29 de setembro de 2018

Capítulo 7


— DIGA QUE VOCÊ BEBE.
Acordei com um tecido áspero no rosto e cheiro de pólvora. Tinha cochilado com a cabeça encostada nas costas de Jin enquanto cavalgávamos. Suas palavras vibraram pelos seus ombros e para dentro do meu crânio, sacudindo sem sentido até que eu juntasse os pedaços.
— Você viu onde eu cresci. — Minha voz saiu rouca. Quando abri os olhos, tudo o que podia ver era o tecido da camisa dele, mas já dava para perceber que estávamos bem longe da Vila da Poeira. O ar tinha outro sabor, de manhãs refrescantes e de cascalho, em vez de calor, pó e pólvora. — É claro que eu bebo. — Meu corpo doía e parecia que havia algo chacoalhando dentro do meu peito. Deus era testemunha de que eu podia beber uns cinco copos naquele momento.
Em algum momento da viagem eu tinha abraçado a cintura de Jin para manter o equilíbrio. Eu o larguei e limpei o suor das mãos na camisa, enquanto ele deslizava para fora da sela. Tentei alinhar meus pensamentos com a minha coluna, me forçando a ficar reta.
Onde quer que estivéssemos, era parecido com a maioria das cidades do deserto. Casas de madeira amontoadas e chão empoeirado. Só que havia mais pedras do que na Vila da Poeira, e o horizonte pairava ao nosso redor, coberto pela névoa que antecedia a alvorada. Devíamos ter subido as montanhas.
Apertei os olhos e vi uma placa balançando com a imagem de um homem azul de olhos fechados mal desenhado. A inscrição anunciava que aquele era o Djinni Bêbado. Eu sabia a história, mas não conseguia lembrar.
A cidade estava completamente silenciosa.
— Onde estamos? — perguntei, para só então perceber que Jin não estava mais por perto.
Girei em cima do buraqi e o avistei a duas casas de distância, pulando uma cerca branca lascada. Havia um varal pendurado entre a casa e um poste torto, e Jin pegou uma peça de roupa vermelha. Meus olhos passaram por ele e seguiram até a montanha, além das casas. Respondi minha própria pergunta.
Sazi ficava a um dia de cavalgada da Vila da Poeira. Ou a algumas horas, com o buraqi. Eu tinha ouvido falar muito da cidade mineradora, mas nunca a vira. Diziam que as coisas ali tinham ficado ruins depois do colapso das minas, algumas semanas antes. Mas eu não teria imaginado aquilo.
Uma explosão. Um acidente. Algo tinha dado errado com a pólvora, segundo os rumores na Vila da Poeira, e achei que entendesse o que queriam dizer. Eu tinha explodido garrafas e latas com os outros garotos no deserto. Eu as vira se estilhaçar enquanto corríamos para nos proteger, gritando. Às vezes um garoto queimava o dedo e precisava amputar, ou ficava com uma cicatriz no queixo, mas geralmente só havia uma confusão de metal, vidro e areia, tudo se fundindo.
As minas pareciam muito piores do que um pedaço derretido de lata velha. Lembravam o corpo do meu pai quando o arrastaram para fora de casa, a pele ainda borbulhando. A própria montanha estava desfigurada, como se a terra tivesse se rebelado e fechado a boca anciã da montanha, engolindo completamente as minas.
Não à toa o Exército não tinha ficado muito tempo em Sazi. Não havia muito a ser feito. Centenas de panos de oração estavam presos em torno de pedras e estacas por todo o caminho até a montanha, mas Deus tinha falhado ali.
— Toma. — A mão de Jin no meu joelho me trouxe de volta. Ele estava segurando o tecido vermelho para mim. Percebi que era um sheema. — É melhor ninguém ver seu rosto.
— Foi assim que conseguiu essa camisa? — perguntei. — Você arrancou do varal de alguém no caminho para fora da cidade?
Ele assentiu com a cabeça de leve.
— Enquanto você dava um show e tanto com o buraqi. Eu precisava sair de lá antes que o Exército me achasse. Você era uma distração boa demais para desperdiçar.
Eu era uma distração.
Revirei a sacola que ainda estava presa ao meu ombro. A camisa que eu tinha pegado do chão do quarto dos meninos estava por cima. A que eu tinha planejado dar a ele quando fui idiota e pensei que precisasse da minha ajuda. Fiz uma bola com ela e atirei nele. Jin a pegou agilmente com a mão livre.
— Roubar é pecado, sabia? — Arranquei o sheema da mão dele e comecei a amarrá-lo. Fiz uma careta quando meus dedos roçaram o ponto em que a arma de Naguib tinha atingido minha bochecha. — E essa camisa não cai bem em você.
Jin parou por um momento antes de tirar a camisa que estava vestindo.
— Beber até cair também é pecado?
Ele vestiu a outra camisa enquanto eu cobria o rosto para me proteger do sol que subia no céu.
— Se eu disser que não, você paga? — perguntei, ajeitando a ponta do sheema.


O segundo drinque queimou menos do que o primeiro na descida pela garganta, mas ainda não estava perto de preencher o vazio doloroso no meu peito.
— Tamid. — Soltei o nome que segurava desde que sentamos. — O meu amigo. Levou um tiro na perna. O que você acha que vai acontecer com ele?
— Não faço a menor ideia. — Estava escuro no Djinni Bêbado. Cheio, também. Cheio de homens sem minas onde trabalhar e com nada pra fazer além de beber e contar histórias para garotas maquiadas. Não era nem meio-dia e a cidade inteira estava bêbada, ou ficaria em breve. Eu inclusive. Jin havia afundado o chapéu na cabeça, ocultando seu rosto o máximo possível. — Talvez eles o deixem viver. Talvez atirem na cabeça dele para terminar o serviço. Nunca se sabe quando se trata do Exército do sultão. Mas não há nada que você possa fazer sobre isso agora: você já o deixou lá. — Eu queria dizer a Jin que não tinha feito isso, que ele me levara embora, mas ambos sabíamos que não era verdade. — A única forma de descobrir com certeza seria cavalgar de volta para a cidade e tomar uma bala na cabeça cada um. Ouvi dizer que é a última moda em Izman.
— Bom, é a última coisa que eles esperariam — eu disse, brincando.
Mas eu sabia que não voltaria. Tinha gasto quase dezessete anos planejando escapar. Com a minha mãe. E então sozinha. E agora finalmente tinha conseguido. Depois de todo aquele tempo economizando, lutando, e tentando agarrar o horizonte com as unhas, um louzi de cada vez, eu estava a caminho. O calor que sentia dentro de mim não era só da bebida.
— Para onde agora? — Comecei a bater o pé no chão. Depois de anos no mesmo lugar, agora que tinha começado a me mexer era difícil parar.
A garota do bar veio até nós. Jin a interrompeu quando começou a encher seu copo.
— Deixe a garrafa. — Ele deslizou uma moeda pela mesa até ela.
A garota levantou a moeda contra a luz fraca antes de arremessá-la de volta na mesa.
— Isso não é dinheiro de verdade.
Peguei a moeda para dar uma olhada. Era verdade: o pedaço redondo de metal tinha aproximadamente o mesmo tamanho de um louzi, mas era fino demais, e tinha um sol impresso em vez do perfil do sultão.
— Falha minha. — Jin manteve a cabeça baixa, para que a aba do chapéu escondesse suas feições estrangeiras, e deu a ela outra moeda. A garota a testou nos dentes antes de caminhar lentamente de volta para o bar.
Jin apoiou os cotovelos na mesa e encheu meu copo de novo até a boca. Ele usava o braço em que não tinha levado o tiro. Observei a tensão em suas costas, sua camisa revelando a tatuagem do sol subindo pelo colarinho. Olhei para baixo, para a moeda na palma da minha mão, onde a mesma imagem estava estampada na moeda estrangeira.
— O que é o sol? — eu perguntei.
— Essa é uma pergunta existencial demais depois de quatro drinques — Jin disse, colocando a garrafa na mesa, fazendo a camisa levantar de novo e tampar a tatuagem.
— Três drinques. E estou falando desse sol em particular.
Estendi a mão e puxei o colarinho dele para baixo, para que pudesse ver a tatuagem em seu peito.
As pontas dos meus dedos roçaram sua pele, e senti os batimentos do seu coração. Eu o soltei rápido, me dando conta de que estava a um passo de começar a tirar sua roupa.
— É um símbolo de sorte — Jin disse. Ele puxou o colarinho para cima, mas ainda dava para ver a ponta da tatuagem.
— Ele está nessa moeda estrangeira.
Jin levantou as sobrancelhas diante do meu tom acusatório. Mas entendeu o que eu queria dizer.
O sol estava impresso no que eu imaginava ser uma moeda de Xicha, o que significava que era um símbolo nacional. Jin podia ter nascido no deserto, mas dissera que tinha sido criado em Xicha. Era muito patriótico para um mercenário ter o sol de seu país tatuado sobre o coração.
— Por que voltou para me buscar? — Me inclinei em sua direção, tentando entendê-lo. — Você podia ter escapado ileso sem problemas.
O canto de sua boca se ergueu um pouco quando ele se aproximou para sussurrar em tom conspiratório:
— Eu precisava de um cavalo rápido. — Ele estava tão próximo que eu sentia o cheiro de álcool em seu hálito. Tão próximo que poderia ter me beijado. Jin pareceu se dar conta disso no mesmo momento que eu e se afastou. — Além disso, eu te devo uma. Quando capturou o buraqi, atraiu todas as pessoas no Último Condado para longe daquela maldita fábrica por tempo suficiente para eu entrar e detonar o lugar. Eu estava tentando fazer aquilo há semanas. E meu dinheiro estava acabando.
Então era por isso que ele tinha aparecido na arena de tiro naquela noite.
— E tudo isso para explodir uma fábrica no meio do nada?
— A maior fábrica de armas do país. E, por extensão, do mundo.
— Do mundo? — Eu não sabia disso. Não parecia possível.
— É simples. Nos outros lugares não dá pra construir nada com metade do tamanho daquela fábrica, porque os seres primordiais destruiriam.
Eu me sentia leve por conta do álcool, e tentava entender o que ele dizia no escuro do bar.
— O que você quer dizer com “destruiriam”?
Jin parou o drinque na metade do caminho até a boca.
— Vamos lá, garota do deserto. Quanto tempo faz que você viu um ser primordial antes do buraqi chegar à cidade? Magia e metal não se dão muito bem. Estamos matando a magia. Mas ela está reagindo. — Os gritos do buraqi iluminaram minha memória. — A maioria dos outros países consegue fazer qualquer coisa em pequena escala, incluindo armas. Mas alguns tentaram construir fábricas como a sua, centenas de anos atrás. A própria terra se rebelou. Tem um vale em Xicha chamado Túmulo do Tolo. Costumava ser uma cidade. Construíram uma fábrica de enlatados lá. Dizem as lendas que funcionou por um mês, até que os seres primordiais que viviam na terra não aguentaram mais e abriram o chão sob a cidade, deixando tudo em ruínas. Algo similar aconteceu em outros lugares. Então, depois de um tempo, as pessoas pararam de construir fábricas. Exceto em Miraji. Seus seres primordiais são os únicos que parecem tolerar isso.
— E o que nos torna tão especiais?
Jin deu de ombros.
— Talvez o fato de a magia do deserto já vir do fogo e da fumaça, e não de seres vivos. Ou talvez a terra aqui já esteja morta. Seu país está na encruzilhada entre o oriente, onde as armas foram criadas, e o ocidente, onde há uma guerra entre impérios. E é o único do mundo capaz de construir armas em escala maciça. Este deserto é valioso. Por que acha que os gallans estão aqui?
— Então somos apenas uma grande fábrica de armas para eles? — A ideia era perturbadora.
Jin serviu outro drinque para si.
— E muitos países não estão felizes de ver seu sultão fornecer aos gallans armas que poderiam ser usadas para invadir qualquer um.
— Então para qual desses países você está explodindo fábricas? — Cutuquei o sol em seu peito. O símbolo de Xicha.
Jin levantou o copo como se estivesse brindando.
— Talvez eu seja um pacifista.
Encostei o copo no dele.
— Você tem armas demais para um pacifista.
Ele reagiu com um sorriso no canto da boca.
— E você é inteligente demais para alguém que não sabe muito sobre o próprio país.
Bebemos. Quando meu copo vazio bateu na mesa, um estrondo soou no canto da sala. Dei um pulo. Uma cadeira tinha sido derrubada. Um cara com um sheema verde e sujo agora estava de pé, encarando outro homem que estava inclinado para trás, os pés em cima da mesa, onde havia um jogo de cartas montado. Uma garota bonita estava entre eles. Agarrou o homem exaltado e sussurrou em seu ouvido, até que ele sentou de novo. O citarista recomeçou a tocar e alguém deu uma risada alta, quebrando a tensão.
De repente me veio um pensamento.
— Você explodiu as minas também?
Se Xicha queria cortar nosso suprimento de armas, então fazia sentido cortar o suprimento de metal. Fábricas poderiam ser reconstruídas. Minas desmoronadas eram um assunto mais complicado.
— As daqui? — Ele parecia realmente surpreso. — Não, não fui eu. Ouvi falar que foi um acidente.
— Por que eu deveria acreditar em você? Nem sei se Jin é seu nome mesmo.
— Bem, por aqui eles me chamam de Cobra do Oriente. Mas você já sabe disso — ele olhou para mim sob a aba do chapéu —, Bandida de Olhos Azuis.
O choque me fez recuar. Jin abriu um grande sorriso diante da minha surpresa.
— Você sabia quem eu era? — perguntei, meio sem fôlego. — Na Vila da Poeira?
— Seus olhos não são exatamente discretos — Jin disse.
— Você sabia quem eu era e ainda assim não quis me levar com você? — A sensação de medo e humilhação de retornar para a loja vazia voltou. — Por quê?
— Porque você não deveria ir para Izman. — Ele se acomodou novamente na cadeira. — Não importa quão bem você saiba se virar sozinha com uma arma, a cidade te devoraria.
— Eu não estaria sozinha — eu disse. — A irmã da minha mãe mora em Izman. É pra lá que eu vou.
— E você sabe como chegar lá?
Dei de ombros.
— Como você vai chegar lá?
— Não vou pra lá — ele disse simplesmente, me pegando de surpresa. Parei para pensar, tentando lembrar se ele tinha dito em algum momento que ia. Parecia fazer tanto sentido que ele tivesse dito isso.
Ouvi outro barulho forte e fiz menção de pegar uma arma que não estava lá enquanto Jin se virava, já se preparando para a luta. A mesa de cartas do outro lado da sala tinha sido derrubada, e o homem de sheema verde estava no chão, segurando um nariz ensanguentado.
Eu tinha um momento de distração para decidir.
Se ficasse com Jin, não iria para Izman. Ele já tinha me deixado para trás uma vez, e poderia facilmente fazer isso de novo.
Além disso, só tínhamos um buraqi.
Peguei os remédios que Tamid tinha me dado. Esmaguei as pílulas nos dedos com facilidade e despejei no drinque de Jin. Quando a luta foi interrompida e ele voltou a me encarar, eu já estava segurando meu próprio copo.
Eu o observei enquanto virava sua bebida.

3 comentários:

  1. Celaena Sardothien 😎10 de outubro de 2018 14:06

    Menina esperta 😎

    ResponderExcluir
  2. Obrigado pelo capítulo, Karina! =)
    nossa, seco assim mesmo? kkkk
    podia pegar uma carona até lá, e depois se separasse, ou algo do tipo. Ele te salvou no fim das contas.

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!