23 de setembro de 2018

Capítulo 7


MAGNUS
PAELSIA

Pelo que pareceu uma eternidade, Magnus arranhou a madeira na escuridão total de sua prisão minúscula. Havia sangue em seu rosto, que pingava da ponta dos dedos machucados, mas ele continuou até a dor se tornar insuportável. E se esforçou para não perder a consciência até ser inevitável.
Quando acordou, seus dedos estavam curados.
Sem a pedra sanguínea, ele estaria morto, quebrado e inútil.
Com ela, ainda tinha uma chance.
Para salvar a vida de seu pai, a avó de Magnus tinha literalmente cortado o dedo de um Vigilante exilado que estava com o anel. O príncipe não conhecia as origens da pedra sanguínea. Para ser sincero, não se importava. Tudo o que importava era que ela existia. E que, de alguma forma, em algum momento em que ele não notara, seu pai havia colocado esse anel inestimável em seu bolso.
Mas por que o homem que o atormentara a vida toda, que tinha tentado matar Magnus pouco tempo atrás, faria algo assim? Por que abriria mão de um objeto mágico tão incrível?
— Que jogo está fazendo comigo agora, pai? — ele murmurou.
Atormentado por milhares de respostas para essa pergunta, Magnus começou a arranhar a tampa do caixão, auxiliado pela terra molhada que deixava a madeira mais flexível. Mais fraca.
Coisas fracas são muito fáceis de quebrar.
Era uma lição dura aprendida com seu pai. Uma entre muitas.
Ele tentou se concentrar apenas em sua tarefa aparentemente insuperável.
E em lorde Kurtis.
Magnus não fazia ideia de quantos dias tinham se passado e se ainda havia tempo de impedir que Kurtis levasse a cabo seus terríveis planos. A ideia o fazia tremer de raiva, frustração e medo.
Cleo precisava ser esperta e não confiar no ex-grão-vassalo do rei. Não podia ficar a sós com ele.
Não importa, observou outra voz em sua cabeça. Kurtis poderia deixá-la inconsciente e arrastá-la para algum lugar onde ninguém nunca mais a encontraria.
Um grito de raiva emergiu de sua garganta quando ele quebrou uma parte maior da madeira, e a lama entrou pelo buraco na tampa, cobrindo seu rosto. Ele gritou e afastou a terra. Mas entrou muito mais, como um cobertor frio, úmido e demoníaco pronto para sufocá-lo. A lama encheu sua boca, sua garganta. Ele engasgou, apegando-se a um único pensamento que lhe dava forças.
Nada pode me matar enquanto eu estiver com esse anel no dedo.
Ele empurrou, fez força e cavou a lama e a terra depositadas sobre o túmulo.
Lento, aquilo era tão dolorosamente lento.
Mas Magnus não desistiu. A escuridão tinha se tornado seu mundo. Então ele manteve os olhos bem fechados para protegê-los da lama.
Centímetro a centímetro, ele fez força para cima. Um punhado de cada vez.
Devagar.
Devagar.
Até que, finalmente, com um golpe do punho, a sensação do ar frio o tomou de surpresa. Ele ficou paralisado por um instante e depois abriu os dedos para sentir qualquer barreira que houvesse mais adiante. Mas não havia nada.
Apesar da força que fluiu pelo corpo dele após colocar o anel, ele queria descansar apenas por alguns instantes. Precisava de tempo para se curar.
Mas então o rosto de Cleo apareceu em sua mente.
Desistindo com tanta facilidade?, ela perguntou, arqueando uma sobrancelha. Que decepção.
Estou fazendo o possível, ele resmungou em resposta, apenas em sua imaginação.
Tente com mais afinco.
Parecia mesmo ela — mais cruel do que gentil em um momento de grande importância. E ajudou.
Gentileza, na experiência de Magnus, nunca tinha trazido ninguém de volta da morte.
Só a magia era capaz de fazer isso.
Com os músculos queimando pelo esforço, ele empurrou mais, até livrar o outro braço da terra ávida. Ele se apoiou no solo lamacento e levantou o corpo.
Era como se a própria terra o parisse de volta para o mundo real.
Ele ficou ali deitado, com o braço jogado no peito, e se obrigou a respirar fundo enquanto seu coração batia com força contra a caixa torácica.
As estrelas estavam visíveis, brilhando no céu escuro.
Estrelas. Ele podia ver estrelas depois de uma eternidade de profunda escuridão. Eram as coisas mais belas que já tinha visto na vida.
Quando riu alto com aquele pensamento, soou levemente histérico.
Magnus passou os dedos cobertos de terra sobre o grosso anel de ouro na mão esquerda.
— Não compreendo — ele sussurrou. — Mas obrigado, pai.
Ele limpou o rosto coberto de lama e, com cuidado, se levantou e ficou sobre membros que tinham sido estraçalhados muito recentemente.
Ele se sentia forte.
Mais forte do que já havia se sentido, ele sabia.
Magicamente forte.
E pronto para encontrar e matar Kurtis Cirillo.
Ou… talvez ainda estivesse enterrado, a poucos momentos da morte, e aquilo fosse apenas um sonho vívido antes de as terras sombrias finalmente o levarem.
Pela primeira vez na vida, Magnus Damora decidiu ser positivo.
Onde estava? Observou ao redor, vendo apenas uma pequena clareira sem nada que marcasse sua localização ou indicasse como voltar ao complexo de Amara. Ele estava inconsciente quando Kurtis e seus subordinados o levaram até ali. Poderia estar em qualquer lugar.
Sem olhar de novo para o túmulo onde estava, Magnus escolheu uma direção aleatória e começou a andar.
Ele precisava de comida. De água.
De vingança.
Mas primeiro e mais importante, precisava saber se Cleo estava em segurança.
Ele tropeçou em um emaranhado de raízes de uma árvore seca quando entrou em uma área arborizada.
— Maldita Paelsia — ele murmurou irritado. — Detestável durante o dia, ainda pior na calada da noite.
A lua brilhava, iluminando seu caminho, agora flanqueado por árvores altas e sem folhas, a pouca distância de onde ele havia sido enterrado.
Ele girou o anel no dedo, precisando sentir sua presença de novo, com inúmeras questões sobre de onde ele tinha vindo e como sua magia funcionava. O que mais a joia poderia fazer?
Então algo chamou sua atenção — uma fogueira. Ele não estava sozinho. Por instinto, levou a mão ao coldre, mas, claro, não estava armado. Mesmo antes de Kurtis acorrentá-lo, Magnus tinha sido prisioneiro de Amara.
Quase sem conseguir respirar, ele se aproximou em silêncio para ver quem era, com inveja do calor da fogueira depois de passar tanto tempo molhado e com frio.
— Saudações, príncipe Magnus. Aproxime-se. Estava esperando por você.
Ele ficou paralisado.
A voz lhe parecia familiar, mas não era Kurtis, como ele imaginara.
Magnus cerrou os punhos. Se era uma ameaça, estava pronto para matar com as próprias mãos quem quer que a tivesse feito, sem hesitação.
Ao ver cabelos ruivos iluminados pela luz da fogueira, Magnus foi tomado por um alívio e relaxou os punhos.
— Nic! — A vergonha tomou conta dele quando seus olhos começaram a arder por causa das lágrimas. — Você está aqui! Você está bem!
Nic sorriu e se levantou.
— Estou.
— Achei que Kurtis tivesse matado você.
— Parece que nós dois sobrevivemos, não é?
Magnus soltou uma risada rouca.
— Não leve para o lado pessoal, mas estou muito feliz em ver você.
— O sentimento é mútuo. — Nic o estudou de cima a baixo. — Você está coberto de terra.
Magnus olhou para si mesmo, fazendo uma careta.
— Acabei de sair do meu próprio túmulo.
Nic assentiu pensativo.
— Olivia pressentiu que você estava embaixo da terra.
Olivia. A garota que viajava com Jonas. Magnus não a conhecia bem, mas sabia que existiam rumores de que era uma bruxa.
— Onde está Cleo?
— No complexo, da última vez que a vi. Pegue, você parece com sede. — Nic lhe ofereceu uma garrafinha. — Sei que gosta do vinho paelsiano.
Magnus agarrou o recipiente e verteu seu conteúdo. O vinho era como vida em sua língua, o mais puro prazer existente ao descer por sua garganta.
— Obrigado. Obrigado por isso. Por… por estar aqui. Agora precisamos voltar ao complexo. — Ele lançou um olhar na direção da floresta que os cercava, mas, à exceção da fogueira, tudo estava escuro. — Kurtis pretende machucar Cleo, e vou matá-lo antes disso.
Nic se sentou de frente para Magnus, do outro lado da fogueira, inclinando a cabeça.
— É verdade. Você não sabe o que aconteceu, sabe?
Como ele podia reagir com tanta indiferença a uma ameaça a sua amiga de infância? Havia algo estranho em Nic. Incrivelmente estranho.
— Do que está falando? — Magnus perguntou, agora com mais cautela.
— Na noite em que você desapareceu, sua avó fez um ritual.
— Minha avó? — Magnus piscou. A última vez que a vira tinha sido antes de seu pai mandá-la embora num acesso de raiva. — Onde ela está?
— Seu pai a matou. — A expressão de Nic ficou mais sombria. — Quebrou seu pescoço antes do fim do ritual, e agora tudo está dando errado.
Magnus ficou boquiaberto.
— O quê? Do que você está falando? Ele a matou?
Nic pegou um graveto e o jogou na fogueira com muito mais força do que necessário.
— Apenas a feiticeira poderia ter executado o ritual da maneira adequada. Agora percebo isso. Fui impaciente demais.
O efeito do vinho logo diminuiu um pouco a tensão de Magnus, mas anuviou seus pensamentos.
Nada do que Nic estava dizendo fazia sentido.
— Que absurdos está falando? Seja claro. Preciso saber o que aconteceu, Nic!
Nic jogou o graveto de lado.
— Você fica me chamando assim, mas não é o meu nome.
Magnus soltou um suspiro de frustração.
— Ah, é? E o que você prefere? Nicolo? Lorde Nicolo, talvez? Você acabou de me dizer que a minha avó foi morta pelo meu pai!
— Isso não deveria surpreendê-lo. Seu pai é um assassino sem escrúpulos, assim como você tem a tendência de ser. — Nic o observou por um instante. — Está na hora de ir direto ao ponto, eu acho.
Havia algo em seus olhos castanhos, antes familiares, que Magnus não reconhecia. O olhar de um predador.
— Cleo está em perigo — Magnus disse, com mais cuidado. — Precisamos voltar ao complexo de Amara.
— Você tem razão. Ela está em perigo. E preciso que você entregue uma mensagem minha a ela.
O coração de Magnus disparou enquanto analisava Nic, tentando entender por que estava tão estranho.
— Você não vem comigo?
— Ainda não.
— Que droga está acontecendo?
— Apenas isso. — Nic levantou o braço, e uma labareda apareceu na palma de sua mão. — Entendeu? Ou ainda quer me chamar de Nic?
Magnus ficou olhando para a chama como se estivesse hipnotizado. Depois encarou Nic nos olhos. Não estavam castanhos como antes. Estavam azuis. E brilhavam.
Não podia ser.
— Kyan — disse.
Ele assentiu.
— Bem melhor. Conhecimento é poder, dizem. Mas acho que o fogo é o único poder que importa. — Ele chegou mais perto de Magnus. — Sua princesinha dourada foi o veículo escolhido pela Tétrade da água, mas o ritual deu errado, graças à magia fraca de sua avó e a escolha idiota de seu pai de acabar com a vida dela. Você vai dizer a Cleiona que ela precisa vir comigo e com Olivia quando chegarmos. Sem resistir. Sem discutir.
Magnus se esforçou para entender tudo aquilo. Que Nic era Kyan. Que Cleo estava em perigo, mas não por causa de Kurtis.
— Chegue perto dela, e você morre — Magnus ameaçou.
— Está resistindo? — O deus do fogo piscou, esboçando um sorriso na boca roubada de seu hospedeiro. — Vou marcá-lo com meu fogo para facilitar as coisas. E então você não será capaz de resistir a nenhum comando meu.
O punho inteiro dele acendeu com chamas azuis, o mesmo azul de seus olhos. Magnus já tinha visto aquele azul antes, no campo de trabalho da estrada durante a batalha com os rebeldes. Corpos tocados por esse fogo se estilhaçaram como vidro.
Magnus cambaleou para trás quando Kyan tentou encostar nele, olhando desesperadamente para a escuridão em busca de uma forma de escapar.
— Por que escolheu Nic? — Magnus perguntou, tentando distrair Kyan de algum jeito. — Não tinha ninguém melhor?
Kyan riu.
— Nicolo tem uma alma de fogo.
— Por causa do cabelo? A cor parece mais as cenouras jogadas no cocho dos cavalos do que fogo, na minha opinião.
— A aparência exterior não significa nada. Todos os mortais tendem a um elemento. Nicolo é fogo. — Kyan arqueou uma sobrancelha ruiva. — Assim como você.
— Nunca soube que tínhamos algo em comum. — Magnus recuava conforme Kyan se aproximava. — Toque em mim e vai perder essa mão.
— É uma ameaça bem vazia para uma pessoa desarmada. — Quando Kyan tentou encostar nele de novo, Magnus agarrou seu punho, empurrando-o para trás, para longe.
A mão em chamas de Kyan se extinguiu em um instante, e o deus do fogo franziu a testa.
— Como fez isso? — ele perguntou.
— Como fiz o quê? — Magnus quis saber.
O brilho azul nos olhos de Kyan ficou mais forte.
— Me solte ou morra — ele afirmou.
— Com prazer. — Magnus empurrou Kyan com toda força que tinha. Com fúria faiscando no olhar, Kyan cambaleou para trás e tropeçou na fogueira.
Magnus não esperou. Aproveitou a oportunidade para virar e correr para a floresta, mergulhando imediatamente na escuridão. Ele tinha certeza de que Kyan estava bem atrás dele, esperando para agarrá-lo, queimá-lo…
Então trombou em algo sólido — algo ou alguém que o segurou pelos ombros.
— Magnus! Sou eu, Ashur. Eu estava observando você… você e Nic.
— Ashur. — Magnus procurou o rosto familiar do príncipe kraeshiano pouco visível, até que as nuvens se abriram o suficiente para deixar passar um raio de luz. — Precisamos sair daqui. Aquele não é o Nic.
— Eu sei.
— Como me encontrou?
Ashur fez uma careta.
— Eu não estava procurando você.
Magnus tinha muitas perguntas, mas não havia tempo para respostas.
— Preciso encontrar Cleo.
Ashur pôs o capuz do manto sobre a cabeça.
— Vou levá-lo de volta para o complexo. Venha comigo.

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