3 de setembro de 2018

Capítulo 7

JONAS
AURANOS

As docas de Porto Real fervilhavam em atividade quando Jonas e Lysandra chegaram, no meio da manhã. Centenas, talvez milhares, de homens circulavam, carregando e descarregando os navios atracados. Ali, à beira-mar, havia uma vila cheia de vida, com tavernas, hospedarias e lojas a postos para o momento em que os trabalhadores encerrassem o turno.
O plano era chegar antes do amanhecer, mas, por causa do ferimento, Jonas estava se movimentando mais devagar que de costume.
Em frente a uma capela, Lysandra lhe entregou uma caneca de cidra de pêssego com especiarias.
— Como você está? — ela perguntou, preocupada.
— Bem. — Ele forçou um sorriso. — Estou bem. Quero dizer... para um pobre sujeito meio cego. — Ele apontou para o tapa-olho emprestado. — Por sinal, já comentei como você está adorável com esse vestido? Rosa definitivamente é a sua cor.
Ela fez uma careta e olhou para a roupa.
— Não me lembre que estou usando esta monstruosidade. Odeio este vestido. Quem, em sã consciência, gostaria de usar uma coisa tão extravagante?
— É apenas uma peça de algodão. Não é exatamente uma roupa de seda com babados para um baile no palácio.
— Queria ter apenas cortado o cabelo em vez de usar isso — Lys disse, fazendo careta, para então mover o queixo na direção de Jonas. — Ou ter deixado você ou Galyn cortarem.
Ela fazia uma referência ao novo corte de cabelo de Jonas, cortesia de Lysandra e de uma lâmina afiada. O couro cabeludo dele era uma tapeçaria formada por pedaços raspados, pele arranhada e pequenos tufos de cabelo escuro. Felizmente, ele havia conseguido desarmá-la antes que derramasse muito sangue. A menina era uma excelente lutadora, mas péssima cabeleireira.
— Besteira, o vestido está ótimo — Jonas disse. — E agora estamos aqui. Está vendo alguma coisa?
— No meio dessa multidão? Não. Vamos ter que nos separar e começar a perguntar por aí. Alguém deve saber para quando está agendada a partida do navio do rei.
— Então não vamos perder tempo. — Ele engoliu a cidra, e a doçura lhe deu um pouco mais de energia. Agora só desejava que o ombro não estivesse ardendo e que os dedos do mesmo braço não estivessem dormentes.
Vamos nos preocupar com uma coisa de cada vez, Jonas pensou.
Eles combinaram de se encontrar em uma hora e saíram. Jonas observou enquanto Lys desaparecia com seu vestido cor-de-rosa. Não fosse pelo grande saco de lona pendurado no ombro para esconder o arco e as flechas, ela facilmente passaria pela filha de um auraniano abastado.
Muitos dos homens nas docas estavam encapotados com mantos de lã e casacos pesados. Ao olhar para eles, Jonas sabia como a manhã estava fria, mas a febre lhe dava a impressão de ser o momento mais quente do dia. Ele também estava zonzo, mas, ainda assim, se recusava a descansar em outro lugar enquanto Lysandra tomava a frente. Isso era importante demais. O rei estaria ali, a céu aberto. No meio daquela multidão, com certeza ele e Lysandra conseguiriam criar uma confusão grande o suficiente para distrair os guardas pessoais, acuar o rei e interrogá-lo sobre o paradeiro de Cleo antes que Jonas pudesse, afinal, cortar sua garganta.
Ele forçou o corpo enfraquecido a entrar na multidão, onde ficaria mais próximo dos navios, parando vários homens enquanto andava e perguntando sobre os horários de partida e os passageiros. Ele e Lysandra tinham inventado uma história para contar àqueles estivadores. Diriam que eram um casal, que tinham fugido e para tentar embarcar em um navio que os levasse para se casarem no estrangeiro. Acreditavam que essa mentira seria especialmente bem-sucedida para engatar uma conversa sobre o rei, já que havia boatos de que a própria princesa Lucia tinha fugido com alguém.
Depois de falar com pelo menos dez homens, Jonas havia recebido ofertas para embarcar em cinco navios diferentes, mas nenhuma informação útil. Frustrado e enfraquecido, ele fez uma pausa e parou na doca de madeira, examinando a fila de navios até que seu olhar se fixou em um deles: um barco que parecia frágil, com metade do tamanho dos outros, videiras pintadas nas laterais e a inscrição VINHO É VIDA.
Uma embarcação paelsiana entregando vinho em Auranos.
Se fosse outra ocasião qualquer, ver o barco teria deixado Jonas nostálgico. Mas naquele dia, nada além de raiva surgiu dentro dele.
— De volta aos negócios, como se nada tivesse acontecido — ele resmungou.
É claro, não importava a que tipos de absurdos e de violência sua terra natal havia sido submetida, os auranianos não ousariam abrir mão do belo vinho paelsiano, que era admirado pela doçura na medida certa e total ausência de efeitos adversos depois de uma noite de exageros.
Beber até cair e sentir-se bem no dia seguinte. É claro que essa era uma promessa de importância máxima para os auranianos — ainda hedonistas, mesmo que sob o domínio do Rei Sanguinário.
Agora que Jonas acreditava nas lendas e havia testemunhado em primeira mão os efeitos revigorantes das sementes de uva paelsianas infundidas com a magia da terra, que o haviam trazido de volta do leito de morte, ele tinha certeza de que o vinho paelsiano fazia sucesso graças aos elementia.
E Jonas ainda podia condenar Auranos por escravizar paelsianos, monopolizar seus vinhedos e prendê-los a contratos de exclusividade de venda.
Era um bom lembrete de que os limerianos não eram os únicos malfeitores do mundo.
Jonas perdeu o equilíbrio quando uma tontura tomou conta de seu corpo. Havia um fedor ali perto da água — de peixe, de lixo jogado pelos navios atracados e de bebida que vinha do corpo dos trabalhadores. Ele podia sentir a febre piorando.
Quando estava prestes a desabar, uma mão agarrou seu braço, mantendo-o em pé.
— Mas não é meu rebelde favorito?! — retumbou uma voz alegre. — Bom dia, Jonas!
Jonas virou para o homem, que o recebeu com um largo sorriso. Ah, sim, era Bruno, pai de Galyn. Jonas conhecia bem o velho, grande entusiasta da causa rebelde, alguém com a tendência de expor seus pensamentos e suas opiniões em voz muito alta.
— Bruno, por favor, fale baixo. — Jonas olhou ao redor, nervoso.
O sorriso de Bruno se desfez.
— Meu pobre rapaz, perdeu seu olho?
— Eu... hum, não. — Sem perceber, ele passou os dedos no tapa-olho. — É apenas um disfarce. É muito fácil me reconhecerem por aqui, caso não saiba. Então, fique quieto.
— Bem, agradeça à deusa por isso! Dois olhos são muito mais úteis que um só. — O velho sinalizou para um trabalhador que havia desembarcado do navio paelsiano e se aproximava deles. — Bom, isso é bom! Vinte caixas, certo?
— Sim, senhor!
Jonas analisou a embarcação.
— Veio pegar um carregamento?
Bruno assentiu.
— Tenho vindo aqui todos os dias há quase uma semana porque o navio atrasou. Mas precisei ser cuidadoso para outra pessoa não aparecer de surpresa e roubar meu pedido. O vinho é tão popular que a Sapo de Prata fecharia de vez sem ele.
Se ele estava ali fazia uma semana, poderia ser de grande auxílio para Jonas.
— Bruno... sabe quando o rei vem para cá? Ouviu pessoas conversando sobre a partida dele nessa última semana? Nerissa contou que ele vai viajar para o exterior.
Bruno franziu a testa.
— O rei Corvin? Mas ele está morto!
Jonas tentou manter a paciência.
— Não, Bruno. O rei Gaius.
Bruno ficou aborrecido.
— Ora! É uma cobra maldosa, esse aí! Vai jogar todo mundo na fogueira se dermos meia chance a ele!
— Concordo. Mas ouviu alguma coisa sobre sua partida de Auranos?
Ele balançou a cabeça.
— Nada. Mas eu o vi.
Jonas piscou.
— Você o viu?
Bruno apontou na direção da frota de navios que partia.
— Ele partiu de manhã em um enorme navio limeriano preto com uma vela vermelha. Um brasão com uma cobra feia pintado na lateral. Como alguém pode achar que ele é digno de confiança, navegando em uma embarcação sinistra como aquela?
— Ele partiu hoje de manhã?
Bruno confirmou.
— Passou bem ao meu lado enquanto esperava neste mesmo lugar. Tentei cuspir nele para mostrar meu apoio aos rebeldes, sabe? Mas acabei acertando um pássaro.
O rei já tinha partido. E era culpa de Jonas terem chegado tarde demais. Ele tinha sido teimoso ao insistir em vir junto. Se Lys tivesse saído mais cedo, enquanto Jonas ainda estava dormindo, como ela queria, o rei poderia estar morto naquele instante, e não fugindo para sua próxima missão perversa.
— Meu rapaz, você ficou muito pálido — Bruno deu um tapinha no braço dele. — Está tudo bem?
— Não. Definitivamente não estou bem. — Era só mais um fracasso doloroso para adicionar à extensa lista.
Bruno cheirou o ar, então inclinou a cabeça e voltou a fungar.
— O que é isso?
— O quê?
— Sinto cheiro de... argh, deusa misericordiosa, é como um cruzamento de estrume de cavalo com carne podre. — Ele continuou a fungar e então se aproximou de Jonas.
Jonas olhou para ele tenso.
— O que está fazendo?
— Estou cheirando seu ombro, é claro. O que parece que estou fazendo? — O queixo do homem caiu. — Ah, nossa. É você.
— Eu?
Bruno confirmou.
— Receio que sim. Meu filho deu a você um pouco da lama medicinal, não deu?
— Deu.
— Venha aqui, vamos ver como está. — Bruno cutucou o ombro esquerdo de Jonas, fazendo-o gritar de dor.
Jonas tentou se concentrar em alguma coisa que não fosse o fedor das docas e dos corpos suados que passavam a seu redor. De repente, desejou nunca ter acordado depois de ser ferido e ainda estar inconsciente em sua cama na Sapo de Prata.
Com relutância, ele puxou a camisa para o lado para facilitar o acesso de Bruno às bandagens.
Bruno as desenrolou com cuidado, examinou o que havia por baixo e fez cara de nojo.
— A aparência está pior que o cheiro.
— E a sensação é ainda pior que tudo. — Jonas deu uma olhada. A maior parte da lama já tinha saído, expondo um ferimento em carne viva cercado por manchas roxas que pareciam relâmpagos e com as beiradas esverdeadas, vertendo pus.
— Está apodrecendo feito um melão depois de três semanas — Bruno anunciou, ajeitando as bandagens de volta.
— Então a lama medicinal não está funcionando?
— Aquela mistura é bem velha. Funcionava um pouco logo que a recebi, mas nunca teria funcionado em um ferimento tão sério quanto este. Sinto muito, meu rapaz, mas você vai morrer.
Jonas ficou boquiaberto.
— Quê?
Bruno franziu a testa.
— Eu sugeriria amputar o braço, mas infelizmente o ferimento não está na melhor posição para isso. Seria preciso remover o ombro também, para limpar toda a infecção, e receio que não seja possível. Talvez você possa encontrar algumas sanguessugas e torcer para dar certo?
— Não vou procurar sanguessuga nenhuma. E não vou morrer. — Ainda assim, ao dizer aquilo, ele próprio sabia que não parecia convencido. Tinha visto homens em sua vila em estado crítico por causa de ferimentos em estado de putrefação. Alguns dos paelsianos mais supersticiosos acreditavam que aquelas mortes eram uma punição por maldizer seu líder, mas, mesmo quando criança, Jonas sabia que não podia ser verdade.
— Esse é o espírito de luta! — Bruno então deu um tapinha na cabeça de Jonas. — Acho que é disso de que vou sentir mais falta quando você estiver morto.
— Tenho muito a fazer antes de morrer — Jonas rosnou. — Só preciso de um... curandeiro.
— É tarde demais para um curandeiro.
— Então preciso de uma bruxa! Preciso de uma bruxa que cure com o toque. Ou... de sementes de uva.
Bruno o encarou como se Jonas tivesse enlouquecido.
— Sementes de uva? Talvez exista alguma bruxa que possa curar um simples arranhão com lama mágica ou, talvez, sementes encantadas de algum tipo. Mas curar um ferimento tão profundo e pútrido como esse? Não vai dar certo.
— Mas conheço uma que... — Ele interrompeu a frase, lembrando que, claro, Phaedra não era uma bruxa comum, era uma Vigilante. E estava morta, depois de sacrificar sua imortalidade para salvar a vida de Jonas.
— Talvez você encontre uma bruxa com magia da terra forte o bastante para acabar com sua febre e devolver um pouco da sua força — Bruno disse. — É improvável, mas diria que é sua maior esperança.
— E onde posso encontrar alguém assim? — ele resmungou, e então um pensamento lhe ocorreu. — Acha que Nerissa sabe?
— Pode ser que Nerissa saiba, sim — Bruno disse. — Mas ela também se foi. — Ele apontou para o mar. — Pelo jeito, o príncipe Magnus requisitou oficialmente a presença dela no norte. Está vendo aquele navio auraniano lá longe, com as velas douradas? É o dela, indo para Limeros.
— Espere. Você disse que Magnus está em Limeros? — Jonas perguntou, ignorando outra onda de tontura.
— Sim. No trono, ao que tudo indica, com a bela esposa ao lado. Conheceu a princesa, não? É uma jovem tão adorável... É claro que não apoio os Damora de jeito nenhum, mas em termos apenas físicos, não acha que ela e o príncipe formam um casal um tanto quanto impressionante? E a química entre os dois quando os vi em sua lua de mel... estavam praticamente pegando fogo.
A dor de Jonas ficou pior do que antes.
— Preciso ir imediatamente. Diga a Galyn... diga que mando uma mensagem assim que puder. — Antes que Bruno conseguisse responder, Jonas já havia partido, com a cabeça girando com as novidades, informações demais para processar de uma só vez.
O rei havia partido para sabe-se-lá-onde.
Nerissa também foi embora.
O príncipe Magnus estava no trono em Limeros.
E a princesa Cleo estava com ele.


A hora tinha passado, mas Lysandra não estava no ponto de encontro. De repente, ele ouviu um grito alto e agudo vindo de algum lugar próximo.
Lys.
As pernas de Jonas estavam fracas, mas ainda assim ele correu na direção do barulho, sacando a espada com a mão direita.
— Lys! — ele gritou enquanto chegava aos limites da vila, pronto para proteger Lysandra dos agressores, para lutar com tanto afinco quanto fosse necessário para mantê-la viva.
Quando virou uma esquina, ele a viu parada, ofegante e com a barra do vestido suja. Dois jovens estavam caídos no chão na frente dela, gemendo de dor.
Lys virou para Jonas, as bochechas coradas e o olhar raivoso.
— É por isso que não uso vestidos! Atrai o tipo errado de atenção. Uma atenção que não quero!
— Eu... hum... — Jonas, abalado com a imagem, tropeçou nas palavras.
— Esse monte de estrume tentou pegar no meu peito! — Ela chutou um dos homens que gemiam. — E este aqui — ela deu um chute forte no outro — riu e o encorajou! Nunca mais uso esta roupa. Não importa se o próprio rei Gaius me reconhecer.
Jonas ficou meio alarmado e meio satisfeito quando um dos jovens olhou para ele agonizando.
— Tire-a de perto de nós — ele gemeu para Jonas.
— Com prazer — Jonas pegou o braço de Lysandra e a arrastou de volta pela esquina e até uma rua principal.
— Você nunca deixa de me impressionar, sabia? — Jonas disse para Lysandra enquanto andavam. — Pensei que estava correndo algum perigo.
— Estava ofendida e irritada, talvez, mas não...
Jonas a puxou para perto e lhe deu um beijo rápido e firme nos lábios, sorrindo.
— Você é incrível. Nunca se esqueça disso.
A cor vívida voltou às suas bochechas quando Lys tocou a própria boca.
— Sorte a sua eu não ter problemas com você, ou estaria no chão também, por me pegar de surpresa desse jeito.
— Muita sorte — ele concordou, ainda sorrindo.
Ela mordeu o lábio.
— Agora, hum, o que está acontecendo? Não consegui nada útil de ninguém por aqui. E você? Alguma coisa?
— Sim, descobri muita coisa. — Ele contou sobre Bruno, sobre a partida do rei, sobre Magnus e Cleo em Limeros, e Nerissa prestes a se juntar aos príncipes.
Lysandra praguejou em voz baixa.
— E agora? Vamos entrar em um navio e tentar ir atrás do rei?
Ele indicou que não.
— Tarde demais para isso. Mas, por sorte, temos algo para fazer tão importante quanto isso.
O olhar dela foi parar no ombro de Jonas.
— Procurar alguém capaz de curar seu ferimento?
Jonas sabia que não ia conseguir esconder o rosto febril e a fraqueza dela, então nem se preocupava mais em tentar. Mas, se conseguiriam ou não encontrar alguém com dons suficientes para ajudá-lo a tempo era uma boa pergunta.
— Se conseguirmos encontrar um curandeiro apropriado, sim. — Ele levantou o queixo e encarou os olhos castanho-claros dela com determinação. — Depois vamos a Limeros resgatar uma princesa e matar um príncipe.

2 comentários:


  1. — Passou bem ao meu lado enquanto esperava neste mesmo lugar. Tentei cuspir nele para mostrar meu apoio aos rebeldes, sabe? Mas acabei acertando um pássaro.


    — Sinto cheiro de... argh, deusa misericordiosa, é como um cruzamento de estrume de cavalo com carne podre. — Ele continuou a fungar e então se aproximou de Jonas.


    — Esse é o espírito de luta! — Bruno então deu um tapinha na cabeça de Jonas. — Acho que é disso de que vou sentir mais falta quando você estiver morto.

    mano rachei de rir kkkkkkkkk
    esse cara é foda demais kkkkk

    É claro que não apoio os Damora de jeito nenhum, mas em termos apenas físicos, não acha que ela e o príncipe formam um casal um tanto quanto impressionante? E a química entre os dois quando os vi em sua lua de mel... estavam praticamente pegando fogo.

    TENHO QUE CONCORDAR

    ASS:JANIELLI

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  2. Gostei de tudo, menos da parte de matar um príncipe...kkkkkkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!