taverna, tentando arrancar informações de um guarda embriagado e frustrado consigo mesmo. Não contei nada. Não que eu soubesse muita coisa.
Cleo parecia abatida.
— O que mais ele disse?
— Ele acredita que existe uma grande magia em Mítica, e que o rei Gaius também está atrás dela. E acha que seu anel é um elemento essencial nisso tudo.
Nic não tinha bebido uma gota de álcool desde aquela noite. Estava sóbrio, alerta, aguardando o príncipe se aproximar de novo com mais perguntas. Mas isso não tinha acontecido. Mesmo no banquete, depois da chegada da princesa Amara, Nic ficou parado perto da porta, e Ashur não olhou para ele nem uma vez.
Cleo retorceu as mãos sobre o colo.
— O que faremos, Nic?
— Pode parecer loucura, mas acho que ele pode ser um aliado — Nic disse em voz baixa. — Os kraeshianos são poderosos. Com o apoio do grande exército do pai dele, são muito mais poderosos que o rei Gaius. Uma aliança pode ajudar você a reconquistar o trono.
— O que o faz acreditar que ele se aliaria a nós?
— Tenho um pressentimento.
Ela o encarou.
— O que mais ele disse para passar essa impressão?
O que mais ele disse? Nada. Tinha mais a ver com o que ele fez. Nic queria contar tudo a ela, mas ainda estava hesitante. Tinha dificuldade de colocar alguns detalhes recentes de sua vida em palavras.
— Nic… — Cleo apertou sua mão. — O que foi? Você parece tão aflito.
— Aflito? Não, não, está tudo bem. Na medida do possível, é claro.
— O que está escondendo de mim?
Ele pensou no que acontecera naquela mesma noite, quando Ashur o seguiu pelas ruas depois de sair da taverna.
— É que… aconteceu outra coisa naquela noite, e não sei muito bem como interpretar. Mas, enfim… — Ele mordeu o lábio. — Eu estava muito bêbado naquela noite.
— Pode me contar. É visível que isso o incomoda, seja lá o que for.
Aquilo era só uma fração de como ele se sentia.
— Ele fez uma coisa.
— O quê?
A princesa confiava a ele suas mais profundas e obscuras verdades. Nic sabia que devia retribuir essa confiança, mesmo que tivesse de revelar uma coisa dessas.
— Ele… me beijou.
Cleo piscou.
— Ele fez o quê?
As palavras agora saíam com mais velocidade.
— No início, tive certeza de que havia interpretado mal, talvez imaginado tudo. Mas aconteceu, Cleo.
Ela ficou olhando para ele, perplexa.
— Está dizendo que o príncipe Ashur Cortas, o solteiro mais notório e disputado de todo o Império Kraeshiano, beijou você?
— Pois é! — Ele levantou do banco e começou a andar de um lado para o outro, passando a mão no cabelo ruivo emaranhado. — Pois é!
Ela parou para pensar.
— Acho que isso explica por que ele ainda não se casou. Ashur prefere…
— O quê? — Nic se virou para ela, depois abaixou a voz para não atrair a atenção dos guardas. — Guardas de dezessete anos que limpam a merda dos cachorros do rei? — Ele fez uma careta. — Perdoe meu linguajar. Não… Não, ele devia estar tentando confundir minha cabeça, me fazer revelar segredos a ele. Talvez ache que gosto de meninos. Talvez estivesse tentando me manipular. Os kraeshianos são muito dissimulados, você sabe!
— Acalme-se. — Cleo levantou e segurou as mãos de Nic para que parasse quieto. — Sei que isso está incomodando você. Mas não devia. Está tudo bem.
— Bem? Como pode estar tudo bem? — Ele tinha perdido o sono por isso, tentando adivinhar como e por que havia acontecido, e o motivo de não ter feito nada para impedir.
— O príncipe se aproximou de você, Nic… de você em particular, dentre todas as pessoas do palácio.
— Porque sabe que sou seu amigo.
— Talvez não tenha sido esse o único motivo. — Cleo enrolou um longo cacho dourado nos dedos. — Você tem uma conexão com ele agora. Precisa descobrir se o príncipe Ashur e a princesa Amara podem ser nossos aliados, como você suspeita. Não posso correr o risco de virar as costas a nenhuma possibilidade a essa altura.
O coração dele batia forte.
— Não sei.
— Nic, por favor. Precisa ser corajoso. Por mim. Por Mira. Por todos os que perdemos. Entendo suas preocupações, mas isso é mais importante que um beijo. Você precisa ir até o príncipe Ashur e descobrir se ele pode nos ajudar.
Maldição. Ele não podia recusar esse pedido de Cleo, em especial porque podia fazer toda a diferença na retomada do trono.
— Não sei quando conseguirei sair do palácio para visitar a quinta dos Cortas — Nic disse. — Minha guia é quase tão curta quanto a dos cães do rei. E, para ser sincero, Cleo, não estou totalmente convencido de que nos aliarmos a eles tão cedo seja a melhor coisa a fazer.
— Você precisará ser sutil. — A expressão de Cleo estava assombrada com preocupação. — Mas Ashur abordou você pessoalmente. Não vai achar estranho se você voltar a falar com ele a sós. Nosso futuro está em jogo, Nic. O futuro de Auranos e de todos os cidadãos está em jogo.
— É muita responsabilidade.
— Sim, é. — Ela olhou para ele com os olhos cheios de esperança. — Você vai fazer isso por mim? Por nós?
Milhares de coisas passaram pela cabeça dele, algumas encorajando e outras contrariando o pedido. Mas, no final, apenas um pensamento restou.
— É claro que vou, Cleo.

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